Especial | 100 anos de A metamorfose

Kafka e o Brasil

Otto Maria Carpeaux, o primeiro crítico a escrever sobre Franz Kafka na imprensa brasileira, e Modesto Carone, que verteu diretamente do alemão para o português os livros do escritor tcheco, são nomes incontornáveis na difusão da obra do autor de O processo no país


Luiz Rebinski



Assim como a literatura que produziu, quase tudo que diz respeito a Franz Kafka é estranho. Ou, como Otto Maria Carpeaux escreve no célebre ensaio “Meus encontros com Kafka”, tudo em torno do autor é equívoco, dadas as diferentes — e por vezes contraditórias — visões que a literatura de Kafka pode sugerir. 

Mesmo sendo um dos maiores escritores de todos os tempos, Kafka viveu em um quase anonimato, com suas obras circulando de modo restrito enquanto o autor viveu — algumas delas, como os romances O processo e O castelo, foram publicadas postumamente. A ordem de Kafka para que o amigo Max Brod queimasse seus escritos após sua morte é mais um detalhe pitoresco em sua errática trajetória. 

No Brasil, a recepção da literatura do autor foi igualmente difusa e tardia. As primeiras traduções, ainda esparsas, são do final dos anos 1950. A primeira menção ao tcheco aparece em um ensaio de Carpeaux chamado “Kafka e o mundo invisível”, publicado em 1941, no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Esse texto seria incluído, no ano seguinte, na coletânea Cinzas do purgatório, um dos livros mais conhecidos do crítico austro-brasileiro. 

Em 1952, Sérgio Buarque aprofunda o debate sobre o tcheco em Kafkiana, um ensaio publicado nas páginas do Diário Carioca e nunca reunido em livro. Mas foi só 15 anos após o ensaio inaugural de Carpeaux sobre Kafka na imprensa nacional, em 1956, que a primeira tradução em português de um livro do autor é publicada no país. 

A metamorfose surge no Rio de Janeiro, viabilizada pela editora Civilização Brasileira, em tradução de Brenno Silveira. “A partir dos anos 1960 e 1970, surgem a par de interpretações biográficas e proféticas também textos mais extensos e profundos de expoentes intelectuais que abrem outros caminhos de acesso à obra de Kafka”, diz Celeste Ribeiro de Sousa, professora da Universidade de São Paulo (USP). 

Doutora em literatura alemã, Celeste cita o trabalho de Anatol Rosenfeld como outro marco nos estudos da obra kafkiana no país. “Em Doze estudos, de 1959, Rosenfeld chama a atenção para as mil e uma interpretações extraliterárias — biográficas, psicanalíticas, médicas, surrealistas, religiosas, existencialistas, histórico-políticas, judaicas, psicossociais — que, até então, vinham sendo feitas no exterior, e dá notícia da urgência de se voltar a crítica para abordagens estéticas, para análises textuais.” 

Segundo o tradutor e romancista Marcelo Backes, a recepção da obra de Kafka não foi lenta apenas no Brasil. Após a morte do autor, em 1924, houve traduções isoladas em várias línguas (em francês, em 1928, e em castelhano, em 1938, por exemplo), mas é só após os anos 1960 que tanto as traduções quanto a fortuna crítica do escritor ganham impulso no mundo. 

“Mesmo na Alemanha, a cuja literatura o tcheco Franz Kafka pertence, só se passou a estudar de verdade sua obra depois da Segunda Guerra Mundial, talvez com afinco e dedicação apenas na década de 1960. É óbvio que vários autores e críticos já percebiam sua importância, mas o eco em massa, e mesmo acadêmico, se faria notar apenas mais tarde”, diz Backes, que já verteu para o português livros como A metamorfose e Carta ao pai. 

No Brasil, é consenso, a obra de Kafka ganha maior dimensão e impacto a partir das traduções e estudos de Modesto Carone, realizadas, em sua maioria, nos anos 1980. O salto se dá não apenas por conta da habilidade e conhecimento do tradutor, mas em grande parte, também, porque Carone verte as obras diretamente da língua original, o alemão, o que até então não acontecia. 

Reprodução                                              Divulgação / Adriana Vichi

Otto Maria Carpeaux, que conheceu pessoalmente Kafka no início do século XX, inaugurou a crítica sobre o autor no Brasil. Modesto Carone, por sua vez, aprofundou os estudos sobre o escritor com traduções, ensaios e conferências na universidade

“A objetividade seca e a precisão límpida do léxico cartorial, dentro dos limites de qualquer processo tradutório, foram resgatadas por Carone, que também é advogado. Kafka trabalhava em uma companhia de seguros, ocupando-se com a elaboração de relatórios ligados a sinistros. Modesto Carone não apenas conhece profundamente o idioma alemão e a obra de Kafka como também domina o dito jargão e é ele mesmo escritor reconhecido”, explica Celeste Ribeiro de Sousa, que foi aluna de Carone no final dos anos 1960. 

Influência 

É famosa a frase de Carlos Drummond de Andrade sobre a onda kafkiana que abateu a cena literária brasileira: “Franz Kafka, escritor tcheco, imitador de certos escritores brasileiros”. Ironia à parte, nem mesmo o poeta escapou da poderosa influência do autor de O processo. Drummond publicou pelo menos dois poemas em que o impacto de Kafka é evidente: “K” e “Áporo”. 

Entre os incontáveis trabalhos acadêmicos sobre o tcheco em nossas universidades, alguns relacionam Kafka a dois autores nacionais: Murilo Rubião e Clarice Lispector. O primeiro pela ocorrência do fantástico em seus contos (K. no Brasil: Kafka, Murilo Rubião e Aníbal Machado, tese de Manuela Ribeiro Barbosa — UFMG ); já Clarice aparece como uma kafkiana pelos textos com alta voltagem de angustia e opressão (Clarice Lispector e Franz Kafka: trilhas e vislumbres, tese de Marcia Regina Cândido Otto Adam — UFSC). 

Mas por conta da grande originalidade de sua obra, Kafka é um autor difícil de emular e sua influência em outros escritores — ou geração — seja menos perceptível. “Todos os que lemos Kafka fomos e continuamos a ser impactados por ele. Não diria que é a experiência de uma geração específica. Kafka é um autor para todos os tempos. Os elos são sempre um tanto forçados. O que caracteriza a grande literatura é a singularidade”, diz José Castello, que não vê conexões entre as obras de Kafka e Clarice. “A simples tendência à introspecção não traça, a meu ver, nenhum elo entre os dois autores.” 

Mais evidente é a presença de Kafka — e sua obra, por consequência — como personagem na literatura brasileira. Os exemplos são vários. Moacyr Scliar escreveu Os leopardos de Kafka, romance de nuances históricas sobre um revolucionário russo que encontra Kafka de modo acidental em 1916, na eminência da Revolução Bolchevique. 

Em A copista de Kafka, o paranaense Wilson Bueno transformou em ficção a relação entre Kafka e sua noiva, Felice Bauer. Jair Ferreira dos Santos escreveu um livro de contos chamado Kafka na cama, título que deriva de uma das histórias de coletânea, “De tarde, Kafka, na cama”, uma narrativa sobre relacionamentos. Já o baiano Mayrant Gallo mergulha no universo do autor de A metamorfose para contar a história de um homem que, ao se deparar com um inédito de Kafka, sofre com acontecimentos inexplicáveis. 

Para a professora Celeste Ribeiro Sousa, da USP, essas publicações são exemplos da atualidade da obra de Kafka. “Os medos, as angústias, a ansiedade, o estranhamento, o vácuo, a falta de sentido existencial — tormentos do homem hodierno — estão presentes e configurados nos textos de Kafka. O modo ‘realista’ como essa ‘atualidade’ está registrada também permanece muito moderna.