POESIA | national geographic e outros poemas 10/03/2026 - 15:54

Thaís Campolina

 

national geographic

 

I.

duas cabras impassíveis
assistem a uma fogueira queimar
o fogo defuma as roupas postas 
para secar em um varal improvisado
uma linha se amarra a um duto de água
a outra não se vê onde termina
a água passa por ali
mas nunca chega
só 
     p 
       i
        n
          g
            a

no entorno
um grupo de pessoas 
esquenta os pés e as mãos
perto do fogo

estão juntos
do jeito deles 
de se estar
junto

uma mulher sorri 
com os braços abertos
recebe o filho 
que veio em sua direção
com um graveto em chamas

que bom que agora ele já sabe mexer com fogo

 

II.

sebastião salgado fez fotos tristíssimas
como eu tento fazer agora enquanto ando
na periferia de Nova Delhi e encaro
pessoas que se abrigam entre
dutos de água potável 
sem jamais ter acesso
a uma torneira

talvez
sebastião salgado não esperasse
o sorriso de uma mulher ali
mas eu que cheguei nesse canto
guiado pela voz humana
sabia que encontraria
gente 

e gente sorri
sabe-se lá como

 

 

casa dos espelhos

 

me chamam de besta
toda vez que abro a boca
não me importo mais
porque carrego em mim
uma variedade imensa
de bestialidades

ontem
lançando fogo 
pelas narinas
fui quimera
besta mitológica

hoje
recebendo carinho 
após terminar meu jantar
vim na forma de uma gata 
de aparência inconfundível
metade laranja metade preta
uma gata feita da união de dois fetos
unidos no útero prenhe de uma mãe
uma gatinha linda dessas
tão faminta monstruosa 
e ronronante 

amanhã
serei mais besta ainda
portando um arco e flecha
podendo ser gatilho
de uma guerra 
contra qualquer forma
imposta de unidade

 

 

reforma agrária

para Marosa Di Giorgio

 

meu lugar preferido no mundo inteiro

é dentro de um pote de plástico

lotado até o talo com doce de leite caseiro

que começou a ser feito dentro de uma vaca que
ao sentar-se à mesa para pedir melhores condições

conseguiu se fazer ouvida

 

 

enxame

 

substantivo masculino

1.     
conjunto          de fêmeas que voam juntas
2.     
multidão          guiada por feromônios 
3.     
uma                quantidade absurda de insetos
4.     
bicharada        reunida
5.     
condôminos    de uma colméia ou cortiço de abelhas
6.     
grupo              de abelhas que querem deixar de ser inquilinas
7.     
a                     aproximação de um choque anafilático
8.     
o                     terror de um tripofóbico 
9.     
o                     terror puro e simples
10.     
o                     horror do muito
11.     
o                     muito
12.     
o                     duplo
13.     
o                     único
14.     
o                     uno

 

 

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Thaís Campolina (Divinópolis/MG) é autora dos livros de poesia eu investigo qualquer coisa sem registro (Crivo Editorial, 2021) e estado febril (Macabéa, 2024). Também publicou as plaquetes poéticas noticiosas (2023), línguas soltas (Primata, 2024) e frigideira (Tato Literário, 2024); e o conto Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija (2020), em formato ebook na Amazon. É pós-graduada em Escrita e Criação pela Unifor, atua como redatora, resenhista e facilitadora de oficinas. Também é mediadora de leitura nos clubes Cidade Solitária, Leia Mulheres Divinópolis e Casa das Poetas, além de curadora da página Bafo de Poesia. Esta seleção publicada no Cândido são de inéditos da autora.

 

 

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