Entrevista | Eduardo Jardim

As duas vidas de um modernista

Autor da primeira biografia de Mário de Andrade, Eduardo Jardim fala de sua pesquisa e do legado do intelectual para a cultura brasileira


Omar Godoy

Os 70 anos da morte de Mário de Andrade (1893-1945), completados no último mês de fevereiro, não estão passando em branco. Desde o começo do ano, o escritor, ensaísta, crítico, folclorista e gestor cultural paulista está no centro de uma série de eventos, exposições e resgastes literários que devem culminar em julho, quando Andrade será o homenageado da 13ª edição da Festa Literária Internacional de Parati (Flip). No campo editorial, o grande destaque desse pacote é Eu sou trezentos — Mário de Andrade: vida e obra, a primeira biografia “para valer” do modernista.


Muitos outros livros sobre sua trajetória e legado foram publicados ao longo dos anos, mas nenhum tão completo quanto o volume de 250 páginas lançado pela Edições de Janeiro, em parceria com a Biblioteca Nacional. O responsável por esse trabalho de fôlego é o filósofo, professor e pesquisador carioca Eduardo Jardim, mestre pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e doutor pela Universidade Federal do mesmo estado (UFRJ).

Interessado pelo autor de Macunaíma há quase 50 anos, ele já havia escrito Limites do moderno: o pensamento estético de Mário Andrade (1999) e Mário de Andrade: a morte do poeta (2005). Desta vez, conclui a pesquisa com uma obra que associa o percurso pessoal do biografado com seu projeto cultural para o Brasil — enfatizando sua personalidade conflituosa. Na entrevista a seguir, Jardim conta como foi o processo de produção do livro e analisa o significado da obra de Andrade (“O ‘papa’ do modernismo e certamente a principal figura de intelectual do Brasil do século XX”, nas palavras dele).

Como você começou a se envolver com a obra e o personagem Mário de Andrade? O que mais chamou sua atenção?
Meu contato com a figura e a obra de Mário de Andrade começou no final dos anos 1960, quando era estudante universitário. Naquela época, o modernismo era a referência principal para um debate muito intenso sobre arte e cultura no Brasil — como no Tropicalismo, na adaptação de Macunaíma para o cinema, por Joaquim Pedro de Andrade, na montagem pelo grupo Oficina de O rei da vela, de Oswald de Andrade. A Antropofagia de Oswald de Andrade era muito valorizada e Mário era menos prestigiado. Ele era visto como um autor menos inovador, em confronto com o Oswald vanguardista. Nunca aceitei essa qualificação. Eu via Mário de Andrade como uma figura muito mais complexa e interessante, poliédrica, como disse Alceu Amoroso Lima. Lembro como fiquei emocionado com a leitura das páginas finais da conferência O movimento modernista, em que ele faz uma dura crítica de si mesmo. Ali havia um homem com forte personalidade e extremamente complexo que eu quis conhecer.Quando fui fazer o mestrado e o doutorado, pude examinar mais de perto meu personagem. Os trabalhos tratavam do modernismo em geral, mas claramente a figura de Mário de Andrade era a mais importante. Depois voltei a ele, introduzindo uma perspectiva biográfica, mas só agora em Eu sou trezentos consegui dar conta da vida toda.

Durante anos foi dito que o grande entrave para a produção e publicação de uma biografia de Mário de Andrade era sua suposta homossexualidade. Era esse mesmo o problema? Como você resolveu a questão?
Não há documentos sobre o assunto. É possível que as referências contidas nas cartas tenham sido suprimidas e até conjuntos inteiros de cartas podem ter sido destruídos. Há, por outro lado, uma quantidade enorme de depoimentos que por serem informais têm que ser tratados com muito cuidado. O interesse, a meu ver, excessivo pelo assunto foi alimentado, de um lado, pela censura dos amigos próximos de Mário de Andrade e também por um certo sensacionalismo. Hoje não precisamos tratar disso como algo bizarro ou escandaloso. No livro preferi abordar o tema de outro modo. Recuperei as passagens na obra que fazem referências à homossexualidade, como na poesia e no conto “Frederico Paciência”, de Contos novos. A poesia tem certamente um viés biográfico; o conto, que narra a história do amor frustrado entre dois rapazes, é um libelo contra a hipocrisia e a repressão sexual em um ambiente acanhado de classe média. No meu entender, mais importantes que a homossexualidade, foram as tensões vividas por Mário de Andrade entre o que ele chamou de vida de cima, com seus ideais elevados, e a vida de baixo, sensual e instintiva. Foram estes conflitos, vividos às vezes com sofrimento, que atravessaram e deram intensidade à obra do escritor.

Como foi sua relação com os herdeiros do biografado? Soube que um deles leu o material previamente. Você precisou negociar com ele alguma alteração no livro?
Não pedi a ninguém autorização para escrever ou publicar o livro. Quando a editora precisou de uma autorização para usar as imagens, fiz contato com Carlos Augusto Camargo, sobrinho de Mário de Andrade e o visitei em São Paulo. Tomei a iniciativa de deixar com ele uma versão do livro, que ele leu prontamente. Em seguida, me enviou uma carta que guardo como uma preciosa apreciação do meu trabalho. Temos uma relação muito cordial. Poucos dias depois da minha ida a São Paulo, descobri na Biblioteca Nacional, no Rio, um artigo de seu pai, Eduardo Camargo, Mário de Andrade – meu cunhado, que é um comovente retrato do poeta, e que enviei para Carlos Augusto, que não o conhecia.

Qual foi a importância, para a sua pesquisa, das cartas que Mário de Andrade trocou ao longo da vida com outros intelectuais brasileiros?
As cartas são muito importantes, como já tinha anunciado Antonio Candido em 1946. Mário de Andrade escreveu cartas a vida toda e para muita gente. Os dois principais interlocutores foram Manuel Bandeira e Drummond. Há todo tipo de carta: para amigos, de trabalho, confessionais, de difusão do programa modernista, para a família... Muita coisa já foi publicada, mas algumas cartas precisam ainda de divulgação, por exemplo, as que enviou para Hélio Pellegrino. Mas para estudar Mário de Andrade não basta ler as cartas, é preciso conhecer o conjunto da obra.

Quais aspectos da história de vida, da trajetória pessoal de Mário de Andrade, têm maior reflexo em sua obra e posições como intelectual?A vida de Mário de Andrade tem dois momentos muito diferentes — antes de 1938 e depois, até a morte, em 1945. Mário de Andrade foi um agitador do modernismo desde 1917. Definiu o programa de modernização na primeira fase, defendeu a bandeira da brasilidade, na segunda metade dos anos 1920, construiu uma noção de arte social, que tentou concretizar na direção do Departamento de Cultura de São Paulo, em 1935. Seu afastamento da direção do Departamento foi o momento de maior frustração da sua vida. Ele determinou tudo que aconteceria depois, como a avaliação negativa que fez do movimento de que tinha sido o líder e também da sua trajetória de vida.

A relação dele com Oswald de Andrade é sempre classificada como “conturbada”. O que a sua pesquisa trouxe à tona sobre esse assunto?
Oswald de Andrade lançou publicamente o nome de Mário de Andrade como poeta, no artigo “Meu poeta futurista”, e como ensaísta. Os primeiros anos da amizade dos dois foram estimulantes. A partir de 1924 eles começaram a divergir na concepção de Brasil. Mário de Andrade reagiu negativamente a alguns aspectos do “Manifesto da poesia Pau-Brasil”. Mas não houve nesta altura uma ruptura. O clima se deteriorou com a publicação na Revista de Antropofagia, na segunda dentição, em 1929, de uma série de artigos extremamente agressivos contra Mário de Andrade. A ruptura se deuneste momento. Oswald de Andrade sempre buscou se reconciliar com Mário. Este nunca se dispôs a uma reaproximação. Ele disse que era um assassino em espírito — se visse Oswald se afogando, nem ia jogar um pedaço de pau para o salvar.

Quando escreveu e lançou Macunaíma, Mário de Andrade tinha ideia de que o livro seria tão grande, tão conhecido? Que avaliação ele fez da obra nos anos seguintes?
Mário de Andrade escreveu a primeira versão do livro em seis dias, na chácara do Tio Pio [Pio Lourenço Côrrea, na verdade marido de uma prima do escritor], em Araraquara, em 1926, tomado de forte emoção. Depois, trabalhou no livro até maio de 1928. Ele certamente sabia da importância do livro para o programa de nacionalização da arte no país e achava que era único na sua obra. O livro teve uma edição pequena, de 800 exemplares, e só ganhou uma segunda edição em 1936, mas teve uma repercussão grande na imprensa. Mário de Andrade lamentou algumas vezes que Macunaíma tivesse sido lido apenas como um livro engraçado, sem que se levasse em conta sua complexidade e a intenção crítica do retrato do Brasil que ele continha. Há um importante depoimento do autor, em uma carta a Fernando Sabino, em que ele lamenta a incompreensão que cercava seu livro, a ponto de afirmar que Macunaíma era uma “obra-prima”que falhou.

Algumas figuras importantes da literatura brasileira (como Affonso Romano de Sant’Anna, só pra ficar num exemplo) afirmam que a obra poética de Mário de Andrade não tem o reconhecimento que merece. Qual a sua opinião?
É verdade, a poesia de Mário tem sido pouco lida, sobretudo nas últimas décadas. Há uma declaração de Drummond, de 1942, depois da publicação de Poesias, que traz uma explicação para a dificuldade da sua leitura e que é também um desafio para o leitor de hoje. Ele diz: “Acho que sua obra poética está guardada para uma aceitação futura integral, tanto mais quanto nela é mínima a porção capaz de obter agrado fácil e imediato”. Para quem quiser medir a força da poesia de Mário de Andrade, sugiro a leitura de seu último poema, A meditação sobre o Tietê, uma espécie de testamento poético.

Retrato de Mário de Andrade feito por Zina Aita, em 1923.

Mário de Andrade realmente morreu frustrado, como dizem? Essa frustração tinha relação com sua própria trajetória ou com os rumos do Brasil?
Sim, Mário de Andrade viveu extremamente abatido nos últimos anos. Há um depoimento de Rubens Borba de Moraes, possivelmente de 1942, que descreve a figura de um homem derrotado, e ele mesmo confessou aos amigos seu abatimento. Mário de Andrade foi afastado da direção do Departamento de Cultura, com o Estado Novo; foi para o Rio, como professor na Universidade do Distrito Federal, que também foi fechada no ano seguinte. A direção do Departamento significou a concretização do projeto intelectual do escritor. Ele nunca se recuperou do trauma do seu afastamento. Nunca mais teve a oportunidade de participar da política cultural do país. A primeira metade dos anos 1940 foi terrivelmente conturbada na política, tanto no país como no mundo. Mário de Andrade foi afetado também por tudo isso e morreu sem ver o desdobramento destes acontecimentos.

O Brasil conseguiu “entender” o modernismo como deveria? Qual a real dimensão do movimento (e da participação do seu biografado) para o país?O modernismo continuou sendo a principal referência para se discutir cultura brasileira e sua história recente. No modernismo foram definidos temas e problemas que continuam interessando: o anti-academicismo do modernismo inicial, a especificidade da cultura brasileira (no segundo tempo do movimento), a elaboração de uma linguagem artística nacional, a questão da dimensão social da arte. A contribuição de Mário de Andrade em todos estes aspectos foi central. Ele foi mesmo o “papa” do modernismo e certamente a principal figura de intelectual do Brasil do século XX. Mário tinha uma visão universalista do projeto modernista, imaginava o Brasil inserido no concerto universal, teve uma visão “transversal” da cultura, pretendendo pôr em contato contextos culturais diferentes — cultura erudita e popular, tradicional e moderna. Ao mesmo tempo, para entendermos nosso modernismo e Mário de Andrade, temos que medir a distância que nos separa dele. Só assim vamos compreender o significado da sua obra e iremos ver de forma desimpedida nossa própria situação. Já não somos contemporâneos de Mário de Andrade!

Mário de Andrade (o primeiro, à esquerda) em viagem pela floresta amazônica em 1927.

E como gestor cultural, que legado ele deixou?
A atuação de Mário de Andrade à frente do Departamento de Cultura precisa ser discutida. Foi uma experiência única. A noção de expansão cultural foi a diretriz de suas iniciativas. Ela significava difundir a cultura para toda a população e integrar a produção cultural de todos os grupos em uma definição ampla de cultura. Ele fez tantas coisas! Bibliotecas, parques, concertos, pesquisas em nível nacional, já que a ideia era implantar um Instituto Nacional de Cultura, no caso da vitória do candidato da oposição nas eleições de 1938. Do ponto de vista da história pessoal, a chefia do Departamento assegurou para Mário de Andrade o sentido de sua vocação. É preciso avaliar o legado do escritor neste aspecto, mas não repetir automaticamente suas soluções.

Você acompanha o processo de reedição das obras de Mário de Andrade? O que vem por aí?
Sim, recentemente foi publicada uma edição das poesias completas, finalmente. Os poemas estavam muito mal editados, o que prejudicava muito o acesso a eles. Também foram publicados novos volumes da correspondência — com Sérgio Buarque, Luiz Camillo, os intelectuais argentinos. Sei que deve sair uma edição nova de O turista aprendiz , com mais material. Espero que no próximo ano, quando a obra entrar em domínio público, apareçam novidades e surpresas. Há um interesse grande por Mário de Andrade nesse momento, por sua obra, seus projetos e sua vida.

Qual é o seu próximo projeto de livro? Pensa em produzir outra biografia?
Outra biografia agora não. Tenho o projeto de escrever um livro sobre os anos 1970. Era jovem naquela época e percebo que a história ainda não está contada. Gostaria de enfocar a produção literária e musical naqueles anos muito difíceis da nossa história recente.