Especial | Charles Bukowski

O escritor que abalou o sonho americano

A partir da própria experiência de vida, repleta de percalços e dificuldades, Charles Bukowski construiu uma obra marcada pela simplicidade da escrita e pelo conteúdo avesso aos valores da sociedade que o gerou


Luiz Rebinski
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Viver intensas jornadas etílicas e experiências boêmias é uma tática recorrente entre jovens que querem se tornar grandes escritores. As estatísticas são cruéis, mas um conseguiu: Charles Bukowski (1920-1994). 

O autor americano, nascido na Alemanha, é talvez o melhor exemplo de um pária social que transformou sua derrocada pessoal em matéria-prima para uma literatura original. Seu sucesso, em grande parte, deriva do fracasso. 

Fenômeno entre o público jovem de vários países, Bukowski é também um caso de sucesso no Brasil, país acostumado com baixos índices de leitura, principalmente — e mais grave — nas faixas etarias menores. Há 32 anos sua obra é publicada de forma ininterrupta pela editora gaúcha L&PM. Os dois primeiros livros saíram em 1983, Crônica de um amor louco e Fabulário geral do delírio cotidiano. Isso quer dizer que a literatura do autor já foi lida por várias gerações de leitores brasileiros. E ainda resiste bem. 

“Nos anos 1980, muito pouco se sabia dele. Eu diria que além de nós da editora, só uma meia dúzia de pessoas tinha ouvido falar em Bukowski. Eu o conheci na Itália, primeiro país em que fez sucesso fora dos Estados Unidos”, explica Ivan Pinheiro Machado, editor da L&PM. 
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Da esquerda para direita, o diretor italiano Marco Ferreri, o ator americano Ben Gazarra e Bukowski. Ferreri foi o diretor de Crônica de um amor louco, filme baseado em contos do autor americano.
 
Machado diz que Bukowski não chega a ser um best-seller, mas que tem “venda constante”. Outro fator que ajuda a manter o escritor em alta, diz o editor, é o formato de bolso em que seus livros costumam ser editados. “A coleção L&PM Pocket, por conta do preço, é mais acessível aos jovens, pú- blico que sempre se renova e o venera.” 

Bukowski era um rebelde. Sua trajetória errática, incluí sérios desentendimentos com o pai, desemprego, falta de perspectivas financeiras, alcoolismo e prisões. Mas, principalmente, o escritor era um contestador do mundo do qual fez parte, ou seja, a sociedade americana do século XX. Isso, certamente, explica o fascínio que Bukowski exerce sobre leitores jovens. 

“A irreverência e honestidade de Bukowski são recursos que atraem jovens leitores em todo o mundo. Ao contrário da maioria dos adultos, ele não aprendeu a ser um diplomata polido. Sempre foi um rebelde, e essa é a persona favorita dos jovens”, diz Howard Sounes, autor da biografia Charles Bukowski, vida e loucuras de um velho safado, publicada no Brasil pela editora Conrad e atualmente fora de catálogo.

O editor 

Charles Bukowski começou a escrever poemas e contos muito cedo. Ainda jovem publicou seus trabalhos em diversos jornais e revistas underground e chegou a ter uma coluna no periódico Open City, chamada “Notas de um velho safado”, que deu a ele alguma notoriedade. Mas seu primeiro livro solo, Flower, fist and bestial wail, uma coletânea de poesia, só chegou na maturidade, quando o escritor tinha 40 anos e, pelo menos, outras duas décadas dedicadas à escrita.

O ponto de virada na carreira do escritor se deu por acaso. John Martin, um homem comum que amava livros, leu a poesia de Bukowski em publicações marginais e se convenceu de que ele era o “novo” Walt Whitman. Martin então iniciou uma amizade com o escritor, que era tratado como ídolo pelo novo amigo. O homem se empolgou tanto que decidiu criar uma editora para publicar os trabalhos de Bukowski, até então muito dispersos em periódicos literários e livros de tiragens minúsculas. Para fazer a obra circular, Martin criou a Black Sparrow Press e propôs a Bukowski um salário de 100 dólares mensais para que largasse o emprego nos Correios e passasse a se dedicar exclusivamente à literatura.

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Bukowski ao lado do editor John Martin, que criou a Black Sparrow Press para editar e distribuir a obra do escritor. Martin não bebia, e a esse fato é creditado o bom relacionamento que teve durante mais de 30 anos com Bukowski, um beberrão que gostava de armar confusão.

Apesar de ser um contista com grande poder de síntese e de algumas de suas histórias curtas terem se tornado tão célebres quanto qualquer poema ou romance, foi com as narrativas mais longas que Bukowski deu outro passo à frente na carreira. 

“Quando Bukowski deixou o emprego nos Correios dos Estados Unidos, na metade da vida, sentiu que precisava tentar escrever um romance, na esperan- ça de ganhar algum dinheiro com literatura. Assim, surgiu Cartas na rua. A partir daí passou a escrever vários romances e mais histórias curtas”, explica Sounes. 

Cartas na rua, publicado em 1971, foi o primeiro de uma série de cinco romances que repassavam a vida e as fases de Henry Chinaski, o personagem que o escritor celebrizou em contos no início da carreira. Com uma linguagem acessível, que beirava a oralidade, Bukowski conquistou leitores no mundo inteiro e, no ano seguinte à publicação, o romance já estava traduzido em 15 países. 

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Bukowski ficou amplamente famoso por ser um beberrão — uma mosca de bar — e por basear muitas de suas histórias nas próprias experiências com álcool. Mas não se considerava um alcoólatra. Para o escritor, um homem produtivo como ele não poderia ser taxado de alcoólatra.
 
É na prosa de mais fôlego também que Bukowski burila sua escrita e afia o estilo de narrar em primeira pessoa, o que, diferentemente do que se pensa ainda hoje, é uma opção em que o fracasso quase sempre dá as caras. Mas com Bukowski isso funcionou. Fã declaro de Ernest Hemingway e John Fante, dois autores que primavam por um estilo mais simples, Bukowski conseguia passar credibilidade para sua voz narrativa, no caso o atormentado Henry Chinaski. Muito em função, claro, de sua própria experiência como funcionário dos Correios em Los Angeles, e das adversidades que viveu. 

No livro, o mundo do trabalho é brilhantemente retratado por um homem que consegue rir dos próprios reveses. Não há autocomiseração, e esse certamente é outro atrativo que mantém a prosa de Bukowski viva para leitores de outros tempos. 

Além da temática do trabalho, os romances, segundo o biógrafo Howard Sounes, são um bom termômetro para analisar outra característica marcante da obra de Charles Bukowski: a auto ficção. Ou, como o escritor “melhorou” sua vida na literatura que escreveu. “A diferença entre a vida e o trabalho é um dos temas principais do meu livro — onde eu analiso as histórias para ver o quanto são verdadeiras. Os contos e romances, normalmente, são uma ligeira distorção da realidade, geralmente, um exagero, mas isso não quer dizer que não são autênticos. Eles têm a sua própria verdade poética.” 

Os romances posteriores a Cartas na rua seguiram na mesma linha, com Bukowski alternando os temas conforme as fases da vida de Chinaski. Factotum (1975) é sobre subempregos; Mulheres (1978), baseado nos muitos casos amorosos que o escritor viveu; Misto quente (1982) retrata a infância do personagem; Hollywood (1989), uma sátira sobre o mundo do cinema; e Pulp (1994), publicado postumamente, o livro mais diferente de todos, uma novela de detetive. Em comum, há muito humor em todos eles, apesar das dificuldades enfrentadas por Chinaski. 
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Já na maturidade, quando começava a ficar famoso, Bukowski conheceu novos amigos. Um dos mais próximos foi o ator Sean Penn, que frequentava a casa do escritor em San Pedro, em Los Angeles.

Além do mito 

A literatura de Charles Bukowski também vai além daquilo que o lado festivo de seus contos e poemas pode sugerir. A retrato nonsense de um beberrão de meia-idade funciona bem como porta de entrada para os leitores, mas há outros atrativos na obra de Bukowski, como a linguagem. 

“O melhor dele é quando alcança o máximo de expressão com o mínimo de recursos. Ele tem senso de humor e humor negro. É um mestre da ironia, do sarcasmo. Bukowski promove uma confusão proposital entre poesia e prosa, trazendo sua vida — evidentemente algo fantasiada, ficcionalizada — para o texto”, explica Claúdio Willer, tradutor de As pessoas parecem flores finalmente, coletânea de poemas publicada este ano pela editora L&PM. 



O também tradutor Fernando Koproski lembra de outros aspectos da obra do escritor, muitas vezes negligenciados por leituras mais apressadas. “Acho cativantes as considerações sobre a natureza humana, a forma ríspida e lírica com que o ‘velho’ trata da desesperança, inquietude, considerações sobre o envelhecimento e morte”, diz Koproski, que já vertou para o português três coletâneas de poemas de Bukowski. O volume mais recente, Maldito Deus arrancando esses poemas de minha cabeça, recém-lançado pela editora 7Letras. 

A vida de trabalho duro que Bukowski experimentou muito cedo, logo após sair de casa pela primeira vez, em 1941, aos 21 anos, seria outra experiência importante para compor a obra do autor. Bukowski viveu, na prá- tica, o lado escuro do “american way of life”. Para ele, o modo de vida americano nunca foi realidade, e sua obra representa um contrapoto ao slogan. Ou, como o biógrafo Sounes prefere, “Bukowski peidou na cara do sonho americano”. “A sociedade americana é, de fato, estratificada, com uma distinta subclasse. O escritor nadou com essa subclasse.” 

O fato é que Bukowski pareceu sempre estar no lugar certo, na hora certa. Tudo, em sua trajetória mambembe, ajudou-o no final das contas. A infância infeliz, os dissabores amorosos, o álcool como combustível para encarar a vida e um inegável talento para escrever de forma compreensível e muito sincera fizeram dele um escritor original. “Ele é muito verdadeiro e sua temática incomoda porque mostra o lado obscuro da ‘grande sociedade americana’. Bukowski se ocupa dos desvalidos, das putas, dos bêbados, dos perdedores, daquela camada que o sistema expele e não gosta de mostrar. Ao fazer isso, ele cumpre seu papel. Mas ao mesmo tempo em que desnuda a violência do sistema, ele sabe ser lírico, poético e emocionante. Tudo isso porque ele é um gênio. ”, diz Ivan Pinheiro Machado.