Entrevista | Rodrigo Garcia Lopes

Rodrigo Garcia Lopes em dose tripla

Com novo CD e coletânea de poemas, Rodrigo Garcia Lopes aguarda a publicação de O trovador, um romance policial que se passa no Norte do Paraná e que marca sua estreia na prosa


Cláudio Portella




William Burroughs, um dos principais nomes da geração beat, sempre foi uma referência para o escritor paranaense Rodrigo Garcia Lopes. Em 2013, o autor de Almoço nu volta a inspirar Garcia Lopes em sua nova empreitada: seu mais recente livro de poemas, Estúdio realidade, bem como o álbum Canções do estúdio realidade, tiveram seus títulos nomeados a partir de uma frase de Burroughs que aparece em seu livro Nova express, (“Assaltem o Estúdio Realidade e retomem o universo”). “A expressão, como a leio, traz embutida a ideia da realidade, em nossa Idade Mídia, como algo cada vez mais fabricado e manipulado, sobretudo pelos meios de comunicação de massa”, explica Garcia Lopes em entrevista ao Cândido.

O poeta londrinense ainda fala sobre sua primeira experiência na prosa, com O trovador, romance policial que tem como pano de fundo o Norte do Paraná. “Foi uma grande aventura escrever este romance. Pesquisei muito a história da colonização do norte do Paraná em bibliotecas daqui e dos Estados Unidos, em museus e em sites”, explica Garcia Lopes, que ainda fala sobre as canções de seu novo CD e da cena literária brasileira contemporânea.


O título (Estúdio realidade) do seu novo livro de poesia, bem como do seu novo CD (Canções do estúdio realidade), foram cunhados de um livro de William Burroughs. A capa do livro traz uma foto do escritor americano tirada por você. Em que medida a obra de Burroughs influenciou a sua criação?
É, aquela foto foi curiosa, nós criamos juntos. O livro sai em maio pela 7Letras, do Rio. Minha dissertação de Mestrado, na Arizona State University, foi sobre os romances de Burroughs, filosofia da linguagem, intertextualidade, entre outras questões. Os cut-ups [técnica de colagem utilizada por Burroughs] foram importantes, eu mesmo fiz alguns experimentos poéticos com isso. “Assaltem o Estúdio Realidade e retomem o universo” é uma frase que pinta no livro Nova express (1964). A expressão, como a leio, traz embutida a ideia da realidade, em nossa Idade Mídia, como algo cada vez mais fabricado e manipulado, sobretudo pelos meios de comunicação de massa. O livro dá continuidade a uma característica comum no meu trabalho: o sentido crítico, a busca pelo inusitado e pela surpresa, por diálogos com diversas tradições literárias, pela pesquisa de novos dizeres, além da exploração e práticas poéticas diversas, que vão de formas ancestrais de poesia (como a poesia visual) até o hipertexto contemporâneo. O título também sinaliza a poesia enquanto artifício, com o poder de questionar essa “realidade”, bem como o de construir e inventar outras. Acho que a poesia pode cumprir seu papel de questionar os padrões medianos de sensibilidade e sentido, de provocar uma re-sensibilização.

Sua poesia tem uma forte pegada pop. O que, em alguns momentos, lembra o poeta Paulo Leminski. Mas noto que apesar da sua levada pop, o arremate é quase sempre visceral, como se você estivesse aprofundando o que o Leminski não queria, ou não teve tempo de trazer para a poética. É isso? Fale sobre a sua poesia, como ela se processa?
Em que sentido, “pop”? Eu não gosto dessa designação. Pra mim, passa a ideia daquilo que não fica, de algo descartável, superficial. Vejo muita gente usando o termo, inclusive poetas jovens. Aliás, hoje parece haver muita pose e pouca poesia. Também acho que dizer que a poesia de X lembra a de Z desmerece a singularidade de cada poeta. Qual a semelhança entre uma maçã e uma laranja? Nós somos em boa parte um arquivo vivo de todas as leituras e experiências que afetaram nossa sensibilidade. Eu tenho afinidade com muitos poetas, minha poesia tenta dialogar com todo um passado. E um presente também, é claro. Leminski foi importante, mas muitos outros (e não só escritores) também foram.

Quando você esteve com Burroughs ele lhe disse que achava que a maioria dos poetas eram essencialmente prosadores preguiçosos. Você acha mesmo que isso se encaixa à perfeição na poesia brasileira atual? Eu acho que a poesia mais interessante que se tem feito no Brasil nos últimos anos é justamente essa, e que ela não tem uma relação direta com a prosa longa, talvez com a crônica. Bem, o que você realmente pensa sobre isso?
Eu concordo com o que o Burroughs me disse naquela entrevista. Muitos poemas que leio hoje em dia são apenas prosa cortada em linhas, arbitrariamente, e raramente linguagem em versos. Eu discordo de você que a poesia mais interessante tem sido nessa linha, embora eu ache que o atrelamento a uma certa ideia de “materialidade da linguagem”, a uma ideia de “concisão”, além do poema curto, no Brasil das últimas décadas, impediu ou inibiu a criação de poemas mais longos, de fôlego e visões amplas, como encontramos com frequência na poesia norte-americana, na sul-americana ou mesmo entre nós (Jorge de Lima me vem à mente).


Rodrigo Garcia Lopes e o escritor beat William Burroughs, uma das grandes influências do poeta londrinense.

O livro de poesia Estúdio realidade tem uma parte (Quarto Fechado) onde os poemas giram em torno de elementos que constituem o romance policial. Você acaba de concluir seu primeiro romance policial, O trovador. O seu anseio em escrever uma história de mistério era uterino? Provém do mesmo útero dos poemas policiais? No caso, Burroughs tinha razão, os poemas policiais foram uma preliminar enquanto criava coragem para escrever o romance?

Sempre fui apaixonado pela história da colonização do Norte do Paraná. Embora eu lesse romances policiais, é uma paixão ou “vício”, como diz W. H. Auden, mais recente. Fui escrevendo os poemas “policiais” enquanto escrevia o romance. Fazendo paralelos entre a operação poética e a investigação. Dos gêneros narrativos, acho que o policial é o que mais se aproxima da poesia, pelo menos para mim. Lembre que Poe, o pai do romance policial, em Filosofia da composição, parte de um poema (“O corvo”) para explicar o procedimento construtivo “de trás para frente” que é característico de uma boa história policial.

Em O trovador, a imprensa britânica Paraná Plantations, loteia as terras férteis do Norte do Paraná. A história também se passa na Londrina de 1936. Como foi recriar e reconstituir a região do Norte do Paraná dos anos 1930? Você fez pesquisas históricas, quais as suas fontes?

Foi uma grande aventura escrever este romance. Pesquisei muito a história da colonização do norte do Paraná em bibliotecas daqui e dos Estados Unidos, em museus, em sites específicos. A biografia de Lord Lovat foi importante, jornais como o Paraná-Norte, e muitas, muitas fotografias antigas. Fiz consultas em arquivos físicos e online, leitura de bibliografia específica ao tema e ao período histórico (o contexto mundial e brasileiro nos anos 1930, por exemplo). A colonização é o pano de fundo do livro, e uma página bem pouco conhecida na nossa história e menos ainda explorada pela literatura brasileira. Depois da fase de levantamento histórico, perfil dos personagens principais e planejamento da obra, veio a escrita propriamente dita. Um romance policial de qualidade (que tenha trama bem construída e interessante, cenário original, personagens multidimensionais, pistas inteligentes, detetive cativante e vilões memoráveis) requer bastante trabalho, planejamento e pensamento crítico. O mais importante, neste gênero, pra mim, além do protagonista, é a trama, a intriga, que no caso de O trovador é bem complexa. Foi o que deu mais trabalho, além da reconstituição de época. Repleto de ação, suspense e reviravoltas, e sem perder seu foco principal, que é a investigação.

Quais são seus autores preferidos no romance policial e o que acha do que se está produzindo hoje do gênero no Brasil?

Poderia citar muitos, mas os preferidos são Conan Doyle, Agatha Christie, Josephine Tey, P.D. James, na Inglaterra. Na França, Simenon. Nos EUA, Dashiel Hammet, Raymond Chandler, Ross Mcdonald, Michael Connelly, Scott Smith e Dennis Lehane são meus favoritos. Há uma safra de escandinavos muito boa. No Brasil, citaria Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Marçal Aquino (em alguns livros). Embora a situação tenha melhorado nos últimos anos, o policial brasileiro ainda tem pouca tradição no nosso sistema literário e encontra resistência por parte da crítica, ora considerado como subliteratura ou mera literatura de entretenimento. Acho que o gênero permite levantar importantes reflexões históricas e questões de identidade, moral, corrupção política, relações internacionais, colonialismo, propondo, ao mesmo tempo, uma reescrita da história.

Foram alguns anos para escrever O trovador, como foi sua rotina de trabalho no romance durante esse período?
É normal que seja um trabalho demorado. Depois que vi uma entrevista do Lehane dizendo que o primeiro romance dele levou 3, 4 anos, fiquei mais tranquilo. Por tratar-se de um romance de mistério e investigação que emprega fatos históricos e personalidades reais, pra conseguir a necessária verossimilhança literária foi vital investir tempo integral para escrevê-lo. Em 2009 fui contemplado com uma bolsa Funarte de Criação Literária, e isso foi fundamental, me deu o tempo para me dedicar exclusivamente ao projeto. Seguia uma rotina diária de trabalho. Os primeiros meses foram de pesquisa histórica, contextualização sócio-política do período, leituras de relatórios da companhia em jornais brasileiros e britânicos. Depois veio o plano de enredo, as caracterizações dos personagens, e um primeiro esboço para os capítulos que continham os pontos-chaves e viradas na trama. Também li muitos livros sobre a técnica de escrever um romance policial que me foram muito úteis. Por exemplo, eu estava empacado na parte 2, que sempre é a mais extensa e complicada. Um dos livros aconselhava que, se isso acontecer, esqueça tudo e escreva a cena do confronto final entre detetive e criminoso. Foi o que fiz. Eu, que nunca bebo para escrever, comprei duas garrafas de vinho tinto e voltei para meu refúgio em Floripa. E funcionou. Com a cena-chave delineada, fui escrevendo alguns capítulos de trás pra frente, tendo em vista aonde a ação iria desembocar.

Recentemente você lançou Canções do estúdio realidade, seu segundo CD após 12 anos do lançamento de sua estreia, com Polivox (2001). O que mudou do primeiro trabalho para este?
Ele está todo disponível no site. Em Polivox eu poderia ter feito um disco de poesia sonora, ou apenas de poesia falada. Naquele trabalho a intenção era reunir canções e poemas escritos até aquele momento, criar um território híbrido, onde música e poesia — como as pegadas de um pássaro na areia — fossem indissociáveis (como sempre foram, dos rapsodos gregos aos rappers). Lá, os poemas recebiam três tratamentos básicos: 1) Musicados e transformados em outra coisa: canções; 2) Sob a forma de poetrilhas ou salas sonoras (aguçando uma viagem sonora com o texto); 3) Lidos no seco, explorando o som da linguagem em si. O disco novo adensa as experiências musicais iniciadas no Polivox, mas com foco apenas na canção. O trabalho explora, em 12 faixas, formas possíveis de compor canções hoje em dia. As canções se tornam campos de possibilidades poético-musicais. Além da coisa da composição, neste disco assumo com mais amadurecimento o lado intérprete, e também o violão, que estrutura minhas canções.

Neste novo CD, em que pese os diálogos com variados ritmos musicais, há uma unidade muito forte em quase todas as músicas. Essa unidade foi procurada ou tem relação mais direta com o timbre da sua voz, a poesia, o violão de nylon, o diálogo com o cinema, etc?

Bem, minha voz e violão são o centro e a base dos arranjos. Eu estruturo as canções de um jeito que as intenções de outros instrumentos já ficam audíveis ali (como o baixo, principalmente). Conversei muito com o André Siqueira sobre a sonoridade que queríamos no disco. Essa unidade foi conseguida graças a ele, um multi-instrumentista de Londrina, que escreveu 10 dos 12 arranjos.

Na canção “New York”, talvez a que mais se diferencie do CD, em determinado momento você entoa um New York, New York... É uma “brincadeira” com a famosa canção imortalizada por Frank Sinatra?
“New York” é um rap com levada funk (não o carioca!). É a única (com exceção da primeira parte de “Fugaz”) que é em canto-falado. Sim, a música faz uma citação de Sinatra entre a primeira e a segunda parte. Acabamos de gravar o clipe desta música, dirigido pelo Anderson Craveiro. Vai ficar bonito.