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Os desafios de um biógrafo

Acadêmicos apontam quais os principais qualidades e defeitos de uma obra biográfica, incluindo a necessidade de o autor ter consciência de tomar partido para elogiar ou não o seu personagem

Marcio Renato dos Santos

Uma biografia não dá conta de toda uma vida. Nunca. Mesmo que a obra seja anunciada como definitiva pela editora, pelo autor ou por resenhas publicadas em jornais e revistas. Quem chama atenção para o fato é o professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Alexandre de Sá Avelar. Ele lembra que o intelectual francês François Dosse, no livro O desafio biográfico, afirma que um dos perigos para o biógrafo é achar-se no controle do seu personagem, ou seja, acreditar ter reunido uma quantidade tamanha de documentos que permita a total compreensão da vida do seu biografado.

Doutor em História e leitor de biografias, Avelar observa que um detalhe desviante, uma descontinuidade descoberta e toda a segurança do biógrafo pode desmoronar. “Isso vai ao encontro de um outro problema conhecido: aquele, para usar os termos de Pierre Bourdieu, da 'ilusão biográfica', ou seja, a crença de que a trajetória pode se constituir em um todo coerente, no qual os rumos da vida adulta já poderiam ser percebidos nas manifestações mais remotas da infância do personagem”, diz o historiador, comentando que muitas biografias foram pensadas desta forma e isso é, de fato, um grave equívoco, pois supõe a inexistência do acaso, do contingente e da descontinuidade que marca toda existência individual.

Não apenas o desprezo pelo acaso, citado por Avelar, mas outros problemas, como a falta de aprofundamento na pesquisa e o desleixo com o texto final, podem comprometer uma biografia. A professora livre-docente do departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) Angela Alonso analisa que o principal erro que um biógrafo pode cometer é a busca pela hagiografia, ou seja, a tentativa de apresentar o seu personagem como perfeito, sem falhas de caráter e sem erros de conduta. “A boa biografia, ao contrário, é a que humaniza a figura, que dá sua condição humana, imperfeita, com as suas mesquinharias”, completa Angela, que também é diretora científica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

A biografia é — na definição de Angela — um gênero da maturidade. Afinal, argumenta a estudiosa, é raro encontrar uma boa biografia produzida por um iniciante. “Porque, para elaborar uma obra consistente, é preciso dominar muitos elementos: a história cultural, econômica e política do período, o modo de viver, sentir e pensar de uma época, e conhecer a fundo outros personagens intervenientes, para poder aquilatar bem a relação do biografado com eles. Assimilar tudo isso devidamente demanda muito tempo e requer imersão prolongada”, argumenta Angela. 

“A boa biografia é a que humaniza a figura, que dá sua condição humana, imperfeita, com as suas mesquinharias”

Angela Alonso

 

Ela é autora de Joaquim Nabuco: os salões e as ruas. Antes de escrever a obra, a professora da USP diz ter feito um esforço sistemático de leitura de diferentes tipos de biografia e, então, privilegiou as que trabalhavam com o mesmo período histórico que ela, o século XIX. Angela tomou como modelo Mozart, biografia de um gênio, de Norbert Elias. “De onde me vieram o fio do livro — a ideia do Nabuco como uma figura de transição entre a sociedade aristocrática e a moderna — e a eleição da correspondência privada como material principal”, conta a biógrafa.

Parti pris, oralidade: tendência mundial
O parti pris do autor, a opinião assumida antecipadamente, é fundamental para entender uma biografia. Quem afirma é a doutora em Sociologia pela Universidade de Paris e professora aposentada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Ligia Maria Leite Pereira. “É importante perceber se a obra é de admiração ou não”, opina Ligia, que acrescenta: “Provavelmente nunca alguém escreveu sobre a vida de outro homem com o puro objetivo de 'conhecimento'”.

A favor ou aparentemente imparcial, como a maior parte das obras são apresentadas — e raramente “do contra” — as biografias fazem volume no mercado editorial brasileiro e, em meio às gôndolas e prateleiras das livrarias, Angela Alonso identifica duas vertentes principais.

A primeira é representada por jornalistas que passaram a fazer biografias a partir de uma pegada meio psicologizante, com linguagem sintonizada à escrita de revistas ou no modelo do jornalismo literário norte-americano. O outro tipo, no qual ela se inclui, diz respeito a obras biográficas produzidas por acadêmicos ou profissionais especializados em um assunto, que procuram traduzir a pesquisa e o discurso eruditos para o público de não especialistas. “Esse segundo tipo tende a ser superior em densidade analítica, mas o primeiro (o jornalístico) costuma ser de leitura mais fluente e agradável”, analisa Angela.

Além das duas vertentes citadas por Angela, Ligia Maria Leite Pereira observa que existem outros tipos de biografia. “As possibilidades variam desde a situação em que as biografias servem unicamente para ilustrar formas típicas de comportamento, até os casos em que a narrativa de uma trajetória de vida se faz sem referência ao contexto histórico, como foi tão usual no passado”, diz a pesquisadora mineira.

Ligia, uma das fundadoras do Núcleo de História Oral da UFMG, acredita que a ascensão da biografia — no contexto editorial — em tempos recentes coincide com a revalorização da história oral enquanto fonte, método e técnica de pesquisa. E, no entendimento da estudiosa, o fenômeno não se restringe ao Brasil — é uma tendência mundial.

Esse interesse por trajetórias individuais não é obra do acaso. “O 'retorno do sujeito' se deu após longo domínio de uma concepção de História que, movida por incontroláveis forças estruturais, se fazia a despeito dos homens. O 'fenômeno' das biografias relaciona-se à visão de que o homem pode, enfim, fazer a sua própria história, ainda que dentro dos limites dados pelo contexto social onde vive”, diz Ligia.

Ilustração: Marcelo Cipis