Conto | Alberto Mussa

A trilogia homérica


A lenda das minas de prata, que alguns acreditam terem sido descobertas pelo Caramuru, apesar do extravio de um certo mapa traçado por seu neto, o Moribeca; a lenda das minas, que levou homens tão díspares entre si como o padre Aspilcueta Navarro e o tremendo Anhanguera a penetrarem no mais fundo dos sertões; a lenda, que manchou de sangue a história dos fidalgos da Casa da Torre — começou a tomar forma em 1532, quando Martim Afonso passou por São Vicente, durante a famosa expedição que pretendia assegurar a posse da terra aos reis de Portugal.

Foi ali, em São Vicente, que traíram o plano secreto de Martim Afonso: tomar aos espanhóis o controle do rio que os conduziria às montanhas do cobiçado metal.
Martim Afonso ainda estava no porto, carregando a nau que iria naufragar, e — mais para dentro, subindo a serra, na povoação de casas de taipa e choças de palha fundada por João Ramalho — já fervilhava a fantasia de que aquelas mesmas minas podiam ser alcançadas numa entrada pelo mato, a pé.

Corria o ano de 1539 quando meia dúzia de colonos e mamelucos, seguidos por mais de cinquenta índios CONTO | Alberto Mussa (entre guaianás, guarulhos, tupiniquins e carijós), deixou a futura vila de Santo André da Borda do Campo, na febre das minas de prata.

a notícia


Em 1547 havia em Santo André uma única mulher branca: Mécia Vieira, que sustentava, diante de todos, contra opiniões cada vez mais veementes, seu estado de mulher casada.

Os homens que lhe negavam tal condição não possuíam, em casa, mulher daquela cor. E pareciam não se contentar com as índias. Não fosse a autoridade de João Ramalho, quem assentara a povoação às próprias expensas, preferindo o apoio de Tibiriçá ao do rei dom João, não haveria homem capaz de defender a honra de Mécia Vieira.

— O que vale uma mandioca descascada como aquela? — indagava Ramalho, com a mão na espada.

Os homens de Santo André esperavam, como onças. Mas a tensão se agravou quando, ainda em 1547, um índio guarulho — ferido, cansado, faminto — emergiu do mato e se atirou no terreiro que servia de praça:

— As minas existem. Mas morreram todos.

E contou uma história terrível, de como a expedição de 39 tinha atingido uma imensa serra prateada, mas fora ferozmente combatida por um gentio desconhecido — que lutava apenas com lanças de pau muito rijas e agudas; e se alimentava de carne humana, crua e podre.

— É o povo que descende do urubu. Têm ódio dos que acendem fogo — explicou um guaianá.

O guarulho — em quem os homens de Santo André mal reconheceram Ipojiçá — contou que a expedição resistira ainda alguns meses, mas fora finalmente desbaratada, quando ficaram encurralados à beira de um precipício, alvejados com extrema violência por aquelas varas letais, vindas de surpresa, de dentro da mata.

— Quem exatamente você viu morrer? Diga nomes — foi a pergunta ansiosa de Mécia Vieira.

Os homens de Santo André perceberam claramente aonde aquela única mulher branca — que sustentava ser casada — pretendia chegar. E ficaram excitadíssimos. Foi outra vez João Ramalho quem a protegeu. Mas não conseguiu impedir os sombrios rumores grassados após o relato de Ipojiçá: Manuel Repincho estava morto. Logo, Mécia Vieira era viúva, como há muito desejavam e queriam demonstrar.



o evento

O primeiro movimento de revolta se esboçou quando viram a porta de Mécia Vieira aberta para receber Ipojiçá. Os homens se reuniram na casa de João Ramalho. Pela primeira vez, a soberania do capitão de Santo André era desafiada, de maneira explícita.

— Mécia Vieira não pode ir mais longe do que foi — chispavam os olhos de José de Barros.

João Ramalho não perdeu o sangue-frio.

— Pois decidam primeiro entre vocês, se são varões. Depois me avisem.

Aquilo enfraqueceu um pouco os ânimos. Que finalmente se aplacaram, quando se soube, mais tarde, ter Ipojiçá confirmado para Mécia Vieira a versão inicial: tinham morrido todos, trespassados pelos paus, caídos no despenhadeiro, mortos de fome durante a fuga.

— Dei minha palavra para aquela mandioca — explicava o capitão, de noite, às suas mamelucas.

Mas, apesar de ter ficado acordado e se divertido com elas até altas horas, João Ramalho não testemunhou a terrível afronta: um vulto sinistro, certamente masculino, forçou a janela de Mécia Vieira e acabou entrando pela porta.

Só um cão, deitado no terreiro que servia de praça, no lugar onde mais tarde seria posto o pelourinho, farejou aquele vulto; que — teria afirmado — não era o de Ipojiçá.

antecedentes

Não erram os que atribuem o imenso poder de João Ramalho à sua aliança com Tibiriçá. Não erram, porque omitir não é errar. Mas não dão a Manuel Repincho o valor que teria merecido.

Era um homem forte, audaz, desleal. Alcançara Ramalho no planalto em torno de 1520; e fora inestimável em quase tudo. Era o único português de Santo André capaz de entesar um arco indígena e pôr as flechas no centro do alvo. Mas nem por isso conquistara a simpatia dos tupiniquins, recusando com desprezo e altivez as filhas mais belas dos tuxauas. Porque fora o único aventureiro a cometer a intrepidez, a imprudência, poderia dizer a indecência de arrastar consigo, serra acima, o luxo de uma esposa branca.

Manuel Repincho sabia que os olhos dos homens bons de Santo André caíam cálidos sobre os quadris de Mécia Vieira. Gozava aquela inveja; e tinha ódio: de Joaquim Carvalho, de José de Barros, de Tomé Gonçalves.

Nenhum daqueles parvos ousaria tocá-la, enquanto fosse vivo. E foi por isso, por ter essa certeza, que não hesitou em corromper um dos asseclas de Martim Afonso, obter o mapa das minas de prata, conjecturar um caminho alternativo, adquirir facões, machados, arcabuzes, munição e pólvora, além de convencer um certo número de colonos quanto à viabilidade da empresa, amealhar uma fazenda que garantisse o sustento da mulher — até partir, em 1539, no seu delírio argentino.

Na porta de casa, quando os indígenas estavam todos carregados, e João Ramalho pronto para investi-lo oficialmente no comando da tropa, comprimiu com as mãos os grandes peitos brancos da mulher; depois, no meio do terreiro, no lugar onde mais tarde seria posto o pelourinho, afagou, comovido, as orelhas do seu cão.

o crime

Naquela noite, em 1550, o cão, deitado no mesmo lugar onde seria posto o pelourinho, farejou um vulto que parecia forçar uma janela, para depois entrar pela porta da frente. Era uma cena que se repetia, havia já três anos, desde o regresso de Ipojiçá. Só que com uma diferença: daquela vez a casa procurada não era a de Mécia Vieira.

João Ramalho recebeu mal aquele hóspede noturno. Mas mandou trazer vinho de milho e tapioca. Não se importou com as feridas que ainda supuravam; não reparou no olho esquerdo vazado; não se comoveu com uma imensa cicatriz que vinha do canto direito da boca, fazendo uma curva até as sobrancelhas.

Mas o homem não buscava piedade. Queria informação. João Ramalho não moveu a língua. E foi dormir, deixando o hóspede no chão da sala, com uma manta velha.

— Mandioca maldita! — disse, com raiva, escarrando no penico.

Ainda estava escuro quando acordou, no dia seguinte, com o barulho vindo de fora. Quando abriu a janela, viu o homem da cicatriz deixando a casa de Mécia Vieira (e só então percebeu que, além de caolho, estava coxo) para ir esmurrar a porta de uma outra casa, onde o cão latia.

Quando Tomé Gonçalves, enxotando o cão, veio pessoalmente tomar satisfação da arruaça, tombou, com uma faca cravada no pescoço.

o julgamento

Todos sabiam, na futura vila de Santo André da Borda do Campo, que vultos embuçados rondavam a casa de Mécia Vieira à noite, desde o regresso de Ipojiçá. Sabiam que esses vultos pertenciam a homens brancos, como Joaquim Carvalho, José de Barros, Tomé Gonçalves. Mas era um assunto que desagradava João Ramalho. Por isso calavam.

Só na manhã do crime, diante do cadáver de Tomé Gonçalves, depois de terem preso o assassino, é que se começou a falar do caso abertamente.

— Esse homem é um impostor. Manuel Repincho está morto.

Diziam isso porque o recém- -chegado alegara ter agido por vingança, para lavar a honra, para poder punir o parvo que (como suspeitara) ousava deitar sobre a brancura ainda única de Mécia Vieira.

— São muitos os que fazem isso por aqui — admitiu Joaquim Carvalho

O problema era que ninguém reconhecia no rosto desfigurado do assassino o semblante impávido de Manuel Repincho. E clamavam pela justiça imediata de João Ramalho. Mécia Vieira, ainda meio nua, era a mais indignada.

— Não me teria casado com homem que fedesse tanto.

João Ramalho não tinha muitas dúvidas; mas queria ser imparcial. Foi Ipojiçá quem trouxe um imenso arco da altura de dois homens e sugeriu, gesticulando, a prova.

A flecha não acertou exatamente o alvo. Mas o arco tinha sido entesado até o fim, perfeitamente. E eram as mãos de um branco. A identidade do prisioneiro não podia mais ser contestada.

a trama

Mécia Vieira nunca tinha acreditado em Ipojiçá. Não por intuição: era óbvio que um homem em fuga não teria o escrúpulo de contar os mortos. Tentou racionalmente convencê-lo disso. E chegou a oferecer dinheiro ao guarulho, para que contasse uma história diferente.

A honestidade do índio pôs sua vida em sério risco. Sabia que não poderia resistir. Por isso, na noite do primeiro evento — quando abrira a porta para Joaquim Carvalho, que ameaçava incendiar a casa — forjara o plano.

— Se em sete anos Manuel não retornar, escolho um novo esposo. Enquanto isso, venham; um de cada vez.

Joaquim Carvalho ainda relutou — queria a alvura de Mécia só para si. Mas teria que lutar sozinho, contra todos. E acabou apaziguado, cedendo a vez, no dia seguinte, ao pulha do José de Barros.

João Ramalho — que só gostava das índias e de suas mamelucas — aprovou o acordo, tacitamente, porque não acreditava no regresso de Manuel Repincho, mas admitia as razões daquela excêntrica Penélope, que em vez de tecer e destecer seu manto, para afastar os pretendentes, sequer trocava a colcha onde todos se deitavam.

Por muitos anos, os habitantes de Santo André da Borda do Campo lembrariam a emoção de Mécia Vieira diante do marido — para quem se guardara durante tanto tempo. Exultante e furiosa, exigia que o desagravassem.

Longe do tumulto, caído no lugar onde mais tarde seria posto o pelourinho, depois de farejar os lençóis de Mécia e conduzir o dono no caminho da vingança, morria o cão. Ele, também, como Argos, tinha esperado aqueles anos todos.



Alberto Mussa nasceu no Rio de Janeiro, em 1961. Sua ficção abarca o conto e o romance, com destaque para o “Compêndio mítico do Rio de Janeiro”, série de cinco novelas policiais, uma para cada século da história carioca. Sua obra está editada hoje em 17 países e 14 idiomas. A história publicada pelo Cândido foi reescrita pelo autor para integrar o livro Contos completos, coleção de narrativas curtas que a editora Record publica ainda no primeiro semestre. Mussa vive no Rio de Janeiro (RJ).