Especial | Romance Histórico

Tudo é invenção

Apesar de ter como matéria-prima episódios da história, o romance histórico é, acima de tudo, ficção e, portanto, o que realmente importante é o tratamento que o autor imprime ao texto, à criação de personagens e, de modo geral, à linguagem da narrativa



Foto: Paula Johas

Marcio Renato dos Santos

É possível conhecer a história, por exemplo, a partir de um romance histórico? Há algumas variações, mas a resposta é, em geral, não. O escritor Alberto Mussa afirma que todo romance é, por convenção e definição, uma narrativa irreal, ficcional. “Mesmo que seja baseada em fatos ou em experiências reais, é uma releitura, uma interpretação subjetiva e parcial, do romancista. Não tem, por isso, quase nada a ver com a vida”, diz Mussa, autor, entre outros, dos romances O senhor do lado esquerdo (2011) e A primeira história do mundo (2014).

Mussa explica que o romance histórico é aquele que se passa numa época que o romancista não tem acesso, por sua vivência ou memória próprias e mesmo pela memória ou vivência de seus contemporâneos: “O romance histórico, assim como o romance futurista, independe completamente da experiência pessoal. É, por isso, obra de absoluta ficção.” O escritor observa que, até por contraponto, romances convencionais, os não-históricos e não-futuristas, têm sempre alguma coisa da tão propalada autoficção — “Estes livros, sempre estão calcados em algo que o autor viveu ou testemunhou.”
No entendimento do prosador carioca, há dois tipos de romances históricos. O primeiro tipo procura recriar personagens que efetivamente existiram. “Estão mais presos ao aspecto factual, necessitam respeitar os dados biográficos fundamentais transmitidos pela historiografia”, comenta, citando Assis Brasil (leia artigo na página 26), João Felício dos Santos e Viriato Correia como exemplos de autores desta categoria.

Já o segundo tipo de romance histórico, de acordo com a argumentação de Mussa, é aquele que apenas ambienta a ação num tempo pretérito, mas cria personagens totalmente ficcionais: “Neste caso, tem que respeitar apenas a verossimilhança histórica, sendo totalmente livres na concepção do enredo e das personagens. O José de Alencar indigenista é o melhor exemplo.”

Outro conhecimento


O professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Alcmeno Bastos define o romance histórico como a modalidade de romance que ficcionaliza conteúdo histórico que já foi objeto de algum registro historiográfico, escrito ou oral, e que permanece na memória coletiva de uma comunidade. E mais: “No romance histórico, a trajetória do protagonista, ou do grupo de personagens principais, deve estar associada de modo inextricável ao destino político de que faz parte, não bastando, portanto, que no romance seja feita menção a acontecimentos históricos, se estes acontecimentos não forem determinantes para a sorte das personagens.”

A definição do professor da UFRJ pode ser aplicada, por exemplo, a Os dias do demônio (1995), de Roberto Gomes. O romance problematiza os conflitos que aconteceram no Sudoeste do Paraná na década de 1950, que culminou com a chamada Revolta dos Posseiros de 1957. Regina Dalcastagné classificou o livro de “épico caboclo”. Para Wilson Martins, Os dias do demônio é um “romance histórico modelar”.
Gomes conta que alguns leitores comentam, com ele, que não tinham a menor ideia de que houve a Revolta de 1957, e que só foram conhecer o assunto ao ler Os dias do demônio — no episódio, colonos e posseiros pegaram em armas por causa de problemas que envolveram a colonização do local.

O escritor, no entanto, tem consciência de que a literatura não deseja substituir os estudos históricos. “Trata- se de outra forma de conhecimento. O que se deseja é produzir um objeto, o texto, que contenha, em sua linguagem, em seu andamento, seu enredo, seus personagens, a vida que existiu num dado momento, com todas as suas contradições”, raciocina o prosador catarinense radicado em Curitiba.

O romance histórico, argumenta Gomes, quando bem-sucedido, apresenta a história viva — não dados, informações, episódios, questões de vínculos entre causas e efeitos históricos, relatos jornalísticos, etc. “Mas pessoas viventes, inteiras, com seus sentimentos, sofrimentos, angústias e esperanças de uma determinada época. Por isso, nos colocam no centro da cena tal como aquelas pessoas do passado viveram seus dramas. Não é informação, não é conhecimento teórico”, afirma o escritor.

Há riscos


O doutorando em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Cristiano Mello de Oliveira acredita que um romance histórico pode apresentar problemas se, no texto, houver excesso de informações históricas, sem dramatização poética dos acontecimentos. “Dessa maneira, quando o romance histórico se torna algo aos moldes dos documentos ou dos arquivos pesquisados, a narrativa acaba prejudicada”, observa Oliveira.

Roberto Gomes acredita que o mau romance histórico é aquele parecido com uma reportagem mais ou menos jornalística e pitoresca que se passa num dado momento do passado. “Neste caso, o autor simplesmente menciona que ali na esquina da rua tal havia a Padaria Olímpia, mais adiante a Praça Fulano de Tal com um chafariz, a farmácia que aviava receitas, etc. São dados pitorescos. Bobagem. Assim, reconta- -se mal o que já sabemos”, argumenta, citando como exemplos de romances ruins O xangô de Baker Street (1995) e O homem que matou Getúlio Vargas (1998), de Jô Soares, e A marquesa de Santos, de Paulo Setúbal.

Alberto Mussa prefere não apontar se um romance, por suas características internas, é ruim. “O que existe, para mim, são leituras ruins, que caem na conta de quem lê, não na de quem escreve. Apenas o fato de um livro ter sido escrito, já merece reconhecimento, porque não é fácil escrever um romance”, diz. No caso de romance histórico, o que o desagrada é o didatismo.

O “tchan”


Conhecido como poeta, compositor e tradutor, Rodrigo Garcia Lopes acaba de publicar O trovador, romance que recupera a história colonização do Norte do Paraná pela companhia britânica Parana Plantations Limited — posteriormente chamada de Companhia de Terras Norte do Paraná. A narrativa se passa no segundo semestre de 1936, entre Londres, Londrina, Escócia e Rolândia.

Lopes realizou pesquisa e criou personagens inspirados em pessoas que existiram, entre as quais Edward VIII, Wallis Simpson, Winston Churchill, Lord Lovat e o provençalista Emil Levy. Já o personagem principal, Adam Blake, tradutor e detetive, foi elaborado a partir de referências e também da prática dele com tradução: “Blake tem sobrenome de poeta famoso [William Blake], é escocês, tem 30 anos, fala 11 línguas. É um homem do mundo, culto, sem ser pedante, e alguém obstinado pela verdade e cujo passado, como muitos dos personagens do livro, também é obscuro. Ele tem traumas a serem superados.”

O escritor seguiu — talvez até mesmo sem ter acesso ao enunciado — aquilo que Alcmeno Bastos, da UFRJ, define como uma espécie de fórmula para o romance histórico ideal: “A correta dosagem das duas espécies de matéria com que lida: a matéria de extração histórica e a matéria de extração ficcional, isto é, sem procedência verídica, inventada pelo escritor.” Em O trovador, há história, imaginação e algo a mais, que o próprio autor explica o que é: “O livro me possibilitou levantar reflexões históricas e questões sociais, escolhas morais, e de identidade, temas como corrupção, relações internacionais, colonialismo, propondo, ao mesmo tempo, uma reescrita da história. O desafio era conseguir fundir a história de mistério com a colonização de Londrina ao mesmo tempo.”

Alcmeno Bastos ainda observa que um romance histórico não é superior, ou inferior, a um romance de qualquer outra modalidade — por exemplo, de costumes, regionalista, psicológico, etc. “Um romance histórico tem lá suas peculiaridades, é claro, mas o que determina a qualidade de um romance não é a procedência da matéria, mas o tratamento dado a ela”, completa o professor da UFRJ, acrescentando que nunca deve ser esquecido que o romance histórico é, antes de tudo, ficção — “e está, portanto, no mesmo nível de qualquer outra modalidade de longa narrativa em prosa.”

“Um gênio chamado José de Alencar”

O romance histórico surgiu no século XIX, com Walter Scott e seu livro Waverley (1814). “Daí em diante, o romance histórico espalhou-se pelo resto do mundo, tornou-se febre, foi praticado em todas as literaturas ocidentais, inclusive no Brasil, e, apesar de sofrer ataques, nunca saiu inteiramente de moda”, diz o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Alcmeno Bastos.

O escritor Alberto Mussa afirma que José de Alencar foi o fundador do romance histórico no Brasil — não exatamente no sentido cronológico, mas do alcance mítico. Entre as obras de Alencar, Mussa destaca As minas de prata, Iracema, Guerra dos mascates, O guarani, as novelas dos Alfarrábios e — supremamente — Ubirajara — “novela que quase ninguém conhece, mas que é a primeira obra das Américas (do Sul, Norte e Central) a tratar da préhistória do continente. E não só isso: Alencar, nesse texto, desafia e confronta toda a hipocrisia da moralidade europeia, fazendo ao mesmo tempo um elogio das culturas indígenas. No contexto racista em que surgiu, hoje ainda mais agravado, tal livro é uma bênção.”

José de Alencar, na opinião de Mussa, é — mais do que apenas o pioneiro no romance histórico — o verdadeiro fundador da literatura brasileira: “E todos nós devemos a ele grande parte do que escrevemos hoje. Machado de Assis, Guimarães Rosa e uma centena de escritores brasileiros: nenhum deles, nenhum de nós teria existido (conscientemente ou não) se nas nossas letras não houvesse surgido um gênio chamado José de Alencar.”