Especial Capa: Labirinto partido - Ensaio

A pós-doutora em Letras Maria Antonieta Pereira analisa a ruína das cidades latino-americanas que são problematizadas na ficção de autores argentinos, sobretudo no romance A cidade ausente, de Ricardo Piglia


Segundo Ángel Rama, a necessidade de organizar a colonização no continente latino-americano materializou-se na construção de cidades planejadas, as quais eram símbolo, resultado e reforço de uma concentração máxima de poder. Dessa forma, a sociedade pós-colombiana, diferentemente do mundo europeu, já se inicia num espaço urbano a partir do qual se promove o desenvolvimento das atividades agrárias. Como iniciativa de transculturação europeia, as cidades congregavam vice-reinados, tribunais da inquisição, universidades — toda uma estrutura de poder centralizador e letrado. Construído segundo a geometria de um tabuleiro de damas, esse núcleo urbano reservava sua praça central para os edifícios do poder: a igreja e o governo. Nesse centro do centro, com a finalidade de ordenar o mundo, atuavam aqueles que sabiam fazer uso da palavra escrita. No interior da cidade planejada havia, portanto, uma cidade letrada que, segundo Rama, compunha o anel protetor do poder, executando suas ordens. Outros anéis, formados por mestiços e ibéricos pobres, escravos e índios rodeavam esses intelectuais. Organizadas em círculos concêntricos, as cidades se pautavam pela palavra-chave da colonização — a ordem.

No mundo contemporâneo, a função ordenadora da cidade está desaparecendo. A agonia do espaço urbano se relaciona com diversos problemas — superpopulação, serviços precários, violência social, colapso dos sistemas de comunicação e transporte, questionamento dos poderes religioso e civil, presença de uma forte cultura da oralidade e da imagem etc. A metrópole constitui uma pólis fraturada por cruzamentos ininterruptos de idiomas, imagens e fatos que ameaçam e ressemantizam cotidianamente seu espaço e seu tempo. Essa cidade — cujo modelo de cultura letrada está entrando em colapso — tem perdido sua capacidade ordenadora.

Nesse contexto, o romance A cidade ausente, de Ricardo Piglia, desde seu título já indica que seu tema será a perda. Num momento no qual as culturas se cruzam e se destroem mutuamente, a cidade tematizada nesse relato constitui um espaço fragmentado e atópico, habitado por sujeitos incertos. Cidadãos cyborg deambulam por avenidas e subterrâneos, como corpos mecânicos que necessitam ansiosamente cruzar espaços, idiomas e algum afeto num tempo esquizofrênico e vazio. As citações excessivas de nomes de províncias, estações de metrô, praças, ruas, ilhas e subsolos compõem o mapa de uma cidade submersa numa avalanche de signos. A memória dos narradores se desloca nessa geografia como se fosse um mecanismo de computador — qualquer toque na tela altera o rastro das lembranças. Nesse romance, as descrições da periferia da cidade ou do pampa também estão sob um olhar urbano que nomeia sem cessar, para tentar reter na memória, a cidade que se esvai e que, paradoxalmente, continua sendo Buenos Aires, metonímia da Argentina.

No romance de Piglia, a cidade monstruosa, devoradora de seus próprios filhos, também é percebida como um corpo feminino ou uma ilha da utopia, especialmente quando é reconstruída como um grande hipertexto pela ficção de seus escritores, herdeiros dos museus literários dos antepassados. Sendo uma cidade invisível, imaginada, esse espaço urbano remete sem cessar a outras obras literárias, numa perspectiva reticular em que um nó da rede narrativa pode se abrir e dialogar com infinitas histórias. Nesse contexto, é possível perceber alguns interlocutores privilegiados do romance de Piglia, já que a cidade se disfarça no cenário do planeta Orbis Tertius (Borges), na fantasmagórica ilha de Finnegans (Joyce), no laboratório de meias finas de senhoras (Arlt). Contudo, embora retome uma riquíssima tradição literária argentina e europeia, A cidade ausente dialoga preferencialmente com o livro Museo de la novela de la eterna, de Macedonio Fernández.

Escrito por Macedonio como uma forma de preservar a memória de sua mulher Elena Obieta, morta muito jovem, Museo constitui uma obra-prima da literatura argentina na medida em que reinventa a narrativa romanesca, especialmente quando constrói personagens, autores e leitores que dialogam entre si, questionam-se mutuamente e trocam suas funções textuais, numa mesclagem inusitada que profetiza, e de certa forma já realiza, o “romance futuro”. Nesse contexto, metade da narração de Museo é dedicada a prólogos, nos quais se discute as inumeráveis implicações do literário. Nessa parte do livro, além dos textos dirigidos a seu próprio autor, a críticos, leitores e personagens, há uma saudação do romance ao leitor. Essa voz singular do próprio texto, que coloca em cena uma impossível autonomia em relação a seu autor, causa espanto e maravilha. Como se fosse um ser auto construído, a criatura se separa do criador, fala por si mesma, se expõe ao olhar que a lê e pensa com ele sobre a morte e o esquecimento, sobre a vida e o texto.

Dessa forma, A cidade ausente retoma a tortuosa e fantasmagórica forma de narrar do museu macedoniano. Sobre isso, numa entrevista feita com Piglia em julho de 1996, ouvi o seguinte: “Na primeira redação do romance, havia unicamente a história da máquina como uma invenção de um personagem estranho que se chamava Macedonio Fernández (...) numa segunda redação apareceu a ideia de que essa máquina era uma resposta a uma perda”. Girando em torno de uma máquina de tradução que, ao verter obras do cânone ocidental para a língua espanhola acaba por reescrevê-las, a narrativa de Piglia constrói uma rede de histórias que remetem umas às outras de forma quase infinita. Consideradas como traduções falsas, desordenadas, anárquicas, tais narrativas de fato constituem um amplo hipertexto, articulando-se entre si e desencadeando um processo alucinante de remissões mútuas, de fragmentação/recomposição de dados e eventos. À maneira de Dostoiévski, a máquina de narrar desenvolve um diálogo dos mortos como forma de resistir à desaparição de certa tradição cultural, da cidade e de suas histórias. Esse minotauro feminino, prisioneiro do labirinto urbano, ao invés de devorar cidadãos, alimenta-se de histórias antigas que Miguel Mac Kensey — argentino filho de ingleses também conhecido como Júnior — deve decifrar, preservar e divulgar.

Enquanto narrativa reticente e resistente, o relato de Piglia é uma forma replicante e alucinada que a cidade contemporânea encontra para falar de si mesma e de sua agonia. Assim, alguns elementos femininos do mundo atual — a cidade, a máquina, a mulher, a narrativa, a tradição cultural — desdobram-se em monstros-narradores, multiplicidades, seres artificiais, famílias literárias e linguagens isoladas em guetos étnico-políticos. Funcionando como um poderoso instrumento de releitura da tradição literária ocidental e argentina, o romance convida narrativas muito antigas a encetarem diálogos com os relatos de um presente atravessado pela revolução tecnológica da informática. Nesse rumo, uma das metáforas mais significativas do romance é o nódulo branco — local em que os códigos genético e verbal se cruzariam para gerar uma nova obra ficcional. Compostos por lembranças apócrifas, relatos inacabados e fragmentos narrativos, os nódulos brancos da obra se dobram e desdobram em infinitas histórias que se cruzam e se replicam sem cessar, desafiando o esquecimento, a morte e a censura do Estado ditatorial argentino. Nesse cenário, a narrativa retoma fragmentos de relatos do próprio Piglia e os articula num vasto hipertexto, a exemplo do conto “Encontro em Saint-Nazaire” que, no conjunto da obra do autor, funciona como um nódulo branco agregador das ideias-chave que, muitos anos depois, seriam retomadas em A cidade ausente.

A partir da análise do romance, percebemos que toda a obra do escritor argentino é basicamente hipertextual, formando redes de redes. O próprio romance em questão transforma-se em belíssima ópera, com música de Gandini, a qual é filmada e mais tarde veiculada sob a forma de vídeo.

Como uma Eva futura, a obra de Piglia dissemina o fruto proibido das versões apócrifas e das con-fabulações estético-políticas que permitem o surgimento das histórias silenciadas, dos relatos que foram vencidos nas lutas simbólicas travadas ao longo dos tempos e espaços de constituição do fenômeno literário.

Como o diário de um mundo que agoniza, mas que insiste em respirar ainda que artificialmente, a obra de Ricardo Piglia propõe outra forma de viver e narrar.

Maria Antonieta Pereira é pós-doutora em Literatura Comparada na Universidade de Buenos Aires e professora aposentada da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Vive em Contagem (MG).

Ilustração: Rafael Antón