Entrevista: Edla van Steen

Os séculos da poesia brasileira

Edla van Steen fala sobre a ousada coleção que idealizou e coordenou, que compila quatro séculos da poesia brasileira


Por Guilherme Magalhães


Quem pretende se aprofundar na história da poesia brasileira tem uma ótima oportunidade com a série “Roteiro da Poesia Brasileira”. A antologia chama a atenção pela ousadia e ineditismo: mapear, em 15 volumes, a produção poética brasileira ao longo dos séculos — do período seiscentista até os anos 2000. A curadoria do projeto coube a Edla van Steen, que há 30 anos organiza antologias para a editora Global (“Melhores Poemas” e “Melhores Contos”). Edla foi a responsável por chamar estudiosos que selecionariam os poemas de cada volume.

Nos primeiros sete volumes estão destacadas todas as escolas literárias: Raízes, Arcadismo, Romantismo, etc. A partir de então, a série privilegia os autores por décadas, destacando o período em que seus poemas foram publicados em livros pela primeira vez.

Segundo Edla, a grande dificuldade dos selecionadores foi escolher/descobrir poetas fora do eixo Rio-São Paulo, que sempre tiveram ou têm maior visibilidade, ou seja, traçar um panorama das várias cenas poéticas espalhadas pelo Brasil a partir de períodos pré-determinados. A seguir, Edla fala sobre o projeto.

A série “Roteiro da Poesia Brasileira” pretende mapear a história da poesia brasileira, em 15 volumes. Qual foi exatamente o seu trabalho neste projeto?
Há trinta anos dirijo várias coleções na Global Editora, entre as quais “Melhores Poemas”, “Melhores Contos” e “Melhores Crônicas”. Meu trabalho começa na escolha do autor e do seu especialista, e/ou poeta, que tenha tempo e disposição para selecionar os melhores e fazer o prefácio, os dados biobibliográficos, etc. Às vezes fico mais de ano tentando encontrar a pessoa certa. Muitas vezes dou sugestões de poemas e/ou textos que, por algum motivo, não foram incluídos. E, quando se trata de um autor que não está em domínio público, vou atrás até conseguir a assinatura do contrato. Confesso que é a parte mais trabalhosa. No “Roteiro”, a partir do Modernismo, a maior dificuldade foi conseguir autorização de publicação de autores e/ou herdeiros. Vânia Barra, da Solombra Books, nos ajudou muito. Prefácios tiveram de ser reescritos quando não conseguíamos os contratos, por isso ou aquilo. Talvez, numa segunda edição, possamos incluir alguns nomes que ficaram de fora.

A pessoa que começar desde o primeiro volume deste “Roteiro da Poesia Brasileira”, dedicado às “Raízes” de nossa poesia, e passar por todos os movimentos poéticos de nossa literatura encontrará, nos últimos volumes, uma poesia à altura de nossa tradição?

Acho que o “Roteiro da Poesia Brasileira” mostra exatamente o que aconteceu/acontece com a produção nacional após o modernismo. Poucos poetas selecionáveis da geração de 1930 e, a partir da de 1940, a quantidade de nomes e obras foi aumentando. A grande dificuldade dos selecionadores foi escolher/descobrir poetas fora do eixo Rio-São Paulo, que sempre tiveram ou têm maior visibilidade. Todos nós sabemos que publicar livros de poesia foi e é cada vez mais complicado, em geral os autores pagam as edições dos seus primeiros poemas. Os selecionadores fizeram o possível para garimpar as décadas. Autores de excelentes livros não tiveram sucesso, nas
primeiras edições. Muitos morreram sem saber se a sua poesia seria ou não lida.

A poesia brasileira, principalmente no século XX, passou por diversos movimentos de vanguarda, todos eles defendendo um tipo peculiar de escrita. Nossa poesia contemporânea carrega alguma marca perceptível como a desses movimentos poéticos?
Acho que sim. O tempo e a análise das obras vão nos dizer. Uma confissão: alguns poetas que tiveram sucesso nas suas décadas não sobreviveram às análises dos especialistas de hoje. Nem sempre o sucesso ou o fracasso tem a ver com a qualidade.

O século XX produziu grandes poetas no Brasil. Escritores tão poderosos que ainda hoje parecem eclipsar os poetas contemporâneos. Quem são os poetas de hoje que podem rivalizar, em termos de popularidade e qualidade, com ícones como Drummond, João Cabral e Bandeira? Ou melhor, quem são os candidatos a cânone de nossa poesia?
A sua pergunta sugere que você não considera Ferreira Gullar, por exemplo, para citar apenas um nome, grande poeta? Aliás, este é exatamente um dos objetivos do nosso “Roteiro”, registrar, pelo menos na opinião dos especialistas, o que de melhor se vem produzindo no país. Não sei se conseguimos, mas tentamos. Nunca nenhuma editora tinha feito um trabalho de levantamento tão extenso.

A senhora acha que nesta última década, marcada pela intensa presença das novas tecnologias, a poesia sofreu alguma mudança significativa, seja na difusão ou mesmo na forma de se fazer poesia?

Fiquei muito feliz quando Marco Lucchesi aceitou fazer o volume dos anos 2000, ele mesmo um jovem com a coragem necessária de consultar poetas e pedir-lhes sugestões de nomes e de poemas. Toda geração é fruto das anteriores e é sempre um prazer descobrir novos talentos que o tempo canonizará ou não. Confesso que eu conhecia bem poucos poetas atuais do Paraná, por exemplo. Alguns li apenas no Rascunho. E a seleção me surpreendeu. Acredito muito na poesia da vídeo-art, também, como nova e moderna forma de criação.