Especial | Romance Histórico

Dez romances históricos da literatura brasileira e mundial

1. O tempo e o vento


 Erico Verissimo continua sendo o escritor que melhor contou a história do Rio Grande do Sul por meio da ficção. Segundo o crítico Antonio Candido, “o Rio Grande existe muito como visão de Erico”. E a trilogia O tempo e o vento é o pilar desse projeto ambicioso de recriar ficcionalmente uma região do país. Composta por O continente (1949), O retrato (1951) e O arquipélago (1961- 1962), a trilogia foi escrita ao longo de 15 anos e narra a saga de duas famílias, os Terra-Cambarás e os Amaral. Paralelamente à história dos personagens, Verissimo mescla os principais episódios da formação gaúcha ao longo de dois séculos. A trilogia se encerra em 1945, com a queda de Getúlio Vargas. A galeria de personagens criadas por Verissimo também se tornou célebre. Ana Terra, Bibiana e o Capitão Rodrigo ainda pairam no imaginário dos leitores brasileiros. Inspirados na realidade dos pampas, os personagens fixam a tipologia do gaúcho tradicional, um homem duro, mas apaixonado, para quem o mundo é um difícil aventura.

2. Viva o povo brasileiro


Escrito em uma espécie de linguagem barroca, mas com muito humor, Viva o povo brasileiro é um romance fundamental para entender a história do Brasil — ainda que seja o lado B da nossa colonização. O romance foi escrito, segundo seu autor, João Ubaldo Ribeiro, a partir da provocação de um editor, que jocosamente afirmava que os romances nacionais não paravam em pé, de tão finos. Em 1984, com 700 páginas, Viva o povo brasileiro ganhava as prateleiras e os corações de críticos e leitores. Jorge Amado, padrinho literário de João Ubaldo (1941-2014), o saudou como “Rebelais tropical”. E não era exagero, o livro tratou de alçar seu autor ao estrelato das letras nacionais. Recontando com maestria pouco mais de três séculos da história do Brasil, o romance épico por excelência está centrado na ilha de Itaparica — campo de batalhas indígenas e grandes farras antropofágicas, devastado no século XVII pela infantaria holandesa. A fim de construir uma identidade do povo brasileiro, o autor utiliza paródias e o uso de diferentes registros, como o culto e o popular, o lusitano e o nacional.

3. Guerra e paz 


Liev Tolstói “só” escreveu três romances ao longo de seus 82 anos de vida. Mas todos, assim como grande parte de sua obra, viram clássicos da literatura mundial. Guerra e paz é o mais famoso deles e o livro em que a história de seu país se faz mais presente. Escrito ao longo de cinco anos, a partir de 1865, Guerra e paz foi lançando em 1869, em seis volumes e foi publicado inicialmente em fascículos na revista Mensageiro Russo. O livro trata do confronto das forças do czar russo Alexandre I com os exércitos napoleônicos em um período que vai, aproximadamente, de 1805 a 1820. Portanto Tolstói reconstruiu ficcionalmente um período à época relativamente recente da história russa. Para além das batalhas, o escritor apresenta um amplo painel da vida russa do início do século XIX, construído a partir de uma galeria imensa de personagens, de todas as classes sociais. Além disso, ao tratar de fatos históricos, o autor inevitavelmente constrói sua ficção baseado em figuras públicas de seu tempo, com especial destaque para Napoleão Bonaparte, a personalidade mais controversa da época.

4. Ivanhoe


Considerado mestre do romance histórico, o escocês Walter Scott publicou inúmeros livros (nos mais diversos gêneros) durante sua vida literária, mas foram os romances que popularizaram seu nome junto aos leitores, em especial Ivanhoe, publicado em 1820. O livro narra a luta entre saxões e normandos e as intrigas de João sem Terra para destronar Ricardo Coração de Leão. É considerado o primeiro romance histórico do romantismo. E foi justamente como criador desse gênero que Scott definiu sua reputação e estabeleceu sua influência posterior na literatura europeia. Com os rendimentos provenientes da escrita, Scott mandou construir um gigantesco castelo em Abbotsford, na fronteira escocesa, em 1811. Os negócios editoriais em que Scott se envolveu com James Ballantyne resultaram em sucessivas dívidas e culminaram com sua falência. As dificuldades econômicas posteriores e a determinação de Scott em pagar todas as suas dívidas motivaram a extensa produção literária que caracteriza os últimos anos da sua vida.

5. O arco íris da gravidade


O terceiro romance de Thomas Pynchon exibe todas as marcas de sua ficção, com tramas fabulosamente inventivas entrecortadas por uma polifonia de vozes e discursos tão variados que o leitor por vezes se sente desnorteado. Bem a contento do escritor, já que o prazer dos livros de Pynchon está mais na jornada do que no destino dos personagens. Publicado originalmente em 1973, o livro também captura o momento em que foi escrito: o auge da contracultura. E realça outro aspecto presente nos romances de fôlego do escritor (Mason & Dixon e Contra o dia, principalmente): valer-se de fatos históricos para criar tramas mirabolantes. Em O arco-íris da gravidade, a narrativa é ambientada na Europa devastada do final da Segunda Guerra e nos primeiros momentos do pós-guerra. O soldado americano Tyrone Slothrop, lotado em Londres, descobre que o mapa de suas conquistas sexuais corresponde exatamente ao padrão dos bombardeios nazistas. No meio dessa narrativa, diversas outras histórias se sobrepõem, como a invenção de uma lâmpada inacabável da General Electric. Talvez a mais pynchoniana das histórias do escritor.

6. Mad Maria


Publicada em 1980, a obra de Marcio Souza problematiza literariamente a construção da Ferrovia Madeira Mamoré, em Rondônia, e é apontada como um dos mais importantes romances históricos do Brasil. “Neste romance, é possível o leitor apreender episódios dramáticos sobre a macabra mortandade de trabalhadores estrangeiros”, afirma o doutorando em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Cristiano Mello de Oliveira. O romance, explica Oliveira, inclui descrições rigorosas realistas do sofrimento dos imigrantes — a maior parte do continente latino-americano — que chegaram ao Brasil para construir uma ferrovia. “Não é à toa que o pesquisador Francisco Foot Hardmann, no ensaio O trem fantasma (1985), tenha indicado esse romance como referência obrigatória para aqueles leitores que desejam conhecer poética e historicamente os acontecimentos da construção da ferrovia”, acrescenta Oliveira. O romance ganhou uma adaptação televisiva, no formato de minissérie, em 35 capítulos, exibida pela TV Globo.

7. O leopardo


Tomasi di Lampedusa (1896- 1957) escreveu um romance que foi publicado somente dois anos depois da morte do escritor, em 1959. Segundo consta, editoras recusaram o original que, ao longo dos anos, se tornou uma das obras literárias mais comentadas por leitores e estudiosos. Na opinião do professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Alcmeno Bastos, O leopardo está entre 10 livros mais importantes, no que diz respeito ao diálogo entre ficção e história. A obra literária recria a transição do século XIX para o século XX na Itália, período em que a nobreza entrava em decadência ao mesmo tempo que uma nova classe, sem tradição, conquistava espaço e poder. O romance foi adaptado para o cinema pelo diretor italiano Luchino Visconti, em 1963, com a participação dos atores Burt Lancaster e Alain Delon e da atriz Claudia Cardinale — o filme conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Uma das frases do livro, também aproveitada no filme, é considerada uma máxima por muitas pessoas: “Algo deve mudar para que tudo continue como está”.

8. As minas de prata


Publicado em 1865, o romance de José de Alencar (1829-1877) é ambientado na Bahia, no século XVII, e tem como argumento histórico o fato de Robério Dias ter descoberto minas de prata — episódio nebuloso da história colonial brasileira. Wilson Lousada diz que a obra é ação do início ao fim. No texto “Alencar e ‘as minas de prata’”, Lousada conta, sem revelar tantos detalhes, o que o leitor vai encontrar nessas páginas escritas pelo escritor cearense: “O título da obra é mais o pretexto inicial para que o autor dê asas à imaginação do que mesmo a base do desenvolvimento do livro. Isto é, as famosas minas de prata, que por sinal não passam de verdadeira miragem, na história e no romance, ocupam apenas quatro ou cinco páginas do elevado total de mais de quinhentas, e nelas tudo gira simplesmente em torno do roteiro desse novo eldorado, perdido aqui, roubado acolá, outra vez recuperado.” O livro, extenso, é tido como um dos pontos altos do vasto legado de José Alencar. O escritor Alberto Mussa considera As minas de prata um dos 10 melhores romances históricos brasileiros.

9. Boca do inferno 


“‘Esta cidade acabou-se’, pensou Gregório de Matos, olhando pela janela do sobrado, no terreiro de Jesus. ‘Não é mais a Bahia. Antigamente, havia muito respeito. Hoje, até dentro da praça, nas barbas da infantaria, nas bochechas dos granachas, na frente da forca, fazem assaltos à vista.’” O trecho faz parte do romance Boca do inferno (1989), de Ana Miranda, e ajuda a entender a narrativa. O romance se passa na Bahia colonial, no século XVII, em meio ao governo de Antonio de Souza de Menezes, que perseguiu diversas pessoas, entre as quais, o poeta Gregório de Matos. Devido às sátiras que escrevia, e publicava, zombando de pessoas influentes, Matos perdeu o cargo e foi obrigado a se esconder. Mas, além do personagem que empresta o seu apelido, Boca de inferno, ao título do livro, nesta obra é possível ter acesso ao contexto baiano do século XVII, a partir da presença de personagens como o padre Antonio Vieira e outras figuras anônimas que podem marcar o imaginário do leitor, como um vereador corcunda e o seu amante louro. Com Boca do inferno, Ana Miranda conquistou, em 1990, o Prêmio Jabuti na categoria Literatura Adulta/ Autora Revelação.

10. Nossa senhora de Paris


Um dos mais festejados livros de Victor Hugo (1802-1885), Nossa senhora de Paris também é conhecido por outro título: O corcunda de Notre Dame. Publicada em 1831, a obra, de acordo com o que o autor escreveu na apresentação, tinha a finalidade de chamar a atenção para a conservação da catedral de Notre Dame. No enredo, há diversos personagens, entre os quais o sineiro: “Quasímodo era o sineiro da igreja de Paris. Com o tempo, formara-se não sei que laço íntimo que unia o sineiro à igreja. Notre Dame, fora para ele, o ovo, o ninho, a casa, a pátria, o universo.” Mas, além do cenário, o autor elaborou uma trama complexa, durante a Idade Média, ocasião em que uma bailarina, Esmeralda, tem possibilidade de conquistar a todos, por causa de sua beleza. O arquidiácono da catedral de Notre Dame, Frolo, vai se apaixonar pela personagem, mas ela, por sua vez, se deixa seduzir por um capitão, Febo. A trama inclui morte, traição e uma grande surpresa que, evidentemente, não será revelada aqui — vale ler para conferir o desfecho deste clássico mundial.