Em busca de Curitiba

Benjamim Vermelho


Guido Viaro



Manuel completou 45 anos esvaziado. Emprego burocrático, rotina tediosa, solidão. As mulheres de sua vida passaram como motocicletas que esbarram no retrovisor de um carro parado no congestionamento. Desapareceram, deixando-o com a sensação de que havia ali uma pequena injustiça, mas que o melhor a fazer seria esquecer o fato, que não tinha importância. A idade acalmou-lhe os ímpetos, de agora em diante retrovisores não fariam grande diferença.

Quando chegava em casa ligava a televisão, desviava da violência, o que sobrava era o som. No computador encontrava “solicitações de amizade”. Aquilo era estranho. A vida dos famosos desenrolava-se, denúncias, gols, vídeos engraçados, opiniões sólidas, solidariedade. Tudo parecia tão distante. Alimentava Benjamim, seu pintassilgo, e baixava o volume da televisão para escutar o pio noturno do pássaro. Antes de dormir rabiscava algumas palavras em um caderno. Gostava de rimar, escrever quadrinhas, tercetos, já tentou escrever contos, mas parecia que sempre ficava faltando alguma coisa, talvez a rima.

Morava no Campo Comprido e trabalhava no Centro, cinquenta minutos dentro de um Expresso, segurando-se em ferros e sentindo pontadas na coluna. Quando conseguia sentar-se observava as pessoas. Mulheres carregadas de sacolas plásticas, ansiosas, homens que não olhavam para lugar nenhum, condenados a uma hora de nada. A paciência parecia ser a religião daquelas pessoas. As conversas tinham tom de espera, nenhuma descoberta ou entusiasmo, a voz mecânica que anuncia as próximas paradas informava quando deveriam haver despedidas, que eram secas.

Gostava também de observar a cidade, os feios conjuntos habitacionais da Vila Sandra davam a impressão de que o mundo resumia-se a antipó, motocicletas, pizzarias e pilhas de três andares de caixas de concreto pintado de branco. Tudo isso era atravessado por um rio-esgoto que nas épocas de seca, fazia do bairro um grande banheiro de rodoviária.

Depois da Vila Sandra o ônibus entrava na Ecoville, torres luxuosas para famílias bonitas e felizes, era isso o que os folhetos promocionais davam a entender. Os prédios tinham quase todos nomes franceses, a arquitetura era cópia de vários estilos, e também copiava estilos já copiados, uma grande salada de nabos sem sal, repleta de imensas janelas de vidro, onde por alguns instantes, quem viajava de ônibus poderia ver um pouco daquilo que jamais teria. As estações-tubo completavam a refeição insossa, pareciam solitários emblemas da modernidade perdidos entre grandes terrenos baldios e porções de concreto cercadas por fios elétricos.

Quando se cansava de criticar a arquitetura, Manuel perguntava-se o que deveria estar fazendo Benjamim naquele instante, e sempre lhe vinham à cabeça três palavras: comendo, dormindo, morrendo. Então ele voltava a olhar para alguém dentro do ônibus, olhava com raiva, “que vida infeliz deve ter essa pobre alma miserável, e pior, não tem consciência de sua miséria”.

O veículo entrava no Centro, e tudo parecia estar à venda, os outdoors anunciavam promoções relâmpago, as motos fugiam dos congestionamentos passando por cima das calçadas, alguém colocava flanelas nos retrovisores e depois passava recolhendo o dinheiro dos que as compravam, um caminhão pintava faixas brancas no asfalto enquanto um policial guiava o trânsito, os carros davam passagem para uma ambulância de sirenes ligadas. As pessoas pareciam atores de um filme de ação, ou raios virulentos rasgando um céu pacato. Manuel sentiu inveja de toda essa energia. Talvez fosse apenas um medroso que estivesse fugindo dos sabores e cheiros, enquanto que os outros, cada qual a sua maneira, entregavam-se ao combate. Ele era uma engrenagem com os dentes gastos que começava a perder a serventia. Precisava acreditar em algo. Não conseguia.

As casas alternavam-se, lajotas reluzentes, vidro espelhado, madeira com lambrequins, colonial português, alemã do século XIX, modernista envelhecida. Cobrava uma coerência da Paris de Haussmann, ou da República Veneziana, mas o que havia era o hiato, o dente quebrado, e talvez essa fosse a verdade do lugar onde vivia. Não havia rima, os versos eram mal ajambrados e rasos, mas a pureza do poeta faria de si mesmo sua grande construção. Encheu os olhos com o líquido da solidariedade. Cumprimentou o motorista de seu ônibus.

Já na calçada arrependeu-se. De hoje em diante teria de cumprimentá-lo todos os dias. Quando voltou para casa, o motorista era outro. Durante o percurso conseguiu sentar-se, mas seu cérebro estava cansado de opiniões, críticas e comparações, resolveu ser como aqueles que partem para um mundo sem portas ou janelas e só voltam de lá no instante em que o ônibus para em seu ponto. Nas primeiras vezes que fez isso, o pensamento escapou por alguma fresta mal vedada, e quando percebeu já estava pensando como antes. Mas depois, conseguiu abstrair-se, às vezes fechava os olhos, enxergava as manchas coloridas, escutava somente os ruídos que queria ouvir, finalmente aprendeu a bloquear tudo que vinha do mundo de fora. Ele ficava em um quarto escuro até ouvir as palavras mágicas: “próxima parada, terminal do Campo Comprido”.

Percebeu que depois que aprendeu essa técnica, chegava em casa muito mais tranquilo e descansado. Ficava muito mais fácil escrever versos em seu caderno. Desenvolveu um poema longo, sem rima, que falava das dores miúdas dos dias, das pequenas sombras entre as folhas, o ninho de ovos do beija-flor. Se Manuel não conseguia ser a pessoa energética que o mundo esperava dele, em compensação enxergava coisas que as outras pessoas que tomavam ônibus com ele, nem suspeitavam existir. Já que tudo era assim mesmo, e que o destino de Manuel era ficar sempre no meio, sem sabedoria nem ignorância, então porque lutar? “Continuo em meu emprego mais um ano, depois vou procurar outro.”

Manuel logo percebeu que é muito difícil a vida de um homem dividido, você mesmo passa a não acreditar no que diz, desconfia de todos e crê estar sendo perseguido. Por outro lado, tem a possibilidade de escalar uma árvore de trinta metros às 3 horas da manhã, casar-se com duas mulheres, se mudar para Bangladesh, comprar uma canoa e ir pescar de madrugada. Mas ele não tinha coragem para os extremos, então aceitava os sabores enjoativos das metades. Passou a fechar os olhos durante as viagens de ônibus.

O caderno de trovas amarelou suas páginas. A criação parecia o caminho de alguém que não teme a liberdade. Usava seu tempo livre lendo livros que ensinavam a ser feliz. Sublinhava as linhas que achava interessantes, percebia os erros cometidos e as mudanças possíveis. O entusiasmo começou a ceder após o quinto volume, o conteúdo era sempre igual, e mesmo que fosse verdadeiro e fácil de ser posto em prática, já não tinha mais certeza se desejava ser feliz.

Voltou a seu caderno, leu as últimas palavras escritas. Rasgou a página. No dia seguinte sentiu um grande nó no peito, se chorar ajudasse, ele teria molhado todo seu apartamento. Desligou a televisão e ficou olhando para Benjamim. O pássaro não quis cantar. Ansioso, Manuel segurou um lápis entre os dedos. Depois da página arrancada, o caderno de escritos mostrava outra em branco, o instinto de sobrevivência fez com que seus dedos desenhassem o contorno da gaiola de Benjamim. Surpreendido com o resultado preciso, começou a desenhar também o pássaro. Peito vermelho, olhos amarelos, encontrou uma caixa de lápis de cor remanescente de sua infância, o bico foi a parte mais difícil de desenhar, muito longo, curto demais, bico não é nariz. As penas do rabo num marrom escuro, as garras na cor da pele, decidiu deixar de fora a pulseira metálica com autorização do IBAMA.

O resultado surpreendeu-o, e ele teve alguns momentos de genuína felicidade. A felicidade talvez seja como aqueles animais velozes que quando os perseguimos, nunca alcançamos, mas se nos fingimos de amigos, dizemos doces palavras e oferecemos leite, eles vêm comer em nossas mãos.

No dia seguinte, Manuel pegou o ônibus pela manhã, estava armado de caderno especial para desenho, lapiseiras e lápis de cor dos mais modernos. Deu sorte e conseguiu sentar, as pessoas olhavam curiosas para o que ele estava fazendo, mas ele não dava atenção a ninguém. Antes de terminar sua viagem, havia feito um esboço do interior do ônibus, o desenho iniciava-se na grossa nuca do motorista, depois descrevia duas mulheres na faixa dos quarenta anos que carregavam muitas sacolas plásticas, usavam japonas de napa, que não cobria o início de seu regos. Na parte lateral de seus corpos, Manuel desenhou aquela gordura que é difícil de ser escondida, e que às vezes, se parece com grandes peças de carne penduradas. Desenhou também as janelas do ônibus e a sanfona que divide o veículo em dois.

Seu tempo acabou, precisava descer, mas guardou na memória várias outras figuras com as quais iria completar o desenho. Chegando em casa a primeira coisa que fez foi pintar com tinta o que estava desenhado a lápis. Poderia chamar aquele de seu primeiro quadro.

Quando tivesse vários talvez pudesse vendê-los na feirinha do Largo da Ordem. Decidiu pintar mais três quadros até o domingo, dia da feira de artesanato. Comprou telas, pincéis e várias latas de tinta a óleo. Na quarta-feira, ele ainda molhava o pincel no azul e fazia círculos no meio da tela. Desistiu do abstrato, pintou a tela toda de preto, e colocou nos cantos, grandes joias flutuando no meio do nada, o rosto desenhado era em preto sobre preto, os leves contornos eram identificados somente na junção das cores, os muito atentos enxergavam ali os traços de uma mulher, os detalhes em vermelho eram seu colar e brincos. O que significaria um quadro onde os contornos do rosto feminino são quase invisíveis e o que sobressai são os adereços? Desejo reprimido, repulsa declarada? Pensou alguns instantes sobre o significado e depois desistiu, quem o observar que descubra o que quer dizer.

Pintou mais dois num estilo parecido, cabeças femininas quase desaparecendo, porque a cor do fundo era a mesma com que pintava o rosto. Mudou as cores, em um a cabeça estava laranja, no outro púrpura.

Domingo. Embrulhou os três quadros junto com os desenhos que tinha feito de Benjamim e do interior do ônibus. Chegou na Feira do Largo da Ordem antes das sete da manhã. Num dos braços carregava as telas e desenhos, no outro a gaiola com Benjamim dentro. Caminhava com dificuldade por entre corredores congestionados, percebeu que todos os espaços estavam loteados, qualquer metro quadrado pertencia a alguém. Circulou por toda feira tentando achar um lugar para expor seus quadros e desenhos, Benjamim estava lá, só para tomar sol.

Quase na frente da Igreja da Ordem, havia alguns metros livres. Não teve dúvidas, expôs os quadros e desenhos e colocou a gaiola no chão. Poucas pessoas se interessaram por seu trabalho, alguém disse “que quadro triste”, um menino achou bonito o desenho que mostrava o interior do ônibus, seu pai disse “você precisa conhecer obras de arte verdadeiras, esse homem é só um artesão”. Perguntou-se onde tinha errado, talvez para a próxima semana pintasse paisagens, ou figuras femininas bem contornadas e com poucas joias. Não ficou triste.

O sol não tinha nuvens, a luz de abril trazia uma tonalidade roxa que vinha do alto da igreja dos protestantes. Sentado em um banco, observou o Centro Histórico, casa do século XVIII, do XIX, buracos de concreto, que já foram buracos de madeira e que tinham vários nomes, casas mal conservadas do início do século XX, monumento enorme, em vidro, com a imensa área interna mal aproveitada, uma balbúrdia de linhas arquitetônicas, oca de índios, mansão de nouveau riche, indústria bélica, igreja modernista. Manuel sorriu: “a esse conjunto não faltam somente a rima, faltam também as palavras”.

Manuel olhou para Benjamim, um pássaro que já o acompanhava há oito anos, talvez aquele fosse o único ser no mundo que ele amava. Mas Benjamim estava velho, e para onde iria esse amor quando ele morresse? Caminhou até o velho bebedouro de cavalos, um pássaro criado em cativeiro não teria chances de sobrevivência se fosse solto no centro da cidade. Colocou a gaiola parcialmente dentro do bebedouro, Benjamim bebeu água e começou a cantar. Manuel abriu a gaiola e viu o pássaro partir. Voou até a viga central da Igreja da Ordem. Por um instante Manuel achou que havia feito uma grande bobagem, e chamou-o para que ele voltasse para a gaiola. Ele bateu novamente as asas em direção a um sol tão vermelho quanto suas penas. Manuel derramou uma lágrima, e depois se sentiu feliz como uma criança.

Guido Viaro nasceu em Curitiba, em 1968. É autor de 11 romances, entre os quais A revelação frutosa (2011) e O livro do medo (2012). Vive em Curitiba (PR).

Ilustrações: Rafael Campos Rocha