Especial | 100 anos de A metamorfose

A força de um mito moderno

Publicado em outubro de 1915, A metamorfose, ficção de Franz Kafka, traduz alguns dos impasses do homem contemporâneo, que é diferente mas precisa parecer igual a todos, a transformação constante e a falta de controle que o indivíduo tem sobre a própria vida


Marcio Renato dos Santos
Foto: Reprodução


O fato de um autor ter o seu nome, ou sobrenome, utilizado como adjetivo é sinal — inequívoco — de alguma popularidade. Franz Kafka (1883-1924), por exemplo, deixou um legado literário — escrito em língua alemã — cada vez mais valorizado. Kafkiano é um adjetivo, de acordo com o senso comum, relacionado à falta de sentido e/ou incompreensão. Mas o professor da Universidade de São Paulo (USP) Daniel Puglia observa que a expressão pode ter muitos significados. 

“O termo kafkiano, pelo uso contínuo, se banalizou, e é utilizado, muita vezes, em situações simplificadas. Kafkiano pode significar alienação na vida familiar, no trabalho, em relação às instâncias de poder, ao labirinto da burocracia. No entanto, tais labirintos são apenas o começo de um novelo”, diz. 

O professor da USP afirma que o adjetivo kafkiano demonstra o profundo impacto que a vida moderna tem em situações cotidianas que, na maior parte dos casos, escapam de qualquer controle. E essas reflexões têm como ponto de partida um dos mais cultuados textos de ficção do autor tcheco, A metamorfose — escrito em 20 dias, entre 17 de novembro e 7 de dezembro de 1912, e publicado originalmente nas páginas da revista Die weissen Blätter em outubro de 1915. 

Nesses 100 anos, A metamorfose se consolidou como um dos marcos da literatura mundial e a potência da ficção de Kafka fica evidente já na frase de abertura — a tradução é de Modesto Carone: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

Becos sem saída 

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Gerson Roberto Neumann analisa que kafkiano está relacionado a “becos sem saída”. “E quando se instaura um cenário, do qual não se consegue sair, é dar de cara na porta, nas muitas portas que as narrativas de Kafka abrem”, teoriza. Para exemplificar o que diz, Neumann cita o tema que, para ele, mais se destaca em A metamorfose: “A relação humana com a transformação”. 

“No momento em que você muda e deixa de ser quem era, as pessoas, geralmente as mais próximas, te abandonam. Mas não mudamos a cada instante? Além disso, é importante observar como uma transformação pode levar a um isolamento e este, por sua vez, a uma perda de tudo que se tem. É muito fácil perder tudo”, comenta o estudioso da UFRGS. 

Após acordar transformado em um inseto monstruoso, o protagonista de A metamorfose enfrenta turbulências no relacionamento familiar e profissional — e perde tudo o que possuía anteriormente. “Acho que é importante ressaltar justamente as consequências que podem causar as metamorfoses que se dão em nós todos os dias e como isso pode ser sentido e percebido”, completa Neumann. 


Kafka em todo o mundo: edições de A metamorfose em português, alemão e inglês.

Ensaio sobre a puberdade 

O professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Paulo Soethe acredita que A metamorfose é um texto literário a respeito da puberdade, e sobre a puberdade como condição moderna por excelência. “O que mais impressiona neste texto de Kafka é a abertura de significados que se dá quando se lança sobre ele a chave de leitura da puberdade. Basta atentar para os detalhes sobre a transformação do corpo de Gregor: pernas longas demais e descontroladas, variação da voz que de repente se ouve como um chiado fino, a mancha branca e viscosa que se acha sobre a barriga repentinamente enrijecida pela musculatura”, diz. 

A metamorfose, argumenta Soethe, propõe um enigma para falar do enigma da própria condição absurda vivida pelo protagonista, que, no entendimento do professor da UFPR, de absurdo não tem nada: “A situação de Gregor Samsa é prosaica, banal e sua grande ‘transformação’, se lida sob um regime prosaico — sem interpretações simbólicas e lentes mirabolantes — é uma mescla de puberdade tardia com estado depressivo, um estado de impossibilidade de exercício da vida privada em um ambiente burguês, repressor, marcado por expectativas utilitaristas e falta de lealdade por parte da família.” 

Soethe conta que uma de suas experiências de maior intensidade como professor de literatura foi ler A metamorfose com alunos do ensino médio e ter vivenciado a recepção e fruição do texto. “Em especial, os meninos em plena adolescência, a partir de algumas poucas indicações sobre elementos do texto que lhes permitiam a identificação irônica e autocrítica com o pobre e atrapalhado Gregor Samsa, ainda mais sob a paralelização de ‘Samsa’ e ‘Kafka’ [é praticamente o mesmo nome] no quadro negro, que parecia lhes dizer: ‘Sim, pensem em vocês mesmos, esqueçam os dogmas da teoria literária e mergulhem nesse turbilhão de vida e reflexão sobre o corpo, a linguagem e a sociedade contemporânea’.” 

Singularidade de todos 

Já o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Lourival Holanda diz que A metamorfose evidencia a estranheza de cada ser humano em meio a um sistema que tende a homogeneizar todos. “Cada qual se sabe, quando a sós, um bicho estranho — e que só se é social à força de mutilação de si. Esse texto de Kafka traz o escândalo da singularidade num modo cru da alegoria animal”, afirma Holanda, atualmente à frente da editora da UFPE. 

Holanda observa que, não apenas neste texto que completa 100 anos de publicação, mas toda a obra de Franz Kafka problematiza a singularidade humana. Mas, na opinião do pesquisador, em A metamorfose a questão é acentuada: fora do trabalho, fora da rotina protetora, Gregor Samsa se sente “a mais”, sobrando, inassimilável, portanto: monstruoso. 

A passagem do tempo, argumenta Holanda, foi ajudando a ver, “evidenciando mesmo”, a realidade a que Kafka faz menção: “Em minha geração, o sem sentido, o nonsense, era ainda um escândalo, um teorema filosófico. Hoje, já não causa impacto: convive-se mais facilmente com a desrazão das coisas. Os mais jovens leem um Kafka mais próximo [deles].”

“Apenas” um conto? 

A metamorfose não é, de jeito nenhum, um romance. A afirmação é de Paulo Soethe. “O enredo é muito simples, o texto muito breve, as personagens e relações entre elas pouco complexas e circunscritas demais”, afirma. Para Soethe, seria possível classificar o texto como uma novela: “Há um evento inusitado, em torno de um grupo restrito de personagens, com unidade temporal e desdobramentos ágeis e contínuos da ação, em direção a um clímax bastante definido”. 

No entanto, explica o professor da UFPR, o texto é considerado, de acordo com a tradição alemã, uma erzählung, ou seja, uma “narrativa curta”. “Consideravelmente mais longa e diversificada que um conto, em suas linhas narrativas, e descomprometida com a tradição novelística propriamente dita, linear, centrada na ação em si mesma e preocupada em manter o leitor cativo sob a expectativa da solução de uma trama”, diz Soethe.

Gerson Roberto Neumann, da UFRGS, considera A metamorfose um conto longo e, levando em conta este ponto de vista e a observação de Paulo Soethe, para quem o texto é uma “narrativa curta mais longa e diversificada que um conto”, a ficção de Kafka protagonizada por Gregor Samsa, de fato, traz um aspecto que os contos considerados magistrais possuem: foco nos detalhes. 

Daniel Puglia, da USP, considera que a espantosa genialidade da obra de Kafka tem relação direta com o acúmulo de detalhes que o autor incluiu em sequência nos textos literários que escreveu: “Não importa quantas vezes você tenha lido uma obra dele. Quem relê, se surpreende. Em A metamorfose, Kafka descreve com precisão o mofo do quarto de Gregor Samsa ou o raio de sol que atinge a família no fim do livro, depois da morte do protagonista. Os detalhes nunca estão sobrando. Parece uma obra perfeita. Tudo tem funcionamento.”

Questionado se A metamorfose é um conto ou uma narrativa um pouco mais extensa, quem sabe até uma novela?, Lourival Holanda, da UFPE, afirma: “A indistinção de gênero é talvez o que distingue nosso tempo.” Para ele, o texto evidencia o que há de instável e precário na arte moderna. “Kafka sussurra — mas, quem escuta, em meio ao barulho ensurdecedor dos anúncios de toda ordem e publicidades estridentes?”, questiona Holanda.

Direto no alvo 

Daniel Puglia chama a atenção para a linguagem clara, direta e de fácil compreensão utilizada pelo escritor. “Kafka tinha um compromisso de investigar a razão humana e compartilhar as suas inquietações com os outros. O texto é simples, mas nunca simplório. Ele tem o que dizer o tempo todo. De repente, surge uma frase, algo inusitado, uma virada de perspectiva narrativa, e é nessa ‘coreografia’ que se faz uma prosa inimitável”, comenta o professor da USP.

Lourival Holanda observa que o vocabulário de Kafka é desconcertantemente pobre, por exemplo, comparado com o de um Honoré de Balzac. “Mas como Kafka foi mais fundo!”, acrescenta. 

“Depois de Kafka, literariamente falando, o que se pode fazer?”, pergunta Daniel Puglia. “Ele atingiu os limites da narrativa de ficção. Com uma linguagem jurídica, sem deixar dúvidas a respeito do que está enunciando, Kafka passa por todo o espectro das emoções humanas. Melancólico, também é engraçado e tem um humor aterrorizante”, define o uspiano. 

Alguns autores, comenta Lourival Holanda, se não definiram, inauguraram a sensibilidade do contemporâneo. É o caso de Franz Kafka: “Ele deu à alegoria a força do mito: que perdura e se modifica. W. H. Auden diz bem: Kafka espelha o lado sombrio desse tempo nosso. Creio que, por isso, tem a força de um mito moderno.”