Escolhas do tempo presente

O professor de Literatura Brasileira do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Gustavo Silveira Ribeiro é um atento leitor da literatura contemporânea, e também dos livros que se tornaram referência e clássicos literários. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ribeiro analisa, nesta entrevista concedida ao Cândido, a transformação pela qual os personagens passaram em tempos recentes


Marcio Renato dos Santos



É possível fazer literatura sem personagens fortes? Sim, é possível fazer literatura, boa literatura, sem personagens que se possa qualificar como fortes e complexos.

O sentido que damos hoje ao termo personagem está associado a uma caracterização vertical, de corte psicológico e moral bem delimitado, de indivíduos que, apresentados de modo minucioso, revelam densidade e autonomia. No entanto, nem sempre foi assim. Todo um enorme conjunto de textos da Antiguidade e do mundo medieval não podem ser compreendidos a partir dessa exigência. O significado originário, a referência etimológica do termo “personagem” nos ajuda a ver isso: persona, termo latino de onde deriva o vocábulo atual, guarda a memória da palavra grega para máscara — artefato utilizado no teatro para caracterizar, de modo convencional, as expressões e os afetos dos atores. Logo, personagem nem sempre indicou um indivíduo único e irrepetível, mas uma função, um lugar convencional a ser ocupado por sujeitos que representassem, de modo sintético, pessoas de uma determinada classe ou condição social (como ocorre nas comédias da Antiguidade Clássica, por exemplo) ou personagens alegóricos, que figuram a própria condição humana (como o caso do próprio Dante Alighieri, protagonista da Divina comédia). Se pensarmos historicamente, veremos que a ênfase dada ao indivíduo (e aos personagens marcados como sujeitos únicos e em tudo diferentes dos demais) é um fato recente, datando do início da Era Moderna (séculos XV e XVI). Não gratuitamente, é nesse mesmo período que se consolida como gênero fundamental o romance, forma literária que tomará como um dos seus eixos a configuração narrativa da história de um indivíduo, de modo especial os conflitos que mantém com o corpo social e as normas coletivas, o mais das vezes marcadas pela coerção e pelo adestramento do “eu” individual. Nesse sentido, em textos como Dom Quixote, de Miguel de Cervantes Saavedra, ou nas tragédias de Shakespeare, assistimos como que o nascimento, ou a invenção, do indivíduo moderno, transfigurado em matéria literária nova. No tocante ao passado, uma última observação: quando se fala em personagens “fortes e complexos”, há uma referência implícita à construção psicológica, feita em camadas e visando o adensamento dos caracteres. Esse modo de construir um personagem, no entanto, só vai surgir com a força que conhecemos hoje em textos do século XIX, nos quais a nova ciência, a psicologia, oferecia o modelo e alguns dos instrumentos com que explorar a vida íntima de um indivíduo — elemento que se destaca quando observamos romances como Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, Crime e castigo (1866), de Fiódor Dostoiévski ou Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis. No panorama das últimas décadas, são muitos os casos de grandes textos que não contam com personagens bem delimitados, facilmente reconhecíveis pelo leitor. Textos experimentais como Água viva (1973), de Clarice Lispector, tem como centro a própria linguagem e sua capacidade de auto-reflexividade. Em outro extremo, num romance como A vida modo de usar (1978), do francês Georges Perec, o inumerável dos personagens e das situações narrativas esvazia uma caracterização de profundidade, fazendo com que noções como força e complexidade sejam mais apropriadas para pensar a estrutura do texto em si (feito de narrativas que se cruzam e se sobrepõe) do que a constituição de seus personagens.


Capitu de Machado de Assis, Conselheiro Acácio de Eça de Queiroz, Luis da Silva e Baleia de Graciliano Ramos, e Quixote de Cervantes são, entre tantos, personagens fortes, que o leitor conhece, às vezes até sem ler. São personagens que fazem parte do nosso imaginário. Na literatura contemporânea, brasileira e mundial, há personagens fortes? Caso sim, poderia citar cinco deles?

Sim, há personagens marcantes nesse vasto território que chamamos, de modo às vezes impróprio, literatura contemporânea. Tanto no Brasil quanto em outros países ou tradições literárias. Nenhum deles, no entanto, desfruta do caráter quase mítico que algumas das criações citadas têm, e isso, entre outras coisas, por um motivo específico: a consagração que torna personagens da literatura parte do imaginário de uma sociedade ou cultura se produz ao longo de décadas de recepção crítica e leitura contínua, o que, por razões mais que evidentes, personagens de textos literários publicados nos últimos 20 anos (fixemos assim) ainda não têm. De qualquer modo, e para ficar apenas com os mais conhecidos, lembramos de: a) Arturo Belano, narrador ou protagonista de muitos dos romances do chileno Roberto Bolaño — Estrela distante (1997) e Os detetives selvagens (1998) para citar apenas dois; b) Jacques Austerlitz, figura central do romance Austerlitz (2001) do alemão W. G. Sebald; Elizabeth Costello, uma escritora, personagem central de vários romances do sul-africano J. M. Coetzee (o próprio Elizabeth Costello (2003) e A vida dos animais (1999), por exemplo); além dos brasileiros d) Zé Pequeno, do imenso Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins, e e) Emilie, matriarca da família de imigrantes que é tema de Relato de um certo Oriente (1989), de Milton Hatoum.


O que faz um personagem bom ou mau? E o que coloca em xeque um personagem?

Os motivos que fazem de um personagem um bom, ou mau, personagem, são os mesmos, em tese, que fazem bom ou mau um determinado texto literário. Não é possível determinar, a não ser por critérios mercadológicos ou de marketing, que características específicas vão agradar aos leitores, como se tais características não derivassem, em última instância, da armação formal mais ampla de que sustenta o edifício literário em questão. Colocadas as coisas nesses termos, só poderíamos ressaltar que os critérios com que se lê, e valoriza, as obras literárias mudaram sistematicamente ao longo do tempo, variando de acordo com a própria concepção geral do que é o literário e a literatura para cada sociedade ou cultura. Enumerar supostas qualidades intrínsecas a um personagem (a defesa ou a recusa de certos valores morais, a sua natureza complexa ou profunda, os muitos detalhes ou a concisão com que é apresentado, aspectos físicos ou a felicidade de um nome, etc.) ou a uma técnica literária específica com que construir caracteres resultaria num exercício inútil, uma vez que aquilo que se mostra decisivo para o “sucesso” de um dado personagem pode estar completamente ausente na constituição de um outro, igualmente bem recebido. Mais uma vez, um olhar lançado à história pode ajudar: a flutuação do interesse e da valorização de determinados personagens é fato notável, apontando para algo que é exterior a esses mesmos personagens. Os guerreiros das sagas reunidas nos romances de cavalaria, tidos em alta conta em outras épocas hoje são muito menos lembrados, por exemplo, do que Lady Macbeth e o Rei Lear, de Shakespeare, assim como os protagonistas dos muito populares folhetins ingleses do século XIX se apagam se comparados a Stephen Dedalus e Leopold Bloom, de James Joyce, protagonistas de Ulisses.


Percebo personagens de quem não lembro o nome na literatura brasileira contemporânea, até na estrangeira. Isso é recorrente. O que esses personagens refletem? O ser humano cada vez mais anônimo em multidões urbanas?


A sensação de que muitos personagens da literatura contemporânea não portam marcas individuais muito salientes tende a ser, muito mais do que um defeito dos escritores, uma proposta estética e um escolha formal consciente. Considero desse modo o problema porque não creio ser interessante ou produtivo fazer qualquer condenação coletiva ou epocal a escritores que, entre si, são profundamente diferentes (basta pensar, por exemplo, na distância que separa Cristovão Tezza de Ferréz, no Brasil, ou Phillip Roth de Enrique Vila-Matas, no cenário internacional). Sendo assim, a explicação parcial que podemos oferecer ao problema se relaciona com a tentativa, por parte de um conjunto de escritores, de representar — pela constituição de personagens anônimos e sem referências sólidas — uma experiência histórica particular: a vida marcada pela anomia e pelo insulamento da vida nas grandes cidades, experiência que, deve- -se ressaltar, não é nova e não foi, apenas agora, tornada problema literário. Desde pelo menos meados do século XIX a questão está posta, e textos como o conto “O homem das multidões”, de Edgar Allan Poe, ou alguns dos Pequenos poemas em prosa, de Charles Baudelaire, o ilustram de modo evidente. O que ocorre agora, entretanto, e faço aqui uma generalização de todo contraproducente, pode ser visto como uma exacerbação, um processo de radicalização na transformação dessa experiência histórica em forma literária específica. Se a atomização da vida urbana e a destruição dos laços comunitários tradicionais somente se acentuou no último século, atingindo níveis da vida ainda maisprofundos e significativos, a figuração desse ethos também assumiu contornos ainda mais dramáticos, uma vez que a fragmentação narrativa, a presentificação absoluta do texto (que produz, assim, narrativas sem memória) e o questionamento de toda e qualquer noção de identidade ou pertencimento possibilitaram, e continuam a possibilitar, experimentos-limite como os romances de João Gilberto Noll (Hotel Atlântico e Lorde, por exemplo), verdadeiros texto-deriva em que os personagens, sem nome ou passado, vagam por países e paisagens esvaziados de sentido; ou ainda Eles eram muitos cavalos, no qual Luiz Ruffato procura recriar o anonimato e o olvido a que estão condenados os despossuídos de toda sorte.