Chega de saudade

Nas últimas duas décadas, o mercado editorial brasileiro descobriu que a música é um filão lucrativo. Mas, segundo pesquisadores e biógrafos, ainda há muita história para se contar sobre nosso cancioneiro

Luiz Rebinski Junior

No início da década 1990, quando era repórter do caderno “Ilustrada”, na Folha de S. Paulo, Carlos Calado começou a se perguntar por que ninguém ainda havia escrito a história do movimento tropicalista. “Cheguei até a consultar alguns especialistas que admirava naquela época, como Tárik de Souza e José Miguel Wisnik, para saber se eles já haviam pensado em um projeto semelhante. Meses depois, quando Tárik me convidou para escrever uma biografia dos Mutantes, aceitei na hora. Decidi escrever A divina comédia dos Mutantes (1995), assim como Tropicália: a história de uma revolução musical (1997), porque eram livros que eu gostaria de ler, mas ainda não havia nada semelhante no mercado”.

E não era apenas a Tropicália que não tinha o seu registro. Há pouco mais de vinte anos, a bibliografia sobre nossa música tinha mais buracos que um queijo suíço. Cenário que começou a mudar graças, entre outros fatores, ao incremento de nosso mercado editorial. Com mais editoras, pesquisadores e escritores puderam encontrar porto seguro para seus projetos sobre a música nacional.

Espécie de marco desse resgate sonoro em livro, Chega de Saudade – A história e as histórias da Bossa Nova, de Ruy Castro, lançado em 1990, é um delicioso relato sobre um tema popular que costumava ser tratado de forma sisuda, quase acadêmica.

“Já havia vários livros sobre bossa nova, mas todos muito intelectualizados. E nenhum contava a história”, diz Ruy Castro. “Eu me julgava equipado para levantar os fatos – e eu mesmo queria saber como tinha sido”.

Desde então, Chega de Saudade atuou como uma injeção de ânimo em jornalistas e historiadores, que passaram a dissecar a música brasileira.

Vale Tudo – O som e a fúria de Tim Maia, escrita por Nelson Motta, segundo a editora Objetiva, vendeu 130 mil exemplares desde que foi lançada, em 2007. Chega de Saudade e Estrela Solitária, ambos de Ruy Castro, passaram a casa dos 80 mil livros vendidos. Um número bastante expressivo para um mercado leitor que, acostumou-se a dizer, é bem pequeno.

“Não havia livros sobre música pelo mesmo motivo que a indústria editorial brasileira não ligava para futebol – dizia-se que não vendia. Mas isso era puro preconceito. Qualquer livro, quando é bem feito, pode vender, não importa o gênero. Vide os livros de Nelson Rodrigues que editei. Todos foram muito bem nas livrarias. Os livros recentes sobre Tim Maia, Maysa, Simonal, e os vários sobre Chico Buarque e Caetano Veloso, todos foram sucessos”, opina Ruy Castro, que também é autor da elogiada biografia de Carmen Miranda.

O jornalista e escritor Arthur Dapieve também enveredou para a escrita de livros sobre música nos anos 1990. Dapieve é autor de Brock – O rock brasileiro dos anos 80, livro que se tornou referência sobre a geração de bandas como Titãs, Barão Vermelho, Capital Inicial e Legião Urbana.

“Talvez mais do que em qualquer outra forma de arte, a música atrai a atenção sobre quem a faz. O músico é o artista romântico por excelência, vida e obra se fundindo. E, ao encarnar esse papel, ele gera boas histórias, tanto trágicas quanto cômica”, diz Dapieve.

Ouvido Musical

Os livros de Carlos Calado sobre os Mutantes e a Tropicália, além de Brock, de Dapieve, foram lançados pela Editora 34 em uma coleção chamada “Ouvido Musical”, coordenada pelo jornalista e pesquisador Tárik de Souza. Ao todo, desde a metade dos anos 1990 até agora, foram lançados 25 títulos da coleção. A editora ainda lançou outros 20 livros, em separado, sobre os mais diferentes períodos da nossa música. Obras que compõem um painel amplo de nossa produção musical, com retratos inteligentes de figuras ímpares como Mario Reis e Jackson do Pandeiro.

Ainda assim, há incontáveis lacunas em nossa história musical. “Há brechas em todos os períodos. Onde está a biografia da Rita Lee em separado? Qual o grande livro sobre Lamartine Babo? E o Ernesto Nazareth? E Carlos Gomes? Os artistas mais recentes têm conseguido biografias mais facilmente porque já chegaram a um mercado no qual as elas são comuns. Do passado, porém, ainda há muito terreno para desbravar”, diz Dapieve.

O exemplo mais latente do que diz Dapieve, é Raul Seixas, um cantor popular que, mais de vinte anos após sua morte, ainda não tem um livro à altura de sua importância e popularidade.

Imprensa

Biografias e perfis também dependem muito do fator tempo. No sentido que só os anos podem mostrar, por exemplo, a verdadeira influência e dimensão de um artista. Além disso, é um trabalho custoso e que demanda muita dedicação. E essa talvez seja a explicação para que muitos artistas relevantes de nossa música ainda não tenham sido retratados. “Uma biografia bem feita leva pelo menos um ou dois anos de dedicação exclusiva para ser realizada. Como são raras as editoras brasileiras que conseguem viabilizar uma bolsa ou um patrocínio para esse tipo de obra, biografias como essas dependem de um autor que aceite encarar um trabalho longo e difícil sem qualquer garantia de retorno financeiro”, explica Carlos Calado.

A história também poderia ser escrita de uma outra maneira se tivéssemos uma imprensa musical mais robusta, com mais revistas e periódicos. Desde a primeira edição nacional (e pirata) da revista Rolling Stone, que circulou por aqui no início dos anos 1970, até a trajetória periclitante da finada Bizz, que durante anos se manteve solitária na cobertura de música pop, nunca conseguimos estabelecer no Brasil uma imprensa musical forte.

“Penso que uma música popular tão rica e diversificada como a brasileira justificaria a existência de mais revistas especializadas, como acontece nos EUA ou na Europa, mas parece que aqui o público se satisfaz com a cobertura pouco abrangente e diluída dos jornais diários ou com a informação pulverizada da internet”, diz Calado.