Especial | Literatura de fantasia

Breve panorama da presença da fantasia na literatura brasileira

O escritor e pesquisador Bruno Anselmi Matangrano traça um mosaico de referências sobre as origens e as várias vertentes da literatura de fantasia, gênero que teve tardio aparecimento na literatura brasileira, mas que ganhou força nos últimos 20 anos


Há algum tempo, fui chamado para fazer um panorama da literatura fantástica no Brasil, para a revista Bang!, da editora Saída de Emergência Brasil, no qual o desafio foi recortar alguns textos representativos dentre uma grande variedade de obras fantásticas esparsas ao longo da História. Desta vez, tentarei fazer algo semelhante, mas com uma parte mais específica do que popularmente chamamos de literatura fantástica: a fantasia.

O primeiro desafio quando pretendemos traçar as origens de uma das muitas categorias ou subcategorias do que atualmente a crítica tem chamado de Insólito Ficcional é justamente definir tais categorias, no caso, a fantasia. Isso acontece em parte pelo caráter intrinsecamente cambiante da literatura e das transformações sofridas pelas nomenclaturas ao longo das últimas décadas. Indo direto ao ponto, é sempre importante ter em mente que o que hoje se entende por fantasia nem sempre foi assim chamado.

Mas, afinal, o que é a fantasia?

Para responder a esta pergunta, é preciso recuar um pouco e entender este conceito maior: o Insólito Ficcional, muitas vezes também chamado simplesmente de literatura fantástica, cuja definição não é tão simples, mas grosso modo é qualquer literatura não realista e não mimética, na qual um elemento insólito (ou fantástico, ou absurdo, ou estranho, ou maravilhoso, ou horrível, ou sobrenatural, etc.) se manifesta. A natureza deste elemento em relação ao leitor e às personagens, isto é, a forma como desperta sensações e emoções em qualquer sujeito envolvido, seja real ou fictício, definem suas diversas categorias (modalidades ou divisões, como a própria fantasia). Ou seja, um elemento que causa medo pode indicar um texto de horror; algo que suscita estranhamento pode indicar uma obra “absurda”, e assim por diante. A sensação de maravilhamento, o famoso sense of wonder, é o indicativo do maravilhoso, que é uma vertente do insólito aparentada à Fantasia (ao menos, a parte dela, já que a Fantasia está em constante expansão e transformação, como veremos, e é comumente dividida em subcategorias).
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John Ronald Reuel Tokien, ou simplesmente J. R. R. Tolkien, criou obras grandiosas como O senhor dos anéis, O hobbit e O silmarillion, livros que ainda hoje servem como fonte de inspiração para outros autores de fantasia.

A fantasia, portanto, em sua origem, parece se confundir, ou derivar do maravilhoso (para a maior parte da crítica anglófona, aliás, estas duas categorias são a mesma coisa), isto é, narrativas permeadas por interferências mágico- -sobrenaturais aceitas pelas personagens como parte intrínseca do mundo retratado, sem hesitações. Os contos de fadas são exemplos canônicos do maravilhoso, já que retratam seres humanos em contato direto com o fantástico sem que isso lhes cause qualquer estranhamento. Tais histórias, por sua vez, derivam de narrativas folclóricas (como os próprios contos de fadas), mitológicas, utópicas ou de cunho mágico-religioso.

A noção mais básica que temos da fantasia em muito se aproxima disso: uma obra artística narrativa dedicada, sobretudo, a enredos passados em lugares imaginários (em diferentes escalas, desde castelos, vilas, reinos, países, mundos ou mesmo universos), cujas leis diferem das que regem o mundo dito “real” em, ao menos, uma instância, seja física, metafísica, religiosa, biológica, etc. Por isso, na maioria das vezes e, sobretudo em suas primeiras manifestações a fantasia retrata lugares utópicos, como a Terra de Oz, de L. Frank Baum (1856-1919), e a Terra do Nunca, de James M. Barrie (1860-1937), depois a Nárnia, de C. S. Lewis (1898-1963) e, mais recentemente, a Hogwarts de J. K. Rowling, mas isso vale apenas para certa vertente. Obviamente, a ideia de utopia não dá conta de qualquer universo ficcional. A Westeros de George R. R. Martin, pode ser tudo, menos uma utopia, para citar um exemplo, sem, contudo, deixar de ser uma fantasia. Assim entramos na questão de que há “divisões” dentro da própria ideia de fantasia.

Os tipos de fantasia e suas origens

É comum ver atribuído a J. R. R. Tolkien (1892-1973), o célebre autor de O senhor dos anéis, O hobbit e O sillmarillion (todos eles obras de fantasia), a criação deste tipo de literatura, o que não é exatamente verdade, embora seja inegável seu papel definidor para os atuais parâmetros do que se convencionou chamar de alta fantasia (como veremos a seguir), assim como sua confessa influência sobre os autores que o seguiram, como os americanos Raymond E. Feist, autor de imensa saga passada no mundo ficcional Midkemia, e Terry Brooks, autor da saga Shannara, por exemplo, ou mesmo o próprio George R. R. Martin e suas complexas Crônicas de gelo e fogo.

Há quem identifique o surgimento da fantasia nos remotos relatos mitológicos, como a Odisseia, de Homero, ou as sagas nórdicas. Outros ainda, a identificam nas novelas de cavalaria dos ciclos arturianos. No entanto, apesar da evidente presença destas narrativas em muitas fantasias modernas e contemporâneas, o que hoje é chamado de fantasia apenas se definiu como vertente literária autônoma, com características definidas, no século XIX (interpretado sob o olhar do século XX, é preciso dizer), quando se estruturaram, aliás, praticamente todas as vertentes do Insólito Ficcional.

Muitos consideram o escocês George MacDonald (1824-1905) e o artista pré-rafaelita britânico William Morris (1834-1896), os “pais” ou “fundadores” da Fantasia, graças às diversas obras sobre reinos mágicos, como o livro A princesa e o goblin, de 1872, escrito por MacDonald, e ao romance O bosque além do mundo, de 1892, de Morris, que de fato são as primeiras a trazerem várias das características consideradas essenciais a este tipo de história. Depois deles, vários autores se dedicaram à fantasia, como os já citados L. Frank Baum e sua série de livros passadas na Maravilhosa Terra de Oz e demais terras feéricas, James M. Barrie e as histórias de Peter Pan e Wendy, C. S. Lewis e As crônicas de Nárnia e o próprio Tolkien e sua incrível Terra-Média.
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A dark fantasy é um subgênero da literatura de Fantasia e costuma estar associada a histórias de horror, em mundos imaginários, nada convidativos, como os cenários de As crônicas do gelo e do fogo, de George R. Martin.

No entanto, com o passar do tempo, a fantasia começou a se expandir e a se diversificar, dividindo-se em várias subcategorias. Há quem identifique, atualmente, mais de 20 definições, sendo que muitas delas se confundem com o sobrenatural, o maravilhoso, o absurdo, o realismo mágico e também com categorias tradicionalmente vinculadas à ficção científica, como o steampunk. Dentre este imenso rol, as categorias mais canônicas são: 1) a fantasia épica (ou alta fantasia), que se dedica à criação de mundos totalmente independentes do nosso, com regras próprias, mas evocando, ao mesmo tempo, aspectos medievalizantes de nossa realidade, como códigos de cavalaria; não raro, é possível descrevê-los a partir da clássica Jornada do herói, descrita por Joseph Campbell, e de ideais utópicos; 2) a fantasia urbana, que, por sua vez, descreve cenários mais ou menos contemporâneos ao século XX e XXI e misturam tecnologia, arquitetura e aspectos da cultura pop com magia, criando novos mundos ou espaços mágicos dentro dos nossos (realidades paralelas). A maior parte das grandes sagas da atualidade se enquadra nesta classificação, como Harry Potter, de J. K. Rowling, ou Percy Jackson, de Rick Riordan, e também a maior parte dos livros de Neil Gaiman; 3) a fantasia sombria (Dark Fantasy), por fim, costuma trazer tramas psicológicas mais trabalhadas, menos maniqueistas e muito menos utópicas ou cavalheirescas do que a alta fantasia, embora também se passe muitas vezes em mundos medievalizantes; além disso, a dark fantasy costuma estar associada a certa literatura de horror, tudo isso em mundos imaginários, nada convidativos, como os cenários de As crônicas do gelo e do fogo, de George Martin, ou de A companhia negra, de Glen Cook. Destas três vertentes, a fantasia épica encontrou solo extremamente fértil nos países de língua inglesa, enquanto no Brasil, a que mais floresceu foi sem dúvida a fantasia urbana, talvez por ser a que mais se aproxima de outras categorias prolíficas em terras tupiniquins, como o absurdo, o realismo mágico, o sobrenatural, etc., ainda que a épica tenha encontrado expoentes sobretudo na literatura popular nordestina. A dark fantasy pode ser vista em autores contemporâneos, mas ainda foi pouco explorada por aqui.

A presença da Fantasia no Brasil

Uma vez entendido o que é a fantasia, vamos ver quais foram suas primeiras manifestações no Brasil, ou ao menos, quais foram as obras que com ela flertaram ao longo dos séculos XIX e XX, em uma primeira fase de nossa literatura fantástica.

Como a fantasia tem em sua origem o aspecto mágico-religioso comentado anteriormente, no Brasil, algumas de suas primeiras aparições levam a reinterpretações do folclore e dos mitos indígenas (vistos sempre de modo sincrético, é claro), já que as primeiras obras insólitas brasileiras, em geral, confundem- se com a busca de uma identidade literária nacional. Assim, a Amazônia e o sertão brasileiro vão ser ressignificados, como o fora antes a Europa medieval, na obra de Tolkien, Feist, Brooks, Martin e outros, tomados em seu aspecto místico e misterioso, posto que inexplorados.

Antes disso, porém, é possível ver, ainda no século XIX, manifestações pontuais de obras que flertam com a fantasia, como o conto “As bruxas”, de Fagundes Varela (1841-1875), no qual marinhos são encantados por bruxas montadas em vassouras que, transformadas em belas mulheres, seduzem-nos e os levam a mundos estranhos. Trata-se de um conto breve e anterior à ideia de fantasia propriamente dita, mas que já traz muitas de suas características essenciais.

Mas o século XIX, no Brasil, não rendeu muito à fantasia. Vários outros autores do período dedicaram-se ao fantástico, contudo, poucos chegaram a criar histórias que possam ser identificadas como fantasia, à exceção da obra A rainha do Ignoto, de Emília Freitas (1855- 1908), publicada em 1889, cujo enredo gira em torno de uma civilização utópica feminista no litoral do Ceará, na Ilha do Nevoeiro, isolada do resto do mundo pelos poderes psíquicos de sua rainha. Obra que inaugura uma vertente de narrativa que flerta com a fantasia, muitíssimo difundida na nossa literatura: as histórias de cidades utópicas perdidas no Norte brasileiro. Além do livro de Emília, encontramos nesta vertente: A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Cruls (1888-1952), A cidade perdida (1948), de Jeronymo Monteiro (1908- 1970), A república 300 (1948), republicada como A filha do inca, de Menotti del Picchia (1892-1988), embora os três estejam mais próximos da ficção científica do que da fantasia propriamente dita. Destes, o que mais se aproxima da fantasia é o livro de Picchia, no qual cria uma civilização utópica superdesenvolvida fundada por descendentes do povo de Creta no interior do Brasil.

Outra das primeiras manifestações da fantasia no Brasil, e, desta vez, já em moldes mais próximos de obras atualmente assim identificadas, é a extensa coleção de livros infantis de Monteiro Lobato (1882-1948) dedicadas ao universo ficcional do Sítio do Pica-Pau Amarelo, publicadas entre 1921 e 1947. O sítio em si já é um local imaginário, habitado por seres fantásticos. como o Visconde de Sabugosa (um boneco de sabugo de milho que ganha vida), Emília (uma boneca de pano falante) e muitos animais antropomorfizados, sendo frequentemente visitado por figuras folclóricas e mitológicas. Nestas histórias, humanos interagem com tais seres e visitam países feéricos, onde a magia se faz presente o tempo todo, sem que, no entanto, seja questionada sua existência.

Mais ou menos na mesma época, mais precisamente em 1928, Mário de Andrade (1893-1945), um dos mais importantes autores do modernismo brasileiro, publica Macunaíma, uma obra que talvez pudesse ser descrita como uma fantasia paródica, como Terry Pratchett (1948-2015) viria a fazer anos depois com sua saga “Disc World”. Em Macunaíma, o herói-título se encontra com seres folclóricos como o Curupira e Ci, a Mãe do Mato, e passeia por um Brasil fictício, povoado por seres fantásticos, dos quais precisa fugir, na maioria das vezes, para preservar seu precioso amuleto, o muiraquitã.
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O mineiro Murilo Rubião, autor de obra enxuta, foi o primeiro contista moderno da incipiente literatura fantástica brasileira

Ainda a respeito deste viés nacionalista, o pesquisador Roberto Causo, em seu livro Ficção científica, fantasia e horror no Brasil — 1875 a 1950 (que, aliás, me possibilitou descobrir algumas das obras citadas aqui), menciona que a Fantasia Épica encontrou formas originais no Nordeste brasileiro, ora assumindo forma de cordel, ora servindo de base para grandes sagas como O romance d’a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta (1971), de Ariano Suassuna (1927-2014), baseado no mito sebastianista português, para criar um reino mítico nordestino, aos moldes das lendas arturianas. Segundo Causo, alguns dos cordéis mais importantes que podem ser relacionais à fantasia épica, são: O romance da princesa do reino do mar sem fim, publicado originalmente em 1979, de Severino Borges Silva, no qual uma princesa, raptada por um bruxo, é salva pelo príncipe Adriano, que, no percurso, enfrenta gigantes e outros desafios, e A pedra do meio-dia ou Artur e Isadora (1979), de Bráulio Tavares, autor consagrado, sobretudo, por seus textos de ficção científica.

Outro tipo de literatura que frequentemente flertou com a fantasia foi aquela voltada ao público infantil ou juvenil. Campo, aliás, onde mais floresceu. Por ser muito prolífera, às vezes torna- -se difícil fazer um mapeamento de toda sua produção, assim como se torna um desafio classificá-la, já que muitas vezes flertam com mais de uma vertente. No entanto, vale mencionar uma obra que marcou gerações por ter sido muito utilizada como livro paradidático: O caso da borboleta Atíria, de Lúcia Machado de Almeida, de 1975, publicada na célebre coleção Vaga-Lume, da editora Ática. O livro conta a história de um mundo utópico povoado por borboletas antropomorfizadas, aproximando- se da fábula. No entanto, traz ideais típicos de um mundo de fantasia, como a presença de um príncipe e de um vilão terrível que desestabiliza a vida pacata das borboletas e coloca Atíria, uma borboleta, cuja asa má formada impossibilita voos de grande distância, na qualidade de heroína que precisa desvendar o mistério dos desaparecimentos de suas companheiras e trazer de volta a paz a seu mundo, em um movimento próximo ao da Jornada do Herói, de Campbell.

Por fim, para encerrar esta primeira fase da presença da fantasia em nossa literatura, é inevitável se voltar àqueles que talvez sejam os maiores autores de ficção insólita da literatura brasileira: Murilo Rubião (1916-1991) e José J. Veiga (1915-1999), dos quais tive a oportunidade de falar em meu ensaio na revista Bang!

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radicionalmente, tanto Rubião quanto Veiga são classificados como autores do chamado realismo mágico, por trabalharem com o improvável mesclado a elementos do cotidiano, sem que haja estranhamento das personagens que agem segundo uma lógica própria. No entanto, é possível aproximar esta vertente à fantasia urbana, como se disse anteriormente. Rubião, por exemplo, traz para a realidade brasileira dragões e metamorfos (seres bem frequentes nas diversas variantes da fantasia), incorporando- os ao cotidiano de forma natural, em dois de seus contos mais famosos: “Dragões” e “Teleco, o coelhinho”. O primeiro é a história de um vilarejo, de repente visitado por várias dessas criaturas. Ao contrário do que se poderia esperar, os habitantes do local não sentem medo nem parecem ter qualquer preocupação em relação à própria segurança, mas, ao contrário, cria-se uma grande polêmica na cidade sobre o que se fazer com os animais e aparente necessidade de educá-los. Já em “Teleco, o coelhinho”, lemos a história de um coelho metamorfo, cuja capacidade de assumir a forma de outros animais de acordo com seu estado de espírito desestabiliza a vida de seu amigo, o narrador, com quem mora. A instabilidade, no entanto, que as figuras fantásticas dos dois contos causam em suas respectivas histórias é apenas por questões humanas, já que o insólito em si é aceito sem problemas. J. J. Veiga, por sua vez, seguirá caminho semelhante em várias de suas obras, dentre as quais se destaca o romance Sombras de reis barbudos, no qual um menino vê sua cidade se transformar em uma espécie de labirinto, no qual, pouco a pouco, situações insólitas começam a acontecer, a princípio apenas estranhas, mas ao final realmente mágicas, como quando a população local começa a aprender a voar, sem maiores explicações.

Todas essas manifestações que se aproximam ou se assemelham ao que hoje se convencionou a chamar de fantasia, todavia, são anteriores a Tolkien e à sistematização e difusão do gênero, de modo que é apenas a partir da década de 1990, que, de fato, surgirão obras de legítima fantasia (e com isso quero dizer, obras escritas com a intenção de se inserirem nesta tradição, segundo nomenclatura atual), na literatura brasileira.

Tolkien e os novos paradigmas

Como se disse, a fantasia herdou de Tolkien, que já o herdara de Baum, Barrie, Morris e MacDonald, a construção de mundos imaginários complexos, cuja história é contada a partir do ponto de vista de um herói, aparentemente, sem nada de extraordinário, mas que acabará por se provar em meio a uma grande aventura. Esse modelo acaba por se sistematizar a partir de Tolkien e a ser repetido em sistemas muito semelhantes, como nas já mencionadas séries de Raymond E. Feist e Terry Brooks. Outro bom exemplo é a série Star Wars, que apesar de ser uma ficção científica, mais especificamente uma space Opera, aproxima- se da fantasia ao trazer códigos de conduta heroicos, herdados da cavalaria medieval europeia, além de contar com a presença de lugares imaginários e de magia. Não é por menos que George Lucas, o criador da saga, declare abertamente ter sido Tolkien uma de suas inspirações, como, aliás, ocorre com grande parte da fantasia moderna, seja por emulação, inspiração ou mesmo oposição. Tolkien se tornou um paradigma, impossível de ser ignorado nos estudos acerca da fantasia.

Obviamente, também no Brasil ele deixou seu legado, apesar de ter demorado mais tempo para se manifestar; enquanto nos países anglófonos, já na década de 1970 surgiam textos inspirados pelo professor, no Brasil foi apenas a partir dos anos 1990 que tal tipo de literatura pode ser observada. A este respeito, outra vez, recorro a Causo, que cita Luis Roberto Mee e Fábio Rezende como os primeiros a criarem romances de alta fantasia, da forma como hoje é entendida. Mee escreveu a série infanto-juvenil A saga real de Selladur, cujo primeiro número saiu em 1994, pela Editora 34, contando a história do Reino Selladur, habitado por nobres, cavaleiros e magos, onde o Sol brilha 24 horas, motivo pelo qual todos os heróis locais são convocados para a grande missão de resgatar a noite. Por sua vez, Fábio Rezende, em A recompensa dos guerreiros, de 2001, publicado pela editora Record, narra a história de uma guerra entre dois reinos vizinhos habitados por humanos e seres mágicos. Além disso, Causo cita também que nos anos 1990 houve muitas histórias tolkienianas derivadas de RPGs.
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Terry Pratchett (1948-2015) fazia uma espécie de fantasia com humor, ou fantasia paródica, em que brincava com os arquétipos e clichês do gênero.

A partir dos anos 2000, a fantasia de fato se difundiu no Brasil e então surgiram diversos autores e obras importantes, sobretudo, voltadas à fantasia épica e à fantasia urbana. No primeiro grupo, é possível encontrar obras de Raphael Draccon, Affonso Solano, Leandro Reis e Thiago Tizzot. Enquanto no segundo, encontram-se livros de Eric Novello, Felipe Castilho, Giulia Moon, Jim Anotsu, Eduardo Spohr e Carolina Munhoz, para citar apenas alguns, já que o grupo é muito grande. Mas para falar de todos eles, já seria necessário outro texto, então deixo apenas a dica aos leitores que desejam conhecê-los.

Bruno Anselmi Matangrano é pesquisador, escritor, tradutor e editor. Bacharel em Letras (português e francês) e mestre em Literatura Portuguesa, pela Universidade de São Paulo (USP), atualmente faz doutorado na mesma instituição, dedicando suas pesquisas às literaturas simbolista e fantástica, escritas em português e em francês. Possui traduções, contos e artigos publicados e é autor do livro Contos para uma noite fria, no qual também flerta com a fantasia urbana. Vive em São Paulo (SP).