Ensaio | Um pequenino (des)vivo

Dialogando com inúmeros pesquisadores, Robson Coelho Tinoco e Míriam Theyla analisam a obra de Manoel de Barros, principalmente, a partir da questão da infância, tema recorrente na poética do autor


                                                                               Arquivo da família do autor
                         
A infância é um dos temas da poesia de Manoel de Barros.


No ensaio intitulado “Do esbarro entre poesia e pensamento”, a respeito da obra poética de Manoel de Barros, Alberto Pucheu diz que há grande “dificuldade em se tentar interpretar a obra do poeta”. Tal dificuldade também é igualmente notada por Renato Suttana, no ensaio “Poesia em linha reta: últimas impressões sobre a obra de Manoel de Barros”, quando destaca o sentido precário, no que diz respeito à possibilidade de veicular “mensagens suscetíveis de interpretação ou paráfrase”, o que deve afastar, portanto, qualquer pretensão de aplicar rótulos a essa poesia. 

A complicação, se assim pode-se dizer, que advém da provocativa experiência de interpretar a obra poética de Manoel de Barros, entretanto, não se deve ao hermetismo dos textos em questão — que, em sua maioria, utilizam elementos nos quais há valorização de temas elementares, como os relativos à natureza. A dificuldade de abordagem, que Pucheu chama de “aproximação”, reside não no objeto, mas nos métodos com que se tenta interpretá-lo. Isso se dá sobretudo se for levado em consideração que alguns
desses métodos, de base acadêmico-teórica, se apresentam com a pretensão de tentar “reduções temáticas e/ ou formais” focando obras poéticas de grande envergadura, como é a de Manoel de Barros, a análises que se resumem, de acordo com o próprio Pucheu, ao “esquartejamento” de conceitos já conhecidos e gastos, tornando estéril o que antes era vitalizado. 

Ainda nessa linha de “redução”, os críticos da obra do poeta agem, segundo escreveu Adalberto Müller Jr. no artigo “Manoel de Barros: o avesso visível”, como investigadores de polícia que analisam e decompõem matematicamente os poemas e nada encontram, pois em seus poemas nem tudo é como aparentemente possa parecer. Assim, segue Müller, será preciso talvez começar a olhar para a obra de Manoel de Barros como um todo articulado em torno de um projeto bem estruturado e insistente, em que suas fronteiras (semânticas, discursivas) se movem e se deslocam constantemente, obrigando o leitor a um processo também constante de rememoração e ressignificação. 

Criança no tempo
Nesse sentido, e com foco na “questão da infância” como elemento central da poética de Barros, dois livros são essenciais: Exercícios de ser criança (1999) e O fazedor de amanhecer (2001). Essas obras tematizam, como tipo de coluna-poética, a questão da infância — tema presente em toda a obra do poeta e que tem ganhado, nos últimos anos, um destaque crescente. 

Tal relevância pode ser comprovada pela recorrência do tema no geral de seus trabalhos, como esses dois citados e, ainda, nos livros Cantigas por um passarinho à toa (2003) e Poeminha em língua de brincar (2007) que, por estarem intimamente relacionados à infância, são classificados, no mercado editorial, mesmo como poesia infantil. 

Vale ressaltar que a validade (pertinência, abrangência etc.) desse tipo de classificação aqui não será considerada, interessando muito mais como se dá o processo poético de tal presença temática. Há ainda dois livros de Manoel de Barros, dos mais recentes, em que o tema da infância está presente: Memórias inventadas: infância (2003) e Memórias inventadas: a segunda infância (2006). Esses, se fogem à rotulação editorial de poesia infantil devido a seu cunho mais memorialístico, têm igualmente a infância como tema basilar.

No sentido, então, de estudo poético a ser devidamente apreendido, é importante compreender em que sentido a infância — principal temática representada nos livros citados — se aproxima de sua vida-poesia, ou poética vida. Ainda, como tal aproximação é reiteradamente utilizada por Manoel de Barros em seus mais recentes livros em um nível mais explícito e recorrente que em seus outros livros. 

É importante lembrar, também, que a constatação de que a infância, a criança e o faz-de-conta infantil são temas comuns na obra do poeta, não sendo características marcantes de uma ou outra fase específica de sua produção e, nesse sentido, evidencia- se o pensamento de Walter Kohan, organizador do livro Lugares da infância: filosofia, quando ele afirma que sua poesia procede da infância. 

Assim, a infância apresentada no geral de seus poemas não é apenas figurativa, como um cenário empoeirado e distante, mas sim representada como dimensão viva, pulsante e muito rica de significação e ressignificação do mundo e do ser humano. Nesse sentido, a infância nos poemas transcende sua própria condição cronológica, permanecendo atuante na sensibilidade rural-visionária-campesina de Manoel de Barros. O poeta, mesmo já octogenário, reportava-se à infância não como vivência passada e finita, mas como dimensão subjetiva que acompanha o adulto em toda a sua existência. Ele não apenas se (auto)remetia ao passado em busca de sua infância; ele a mantinha consigo em sua “desassumida adultez”. 



Infância e poesia 
Sob tais elementos, vistos em conjunto e integrados, destaca-se uma produção artística que associa dois temas muito importantes para o ser humano: infância e poesia. Nesse tema duplificado a infância, mais do que mera fase biológica, é considerada um momento em que a criatividade e a subjetividade se apresentam muito explícitas, resgatando potencialidades positivas do ser humano. 

É assim que essa condição infantil se marca pela curiosidade, pela paixão, pelo sonho, pela imaginação, pela criação, pela transgressão, o que possibilita a cada um construir sua história. E ela possibilitará resgatar, segundo Kelcilene Silva no estudo acadêmico “Intertextualidade: a poesia de Rosa em Manoel de Barros”, nossa humanidade, tão esquecida nos dias atuais; resgatar nosso direito de ´ser mais´, de ser sujeito e não objeto, de encontrarmos um sentido para a vida, para a própria existência humana. 

Para Barros, mesmo como opção de vida simples, a desautomatização do discurso e do pensamento pode ser compreendida como a principal característica que aproxima a infância — isto é, a maneira como a criança percebe o mundo — do discurso poético. Para ele, tanto o pensamento infantil quanto o discurso poético possuem “uma lógica” de funcionamento caracterizada, principalmente, pelo rompimento, e decorrente recriação, dos padrões de compreensão e ressignificação do mundo. Assim, a capacidade perceptiva/subjetiva que as crianças naturalmente apresentam permitiria a elas perceberem o mundo de forma muito diferente da apresentada pelo adulto. De maneira similar se encontrava o poeta-pantaneiro, ao perceber seu “estar-no-mundo” de forma diferente, e incomum, da experimentada pelas outras pessoas. 

Dessa maneira é possível afirmar que, ao retratar a infância em seus poemas, Manoel de Barros promove o encontro de potências criativas fundamentais para o ser humano, retrata em seus poemas um percurso pessoal, leve e simples como suas imagens, também marcado por práticas incansáveis de uma extensa “leitura produtiva” ncomo aquela que produz conhecimento múltiplo e convergente — percurso que o poeta faz, atento a cada passo trilhado e sem nenhuma pressa. 

Além disso, a forma como a ligação natural existente entre criança e poesia é apresentada — por exemplo, nos livros Exercícios de ser criança (1999) e O fazedor de amanhecer (2001) — permite vislumbrar o enriquecimento mútuo que pode advir da convivência dessas duas, digamos, dimensões. Ainda, esse tipo de combinação envolve o emprego de variáveis tais como o uso da imaginação — uso que nos poemas é algo facilmente empreendido — pois requer sensibilidade fina ao lado de clara competência literária. 

Se tal uso não se estabelece, como os estudiosos Alfredo Bosi e Ida Alves valiam, não haverá o que se chama de universalidade da poesia”, mas tão somente m amontoado desconjuntado e imagens que, por não estabelecerem um diálogo — construído sob dada relação dialógica — com o leitor, não criam sentido poético original, diferencial dos grandes autores.

                                                Arquivo da família do autor
 
O poeta fotografado em 1942.


Fuga de clichês 
Assim sendo, poetizar acerca do universo infantil é um desafio que requer do autor autonomia para se desvencilhar dos clichês de expressão linguística e vícios de construção poética que possam interferir na qualidade final da obra. Aparentemente simples de ser alcançada, essa autonomia é resultado de incansável exercício de ser homem, de ser poeta e de ser criança. 

Sob tal autonomia, aparentemente simples, a representação da infância, seja na poesia ou na prosa, pode sempre esbarrar na redução que advém de ser o adulto um indivíduo completamente dissociado da infância ou, de maneira oposta, a idealização da infância como dimensão idealizada e inalcançável. Nesse aspecto, em se tratando da poesia de Manoel de Barros, ao representar a infância, com o auxílio de suas memórias pessoais, há um diálogo frutífero e eficaz do autor com a subjetividade de seu leitor, com sua sensibilidade e criatividade — características do ser humano e não apenas do ser-poeta ou ser-criança. 

O jogo naturalmente deliberado entre o que é visível e o que é essencial em sua poesia é muito condizente com a própria figura do poeta, cuja aparente simplicidade disfarça, conscientemente, como bem observa José Castello, em texto publicado no jornal O Estado de S.Paulo em 1997, a existência de um homem muito culto, sensível e que dispõe de uma “simplicidade altamente elaborada”. Nesse sentido, como exemplo da intenção que Manoel de Barros tem de confundir sua imagem e sua própria intimidade, o jornalista comenta um encontro que demorou cerca de três meses para acontecer, uma vez que Barros praticava uma espécie de “reclusão”, voluntária e notória, evitando, sempre que possível, entrevistas ou lisonjas de quaisquer tipos. 

Suas entrevistas, por exemplo, normalmente eram feitas por telefone ou por escrito mediante envio prévio das perguntas que, após apreciação metódica do poeta, eram respondidas e reenviadas ao seu interlocutor. Sob tal “invólucro de comunicação”, esse tipo de postura não deixava de alimentar a imagem construída pela mídia, que retratava Manoel de Barros como uma espécie de ermitão isolado em seu próprio mundo, imagem que não condizia com sua verdadeira forma de ser. 

                                                                                                Arquivo da família do autor

Manoel de Barros com familiares no Cristo Redentor, no Rio de Janeiro,
em data não identificada.

Sobre humanos 
O universo de Manoel de Barros se assemelhava muito ao ditado popular “os rios mais lentos e mais silenciosos são os mais profundos”, ainda que suas águas não fossem “tão lentas” assim, pois o dinamismo interno de sua poética é (morre a pessoa-poeta; fica o poeta-pessoa...) pulsante e sempre muito presente ao longo dos versos construídos. Nesse dinamismo o poeta propõe, seguindo um ensaio de Eric Ponty, um mergulho em nossas próprias águas para entrarmos em contato com aquilo que somos na verdade, com nossas origens, nossa pureza que sobrevive escondida. 

A busca pela origem dos seres e das coisas é um tema recorrente na obra de Manoel de Barros e dele se desdobram muitos outros, dentre os quais o apego à natureza, a simplicidade de hábitos e de assuntos, além da valorização da criança e da infância. Deve-se entender, quanto a essas opções poético-temáticas, que sua “mitologia pessoal” dialoga profundamente com o imaginário humano coletivo, que resulta em compor uma poética expressiva, literariamente arquitetada, muito rica. 

Desvendar o universo — pessoal e/ou poético — de Manoel de Barros é mesmo percorrer um caminho cheio de armadilhas bem armadas, sobretudo aos que tentam fazê-lo com base em preconceitos ou ideias genericamente aplicáveis a tudo. Todavia, para aqueles que optam por um vivo e assumido “caminhar entre armadilhas”, é importante notar que não se trata de um caminho hermético de curvas entre desvios sobre si mesmo, tecnicamente preparado apenas a uns poucos iniciados. 

Assim caminhando por ela, assim rumo de vez para a frente, descobre-se que a poesia de Manoel de Barros trata, sobretudo, mdo ser humano — o que é uma vantagem para o leitor comum, seja criança, jovem ou adulto. Assim caminhando, nota-se que seus poemas estabelecem diálogo (de andarilho em construção) com o que temos de mais característico: nossa sensibilidade humana. Imerso também, nessa caminhada, o drama (na verdade antidrama) de Manoel de Barros busca a profundidade do próprio ser, de seu existir ante a realidade exuberante, indômita, da palavra de um lado; de outro, o próprio poeta — ser frágil, necessitado — busca, como avalia Afonso de Castro, a apropriação das palavras existentes ou das palavras imaginadas. 

                                                      Arquivo da família do autor

Os professores Robson Coelho Tinoco e Míriam Theyla analisam que,
devido à força de sua poesia, Manoel de Barros “nem morreu. 
Só desviveu.

A jornada do poeta
Enfim, seja por meio da vertente de uma imagem poética construída sutilmente, ou nela estabilizada, a aparente (e crua) singeleza na vida e obra de Manoel de Barros não pode ser confundida com ignorância erudita ou ingenuidade intelectual. A adoção da simplicidade pelo poeta, tanto em seus textos quanto em sua vida, assim percebida, é uma postura voluntária e reflete uma original escolha pessoal, não dizendo respeito a limitações — dessa ou daquela linha teórica, desse ou daquele nicho formal- temático — que eventualmente se atribuam a seu trabalho. 

Essa noção/sensação de poesia é essencial não apenas para aqueles interessados em “estudar” rios e formigas e mato mas, também, e principalmente, para os que, como avalia a jornalista e atriz Bianca Ramoneda, atropelados pelos excessos — de trabalho, de informação, de desejos — sentem uma necessidade vital (e essencial) de delicadeza e de simplicidade. 

Delicadeza e simplicidade que, fielmente adotadas pelo poeta como caminhos-ferramentas poéticos, disfarçam candidamente uma agudeza de raciocínio de um homem que é sobretudo, como bem definiu Pucheu, um “poeta-pensador” preocupado com seu tempo, seus semelhantes e sua própria condição humana. Tal afirmação pode ser comprovada — dialogicamente (salve, Bakhtin!); na completude de seus vazios (salve, Iser!); no abandono do desapego (salve, São Francisco!) — pela leitura atenta dos temas presentes em sua obra, como a busca pela origem dascoisas, tema originalmente clássico de  funda reflexão filosófica. A presença
desse tema, aliás, entre outros, possibilita perceber que o poeta — no fundo, por baixo e por cima, um homem simples — ainda que em nada ingênuo ou desconectado de sua realidade sócio-histórica, empreende uma cruzada pessoal em busca de uma melhor compreensão acerca do homem e de seu sentido de “estar-no-mundo”. 

Sim, Manoel de Barros ainda nem morreu. Só desviveu.


Míriam Theyla é professora de língua portuguesa e doutoranda em literatura brasileira na Universidade de Brasília (UnB). Vive em Brasília (DF).

Robson Coelho Tinoco é professor do departamento de teoria literária e literaturas da Universidade de Brasília (UnB). Vive em Brasília (DF).