Entrevista | Raquel Guimarães

Variações sobre o humor

Marcio Renato dos Santos

No que diz respeito ao Brasil, há humor na dramaturgia, na prosa, em versos e na literatura infantil. A afirmação é da professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) Raquel Beatriz Junqueira Guimarães. Ela conhece, e estuda, o assunto. Nesta entrevista, Raquel fala de Gregório de Matos, no século XVII, até Luis Fernando Verissimo, no século XXI. Também explica de que maneira Oswald de Andrade se utilizou do humor no início do século XX. E ainda salienta que a universidade estuda, e valoriza, obras literárias que apresentam humor.


O humor é uma característica e está presente na literatura brasileira?

Inicialmente devo dizer que há vários modos de construção do cômico na literatura. Há o texto de caráter ligeiro, que promove o riso imediato, considerado leve, e com intenção clara de ser um entretenimento. Esse é o caso das comédias, por exemplo. Nossa dramaturgia sempre contou com autores que desenvolvem esse humor, como é o caso de Martins Pena e suas comédias de costume, no século XIX. Há outras formas de elaboração cômica nos textos literários, tais como a ironia, a sátira, a paródia, também muito presentes em nossa literatura tanto na dramaturgia quanto na prosa e no verso. Essas formas de elaboração cômica são consideradas pelos leitores, em geral, como humor. Então, vamos falar dessa noção ampla de humor, ou seja, das diversas formas de apresentação do cômico. Em nossa literatura, por exemplo, em uma concepção corrente, a ironia sempre é lembrada como uma característica da obra de Machado de Assis, que, diferentemente das comédias de costume, não é considerada texto de entretenimento. Ainda nessa concepção ampla de humor, pode-se dizer que a literatura brasileira tem, sim, uma vertente com essa característica. Antes das comédias de costume, a sátira esteve presente, por exemplo, por meio da poesia de Gregório de Matos, no século XVII e das Cartas chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga, no século XVIII. Nesses dois casos, o cômico vinha construído como sátira política, carregada de crítica ao governo da metrópole. No século XX, houve muitos autores que se dedicaram a essa vertente, entre eles Ariano Suassuna, Fernando Sabino e Luis Fernando Verissimo.

Quais são os principais livros da literatura brasileira que apresentam humor?
É muito difícil construir listas de qualquer natureza, mas vou elencar aqui algumas obras que compõem essa vertente cômica da literatura, a qual estou me referindo, mas sempre pensando o humor de um modo amplo. Poderia citar, como já o fiz, as Cartas chilenas, de Tomás Antonio Gonzaga, Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, vários contos de Papéis avulsos, de Machado de Assis, O juiz de paz na roça, de Martins Pena, Auto da compadecida, de Ariano Suassuna, O homem nu e O grande mentecapto, de Fernando Sabino, Macunaíma, de Mário de Andrade, História do Brasil, de Murilo Mendes, Memórias da Emília, de Monteiro Lobato. Com essa lista, procuro mostrar que há obras cômicas na dramaturgia, na prosa, em versos e na literatura infantil. Assim, pode-se verificar a diversidade e a amplitude do material cômico em nossa literatura.

Os modernistas se caracterizaram, entre outras questões, pelo humor? Oswald de Andrade seria um autor que usou o humor em quase toda a sua obra? Com que finalidade?
Há muitos escritores modernistas que, por meio da paródia, trabalharam com elementos do cômico. Oswald foi, sem dúvida, um autor que utilizou do humor em sua obra com diversas finalidades. Penso que uma delas é a crítica social e política, mas há também a construção de uma proposta estética baseada na releitura da história da literatura e da história do Brasil, o que motivou várias paródias de sua “Poesia Pau-Brasil”. Em 1911, ele fundou um periódico literário, político e de humor, chamado O Pirralho, com a intenção de repensar a arte brasileira. Veja que isso ocorreu antes da Semana de 1922. Parece ser um dos sinais de que a poética oswaldiana se vincula ao humor desde o início. Mas não é só Oswald que usa de humor, entre os modernistas. Penso que é necessário destacar, Macunaíma, de Mário de Andrade, que leva o leitor ao riso e essa é uma estratégia que potencializa a crítica. O capítulo chamado “Carta para as icamiabas” é uma deliciosa paródia da carta de Caminha. Eu diria que o humor dos modernistas era uma espécie de humor sério, não vinculado ao entretenimento, mas um recurso para viabilizar uma proposta literária engajada, um meio de repensar aspectos estéticos e éticos da literatura brasileira, no início do século XX.

Entre os contemporâneos, os mais recentes, os autores do século 21, há humor?

A obra de Luis Fernando Verissimo é um caso de escritor contemporâneo reconhecido por sua veia humorística. Há alguns escritores mais novos que também trabalham nessa linha. Lembro de duas escritoras que trabalham numa linha de um humor inteligente, crítico e por vezes mordaz: as poetas Ana Elisa Ribeiro, mineira, e Angélica Freitas, gaúcha. Elas não fazem um humor para o riso fácil, mas certamente escrevem com uma veia irônica muito relevante.

Entre os contemporâneos, os jovens autores brasileiros, há pouca presença de humor nas obras. Encontramos em livros recentes dramas pessoais, recriações de violência urbana, dilemas, naufrágios em sua maioria representados em textos nada leves. Não seria possível usar o humor para tratar de assuntos densos?
Se pensarmos o humor apenas como um texto que provoca o riso fácil, e que é feito para entretenimento, talvez haja poucos, mas o humor inteligente, como disse antes, penso que há vários escritores jovens que trabalham nessa linha, como as duas escritoras que antes mencionei. Então, podemos dizer, mais uma vez, que o humor na literatura não está necessariamente nos textos fáceis e nem se pode dizer que textos densos, com “dramas pessoais” ou “recriações de violência urbana” não possam incluir passagens de algum humor. Como já disse, a sátira é, por vezes, constituída por textos densos. Veja o caso do conto “O alienista” , do Machado de Assis: é ao mesmo tempo denso, divertido, no qual reside uma profunda crítica ao cientificismo. A ideia de que o humor é leve é, a meu ver, uma ideia equivocada. Há tipos de humor que são mais leves, mas há outros que são exigentes.



A universidade e a crítica respeitam obras com humor, valorizam e estudam obras de e com humor?
Penso que a universidade estuda o que considera que tem qualidade, e nesse sentido, todos os autores aqui mencionados de um modo ou de outro foram estudados pela universidade em suas dimensões humorísticas. Não penso que a universidade considere o humor ou as obras cômicas como de segunda ou terceira categorias. O que há, e isso é preciso que seja lembrado, é que a universidade não se investe na leitura das comédias comuns, ligeiras, vamos dizer, o humor besteirol, esse provavelmente não fará parte do trabalho da crítica, mas com certeza a qualidade do humor dos escritores brasileiros tem sido estudada e reconhecida pela crítica.