Especial Capa: Província Universal

Entre retratar o espaço físico e decifrar o hábito dos locais, autores paranaenses elaboram uma literatura reconhecida por prêmios que desperta a atenção de leitores de variados pontos do país

Lucas Rufino


No Paraná, muitos escritores também parecem ter levado ao pé da letra a máxima de que “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” — cunhada pelo escritor russo Liev Tolstói. No Norte do Estado, por exemplo, é possível encontrar o registro da colonização, do crescimento e da urbanização daquela região em várias obras literárias. A começar por Terra vermelha (1998), de Domingos Pellegrini, um relato até certo ponto autobiográfico sobre a trajetória de uma família que se transfere do campo para a cidade.

“Em algumas das narrativas do escritor, a região pode ser considerada personagem. O projeto é ficcionalizar a constituição da região”, diz a professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Marilene Weinhardt. Para Naira de Almeida Nascimento, professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), é por meio da obra de Pellegrini que outro escritor paranaense, Miguel Sanches Neto, “percebe que a literatura poderia ser feita a partir de referências comuns, ou seja, do seu entorno”.

Em seu livros, Sanches Neto representa cidades do interior como a Peabiru de sua infância e juventude — vide Venho de um país obscuro (2000) e Chove sobre minha infância (2000). Outra cidade presente em sua obra é o município de Palmeira, retratada no romance Um amor anarquista (2005). Trata-se de um trabalho de pesquisa e ficção sobre um episódio que até hoje gera discussões no Estado — a Colônia Cecília, uma das primeiras tentativas, no Brasil, de se estabelecer uma comunidade anarquista, baseada no princípio do amor livre.

Além de Pellegrini e Sanches Neto, escritores com longa trajetória na literatura, outros autores paranaenses também ambientam suas narrativas no interior do Estado, a exemplo de Marco Aurélio Cremasco, autor de Santo reis da luz divina (2004), e Oscar Nakasato, vencedor do Prêmio Jabuti deste ano na categoria Romance com Nihonjin, obra que tem como pano de fundo a imigração japonesa no Norte do Paraná.

A mais literária do Brasil


Mais do que capital universitária, ecológica ou cidade sorriso, Curitiba é — na opinião do escritor Cristovão Tezza — a cidade mais literária do Brasil. Isso se deve, entre outros fatores, à tradição na publicação de suplementos literários como a revista Joaquim, editada por Dalton Trevisan na década de 1940, e o jornal Nicolau, conduzido por Wilson Bueno a partir dos anos 1980. Essas publicações abriram espaço em suas páginas para a produção nacional e local, o que fomentou a criação e o senso crítico de escritores nativos.

Autor, entre outros, dos romances Trapo, Uma noite em Curitiba e O fotógrafo, o premiado Tezza confessou, durante um debate recente sobre literatura e cidade, que a sua produção também é resultado de aspectos da vida e da sociedade curitibana. Do Carnaval realizado no Centro Cívico (nem tão animado como o que se festeja em Olinda e no Rio de Janeiro) à autofagia (aqui conhecida como a prática de falar mal do semelhante), passando pelo clima frio e inóspito durante boa parte do ano. “Diante de tanta adversidade”, observa Tezza, “Curitiba é uma cidade ideal para ficar dentro de casa lendo e escrevendo”.

Inevitável não citar Dalton Trevisan. O “Vampiro de Curitiba” é, desde a sua estreia oficial, em 1959, com o livro Novelas nada exemplares, um dos mais contundentes críticos da cidade, em especial daquela que ele mesmo chama de “para inglês ver”. “Em busca de Curitiba Perdida”, um de seus textos mais famosos, revela o repúdio à cidade do cartão postal e a preferência por ícones provincianos.

Manoel Carlos Karam, Valêncio Xavier, Wilson Bueno e Jamil Snege também problematizaram a urbe em suas obras. O curitibano Snege, morto em 2003, possui uma obra ainda não reeditada (e, portanto, inacessível para as gerações mais recentes), mas que segue ressoando devido à qualidade da linguagem e, principalmente, por causa da visão de mundo do autor. Mais do que descrever a paisagem, as ruas, as construções e outros objetos pontiagudos, o escritor — seja no romance autobiográfico Como eu se fiz por si mesmo (1994) ou na novela Viver é prejudicial à saúde (1998) — concentrou-se naquilo que, para ele, era o essencial: o jeito de ser dos locais.

No texto “Como tornar-se invisível em Curitiba”, também título de um livro, o autor argumenta que um curitibano talentoso será ignorado por todos os outros — ironia que utilizou para tratar da já citada autofagia, hoje um tanto diluída diante do crescimento da cidade e da chegada de gente de outros pontos do país e do planeta.

O escritor Luís Henrique Pellanda, finalista do prêmio Jabuti na categoria conto/crônica com o seu livro de crônicas, Nós passaremos em branco (2011), acredita ser necessário criar empatia com o leitor, para que esse misterioso interlocutor com quem o autor dialoga se sinta seguro sobre o que está lendo. Devido a tal crença, o autor incluiu um mapa de Curitiba em sua obra mais recente, o que funciona como uma guia que traz ruas, praças e locais citados no livro. “Quando eu coloco aquele mapa no final do livro, aumento a sensação de que o lugar, de fato, existe”, explica.