Especial Poesia - Ensaio

Seis problemas para a poesia, hoje

O crítico Luís Augusto Fischer defende que a poesia está condenada à liberdade, tornando inteligível o que ainda não o é, mas precisa ser


Ilustrações: Léo Gibran

O que pode fazer o poeta em nossos dias? Certo, lidar com palavras, a luta mais vã e mais irrenunciável para quem do ramo. Mas até onde vai isso? Até quando? E o leitor, está interessado, ou ao menos pode vir a se interessar em poesia, nesta terra brasileira, a terra da talvez mais vigorosa canção do mundo no século XX, canção que é a forma artística que entre nós mais soube acomodar um aporte letrado de grande sofisticação, sem perder nem a ternura, nem a capacidade de ser ouvida?

Em busca da resposta, no meio do caminho crítico tropeçamos com dois grandes textos, já clássicos, escritos por dois autores de família crítica diversa e de distintas gerações, ainda que muito se assemelhem em alguns contornos culturais. A “Palestra sobre lírica e sociedade” foi proferida por Theodor Adorno (1903-1969) em 1957 e está publicada em Notas de literatura I (tradução de Jorge de Almeida, editado pelas editoras Duas Cidades e 34, São Paulo, 2003). Já o ensaio “Linguística e poética”, de George Steiner (nascido em 1929), é de 1970 e foi concebido num contexto agora já histórico, quando o estruturalismo começava a tornar-se hegemônico na universidade e a linguística mostrou apetite para ser uma ciência imperialista, avançando territórios de tudo quanto foi humanidade. O texto foi publicado no Brasil em Extraterritorial – A literatura e a revolução da linguagem (Tradução de Júlio Castañon Guimarães, São Paulo, editora Cia. das Letras, 1990).

Serão seis pontos, tirados dos citados ensaios, os marcos da reflexão. Não são os únicos ali presentes, mas não deverão ser irrelevantes, espero. Servirão para pensar sobre tanto poeta interessante em nossa língua e tempo, maduros como Paulo Neves, Francisco Alvim e Paulo Henriques Britto, ou mais jovens como Alberto Martins, Leandro Sarmatz e Guto Leite — para citar apenas seis, e com isso incidindo em enorme imprecisão e cometendo injustiça talvez indesculpável.

1. VEICULAR A UTOPIA
. Adorno especula sobre a dinâmica existente entre o traço individual exigido pela experiência da produção poética, de um lado, e a capacidade da poesia em enunciar o universal humano: “A composição lítica tem esperança de extrair, da mais irrestrita individuação, o universal.” Ela carrega em si “algo de não distorcido, de não captado, de ainda não subsumido, anunciando, desse modo, por antecipação, algo de um estado em que nenhum universal ruim, ou seja, no fundo algo particular, acorrente o outro, o universal humano”, com itálico meu. Dito em termos simples: Adorno vê como marca da poesia uma condição por assim dizer profética, de antecipação; ela é necessariamente utópica, pois aponta para a liberdade em relação às constrições particulares, para a vigência do universal humano em detrimento das especificidades.

Alguém poderá rechaçar esse comentário como antigo, fenecido, próprio do tempo das utopias anteriores ao atual pragmatismo, este fundamento civilizacional em tudo análogo ao império do mercado. Mas será mesmo morto o raciocínio adorniano? Digamos que Adorno tenha flagrado um traço da poesia moderna em sentido geral, aquela que, sem viver mais das relativas facilidades da vanguarda (em que parecem bastar os gritos e os manifestos para a poesia encontrar validade pública), mas igualmente sem as ilusões da ressonância imediata, uma vez que esta se perdeu já com Baudelaire, tendo se convertido já naquela hora em lamentação pela irrelevância social ou em fuga para alguma torre de marfim, alguma nuvem sinestésica, alguma pasárgada. Poesia moderna: aquela que veicula alguma utopia na base de contrariar o universal ruim. Tarefa ainda relevante, creio: a poesia apontando a insuficiência do real e insinuando a possibilidade da liberdade.

2. ULTRAPASSAR A IDEOLOGIA, PRATICAR A LIBERDADE. O mesmo ensaio de Adorno convoca ao campo de luta o velho inimigo do marxismo, a ideologia, em seu sentido quase elementar de falsa consciência, de mistificação, para afirmar que a poesia, como toda obra de arte verdadeira, “têm sua grandeza unicamente em deixarem falar aquilo que a ideologia esconde”. Não por outro motivo, o poeta é exemplo de liberdade, já que “somente a pouquíssimos homens (...) foi dado apreender o universal no mergulho em si mesmos, ou foi permitido que se desenvolvessem como sujeitos autônomos, capazes de se expressar livremente”.

A condição geral em nossa vida é a da privação da liberdade, e é contra esse estado de coisas que a poesia precisa se organizar, desvendando os mecanismos e dando a conhecer os implícitos da dominação, para oferecer enfim o exemplo aos incontáveis homens que deveriam usufruir da condição autônoma, mas que mal escutam sua própria voz, os dominados, os oprimidos, em cuja mísera voz “se enlaçam o sofrimento e o sonho”. Tarefa ainda cabível para a prática da poesia, se ela quer ser mais do que mera reduplicação da trivialidade cotidiana, mais do que consolo paralisante.

3. POTENCIALIZAR A LINGUAGEM COMUM. Já Steiner lembra que “em poesia, exceto nos limites extremos do verso esotérico ou absurdo, as forças principais são as da expressividade comum”. De minha parte, assino embaixo: é da língua cotidiana que o poeta tira a força essencial de sua arte. Precisa ser dela. Os exemplos da melhor poesia de nossa língua são eloquentes dessa condição. (Um poeta de obra problemática, mas por certo relevante, falecido há pouco, Bruno Tolentino, serve para a reflexão. Lendo-o, em suas páginas abundantes, em sua enorme capacidade de enganchar versos em outros versos, em seu antivanguardismo militante, lendo-o a gente tem a sensação de quão vasta é a região semântica inundada pela língua portuguesa: são páginas e páginas, em poemas copiosos, com um repertório vocabular vastíssimo e nunca artificial, nunca preciosista, nunca com criação de palavras em laboratório. Confira.)

Não será impossível ao poeta brasileiro de hoje entender essa verdade geral, em suma. Mas a ele se opõe uma das forças maiores entre as que minaram seu prestígio: a canção popular. No Brasil, por obra do imponderável acaLuís Augusto Fischerso, mas muito mais do maciço analfabetismo (tanto o funcional, quanto o literário), ocorreu que excelentes artistas letrados aportaram no cais da canção, forma popular e desprestigiada nas classes educadas à francesa, e desse casamento resultou a parte maior do tesouro cancioneiro brasileiro. Pense em Noel Rosa, Ary Barroso, Caymmi, Tom Jobim, Vinícius de Morais, Chico Buarque, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, para não alongar muito a enumeração. Agora pense a cultura brasileira sem eles — e estará feita a demonstração de sua centralidade no patrimônio da lírica de nosso país e de nossa língua. Eles é que fizeram a expressividade comum ganhar os mais altos lugares artísticos, no último meio século; é com eles que o brasileiro tem sua educação sentimental.

4. PERSUADIR O CIDADÃO LEITOR. O mesmo Steiner observa, a certa altura do ensaio: “Nas sociedades políticas em que as artes do governo e da administração pública eram em grande medida as da formulação persuasiva, o poeta era exemplar supremo da fala eficiente”. E exemplifica: “Em Homero, um homem podia encontrar citações para organizar para si (...) quase qualquer postura de experiência cívica, militar e doméstica”. Quer isso dizer que o poeta era também um sábio, um homem-artista a quem se podia recorrer para encontrar interpretações consistentes do mundo, do estar-no-mundo, na forma concentrada de máximas, frases, sentenças. O prezado leitor poderá objetar que isso era no tempo em que não havia nem internet, nem TV, nem rádio, nem jornal, nem mesmo livro impresso, e terá razão: o comentário de Steiner se refere a um tempo velho, passado. Segundo seu estudo já clássico, Hugo Friedrich observou que a poesia, nessas épocas, estava em relação de ressonância com a expectativa pública, o leitor e o poeta ecoando um no outro, a poesia funcionando como um quadro ideal da vida; bem ao contrário do que aconteceu depois do Simbolismo, quando a poesia passou a operar em dissonância com a expectativa do leitor médio, isto é, a poesia passou a encarar-se como uma operação contra o leitor, do mesmo modo como aconteceu na música, na pintura, etc.

Mas nem essa distância impede de ver que neste nosso jovem século XXI algo de estranhamente familiar ao quadro acima acontece: também há sociedades controladas, agora mais que antes, e também há fala eficiente. Mas esta é, agora, protagonizada pela publicidade: este é o paradigma da linguagem do poder agora. Como vive, como pode viver a poesia sob tal controle, sob tal eficiência? A poesia de nosso tempo sabe contrapor-se à publicidade, de tal modo que possa desfazer a dominação, apontando para a autonomia e a liberdade? Mas não está a poesia de nossos dias fortemente emparceirada com a publicidade? (Hoje a posição do escritor como sábio a quem se pode recorrer em busca de citações é ocupada pelos publicitários, tanto os que sabem que são isso quanto os que não sabem, mas são; os organizadores de compilações de frases de efeito, que resultam em livros como Shakespeare para maridos traídos, ou Marquês de Sade para monges, etc.) (Calma: esses livros não existem, acabei de inventar os títulos.) (“Ei, isso é uma boa ideia”, diz o publicitário ali ao fundo...)

5. EXPRESSAR PARA FAZER EXISTIR. Uma vereda de grande interesse no ensaio de Steiner adentra o território da poesia convencional, da poesia de tipo neoclássica. Ele fala do século XVIII, mas penso que o que quer dizer vale para qualquer neoclassicismo, seja ele de tipo parnasiano, seja ele de tipo concretista ou outro, qualquer um. Nesses casos, em que encontramos uma tendência moralizante nas entrelinhas, “o trabalho literário seria julgado não como artefato linguístico, definindo seus próprios padrões estilizados, extraterritoriais, de verdade e pertinência; seria visto por seu conteúdo ético explícito, e assim julgado”. Troco em miúdos muito meus: qualquer neoclassicismo, quer dizer, qualquer poesia que se propõe repetir ou reiterar padrões formais já existentes, sem ímpeto paródico, mas ao contrário com reverência (mesmo a reverência a antigas vanguardas libertárias, que também é uma reverência, como por exemplo as renovadas loas,
perfeitamente irrelevantes mas de grande curso público, ao modernismo paulista, em alguma de suas versões, como neste 2012 se repetiram, aos 90 anos da Semana de Arte aquela) — qualquer neoclassicismo, repito, exige ser lido mais pela ética que esposa do que pela estética que pratica.

É uma facilidade, portanto, para o poeta a atitude neoclássica; mas é também uma decretação de sua secundariedade. Daí que a melhor poesia em nossos dias deva andar em outra trilha, que não qualquer das trilhas neoclássicas: uma trilha a ser inventada, uma condenação sartreana à liberdade, que obriga a escrever para tornar inteligível o que ainda não o é mas precisa ser. Dar nome às práticas, às figuras, às emoções; revivê-las em palavras, em nomes. Eu acrescentaria que tal é também a tarefa de quem, não sendo poeta, divulga ou comenta a poesia, em qualquer meio, do jornal à sala de aula: desmascarar os neoclassicismos em sua dimensão ética, para poder ler suas entranhas conservadoras, e propiciar a autonomia da leitura, para formar o leitor livre.

6. ENFRENTAR OS MAIORES. Olhando a tradição literária pelo lado mais interessante, é dever acompanhar Steiner na pergunta seguinte: “A presença de um Shakespeare (ou, de modo análogo, de um Dante, Cervantes ou Goethe) em uma língua inibe o desenvolvimento de recursos posteriores?” No Brasil temos marcos incontornáveis na longa estrada da vida poética: Drummond, João Cabral, Bandeira e outros; no português, temos ainda Camões e Fernando Pessoa. Renegá-los? Tem como?

Não tem como, e nisso vai parte grande da alma da poesia, hoje. Não havendo como escapar de suas teias ― os citados poetas já nos definiram, a nós letrados, tanto quanto Noel, Vinícius e Chico definiram a todo o brasileiro vivo e respirando, mesmo que estes sejam conhecidos apenas por versões baratas, por diluidores —, o caso é enfrentá-los. O troço é freudiano: se tem fantasma, tem que convocá-lo para um encontro ao meio-dia, em qualquer encruzilhada da fala e da escritura. Só medindo as forças com eles é que vamos sair do lugar, como acontece com filhos e pais, poetas angustiados e seus tutores imponentes. Mas que custa, custa.

Sendo otimista, dá para concluir como Steiner (não como o negativo Adorno): esses problemas são nosso patrimônio maior, agora; sobre eles se ergue “o fascínio do trabalho que está pela frente”.



Luís Augusto Fischer é professor de literatura brasileira na UFRGS. É autor de, entre outros livros, Machado e Borges – e outros ensaios sobre Machado de Assis.