Ensaio: Esse Leminski!

Ricardo Silvestrin

Paulo Leminski era um poeta tão novo que nem teve tempo de envelhecer. Morreu aos 44 anos. Como os mitos da contracultura, Jimi Hendrix, Janis Joplin, vai ser eternamente jovem. Sua poesia faz uma curva rápida, que vai quase que em linha reta, da celebração da vida, da arte, da alegria, até a surpresa frente à morte, à dor. E desses últimos temas, ele trata ainda com a mesma vivacidade, a mesma ironia, sem se deixar abater nas suas últimas forças de homem jovem.



É impossível saber se a sua poesia, com Leminski seguindo vivo, iria trazer as perdas da idade, da passagem do tempo, ou ele desviaria sua atenção para as questões da arte, da expressão, da busca pelo novo. Um homem velho e, antes de tudo, inventivo, como um Haroldo de Campos. Ou um lírico tentando decifrar a vida, a velhice, o sentido de tudo, como um Drummond.

Mas vida não tem se. O que temos é esse poeta e sua poesia criada num tempo definido. Nessa trajetória breve, o que ele concluiu da vida pode estar expresso nesse poema também breve, que está no final do último livro que preparava, La vie em close: “vida e morte/amor e dúvida/dor e sorte/quem for louco/que volte”. O humor equilibra o trágico, pelo menos no tom do discurso. O poema fica zero a zero, para citar o próprio poeta, que escreveu “poema que é bom acaba zero a zero”. Ou seja, o texto não vai cair para a depressão e muito menos para a euforia. No entanto, o tom leve revela uma conclusão amarga. Os opostos não são vistos como complementos, mas como tensão insuportável. Uma vida é o bastante para passar por isso tudo. Nada de reencarnação.

É claro que um poema como esse, isolado, também pode ser visto apenas como um estado de alma. Em determinados momentos, a tensão é tanta que não vemos sentido na vida. Em outros, queremos que a existência siga infinita: “essa vida é uma viagem/pena eu estar/só de passagem”, escreveu o poeta no mesmo livro.

Ninguém vira mito sem suar a camiseta. Presenteado pelas musas com uma grande capacidade de trazer à tona insights singulares, com uma grande veia comunicativa, Leminski não achou que o jogo, em virtude desses atributos, estivesse ganho. Sua produção é o resultado do diálogo com todos os problemas estéticos e expressivos que a história da poesia depositou em suas mãos, como quem diz para o poeta: sai dessa!

De fato, escrever poemas interessantes no Brasil, depois da poesia concreta, de Cabral, de Drummond, de Oswald, para citar apenas os que Leminski mais admirava, é uma tarefa dura. Escrever depois de grandes momentos de reflexão, de ampliação do discurso teórico sobre a linguagem, a arte, a poesia, marcas do século XX, também. Produzir em meio à cultura de massa, à crise das ideologias, à ascensão da música popular num país menos letrado e com “ouvido musical”, como cantou Caetano, tudo isso estava no caldeirão do nosso bardo paranaense.

Na esteira de Ezra Pound e dos poetas concretos, Leminski amplia seu repertório, e o nosso, seus leitores, dos gregos aos japoneses. Formula arte-pensamento, ensina, socializa conhecimento, milita, devolvendo tudo em poemas, ensaios, prosa, fala, cursos, oficinas, canções. Do seu lado professor de história, até Jesus é revisto.

Essa sua capacidade de doação fez com que toda uma geração parasse para ouvir, ler, curtir a sua luminosa presença. Mais do que chamar a atenção para si mesmo, a atuação dele apontou para várias direções e descobertas.

Se fizermos uma tomada aérea, movimento de Google Earth, mas não no sentido espacial e sim temporal, vamos ver em que bronca estética sua poesia estava metida. O verso, unidade de imitação dos conjuntos da fala – sim falamos em pedaços, como os versos, e não como a frase, pois apenas quem fala como a frase é locutor de futebol no rádio –, era, lá na Grécia antiga, algo feito para o ouvido. As métricas, ou seja, o tamanho de cada verso, tinham uma função: era recomendável x número de sílabas se o verso seria entoado, outro número se estivesse nas falas de um diálogo, outro se fosse na parte da peça que teria dança... O verso é anterior à frase. Essa unidade sonora, na qual eram construídas as peças de teatro e os textos entoados ao som da lira, não tinha vindo ao mundo para ser lida. O verso era apresentado, consumido pelo ouvido. Os copistas apenas registravam esses textos para que não se perdessem. As bibliotecas, onde os tesouros ficavam guardados, eram raras. Com a invenção da imprensa, só lá no século XV a poesia começa a ser tanto consumida quanto criada para o papel.

Essa mudança traz questões novas para a recepção e para a produção do poema. Os valores sonoros como métrica, rima e outros passam a conviver com valores espaciais e visuais. Quem estava contando sílaba, de repente deve ter olhado para a folha e visto que quebrar o verso no espaço, mesmo que não fosse a hora pela métrica, poderia trazer um novo efeito expressivo. Mais, olhando as letras, a mancha, um novo mundo criativo se descortinava. O poema começava a passar de apenas jogos de sentido e som para jogos de sentido, som, espaço e desenho. O leitor, lá pelas tantas, também começa a se perguntar por que mesmo esse poeta está cantando para os ouvidos se são os olhos que estão vendo.

Cada língua e cada história literária do ocidente construíram, e continuam construindo, sua nova poesia no embate criativo com essas questões. Quando dizemos verso livre, estamos dizendo livre da métrica, mas não livre da tarefa de criar uma estrutura no espaço. Durante a primeira metade do século XX, um conjunto de excelentes poetas brasileiros chegou a resultados consistentes usando tanto as surpresas de significado, como de som e de espaço/desenho. Temos a consolidação de um verso livre com Drummond, Bandeira, Quintana, Cabral, ente outros, e a criação de uma nova poesia, mais visual, com Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campo e diversos poetas que aderiram à proposta concreta. E, na sequência, ainda outras vertentes, como a poesia neoconcreta, o poema processo, além dos neosurrealistas/beatnicks, da arte engajada politicamente e da arte da nova canção popular brasileira.

A questão que se impunha para Leminski foi a que ele mesmo expressou em carta para Régis Bonvicino. Num episódio que nomeou como transmissão da lâmpada, Leminski relata que Décio Pignatari disse a ele que o concretismo tinha que acabar. E só quem poderia fazer isso eram os novo poetas, como Paulo. Da reflexão sobre como dar conta do pedido, Leminski decide permitir que passem a entrar no seu verso elementos que eram dele e da geração dele, como a contracultura e o trotskismo. A partir disso, cria o seu verso, que não era mais a poesia concreta, embora nascido dela, nem o verso modernista.

O que tem da poesia concreta no verso de Leminski é o fato do jogo de linguagem, do gesto com a palavra estar à mostra – ele vem para o primeiro plano. Do verso modernista, o discurso, ou seja, falar sobre alguma coisa (diferente do poema concreto que, em vez de falar sobre, a forma concretiza o conteúdo, vemos o conteúdo/forma em vez de lermos sobre ele) e a liberdade de dizer num verso livre – na poesia moderna, como já se disse, cada poema cria a sua arte poética.

Mas isso não é tudo. Os impasses poéticos antes da produção de Leminski poderiam ser agrupados assim: discurso x não-discurso – questão da poesia concreta; livre x métrica/rima/formas fixas – questão dos modernistas; projeto anterior x descoberta criativa – questão neoconcreta e processo; racionalismo x inconsciente e piração – questão dos neosurrealistas/beatnicks; falar da realidade brasileira com uma leitura de esquerda – questão dos engajados; retomar a linha evolutiva da música popular brasileira – questão tropicalista.

Da experiência concretista – o olhar atento sobre a palavra, e da experiência do haicai, Leminski colhe elementos formais para criar um novo discurso. São palavras precisas. Não há nada sobrando. Faz um discurso não-discursivo.

Do conhecimento diversificado e aprofundado do som, das possibilidades sonoras da palavra, vai além da ideia de rima, trazendo anagramas, ecos, aliterações. Faz um verso não metrificado, mas cheio de ritmo, de melodia e muito sonoro. Classificações como “rica rima e rima pobre” se esfarelam, pois a concisão, a precisão, a contemporaneidade, a inteligência do insight, tudo isso faz saltar a ideia com seu som na nossa cara: “confira/tudo que respira/conspira”. São três verbos, mas quem vai se lembrar de pensar se são rimas ricas ou pobres? O discurso é novo e os problemas estéticos que propõe também se apresentam como novos. Formas fixas ficaram para trás? Leminski revalida o haicai, mas dentro de um espírito moderno. Interessa menos contar sílaba do que buscar o poema breve que capte o aqui e agora.
Sua poesia não postula um conjunto de preceitos. Não há um manifesto, uma plataforma anterior. Vai se realizando a cada poema. Mas, nem por isso, deixa de revelar as escolhas do poeta como estamos colocando aqui.

Leminski não parecia acreditar que a irracionalidade deveria vir à tona e fazer o poema. Mas também sabia que, mesmo tendo a consciência da linguagem, o insight e o acaso eram e sempre serão dados do tabuleiro: “depois de muito meditar/resolvi editar/tudo o que o coração/me ditar”. É claro que há uma ironia, uma brincadeira com meditar e me ditar, que, talvez por ela mesma, até contra o que ele pensasse, valeram a existência do poema – tipo: “perco o amigo, mas não perco a piada”. Mas há uma ideia de inspiração contida aí. E um jogo dúbio na palavra editar – que percebo só agora. Pode-se editar, publicar, tudo o que o coração mandar. Ou editar, cortar, reordenar. Esse Leminski!

Quanto ao engajamento, ele era de esquerda, trotskista. Cita o seu escolhido entre os socialistas em alguns poemas. Contudo, não deixa de passar uma rasteira nos maniqueísmos tanto do pensamento de esquerda quanto da arte engajada: “podem ficar com a realidade/esse baixo astral/em que tudo entra pelo cano/eu quero viver de verdade/eu fico com o cinema americano”.

O verso sonoro que cria, desliza também nas melodias tanto compostas por ele, como, por exemplo, em Verdura, quanto em parcerias com outros músicos. Reata, como fez Vinícius, as pontas com o verso grego – o poema, agora letra, não apenas lido, mas ouvido, além de dialogar com o presente e com a qualidade dos compositores inventivos brasileiros.

Como se vê, Leminski foi um poeta que viveu profunda e ativamente as questões do seu breve tempo. Sua passagem de cometa ajudou a trazer respostas novas, que superam alguns impasses e propuseram outros. É desses que empurram seu tempo para frente. Não teve tempo de envelhecer. Mas, depois da sua poesia, muitas discussões ficaram velhas.

Ricardo Silvestrin é autor de quatorze livros. Os mais recentes são os livros O Menos Vendido (Nankin, 2006), de poemas, Play (Record, 2008), de contos, e O videogame do rei (Record, 2009), romance. É também músico e integra a banda os poETs. Mora em Porto Alegre (RS).

Ilustração: Rafael Sica