Entrevista: Michel Laub

“Não há como melhorar a escrita sem ser um bom leitor”


Um dos autores mais talentosos de sua geração, Michel Laub também tem se destacado comandando disputadas oficinas de criação literária

Guilherme Sobota


Desde 1808, ano que marca o nascimento da imprensa brasileira, nossa literatura tem mantido uma relação epidérmica com o jornalismo. Um produtivo diálogo entre a vida nas redações de jornais e a atividade solitária da literatura legou às letras brasileiras o surgimento de nomes como Machado de Assis, Lima Barreto, Nelson Rodrigues e Caio Fernando Abreu.

Embora afirme que “o jornalismo é o contrário da literatura no método, nos meios e nos objetivos”, o escritor Michel Laub trilhou um longo e importante caminho no jornalismo até chegar ao primeiro time da literatura nacional.

Editor da revista Bravo! por oito anos, Laub é formado em Direito, profissão que chegou a exercer por poucos meses em Porto Alegre. Também não concluiu a faculdade de jornalismo, profissão em que se consolidou no meio cultural. “Em toda trajetória profissional há um misto de vocação e sorte (ou azar)”, diz o autor sobre o início de sua carreira no jornalismo.

Laub estreou na ficção em 1998, com o livro de contos Não depois do que aconteceu. Mas foram romances como Longe da água (2004), O segundo tempo (2006) e O gato diz adeus (2009) que lhe garantiram lugar de destaque no cenário literário brasileiro. Diário da queda (2011), seu mais recente livro foi vendido para o cinema e terá edições na Espanha e na Alemanha. Na entrevista a seguir, Laub fala sobre como o jornalismo pode ajudar um escritor a tirar “as impurezas não propositais” do texto literário e sobre os principais desafios de um escritor iniciante.

É possível notar na sua obra uma característica marcante de estilo: a frase longa, sintaticamente trabalhada, que adia por alguns momentos o clímax do enunciado. Essa é uma característica que foge do texto jornalístico convencional, marcado pela pretensa objetividade e pelas frases curtas. É possível afirmar que a sua profissão tem pouca – ou nenhuma – relação com a sua literatura?

O jornalismo é o contrário da literatura no método, nos meios, nos objetivos. Agora, algo da experiência de editar um texto eu acabo usando na hora de escrever, ou ao menos num segundo momento da escrita, digamos — quando eu pego um rascunho e dou ordem a ele, tiro as impurezas não propositais e tal. Também algo da experiência de ser jornalista, que obriga você a treinar seu senso de observação e ficar mais cético em relação às coisas, o que pode ser bom para a literatura.

Seus livros, na sua maioria, são marcados por narrativas não lineares. Quais foram as leituras que moldaram essa preferência?
Não sei se as leituras moldaram isso. E nem se são narrativas não lineares. Só se for no sentido tradicional de início, meio e fim, em ordem cronológica, o que, de fato, os meus livros não têm. Mas as histórias que eles contam, que se juntam em fragmentos e recursos do gênero, até que são bem tradicionais.

Diário da queda se passa em Porto Alegre e lida com temas do judaísmo. O livro saiu no ano da morte de Moacyr Scliar, escritor gaúcho e judeu. Qual era a sua relação com a obra dele?

Em termos de influência, nenhuma. Mas eu gostava muito de algumas coisas que ele escreveu, em especial os contos que tratam de crianças perversas e de A majestade do Xingu, para mim o melhor romance dele (embora não o mais típico). Pessoalmente, o Scliar foi um cara muito querido por todos e sempre que pôde me ajudou (a mim e a muitos outros autores que estavam começando).

Em Diário da queda você faz diversas referências ao livro É isto um homem?, de Primo Levi. Utilizar a literatura como temática pode se tornar algo recorrente demais para o escritor, a ponto de se tornar um lugar-comum?

Como tudo em literatura, depende da forma como se usa. No caso citado, o livro tem uma função muito específica dentro da história que me propus a contar, e seria impossível contá-la sem citá-lo.

O jornalista Paulo Werneck, numa resenha de Diário da queda na Folha de S. Paulo, disse que “a literatura gaúcha, neste início de século, já sem tintas regionalistas, se firma como principal celeiro de escritores brasileiros”. Qual é a sua impressão sobre a literatura gaúcha contemporânea? É possível identificar uma “marca” da literatura gaúcha, paranaense ou paulista?
Hoje em dia é muito complicado falar em afinidades estéticas regionais. As pessoas da mesma idade têm acesso a informação do mundo todo via internet, estejam elas morando em Porto Alegre, em Curitiba ou em Manaus. Então não há por que eu ter mais afinidade com meu vizinho de quem não sei o nome do que com alguém que mora em outro Estado, mas conversa comigo via redes sociais todos os dias. O que há em Porto Alegre são as oficinas literárias, um circuito regular de feiras do livro, índices bons de leitura entre a população, esse tipo de coisa, então é claro que há mais estímulo para que surjam escritores lá do que em locais onde não há nada disso.

Você foi editor-chefe da revista Bravo!. Como essa experiência de editar uma revista de cultura, que fala sobre diversas manifestações artísticas, te influenciou como escritor? Ou isso não foi importante para o seu trabalho como ficcionista?
O trabalho de editor, como falei, me influenciou na hora de ajeitar um texto, ver o que funciona ou não nele em termos de ritmo, vocabulário, ideias. Isso pode ser muito útil na literatura, mas pode atrapalhar também, tirar dela certa espontaneidade.

Você é formado em Direito, mas sempre trabalhou com jornalismo. Como você foi parar nas redações? Você também foi editor da Bravo! bastante jovem, como isso aconteceu?

Por uma série de circunstâncias. Um acidente grave de carro me fez decidir trancar a faculdade de Direito e passar um tempo viajando. Escrevi um diário durante essa viagem. Um jornalista amigo da família leu esse diário e me chamou para fazer matérias na revista onde ele trabalhava (a Carta Capital). Um colega dele leu essas matérias e mais tarde me chamou para fazer parte da equipe da revista que iria fundar (a Bravo!), e por aí vai. Em toda trajetória profissional há um misto de vocação e sorte (ou azar).

Numa entrevista recente, você disse o seguinte: “O importante mesmo são as ideias. O estilo vai se adequar a isso, de uma forma ou de outra, quase como se fosse um mero instrumento. É um exagero, claro, mas tem um fundo de verdade, que sinto cada vez mais no que escrevo: a irrelevância, por vezes, de ficar ajeitando muito, fazendo muito rococó”. Em outras palavras, o que interessa mesmo é saber contar uma boa história?
Não. Tudo interessa: ideias, linguagem, ritmo narrativo, história (ou falta de história). Cada escritor opera de um jeito. Tenho a sensação de que meu último livro, Diário da queda, vale mais pelas ideias e a história do que pela linguagem em si. Mas ele não deixa de ter um trabalho até que bastante elaborado de linguagem (custou meses e meses de chateação, posso garantir). Como disse na entrevista, claro que a frase é um exagero. Sem linguagem, seja ela opaca ou transparente, sofisticada ou simples, não se vai a lugar nenhum.

Você participou da oficina de criação literária do Assis Brasil e hoje ministra suas próprias oficinas. Desde que surgiram, as oficinas de criação literária despertaram debates acalorados sobre sua eficiência. Como são suas oficinas e qual o beneficio que elas trazem a quem quer iniciar uma carreira literária?
São oficinas relativamente curtas, que trabalham com o gênero conto e a partir de exemplos concretos, de textos produzidos pelos alunos. Procuro fazer com que o cara saia lendo melhor do que lia quando entrou. Já é um passo importante, maior do que muita gente pensa. Não há como melhorar a escrita sem ser um bom leitor — dos textos alheios e dos seus próprios.

William Faulkner dizia que a literatura é baseada num tripé: observação, experiência e imaginação. Para você, qual dessas qualidades um escritor deve cultivar com mais afinco?
Imaginação não dá para cultivar. Ou se tem, ou não se tem. Os outros itens também dependem pouco de vontade: experiência você pode buscar ter, mas só o tempo traz algo significativo nessa área. Até porque isso pode significar passar os anos viajando, vivendo perigosamente, bebendo, trabalhando num escritório ou dormindo no seu quarto — um escritor de talento vai transformar qualquer dessas situações em boa literatura, e um sem talento, não. Quanto à capacidade de observação, há alguma margem para melhora aqui e ali, mas pouca — no fundo, você nasce com isso ou não. Em literatura, a única coisa que dá para “cultivar com afinco”, no sentido de treiná-la e desenvolvê-la, é a técnica. Por meio dela até dá para driblar a falta de um dos itens do tal tripé. Mas driblar dois ou os três ao mesmo tempo fica difícil.

Depois que começou a publicar e se tornou um escritor reconhecido no cenário nacional, o que mudou em sua rotina de leitura? Lê menos ou mais? Como diz Raduan Nassar, consegue afiar a lâmina com as leituras?
É a mesma coisa. Se algo mudou nesse tempo, foi a internet, que me faz ler menos livros longos e mais textos curtos e bobagens variadas. Mas são fases. Agora, por exemplo, ando sem paciência para ficar tantas horas na frente do computador e voltei a ler bastante ficção, o que andei uma época sem fazer.

Em uma entrevista você dizia que, quando começou a escrever, tentava imitar os contos do Rubem Fonseca e que isso fazia mal ao que escrevia. De que maneira o escritor deve filtrar sua influência? Como faz para que os autores que aprecia não contaminem sua literatura?
No início é inevitável que você imite algum outro autor, voluntária ou involuntariamente. Com a técnica e os anos, seu repertório aumenta e se torna mais fácil evitar isso. Não só porque você passa a ter mais a dizer, mas porque a experiência ensina a perceber, quase instintivamente, quando algo que você está fazendo é de segunda mão, não tem uma verdade sua ali.