Especial Poesia - Cena Poética

No olho do furacão

O tremor de terra provocado pelo concretismo, nos anos 1950, ainda pauta as discussões entre os poetas brasileiros, que hoje não fazem parte de escolas literárias e se utilizam da internet para conquistar leitores


Por Guilherme Magalhães

Múltipla, oscilando entre a vanguarda, a tradição e a contradição. Assim o poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin define a poesia brasileira contemporânea. E, de fato, sobretudo na segunda metade do século XX, houve uma espécie de cisma entre os concretistas e aqueles que reivindicavam mais lirismo e menos forma, texto derramado, e não a concisão. Para o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, essa rixa é coisa do passado. “Salvo a recente troca de alfinetadas entre Augusto de Campos e Ferreira Gullar, esse debate é coisa do passado. Para os poetas que estão com 40 ou 50 anos, parte do legado do concretismo foi assimilada e parte rejeitada, em graus variáveis em cada caso particular”, afirma Britto, completando que, para os poetas na faixa dos 20 ou 30 anos, “a questão é definitivamente um capítulo da história da poesia brasileira, tal como a rixa entre Mário e Oswald de Andrade, ou a querela entre simbolistas e parnasianos”.

Em um mercado editorial inóspito para quem deseja escrever poesia almejando bons números de vendas, paradoxalmente, observa-se um maior número de poetas publicando livros. “O poeta de hoje é mais focado em escrever e publicar livros do que os da minha geração, dos anos 1970”, conta Italo Moriconi, que organizou a coletânea Os cem melhores poemas brasileiros do século (2001).

De acordo com Moriconi, por mais diminuto e hostil que o mercado seja, os poetas demonstram interesse em entrar nesse jogo e, o mais importante, estão focados em constituir circuitos e redes de apoio e emulação mútua — e, em tal contexto, blogs e sites tornam-se a nova porta de entrada no admirável mundo da poesia. “Os blogs são a versão contemporânea dos periódicos que, junto com a plaquete artesanal, um fetiche da geração marginal, eram o primeiro passo antes da publicação em livro”, diz.

Em tempos de profusão de feiras, mesas e festivais literários no país — e da consequente profissionalização do escritor —, somente publicar não é suficiente. “Hoje, publica-se muito, mas não se lê tanto. Publicar é importante, mas não basta. Penso que participar de círculos diversos, da vida literária, é importante”, defende a crítica literária Beatriz Resende.

Siricutico cosmopolita
Definir a poesia contemporânea brasileira é tarefa tão ou mais difícil do que acertar os seis números da Mega-Sena. Paulo Henriques Britto observa que, por exemplo, a noção de escola literária não se aplica ao momento atual. “Daqui a 20 ou 30 anos, os críticos vão ver com mais clareza quais foram as linhas de força das primeiras décadas do século XXI; para nós, que estamos vivendo este momento, isso é bem mais difícil”, confessa.

Algumas características, no entanto, podem ser apontadas em boa parte da poesia produzida pela novíssima safra — leia-se, poetas que ainda não completaram quarenta anos. Britto observa que, nesta produção poética em progresso, evidencia-se a ausência de projetos coletivos e utópicos, a volta de uma possível subjetividade, o compromisso com uma linguagem próxima à da fala coloquial e a abundância de citações que misturam, sem nenhum preconceito filosofia com cinema, música popular e televisão.

“E, acima de tudo, uma postura cosmopolita, que se expressa de várias maneiras: na presença de palavras, expressões e versos inteiros em idiomas estrangeiros; no tema da viagem; e no fim da ‘questão nacional’, que mobilizou nossos literatos desde o romantismo até a década de 1960”, completa Britto.

Ser brasileiro, analisa o poeta e tradutor, tornou-se tão natural para os jovens quanto ser francês ou inglês sempre foi para os franceses e ingleses. “Isso, a meu ver, é sinal de que o Brasil deixou de ser um problema, ao menos como nação. Não significa que os problemas do país tenham sido resolvidos, apenas que os brasileiros mais jovens não têm mais um problema de identidade nacional”, diz. As vozes poéticas produzidas pela periferia também conquistaram seu espaço. “Essa expressão é uma novidade, e muitas vezes, está ligada a expressões verbais do funk ou do rap”, lembra Beatriz Resende.

Apoteose do cotidiano
Amor, morte, perda, solidão e a própria poesia — estes temas, atemporais, acompanham a produção poética há séculos e devem continuar como matéria-prima. “Sem dúvida, a dor provoca mais, torna a expressão poética mais necessária do que as alegrias”, aponta Beatriz Resende. “Porém, o banal do dia a dia, o cotidiano, é um tema poético comum desde o modernismo”, completa.

Italo Moriconi observa duas poesias convivendo atualmente. “Uma que quer ser literária, voltada a um leitor mais erudito, e outra mais comunicativa, que até se confunde com o pop, no verso falado, e se funde com o pop no caso da letra de música”, opina. Segundo o antologista, a poesia mais literária está sempre buscando uma subversão, uma transgressão do senso comum.

Talvez, até por herança do movimento concretista, a poesia brasileira de hoje revela uma preocupação especial com a forma. “Os jovens poetas sabem que, para escrever poesia, é preciso muita leitura e domínio das técnicas poéticas”, afirma Britto. Ele lembra que, por exemplo, a geração marginal da década de 1970 defendia o poeta que “vivia intensamente” e “contra o sistema”. “Essas ideias ingênuas já não são mais levadas a sério”, afirma Britto.




Chacal, pseudônimo de Ricardo de Carvalho Duarte, é um dos representantes da poesia marginal. Ele estreou com Muito prazer (1971) e ficou célebre por utilizar o mimeógrafo como veículo de divulgação de sua poesia, num tempo em que a repressão era feroz e o mercado editorial, uma muralha intransponível.
 
 
Os cem melhores poemas brasileiros do século, organizado em 2001 pelo antologista e poeta Italo Moriconi, teve a tarefa de listar em número restrito uma poesia tão diversa e rica como a brasileira. Moriconi costuma brincar dizendo que “adoraria fazer uma antologia complementar a esta, intitulada Mais cem poemas brasileiros do século”.
 Escrito no exílio por Ferreira Gullar, Poema sujo (1976) foi o grande libelo contra a ditadura. O autor afirma que a obra surgiu da necessidade de “escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”.
 
  Augusto de Campos, junto a seu irmão Haroldo, foi um dos pilares do movimento concretista na poesia brasileira. Em Viva vaia, Augusto experimenta uma descompartimentação de linguagens.
Segundo o poeta, essa expressão provoca apresentações “verbivocovisuais”, isto é, o verbal e o não-verbal se interpenetrando.