Especial | Geração Mimeógrafo

Desbunde poético

Fenômeno da década de 1970, a geração mimeógrafo reuniu jovens poetas que produziram à margem do sistema editorial brasileiro e deixaram como legado uma maneira mais livre, leve e solta de escrever, agir artisticamente e viver


Marcio Renato dos Santos


A antologia 26 poetas hoje (1976), organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, reuniu em livro a geração mimeógrafo

Aos 64 anos, Ricardo Chacal segue escrevendo, publicando e declamando poemas. Ele é um dos mais significativos representantes da geração mimeógrafo ou poesia marginal, movimento que chacoalhou a cultura brasileira durante a década de 1970. O autor, no entanto, não gosta dos rótulos. “‘Geração mimeógrafo’ é um termo pouco preciso assim como ‘poesia marginal’. Algumas pessoas usaram aquele meio de impressão popular e barato para imprimir seus poemas. Mas o poeta Zuca Sardana já publicava em mimeógrafo desde os anos 1960, com excelentes poemas ilustrados por ele mesmo na Europa, onde seguia carreira diplomática”, diz.

O poeta afirma que, para pensar naquele período, é importante levar em conta que havia a censura do governo militar. “E também a impossibilidade de conseguir editoras, comprometidas, como sempre estão, com uma visão defasada de mundo.” Chacal analisa que as tecnologias, mesmo precárias, estavam a favor daqueles jovens inquietos e libertários que sentiam necessidade de não permanecer em silêncio: “Comum à maioria dos poetas que usaram o mimeógrafo, foi falar desse mundo pop da cultura de massa que começava a se instalar no Brasil e no mundo, por meio de uma linguagem coloquial, cheia de gírias e palavrões. A última flor do lácio, inculta e bela, ganhava as páginas alcoolizadas dos mimeógrafos.”


Chacal diz ter escrito “muitos” poemas e espera que a sua poesia esteja “na boca e no coração das pessoas”.

Em 2015, Chacal ainda não contabiliza totalmente o legado da geração mimeógrafo, mas desconfia que a recuperação do corpo e da fala do poema estão entre as conquistas deflagradas, por ele e outros outsiders, há quase meio século. “O poema é um meteoro sonoro. Sem a fala, ele se perde sufocado.” Mas, completa o artista, o advento da poesia marginal está longe de ser assimilado e compreendido. “Uma das coisas que mais me incomodam é quando dizem que não temos um diálogo com a tradição — como se só o cânone clássico fosse digno de diálogo.”

A “conversa” de Chacal e de seus pares se dava, como ele mesmo diz, com outros “gigantes”, que bebiam e versavam à margem dos festins acadêmicos: de Oswald de Andrade a Rimbaud, de Noel Rosa a Jimi Hendrix, de Bashô a Walt Whitman, de Lautréamontt a Allen Ginsberg, de Maiakovski a Caetano Veloso, de Bob Dylan a Chico Buarque, de Torquato Neto a Waly Salomão. “Íamos re-inseminar Homero na fala dos nossos versos. A ‘geração mimeógrafo’ se dá no auge da contracultura. Queríamos novas falas para representar um novo mundo. E a Academia [universidade], zelosa do cânone, conservadora por natureza, não aceitava isso”, reflete Chacal.

Um longo “poemão” 
A professora da Universidade Federal de Lavras (UFLA) Débora Racy Soares explica a geração mimeógrafo a partir de uma declaração de um de seus integrantes, Antônio Carlos de Brito, mais conhecido por Cacaso, para quem a geração marginal pode ser entendida como um esforço coletivo de resistência. “É como se os poetas estivessem escrevendo um grande ‘poemão’, a mil mãos, numa tentativa de ‘não se deixar paralisar pelos esquemas paralisantes’”, comenta Débora, autora de dissertação de mestrado e tese de doutorado sobre a produção de Cacaso. 

A ideia de coletivo, da geração mimeógrafo, também diz respeito à maneira da circulação, uma espécie de compartilhamento, dos poemas. “Eles começaram a divulgar os seus trabalhos em textos mimeografados, distribuídos em bares, cinemas, teatros etc”, lembra o poeta, tradutor e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) Paulo Henriques Britto.


Antônio Carlos de Brito, o Cacaso, dizia que os poetas da geração marginal estavam escrevendo um grande “poemão”.

À margem das editoras, do “sistema”, incluindo o meio literário, apenas em 1976 aqueles autores alternativos seriam reunidos em uma edição comercial, 26 poetas hoje, antologia organizada por Heloisa Buarque de Hollanda. Publicada pela extinta editora Labor, a obra reuniu textos, entre outros, de Francisco Alvim, Chacal, Bernardo Vilhena, Geraldo Eduardo Carneiro, Ana Cristina Cesar, Torquato Neto, José Carlos Capinan e até mesmo de Roberto Schwarz que, posteriormente, se tornou, e atualmente é, um dos mais respeitados críticos da literatura brasileira.

“De algum modo, em voo solo, Heloísa fez o que a Granta faz: apontar a geração que vai se destacar no panorama literário dos próximos anos. Há um ensaio de apresentação, da própria organizadora, que é um texto de referência importante para consolidar o movimento, apontar suas tendências, reconhecer os méritos e diferenças”, diz o professor da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Paniago.

Paulo Henriques Britto observa que a poesia da geração mimeógrafo foi uma reação às formas de poesia mais praticadas na época: de um lado, o cerebralismo da poesia vanguardista, dividida entre concretismo, poesia práxis e outros movimentos menos expressivos. Paulo Paniago acrescenta que aquela geração trouxe como aporte o humor à poesia, geralmente tão solene e respeitosa em relação à língua: “Houve incursões anteriormente, sim, entre os modernistas, mas me parece que o humor decorrente do coloquialismo exacerbado é uma aplicação bem específica da geração mimeógrafo.”


Nicolas Behr vive em Brasília desde 1974, onde, desde 1977, publica em livros poemas, muitos dos quais sobre a capital federal.

Nas metrópoles 

A agitação marginal e poética da década de 1970 aconteceu em grandes cidades, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas também há ocorrências no Nordeste e em Brasília. No caso da capital federal, Paulo Paniago destaca a presença de dois poetas: Nicolas Behr e Francisco Alvim. “Nicolas Behr se fixou como um dos mais importantes poetas da cidade, justamente por conta de seu tema ser os conflitos de um jovem com essa urbe tão peculiar que é Brasília”, diz o professor da UnB.

Já Francisco Alvim, apesar de ser diplomata e ter vivido em muitos países, escolheu fixar-se em Brasília agora que está aposentado e a poesia dele é algo que Paniago gostaria de reivindicar como brasiliense — embora transcenda a relação tão particular que Behr estabeleceu com a cidade e é, no caso de Alvim, uma poesia universal em termos de aspiração.

“Vários dos conflitos de classe, que a poesia de Alvim estabelece, suponho que tenham vindo de observações feitas na capital federal, apesar de serem os velhos conflitos nacionais. A linguagem elíptica do poeta se aproxima muito ao horizonte da capital, na forma mais abstrata — e juntar a abstração das formas concretas da arquitetura de Oscar Niemeyer com a abstração da linguagem de Chico Alvim é uma tentação quase irresistível”, argumenta Paniago.

O estudioso da UnB não tem certeza se Alvim é um dos poetas mais importantes da geração mimeógrafo, “até porque ele é dado a desimportâncias e não parece ligar muito para cânones”, mas, acrescenta Paniago, o autor é um dos mais interessantes, principalmente quando consegue sintetizar na escolha de frases cotidianas algumas das dimensões humanas mais problemáticas, aproximando a poesia de um jeito brasileiro de violência velada, de conflitos sociais mal disfarçados e de observação aguda do cotidiano.

Para exemplificar o que diz, Paniago cita alguns poemas de Alvim, entre os quais, “Arrependimento”, cujo único verso diz: “Eu não devia ter nascido”. Ou “Descartável”, também de verso único: “Vontade de me jogar fora”. “Acontecimento”, pela síntese de várias questões nacionais, é um dos preferidos do professor da UnB: “Quando estou distraído no semáforo / e me pedem esmola / me acontece agradecer”. Ele também menciona dois poemas de Alvim em que há inversão entre título e conteúdo: “Avaliar”: “Quem sou eu / para” e “A minha pessoa”: “Só tem / Serve?”.

“É uma poesia às vezes milimétrica, mas quanta contundência!”, analisa Paniago.


Francisco Alvim é, na opinião de Paulo Paniago, da UnB, autor de uma poesia brasiliense.

A vasta rede 

Se é difícil apontar um marco- -zero para a geração mimeógrafo, uma vez que durante os anos 1960 já havia alguma movimentação, a professora Débora Racy Soares, da UFLA, observa que, com a abertura política, durante a década de 1980, “o movimento parece ter perdido a força.” Os textos dos marginais passaram a ser editados, e distribuídos, comercialmente. A Editora Brasiliense publicou, entre outros, Passatempo e outros poemas (1981), de Francisco Alvim, e Drops de abril (1983), de Chacal — quase 30 anos depois, a Companhia das Letras publicaria reuniões de poemas de alguns autores daquele período, como Poesia completa (2013), de Paulo Leminski, Poética (2013), de Ana Cristina Cesar, e Poesia total (2014), de Waly Salomão.

Em 2013, Chico Alvim, Nicolas Behr e Zuca Sardana participaram da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Chacal é convidado para eventos literários realizados em diversos pontos do país, de modo que a geração mimeógrafo está, em alguma medida, assimilada. No entanto, quando o assunto é internet, como plataforma para difusão de textos, similar ao que acontecia com os textos mimeografados e distribuídos pelos marginais no passado, as opiniões se dividem.


De acordo com Chacal, a geração mimeógrafo queria, e conseguiu, estabelecer diálogo, entre outros, com a obra de Jimi Hendrix, Noel Rosa, Caetano Veloso e Bob Dylan.

“São contextos completamente distintos! Acho muito legal toda essa produção via redes sociais, mas não dá pra comparar”, opina Débora Racy Soares. Paulo Henriques Britto analisa que são dois fenômenos muito diferentes: “A geração marginal esteve visceralmente ligada ao contexto histórico, acima de tudo a ditadura e o flower power. Outros tempos, outro mundo.” Dialogando com Débora e Britto, Paulo Paniago acrescenta que a mudança de suporte, agora digital, e a consequente maior aproximação dos autores com o público não está gerando, como era possível acontecer nos anos 1960 e 1970, a noção do que, de acordo com Paniago, era bacana: de movimento coletivo, de grupo, “a ponto de se chamar de geração”.

Já o poeta e professor de literatura Diego Petrarca avalia que as plataformas digitais confirmam que a difusão da literatura vai, de fato, além dos livros impressos. “Os suportes de publicação dos poeta do anos 1970 eram baratos, por vezes precários e estavam fora de uma atuação de mercado. A internet potencializa isso com uma riqueza de recursos e sofisticação de formatos: livros, jornais, revistas, áudio e vídeo”, comenta Petrarca. Chacal também acredita que a internet “conversa” com os procedimentos de ação da geração mimeógrafo: “Pela anarquia, urgência, horizontalidade e ausência de hierarquia. Isso tudo é o nosso sonho acordando e dizendo: bom dia, vamos à luta!”


Flerte com a canção

A geração mimeógrafo foi formada, principalmente, por poetas que, além da poesia, também transitaram pela música, no caso, por meio da canção popular. José Carlos Capinam [foto] compôs, em parceria com Gilberto Gil e Torquato Neto, “Soy loco por ti, América!” — um clássico da Música Popular Brasileira. Waly Salomão é autor de canções presentes no imaginário da cultura brasileira, entre as quais “Vapor barato” — esta em parceria com Jards Macalé —, gravada, entre outros, por Gal Costa e O Rappa.

O poeta Diego Petrarca afirma que, durante a efervescência da geração mimeógrafo, havia uma necessidade de adequar a linguagem a meios de comunicação não necessariamente consagrados como o livro — a ideia era, também, obter um vínculo com suportes de veiculação de massa. “A poesia migou (já havia migrado) para a canção, para a comunicação, para o embate com o público”, diz.

Paulo Paniago, professor na UnB, acrescenta que, além da música, aquela geração também dialogou, num caso específico, com a ilustração: “Os poemas de Zuca Sardana ilustrados pelo próprio autor ganham nova leitura se lidos levandose em conta essa característica [a imagem].”



Um endereço da poesia viva no Rio


Desde 1990, um espaço carioca abre espaço para performances poéticas. É o CEP 20.000, dirigido na maior parte do tempo por Chacal, por onde passaram mais de 1 mil artistas em 25 anos — de Waly Salomão (1943-2003) a Gregorio Duvivier. Paulo Henriques Britto afirma que o “descendente” mais importante da geração mimeógrafo é o CEP 20.000. Chacal sabe da importância do espaço como legado daquela agitação que começou na década de 1970. “Pelo que tem de beat, marginal, físico, inclusivo, performático, multimídia. Isso tudo aprendi lá atrás com o rock, com o circo: a busca cega de uma expressão que enxergasse mais adiante, que se harmonizasse com o futuro do presente.”

O CEP 20.000 é realizado toda última quinta-feira de cada mês, a partir das 20h, no Espaço Cultural Sérgio Porto (R. Humaitá, 163, no bairro Humaitá, no Rio de Janeiro/ RJ).