Especial | Romance de 1930

Romance de 30: variedade a ser descoberta

O professor da Universidade Federal do Paraná Luís Bueno fala sobre as diferentes preocupações estéticas e temáticas dos escritores que surgiram entre o final das décadas de 1920 e 1930 no Brasil

O leitor jovem de hoje, curioso por saber se vale a pena ler Rachel de Queiroz, pode muito bem dar uma olhada na Wikipedia. Lá, ele vai encontrar a seguinte frase: “Aos 20 anos, ficou nacionalmente conhecida ao publicar O quinze (1930), romance que mostra a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria”. É difícil imaginar qual seria a reação desse leitor, mas é preciso admitir que a descrição não anima muito. Para que mais um livro que mostra a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria?

Esse é o problema com as meias- -verdades: sem serem completas mentiras, não são toda a verdade e fazem grande confusão. De um certo ponto de vista, é possível dizer que O quinze faz aquilo, ou seja, “mostrar a luta, etc.”, mas não faz só isso e nem faz isso de qualquer jeito.

Podemos estender esse raciocínio para todo o romance de 30, que aparece muitas vezes reduzido ao regionalismo — e a uma ideia restrita de regionalismo (afinal, o regionalismo pode, sim, produzir grande literatura). É verdade que o romance de 30 Acervo Editora José Olympio descobriu a realidade social das diversas regiões do País como tema literário. Mas fez isso de muitas formas diferentes. E não fez só isso.

Continuemos imaginando que o jovem leitor é forte e não desiste: pega o livro e lê. Com certeza vai se surpreender ao perceber que não há ali o desfile de misérias sem rosto que a descrição sugere, e que é comum numa série de histórias de seca, mas sim a trajetória de uma família de retirantes, gente com nome, desejos, identidade. Do outro lado, o dos mais afortunados, não estão os velhos coronéis, grandes fazendeiros, mas uma jovem professora de Fortaleza, com raízes rurais em Quixadá. Uma moça para quem o sertão era lugar de passar as férias em companhia da avó, alguém que tinha que lidar com seus próprios desejos numa sociedade que se transformava abrindo novas oportunidades e angústias para a mulher — e que afinal decide não cumprir o destino óbvio de se casar.

O romance de 30 pode ser bastante surpreendente para o leitor que decida descobrir sozinho o que aquela gente fez 80 anos atrás. E aquela gente é uma das gerações mais talentosas e vibrantes que já surgiram na história da literatura brasileira. São escritores predominantemente jovens que tomam de assalto o espaço literário — aliás, Rachel de Queiroz tinha 19 e não 20 anos quando publicou O quinze, e Graciliano Ramos, com 41 quando estreou, era conhecido entre seus confrades como “velho”.

Era gente que vivia um momento muito diferente do nosso. Hoje, depois da queda do Muro de Berlim, segundo um clichê muito repetido, vivemos o tempo da falência das ideologias, da vitória acachapante da economia de mercado. Depois da experiência da Primeira Guerra, os anos 30 foram muito diversos disso, um tempo de intenso debate ideológico. Descrentes do liberalismo, todos procuravam uma solução política mais justa, seja de esquerda, seja de direita. Foi um tempo em que o regime soviético era recente e o fascismo conhecia sua grande ascensão. Num tal ambiente, a indiferença era um crime intelectual seríssimo.

Para compreender quais surpresas  o romance brasileiro dos anos 30 pode trazer, basta dizer que ele conheceu pelo menos três momentos diferentes. Pode-se considerar que se trata de um movimento de uma dúvida a outra. No início da década, havia uma grande inquietação. A experiência modernista parecia ter se esgotado e os novos escritores procuravam um caminho literário ao mesmo tempo que tentavam se localizar no debate ideológico. Em seu primeiro romance, No país do Carnaval, Jorge Amado representou bem essa dúvida ao focalizar um grupo de jovens intelectuais em Salvador vivendo sob o fascínio e a influência de um velho jornalista descrente de tudo. Os novos admiravam essa figura que vinha do passado, mas não conseguiam aceitar o ceticismo de alguém que não vê jeito no mundo e simplesmente se isola na arte. Cada um deles busca seu caminho, e o livro se encerra sem apontar nenhum deles como o melhor, apenas que é preciso procurar algo em que o indivíduo se realize num projeto coletivo.

Dois anos depois, em 1933, essa atitude pareceria covarde. As experiências políticas e literárias se acumularam rapidamente e o que se exigia era uma tomada clara de posição. O próprio Jorge Amado, que confessara no prefácio do mesmo No país do Carnaval ser um inquieto em assumida dúvida, encontrará seu caminho já no ano seguinte, ao ligar-se ao Partido Comunista. Nesse mesmo período, a direita organizara um movimento fortíssimo, o Integralismo, que ajudava a congregar, do outro lado, aqueles que viam no fascismo a solução para os problemas do liberalismo, atraindo uma parcela importante da intelectualidade jovem.

O resultado desse espírito foi uma polarização literária que acabou pondo de um lado os autores do romance social, estereotipicamente ligados à esquerda, e os do romance intimista, vistos como de direita. É preciso prestar atenção para não cair na armadilha do simplismo. Formalmente, nada obriga o romance enquanto gênero a separar no homem o que ele tem de “social” daquilo que tem de “psicológico”. Essa impressão foi legítima e importante no meio da década de 30 por conta do contexto em que se vivia, mas analisada com distância é bastante questionável. Algo semelhante aconteceria durante o regime militar pós- 64, quando se tendeu a colocar de um lado os músicos engajados como Chico Buarque e Geraldo Vandré, e de outro, taxados muitas vezes de alienados, artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Passados 40 anos, é fácil ver esses artistas de outra forma.

O mesmo se dá com o romance de 30. Tal divisão foi legítima e produziu um espírito de polêmica que funcionou como verdadeiro gatilho criativo. Dezenas de romances se publicaram e vários escritores de peso surgiram, num momento em que o romance social predominou, daí vindo a imagem estereotipada da década toda. Em 1933, por exemplo, publicou- se um romance social de grande repercussão, que teve seis edições em dois anos: Os Corumbas, de Amando Fontes, escritor sergipano que morou em Curitiba parte do tempo em que escreveu o livro. Trata-se de um clássico do moderno romance brasileiro que pouca gente lê hoje, embora permaneça em catálogo. Conta a história da família Corumba, um casal e quatro filhos, que se mudam do interior de Sergipe para a capital, Aracaju. As crianças crescem e se perdem — o menino, por causa da política, foge para o Sul, e as três meninas, uma a uma, caem na prostituição. Sem engajamento político ostensivo, Os Corumbas foi lido na época como uma espécie de livro ideal, interessado nos problemas sociais, mas sem fazer proselitismo. E, note-se, trata-se de romance de sucesso cuja ação não se passa nem no Rio, nem em Salvador, nem em Recife, nem em São Paulo, mas sim em Aracaju.

Os escritores — mas não só eles, os leitores também — mergulharam na vida brasileira em toda sua amplitude, seja geográfica, seja social. Todas as classes interessavam, todos os lugares, todas as raças, todos os sexos. Da Amazônia ao Rio Grande do Sul, todas as partes do País foram trazidas para a ficção. O romance passou a criar seus grandes personagens pobres, que eram muito mais do que apenas vítimas da injustiça social, dos quais Geraldo e Josefa Corumba, de Amando Fontes, são apenas exemplos.

Veja-se o caso dos protagonistas negros. Não é coincidência que num único ano, 1935, três escritores muito diferentes — Jorge Amado, comunista, Lúcio Cardoso, católico muitas vezes rotulado como de direita, e José Lins do Rego, autor visto como regionalista, mas não ligado à esquerda — tenham publicado romances com protagonistas pobres e negros. Em Jubiabá, de Jorge Amado, era Antônio Balduíno, menino criado no
morro em Salvador, que se converteria  em líder grevista. Em Salgueiro, de Lúcio Cardoso, era Geraldo, também criado no morro, mas no Rio, como indica o título, que procura fugir da pobreza e busca uma solução  espiritual para si. Em Moleque Ricardo, de Lins do Rego, é o neto de escravos que vai para Recife e vive como proletário, terminando preso por causa  do envolvimento político em greves.

As protagonistas mulheres também  deixavam de cumprir apenas os papeis de objeto amoroso, como esposa ou como prostituta. Uma série de romances, alguns escritos por mulheres, trouxeram para o primeiro  plano a vida de heroínas que começavam, ainda quede maneira muito limitada, a ter a possibilidade de levar suas vidas de outra forma. É o que acontece com as personagens de Lúcia Miguel Pereira no romance Em surdina. Cecília é uma moça de boa condição social, filha de médico renomado no Rio, que não se sente inclinada ao casamento. Quer trabalhar e não pode, não a deixam. Vive uma insolução que não é infeliz porque, afinal de contas, ela foi capaz de pelo menos não viver da maneira como não queria. É vista pelos outros como uma “solteirona”, mas não se vê assim.

Esses exemplos já indicam o quanto, no meio da década, em plena febre do romance social, a partir de posições ideológicas diferentes, uma grande diversidade literária se criou. Nesse mesmo período, apareceriam dois escritores- -chave daqueles anos, Cornélio Penna e Graciliano Ramos, que, a despeito de ser católico um e comunista o outro, recusavam- se a seguir um modelo-padrão de romance social, qualquer que fosse. Cornélio Penna falou da realidade brasileira em livros como Fronteira, de estrutura fragmentária com personagens de almas atormentadas. Graciliano Ramos via no romance o espaço do aprofundamento psicológico, da criação de indivíduos e não o lugar das lutas coletivas, como o romance engajado muitas vezes propôs. Seus três primeiros romances, Caetés, S. Bernardo e Angústia tiveram seu valor reconhecido de imediato, mas também receberam críticas por não tratarem da vida dos desvalidos, por focalizarem personagens pequenos-burgueses, como o João Valério de Caetés e o Luís da Silva de Angústia, ou o proprietário rural Paulo Honório, de S. Bernardo.

Quem ler com atenção esses romances certamente notará que, neles, identidade psicológica e posição social não se separam. As experiências advindas do lugar social ocupado pelos personagens marcam Autor da trilogia O tempo e o vento, Erico Veríssimo utilizou-se do romance para recontar a história de seu Estado, o Rio Grande do Sul. suas características enquanto seres humanos, ao mesmo tempo em que essas características definem a forma como vêem sua posição social. A decadência familiar, percebida a partir do ponto de vista de um homem retraído, converte-se em valor psicológico em Luís da Silva, nesse que é um dos grandes romances, sociais e psicológicos, pouco importa, da literatura brasileira. Não é possível fazer qualquer separação ali.

O mesmo acontece em seu quarto romance, Vidas secas, que, lançado mais tarde, em 1938, foi recebido num outro contexto. É que a partir de 1937 temos o terceiro momento do romance de 30, o de uma nova dúvida. Se a dúvida de quem vinha da Primeira Guerra causava inquietação nos jovens de 1931, os prenúncios de uma outra guerra gerava neles uma nova dúvida, aberta pelas incertezas que a ascensão dos regimes fascistas europeus trazia. No Brasil, a ditadura Vargas parecia perpetuar-se numa fase diferente, a do Estado Novo, tornando tudo mais difícil. Em resenha publicada um mês depois do lançamento de Vidas secas, Lúcia Miguel Pereira reflete esse novo momento ao dizer que o livro chegara um pouco tarde, uma vez que o romance social já não tinhao mesmo vigor, e que o leitor não teria tanto interesse por ele, trocando-o por um romance francês: “e perderá muito com a troca”, concluirá, já que o romance é ótimo.

E de fato, a partir de 1937, os lançamentos mais importantes são de romances urbanos que deixam no leitor uma angústia tremenda, a preocupação com uma indefinição de um momento de perigo. O próprio Vidas secas integra esse momento. No primeiro — e único — de seus romances cujos protagonistas são pobres retirantes, Graciliano Ramos encerra a narrativa com um novo começo para uma família, mas um começo que promete, se não propriamente o mesmo sofrimento, ainda o sofrimento. Em livros muito diferentes, é o que acontece com Aparecida, a protagonista do romance Amanhecer, de Lúcia Miguel Pereira, ou a Leniza de A estrela sobe, de Marques Rebelo, ou o Severino de um romance pouco conhecido, mas que merece ser redescoberto, Navios iluminados, de Ranulpho Prata, àquela altura um autor já veterano, ou ao Belmiro Borba de O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, ou aos adolescentes que povoam as páginas de Mundos mortos, de Octávio de Faria.

Ao se interessar por todas as camadas que formam a sociedade brasileira, o romance de 30 enfrentou problemas enormes de representação e linguagem literária, propondo soluções decisivas para eles. Para ficar só num dado essencial, ao romper as hierarquias que separam os ricos e os pobres enquanto personagens literários, desafiou a distância entre a língua falada e a norma culta e criou uma espécie de língua franca para o romance brasileiro cuja vigência se sente ainda hoje.

Se aquele jovem leitor se animar, vai descobrir uma literatura muito viva e muito variada nos livros daqueles jovens escritores de 80 anos atrás.