Ensaio | J.D. Salinger

Contra a dureza da vida

O escritor e crítico Luís Augusto Fischer se diz encantando de modo permanente com a obra de J.D. Salinger, cuja leitura mais recente teve como objetivo a elaboração do breve ensaio publicado nesta edição. No texto, Fischer defende que Salinger faz de tudo para convencer os leitores de que vale a pena preservar a chama da inocência, mesmo em um mundo vil



Minha relação com a literatura de J. D. Salinger não tem muito paralelo com a que mantenho com qualquer outro escritor (salvo, em parte, Paul Auster, mas é diferente). Digo, com os escritores que leio regularmente, retornando a cada tanto para novo contato, novo usufruto, novo choque. (Auster me irrita profundamente porque parece que escreveu os livros que eu, exatamente eu e ninguém mais, deveria ter escrito, queria ter escrito, precisava ter escrito. Salinger... Salinger é outra coisa, nem sei bem qual.)

Não se trata aqui de compará- -lo com meus diletos Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges ou Franz Kafka, para ficar no meu cânone pessoal mais estrito. Não se trata de pensar em Salinger como integrante de um olimpo geral, como um artista da mesma estatura daqueles quatro gênios — não sei bem onde colocar Salinger, em escalas desse ou de qualquer tipo, pelo motivo singelo de que, ao lê-lo, quase não consigo manter a vigilância crítica que atua na leitura daqueles quatro e da generalidade dos escritores de ficção. Sou encantado por Salinger num patamar que não tem igual, nas minhas experiências de leitura, que, convém mencionar, nem sei se são muito relevantes para além do meu próprio mundo, mas de todo modo não são poucas, nem são recentes.

Começo então este comentário com uma capitulação: é bem possível que nada do que eu consiga articular criticamente sobre Salinger tenha qualquer valor interpessoal. Desculpa aí, meu caro leitor desavisado. Acho que deveria nesta hora repetir, humildemente, Montaigne, na abertura de seus ensaios: se tu tiveres coisa melhor em que empregar teu tempo, prezado leitor — diz o mestre francês lá com suas palavras —, é o caso de ires fazer essa outra coisa, porque o que vai aqui é de interesse estritamente pessoal, que talvez interesse apenas a mim e a alguns poucos amigos.

Ou deveria citar o próprio Salinger, na abertura de sua história para mim a mais impressionante e desconcertante, que resiste a uma série de releituras há uns trinta anos — me refiro a Seymour, uma apresentação, novela editada em 1959. (Minha dissertação de mestrado tem como epígrafe uma das frases de Buddy sobre um determinado tradutor de poesia: And who goes to poetry for safety, anyway? Quem é que procura a poesia em busca de segurança, no fim das contas?) Num dos dribles impressionantes de que somos vítimas por parte da voz e da arquitetura narrativa, Buddy Glass, o escritor que conta a história, irmão do falecido gênio cujo nome intitula a novela, faz uma reflexão tortuosa sobre a natureza da relação entre o estado de espírito do suposto autor, ele mesmo, e seu leitor, quer dizer, este que acompanha seu texto no eterno e fugidio presente, que é o de todo leitor.

 
Da esquerda para a direita: as duas últimas novelas de Salinger publicadas em livro, ambas focadas no excêntrico Seymour Glass; a edição brasileira do “Apanhador”, com capa discreta, conforme desejo do autor e a capa da edição de bolso do Apanhador, com uma ilustração de Holden com um chapéu de caça vermelho. Salinger odiou.

Buddy reconhece que está escrevendo, ali e então, de modo labiríntico, cheio de apartes e parênteses, emboscando o leitor, pulando em suas costas de vez em quando, e admite que há leitores que gostam do método clássico, rígido, linear e veloz. Para esses, Buddy observa: “a estes eu sugiro (...) que se despeçam agora, enquanto, imagino, a despedida será calma e tranquila”. E acrescenta: “Provavelmente continuarei a indicar saídas disponíveis ao longo do texto, mas não sei se darei minha melhor atenção a isso novamente”. 

(Lembrei de outro escritor que me dá a mesma sensação de impotência crítica: Carlos Sussekind. Conhece? Armadilha para Lamartine, ou Que pensam vocês que ele fez?, ou Ombros altos. Cada narrativa um impressionante mistério novo.)

São poucos livros editados, contra os supostos muitos livros inéditos, que agora, após sua morte, mais uma vez são anunciados. O mais famoso, O apanhador no campo de centeio (1951), que dizem ter sido o primeiro livro a dar protagonismo a um adolescente — no mesmo contexto histórico em que outros adolescentes, depois mundialmente famosos, ganharam voz e corpo, como James Dean e Marlon Brando —, está longe de ser meu predileto, mas é bom, muito bom: reli-o não faz muito, e ali, ao lado do óbvio — a história de um adolescente, contada por ele mesmo, em linguagem solta, dando conta de seu fracasso escolar e da tristeza geral que é a vida —, acontece toda uma reflexão enviesada sobre o lugar do artista no mundo moderno.

E ali aparece, de corpo inteiro, um dos truques que me aprisiona: Holden Caulfield, o protagonista, a certa altura conta que sonhou que estava num amplo campo de centeio e que sua tarefa era ser como a de um apanhador (do beisebol, aquele que pega a bola lançada por outro) cuja tarefa fosse a de impedir que todos os meninos que estavam ali não caíssem no abismo vizinho a esse campo. Holden então funciona como alguém que protege crianças de caírem no buraco, o que pode ser interpretado logo como uma alegoria de proteção dos inocentes contra a dureza da vida. Volto ao ponto mais adiante.

 
A coletânea de contos Nine stories, que abre com a famosa história “Um dia especial para peixes-banana” e a icônica capa de Catcher in the rye, que traz ilustração de Michael Mitchell, amigo de Salinger.

Seu livro de contos Nove estórias, no meu exemplar, tem sublinhas, exclamações, anotações de várias camadas de leituras, de diferentes épocas da minha vida. Uma vez, mais de dez anos atrás, reli tudo com o propósito específico de tentar entender como é que funcionava aquele mecanismo encantador, encantatório. Consegui? Não, mas o processo foi ótimo.

(Desculpa mais este parêntese, mas preciso contar outra: tenho uns livros de ficção, o primeiro dos quais de contos; no primeiro conto desse primeiro livro, no primeiro parágrafo dele, eu cito Salinger, de modo cifrado, mas suficientemente forte. Era como uma tentativa de tomar a bênção com ele, lembro bem. Se não funcionou, não terá sido por falha dele.)

Franny e Zooey e a dupla de novelas Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira mais Seymour, uma apresentação, somados aos dois livros citados, eis aí sua obra em português. Tirando o Apanhador, o restante é basicamente articulado para contar história de uma mesma família, Glass, composta por pai e mãe artistas e o grupo de seus sete filhos, pela ordem Seymour, Buddy, Boo-Boo, os gêmos Walt e Waker, Zooey e Franny. Fico imaginando o prazer raro de Salinger, que, como outros escritores (Machado de Assis, pouco — Quincas Borba, basicamente —, e Erico Verissimo, muito — nos romances iniciais, Clarissa, Vasco, Fernanda e outros —, escritores de resto tão desiguais entre si), pôde inventar e retomar personagens, explorando ângulos novos, em tempos diferentes, e com isso compondo seu romance-rio. (Mas por que tanto parêntese, tanto aposto, tanta reentrância nesse texto que poderia ser clássico, rígido, linear e veloz?)

Seymour, uma apresentação talvez seja o ponto mais alto dessa trança que envolve toda a família e a reflexão sobre como pode existir arte em nosso tempo — o tempo que viu Adorno dizer que depois de Auschwitz não dava pra pensar em poesia, o mesmo tempo que Salinger viveu ao vivo, na Segunda Guerra, quando esteve no desembarque da Normandia, no famoso Dia D, trabalhou no serviço de inteligência interrogando prisioneiros em alemão e em francês e, não menos, quando consta ter sido um dos primeiros dos soldados aliados a entrar num campo de extermínio, parece que Dachau. Quem passou por isso prestando atenção (e sendo judeu, como era seu caso, com pai etnicamente judeu e mãe convertida) não pode trançar só por boniteza.

(Lembrou Guimarães Rosa? Epígrafe de A hora e a vez de Augusto Matraga: sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão. Sapo Salinger, quero dizer.)

No fim, toda a sua obra pode, acho eu e acha muita gente, ser lida naquela chave geral antes evocada: Salinger trata sempre de produzir, na leitura, um efeito de presentificação fortíssimo — Holden está falando ali, diante de nós, e Buddy, na apresentação de seu irmão, conta de Seymour e de si mesmo, pontuando as horas em que está escrevendo, relatando momentos em que precisa parar, de tanta emoção que está sentindo — que nos arrasta para aquele ponto da experiência em que não perdemos ainda a esperança da revelação do sentido, da semiofania que vem num verso preciso, numa cena preciosa.

Salinger faz de tudo para nos garantir, com sua sagaz arquitetura narrativa, que vale a pena preservar essa chama da inocência, mesmo sabendo que tudo no fundo já foi para o saco, já desandou, já se perdeu na noite da tristeza. Esse misto de inexorável desespero e espera feliz, sabe como é? Bem ali.

Me ocorre que aquilo que se sabe dele, que escreveu milhares de páginas e não as publicou de propósito, que era querido por milhares mas se recusava a falar com quem quer que fosse, que processou todo mundo que escreveu sobre ele, que não aceitava que as capas de seus livros tivessem ilustração, tudo isso deve dar um prazer parecido ao de nunca sair da adolescência — nos dois casos temos uma defesa cerrada da intimidade e da possibilidade do encantamento, defesa na qual figuram, como fantasmas, os outros, isto é, o leitor.

Não sei dizer nada melhor que isso, leitor hipócrita, meu irmão. Só posso me despedir com o conselho de Buddy ao leitor daquela confusa, linda, delicada, incompleta, feliz, transcendental, esquisita apresentação: “Agora vá para a cama. Depressa. Depressa e devagar”.

          Reprodução


Luís Augusto Fischer é professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor de, entre outros livros, Machado e Borges — e outros ensaios sobre Machado de Assis e Literatura Brasileira — modos de usar (L&PM). Vive em Porto Alegre (RS).