Especial Capa: Perspectivas de um outro olhar

A literatura escrita por mulheres conquista cada vez mais espaço no imaginário dos leitores, no mercado editorial e no meio literário, apesar de ainda haver predominância de homens produzindo e publicado ficção

Marcio Renato dos Santos


Há presença feminina na literatura — da mesma maneira como as mulheres estão nas redações de jornal, hospitais, agências de publicidade, plataformas de petróleo, canteiros de obras, palcos e outros espaços do mundo contemporâneo. Cíntia Moscovich, Clarah Averbuck, Livia Garcia-Roza, Elvira Vigna e Luisa Geisler são nomes que dividem holofotes em eventos literários e disputam prêmios, espaço em livrarias — e no imaginário dos leitores — com Reinaldo Moraes, Marçal Aquino, Sergio Sant'Anna, Michel Laub, Rubens Figueiredo e outros.

O fato é real, mas a denominação exige cautela. A coordenadora do programa de pós-graduação em estudos de literatura da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Tânia Pellegrini, afirma que — no que diz respeito a termos conceituais — é recomendável utilizar a expressão “literatura feita por mulheres”. “'Literatura feminina' ou 'literatura de mulheres' não são expressões recomendadas, porque contêm certo viés pejorativo, associado à expressão 'coisas de mulher'”, diz Tânia.

Ilustrações: André Ducci

A especialista da UFSCar comenta que o campo de estudos denominado “literatura feita por mulheres” desenvolveu-se no Brasil devido ao aumento gradativo do número de mulheres no mercado de trabalho e nas universidades. “Os movimentos internacionais de liberação feminina que aqui chegaram, em meados dos anos 1960, iniciaram a construção de um espaço de rebeldia onde já se podia discutir a 'condição feminina', tentando destruir o mito vigente da inferioridade natural da mulher”, argumenta a professora da UFSCar, que leciona literatura brasileira no curso de Letras.


De musa a sujeito

A professora da Universidade de Brasília (UnB) Cristina Maria Teixeira Stevens chama atenção para o fato que, ao passar a escrever, e mulher deixa de ser musa — e objeto — para se tornar sujeito das narrativas. No Brasil, a pioneira foi Nísia Floresta (1810-1885), autora de O modelo das donzelas (1847). Apenas em 1977, uma mulher — Rachel de Queiroz (1910-2003) — iria entrar na Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição fundada em 1897. O assunto ganha espaço entre aqueles que produzem dissertações e escrevem teses.

“Creio ser esta uma discussão muito mais acadêmica do que daqueles que fazem literatura”. A afirmação é da escritora Stella Florence, autora, entre outros, de Os indecentes (2011). Cíntia Moscovich também tem um ponto de vista semelhante ao de Stella. “Se há uma escrita ou literatura feminina, isso se discute há décadas. Desde que as mulheres passaram a votar, representar força de trabalho e começaram a mostrar sua produção ao mundo, surgiu a tal indagação, na verdade uma discussão nascida no seio da academia”, observa autora de Duas iguais (1998), Por que sou gorda, mamãe? (2006) e do recém-publicado Essa coisa brilhante que é a chuva (2012).

Estabelecer exatamente o que é, ou pode ser, a chamada literatura feita por mulheres é missão difícil. Há alguns anos, durante a temporada em que atuou no jornal Zero Hora, Cíntia realizou uma experiência que — mais do que respostas — revelou ainda mais dúvidas a respeito do tema. “Na primeira página do 'Segundo Caderno', colocamos trechos de vários autores, homens e mulheres, e pedimos aos leitores que identificassem quais textos eram de homens, quais de mulheres. Claro que todo mundo errou. Agora: se é verdade que a inserção cultural do indivíduo aparece naquilo que ele escreve, deve haver marcas do feminino e do masculino. Eu não sei bem quais são e nunca ninguém conseguiu me dizer”, comenta a escritora.














Clarice Lispector é um exemplo: escreveu literatura de alta qualidade, algo que não pode ser reduzido a nenhum rótulo como, por exemplo, “literatura feminina”.



Apenas literatura

A discussão rende. Suzi Frankl Sperber, professora do departamento de teoria literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), observa que os autores homens têm um olhar e um discurso que refletem os papéis sociais masculinos. “Como ao longo de milênios os homens ocuparam também o centro do poder, o discurso masculino poderá refletir este olhar, esta perspectiva, como pode, conforme o caso, refletir um olhar descentralizado, que se caracteriza por não abranger uma compreensão de totalidade do mundo descrito”, afirma Suzy.
A professora da Unicamp lembra de algumas palavras da escrita Adélia Prado, para quem não haveria literatura feminina e/ou masculina, “mas literatura de qualidade ou não”. “Paralelamente, não haveria literatura negra e branca, mas boa e ruim. Apesar de haver a repetida negação de algumas autoras de que não existe uma literatura feminina (a par das feministas, que afirmam a existência de uma literatura feminina), não podemos negar que os papéis sociais acabam marcando os discursos, assim como a temática e as perspectivas de mundo de autores”, diz Suzy. Para dar suporte ao discurso, a estudiosa da Unicamp cita Clarice Lispector: “Que não é uma autora de 'literatura feminina', mas simplesmente de literatura de alta categoria, e não deixa de apresentar em suas obras as perspectivas, o olhar decorrentes dos papéis sociais – domésticos, tantas vezes – femininos”.

Mapa das vozes recentes

A cena literária brasileira do início do século XXI foi marcada pela publicação de antologias que procuravam mapear as novas vozes. Em 2001, Geração 90: manuscritos de computador, coletânea organizada pelo escritor Nelson de Oliveira, apresentou autores como João Anzanello Carrascoza e Marçal Aquino — e destaque para a prosa inventiva de Cíntia Moscovich. Oliveira organizaria uma segunda antologia, Geração 90: os transgressores (2003), com espaço para Ademir Assunção, Altair Martins, André Sant'Anna, entre outros, e também para as autoras Ivana Arruda Leite, Luci Collin e Simone Campos.



Adélia Prado defende a ideia de que não há
literatura feminina ou masculina, mas, na realidade,
literatura de qualidade ou não.



As duas antologias provocaram tremores de terra, bastante pouca polêmica e, sobretudo, chamou atenção para a pouca presença de escritoras. Em seguida, Luiz Ruffato capitaneou duas outras antologias que traziam apenas vozes femininas: 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (2004) e + 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (2005). “Em nenhuma das duas antologias usei o adjetivo 'feminino'. Falei de escritoras que estão fazendo a nova literatura brasileira. Naquele momento acreditava que eram importantes as antologias. Creio que uma nova antologia hoje seria desnecessária”, diz Ruffato, que não acredita em literatura com adjetivo: “Literatura é literatura. Para mim não importa se o texto foi escrito por um homem ou por uma mulher, mas se ele me afeta ou não afeta”.

Tânia Pellegrini, da UFSCar, comemora, entre outras conquistas, que já se rompeu a oposição maniqueista reservada à mulher, antes retratada como anjo ou demônio ou apenas esposa ou amante. “Hoje, a mulher exibe uma imagem contraditória, com a pluralidade de faces de todo ser humano”, afirma a estudiosa. Outros ventos sopram, muito se passou desde que, ao invés de publicar, as mulheres tinham que esconder seus textos, pois eles eram considerados perigoso passatempo para donas-de-casa prestimosas ou “mocinhas casadoiras”. “As escritoras foram se dando conta de que têm formas próprias de 'ser' e 'estar no mundo' e isso alimenta até hoje sua literatura, finalmente concretizada como um espaço simbólico de representação de uma nova condição social para a mulher contemporânea, com desencontros, erros e acertos, num país e num mundo em acelerada e profunda transformação”, diz Tânia.



Stella Florence não acredita na existência
de uma literatura feminina — o que, se existisse,
implicaria em se estabelecer uma literatura masculina.
“O que existe são olhares diferentes. Cada escritor é um universo.”






Poeta ou poetisa?

Médico e médica. Aviador e aviadora. Candidato e candidata. Poeta e poetisa? Não. A denominação divide opiniões, e muitas mulheres que escrevem poesia não aceitam serem chamadas de poetistas, e sim de poetas. A professora Tânia Pellegrini, da UFSCar, tem explicação para o assunto: “Há algum tempo instalou-se a discussão a respeito dos dois termos, afirmando-se que usar 'poetisa' para mulheres que fazem poesia seria voltar atrás nas conquistas e direitos adquiridos pelas mulheres ao longo de séculos, pois o termo tem caráter pejorativo. Pensando tal afirmação em termos de história da língua, talvez esse suposto caráter esteja baseado na tradução do termo francês poétesse, que efetivamente significa aquele ou aquela que faz má poesia. Como se vê, trata-se de questão linguística que, como todas desse tipo, têm suas implicações históricas e culturais, e nas quais é difícil tomar partido, e que, na verdade, pouco significam. Nesse caso, os versos de 'Motivo', de Cecília Meireles, talvez também uma das fontes a alimentar a polêmica, encontraram só uma rima perfeita: ' Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa./Não sou alegre nem sou triste/sou poeta'.”