Especial | 100 anos de A metamorfose

Kafka e a Culpa

O professor Flávio R. Kothe, da Universidade de Brasília, discute a questão da culpa, tema que considera o mais importante na produção de Franz Kafka

Ilustrações: André Calliman

Cerne da produção literária e jurídica de Kafka é a questão da culpa. Esse é um modo de apreender conceitualmente a conformação da coluna vertebral de sua obra, mas esta esconde em seu interior algo que é um enigma, que se apresenta, mas não se expõe. Trata-se, portanto, de uma rede que se estende sobre a obra para enquadrá-la, mas ela escapa a esses fios, como que escorrega por dentro deles. Onde o discurso jurídico, preso ao direito positivo, tem seus limites, começa o espaço da ficção, que tende a ir tanto mais longe quanto melhor o escritor, podendo dizer e sugerir o que o jurista e o teólogo não ousam formular. 


A “culpa” não é apenas cerne de Kafka, mas cerne de todo o Direito, de toda moral, de toda administração pública. Ela é um desdobramento do poder, da responsabilidade pessoal, das relações humanas. Faz parte de nosso agir diário, fundamenta nossos comportamentos, dá e retira lastro a governos. Cada classe, cada agrupamento político, cada época, cada meio, tem, porém, o seu conjunto próprio de valores. Nunca há apenas um sistema de valores: há os predominantes e há os dominados. 

Para Kafka, o que prepondera não é, porém, o que se pressupõe no Estado de Direito, a letra escrita das leis promulgadas: há leis secretas, e toda lei permite mais de uma interpretação, há interpretações secretas de leis secretas. Estas são as que realmente valem. Não há transparência. Mais ainda quando se crê que ela impera. O transparente é o que menos se enxerga. A lei secreta dominante é a de manter e preservar o que ele chama de “aristocracia”, uma oligarquia que domina a sociedade e cuja norma suprema é a autopreservação. 

A contrapartida da culpa e da punição é a seleção e a premiação. Quando Freud examinou a questão que ele chamou “Daqueles que fracassam no êxito”, ele tratou, sobretudo, de pessoas que ficam infelizes e frustradas ao conseguirem algo pelo qual elas lutaram muito, como se não fossem merecedoras do sucesso. É como se o sujeito tivesse um inimigo interno, como se o sujeito fosse sujeitado a alguém que não é ele. 

A questão não se esgota, porém, na frustração com o próprio sucesso: muitos se antecipam a isso e sabotam de antemão suas possibilidades de sucesso: antes de terem sucesso, não chegam a ele, pois se condenam a priori, como se não merecessem o sucesso potencial. 

Seja ficando infeliz por ter conseguido algo que o sujeito no fundo crê não merecer, seja se tornando infeliz se impedindo de conseguir algo que o sujeito deseja, o que se coloca é a questão da culpa. Daí surge inclusive a variante, de que o sujeito é feliz por sofrer: o masoquismo. A felicidade está aí na infelicidade, traço marcante no amor cristão. 

Esse é um tema recorrente não só na lírica de Petrarca — a amada que só se pode ter como sonho, que só pode ser amada porque não vive mais — como já estava na proposta de Diotima, no Simpósio de Platão, em que o grande amor é proposto a um ente que é um ser que não existe — a beleza pura, o amor absoluto — e que como tal é a negação de todos os amores reais, possíveis, que se tornam negativos. 

Isso foi assumido no catolicismo com a ressurreição da deusa egípcia Ísis na figura da Virgem Maria, sendo o culto mariano uma busca de opção pelo amor puro e absoluto. Como ele ocorre num mundo relativo, ele se relativiza, sendo em geral uma falta de maturidade, um complexo edipiano mal resolvido. 

Que o grande amor seja aquele “que me traiu e que me abandonou” é uma versão popular — recorrente no cancioneiro popular, na música sertaneja e no cânone literário brasileiro — desse mesmo paradigma metafísico. Na Idade Média, tratou-se de propor a felicidade como somente possível no post- -mortem, enquanto a vida na Terra foi reduzida a uma peregrinação por um vale de lágrimas. 

Em Kafka há o choque e a elaboração do confronto entre três paradigmas metafísicos: o grego, o judaico e o cristão. Esse choque é central no pensamento ocidental, ainda que o ocidente tenha suposto que absorveu a contribuição do Antigo Testamento ao se propor como um pensamento baseado na Bíblia. Há, porém, contrastes fundamentais entre o Antigo e Novo Testamento, especialmente na dimensão ética e do sentido da história. A destruição da arte grega pelos cristãos, as perseguições aos judeus e o próprio racismo judaico são manifestações históricas desse choque fundamental. Ele se desdobra hoje novamente no choque entre mundo cristão e muçulmano. Nisso se mede a relevância e talvez a limitação de Kafka. 


A obra de Kafka pode ser dividida em alguns blocos formais: os três grandes romances (América, O processo, O castelo), os contos maiores (A metamorfose, A colônia penal, etc.), os contos curtos, os aforismos, as cartas e os diários. Eles formam uma constelação aberta, com diversos cruzamentos internos, em que cada parte ilumina e, ao mesmo tempo, retoma e modifica algo formulado em outro lugar. Por isso, querer um cerne que explique tudo, uma forma geométrica de expressão matemática, é um modo inadequado, embora habitual, de tentar “resolver” sua obra. 

Muitas tiranias 

Quando Gregor Samsa acorda pela manhã, descobre que ele havia se convertido num bicho, num monstruoso inseto (Ungeziefer, não uma barata, Kakerlack). Quando se considera o modo como ele era tratado em casa e no emprego, vê-se que ele já era um inseto antes de se tornar um inseto. Ele assumir a forma de um inseto com todo o discernimento humano — uma figura contrária à antropomorfização, uma animalização, mas com o mesmo efeito de estranhamento — ele chega a um nível mais elevado de consciência de si mesmo e de sua circunstância. Ele é mais gente sendo inseto do que enquanto era gente. 

“Na colônia penal” há um aparelho singular, monstruoso, que inscreve na carne do condenado a sua sentença, para que ele nunca mais se esqueça do que fez. É uma variante da lei que mandava cortar a mão de quem roubasse e a cabeça de quem matasse. Não se discute mais se a sentença é correta ou não: apenas se cumpre a sentença oriunda de instância considerada mais alta. A culminância se dá no fim, quando o carrasco descobre que ele mesmo deveria ser punido. Ele próprio se executa. Nietzsche havia registrado que os penitentes que se autoflagelam pelos seus supostos pecados sentiam dor, o que os levava a querer parar, mas havia neles uma vontade mais forte que essa vontade de parar. Tem-se aí uma sensação de vitória enquanto o sujeito se destrói. 

Quando se propõe a questão da culpa, junto vem o conceito de lei, de poder, de responsabilidade, até de vingança, ainda que se disfarce em termos de “justiça”. Está se propondo, portanto, a noção de “culpa” como um catalisador, a colocar em movimento outros elementos. A relação primeira de poder se dá entre pai e filho. A famosa “Carta ao pai” (Brief an den Vater) já foi traduzida, erroneamente, por “Carta ao meu pai”. Se ela fosse apenas uma carta de Franz ao pai dele, seria um texto privado, de sentido biográfico. Ela tem sido tomada como ponto de acesso à obra de Kafka. Essa disposição se deve muito à leitura freudiana, sem que o próprio Freud tenha escrito sobre ele. 

O tema subjacente aí é, portanto, o complexo de Édipo, visto como cerne do inconsciente por Freud, sendo a carta um esforço do filho em enfrentar o pai e conseguir superá-lo, dentro da tese psicanalítica de que todo pai é um tirano e o filho precisaria enfrentá-lo para amadurecer, para se tornar um adulto. A postura é, portanto, de antemão a favor do filho e contra o pai. Conforme cita Modesto Carone: “O pai — diz Benjamin — é a figura que pune. A culpa o atrai, como atrai os funcionários da Justiça. Há muitos indícios de que o mundo dos funcionários e o mundo dos pais são idênticos em Kafka. Essa semelhança não os honra. Ela é feita de estupidez, degradação e imundície”. 

A eterna figura que pune 

Machado de Assis, numa crônica à época da transição da monarquia à república, anotou, em alemão para ninguém entender, que não importava no Brasil muito que se tivesse uma monarquia constitucional ou não, pois o que existia era uma oligarquia absoluta. Esta é uma aristocracia. Outro nome dela seria hoje plutocracia, ainda que se diga que democracia representativa. Os representantes do povo são plutocratizados e fazem o governo que for da conveniência do enriquecimento de poucos pelo trabalho de muitos. Kafka sente o impasse e se pergunta quem ousaria se deixar guiar pela lei de aniquilar a aristocracia, como de fato estava acontecendo à época dele com a derrubada da monarquia austro-húngara, a criação da República de Weimar, a revolução soviética de 1917. 

Por que o pai tem de ser sempre e somente a figura que pune? Por que a burocracia tem de ser a extensão de um poder que somente e sempre ameaça, degrada e pune? Não existe aí uma simplificação? Há pai que é autoritário, prepotente, punitivo, capaz de machucar ferozmente o filho pequeno, mais ainda quando está bêbado ou drogado, mas nem todo pai é sempre assim. O governo pode ser uma tirania, a prepotência instituída, mas pode ser também um modo de organizar os recursos coletivos para benefício e bem estar da maioria. 

Em suma, é preciso reexaminar os pressupostos inconscientes que ditam o que aí se realiza na ficção. Não se quer dizer com isso que o pai de Franz Kafka não tivesse sido um tipo prepotente, mesmo brutal, menos ainda se quer dizer que o escritor não tivesse prenunciado, com fina sensibilidade, o que ia, no início do século XX, se configurando em sua região com os regimes ditatoriais que se instalaram com o fascismo, o nazismo e o stalinismo, mas que estavam já contidos no controle exercido pela monarquia vienense e alemã sobre as províncias. 

Se o pai e a autoridade são reduzidos a figuras tirânicas, quem aparece como vítima é o filho, o cidadão bonzinho. Subjacente a essa solidariedade se tem um sujeito que não conseguiu ainda superar o seu próprio “complexo” e precisa relembrar no alter-ego o seu próprio período heroico de enfrentamento. Será que o pai é, porém, sempre um tirano? Será que essa divisão entre bem e mal não é também um mal, por mais que ela faça bem ao inverter a noção habitual de que a autoridade, paterna, eclesial ou estatal, representaria o bem, ficando a oposição como sendo o mal?

Ele é cristão 

Se em Kafka prepondera de modo marcante a figura paterna e governamental como tirânica, está ele sendo nisso cristão ou judeu? No cristianismo, o Pai só tem um filho, a contragosto, pois não é mulherengo como Zeus, para que seja torturado e morto, para corrigir os erros que ele próprio fez ao criar o homem. O filho se deixa matar e, com isso, consegue tomar o lugar do Pai como deus principal, inaugurando a era cristã, a do predomínio do filho. O filho obedece à vontade do pai. Nesse sentido, Kafka é cristão. O cristianismo interpreta o filicídio como um sacrifício que o pai faz para salvar a humanidade. Não vê, portanto, no Pai uma figura perversa, que não deveria ser adorado como um deus e sim execrado. Embora seja considerado um ente inteligente, até mesmo onisciente, ele não consegue prever que o homem que ele cria se tornaria a desgraça que todos sabem ser nem é capaz de encontrar nenhuma solução melhor do que, primeiro, um dilúvio mal feito, em que sobra gente de chega para repovoar a Terra e, depois, achar que a morte de um filho seria o modo de redimir a humanidade inteira. 

Kafka não viveu do que escreveu como literato. Sobreviveu do que escreveu como jurista. Se tivesse sobrevivido, teria direito a uma fortuna em direitos autorais, muito mais do que o seu pai ganhou com o comércio. Talvez assim o seu pai o respeitasse. Uma primeira edição de Kafka feita em vida, com 800 exemplares, não vendeu nada. A nós resta um escritor de tal qualidade que, passados mais de 90 anos de sua morte, ainda podemos retomar com imenso interesse uma obra que sobrevive, não por ser testemunho de um lugar ou de uma época, e sim por sua qualidade literária, por sua capacidade de configurar de modo concreto, em palavras, enigmas que continuam sendo significativos para nós e que escapam à tentativa de apreendê-los e resolvê-los nas malhas conceituais. 

O fracasso da teoria é o êxito da obra. 

Flávio René Kothe nasceu em Santa Cruz do Sul (RS). É professor de Estética na Universidade de Brasília (UnB). Vive em Brasília (DF).