ENSAIO | Moda do afeto na glosa do clubinho 16/04/2026 - 16:36

 

Diogo Santiago

 

Nas minhas mais recentes andanças pelo Brasil, fiz umas descobertas de desatarraxar o umbigo e arriar a bunda. Vi que, nos quatro cantos da pequena burguesia nacional, é moda se afetar.
Descobri por exemplo que, em Recife, afeto é um marisco, com o qual se prepara a "afetada", prato tradicional da Semana Santa. Nos batuques de Salvador, afeto é o mais agudo dos tambores de desfile. No jargão dos urbanistas e dos engenheiros civis de São Paulo, "faixa do afeto" é uma alcunha carinhosa dada à via de circulação mais à direita da Marginal Tietê. Em Brasília, após cada plenária pacífica, os deputados assinam o famoso "caderno dos afetos". Em Belém, os eflúvios de umidade que precedem e sucedem a chuva do meio-dia são popularmente chamados de pré-afeto e pós-afeto.

Nenhum renascentista do século dezesseis, nenhum cartesiano do dezessete, nenhum iluminista do dezoito, nenhum romântico do dezenove, e nem mesmo um só cubista do século vinte viu tantas caretas de afeto quanto as que podem ser fotografadas hoje no Rio de Janeiro por qualquer cachorrinho de estimação. Pois do furacão da conivência de classe, o olho é o coração.
Pausa para uma maldição romântica. "O artista repreende em primeiro lugar a crítica por ela não poder ensinar nada ao burguês", afirma Baudelaire. "E no entanto, acrescenta ele, tantos artistas hoje em dia devem somente a ela sua pobre fama! Talvez esteja aí a verdadeira repreensão a lhe fazer." Seja o que for, eu "acho sinceramente que a melhor crítica é a que é divertida e poética; não essa, fria e algébrica, que, sob pretexto de tudo explicar, não tem nem ódio nem amor, e se despoja voluntariamente de toda espécie de temperamento [...]."¹

 
Cf. Charles Baudelaire, "Para que a crítica", trad. Diogo Santiago, Madame Psicose, 2 de fevereiro de 2026. Disponível na internet.
Água-forte de Charles Baudelaire (1821 – 1867) por Edouard Manet (Cf. Charles Baudelaire, "Para que a crítica", trad. Diogo Santiago, Madame Psicose, 2 de fevereiro de 2026. Disponível na internet).

 

Por outro lado, Bourdieu afirma que, com Baudelaire "presenciamos um problema de antropologia histórica tão difícil como aqueles que causam para o his­to­riador ou para o etnólogo a decifragem de uma socie­dade desconhecida; mas, pelo fato da falsa familiarida­de que nos fornece um longo convívio acadêmico, nós não o sabemos".² Tudo isso para introduzir que, na glosa da Literatura no Brasil, a palavra "afeto" é tão simples como Amé­lia: nunca vi fazer tão pouca exigência. Ai, ui. Perdão. Sagrados sejam os privilégios herdados de uma casta. Deus preserve os brilhantes membros desse clubinho de uma pane elétrica que os obrigue a cortar o vocábulo "afeto" das sinapses e do léxico.

 

Pierre Bourdieu
2. Pierre Bourdieu (1930 - 2002) / [1997], Méditations pascaliennes ["Comment lire un auteur?"], Paris, Seuil, 2003, p. 122.

 

Só sobraria o filamento.
Com ou sem isso, basta dizer que, sem afeto e sem amizade, não há escritor que venda mais de dez livros no seu evento de lançamento.

Animal, vegetal, mineral, fúngica, bacteriana, viral: qualquer comunidade complexa tem um modo peculiar de encarar o mundo e de fazer as coisas. Seja de se vestir, de se comportar, de falar, de escrever, ou simplesmente de viver: onde há maneira, há moda; e o campo literário (cuja existência ainda não é óbvia para todos os seus membros) não escapa à constante.

 

— Como vão os mixomicetos?, indaga o líquen.

 

E como vai a moda nesse mundo de escritorezinhos apaixonados por transgressão e de medíocres servidores do culto acadêmico ao anti-academismo? Questão valiosa, porém colossal. Antes que a partir dela chegássemos em resultados satisfatórios, a moda já teria mudado.


Que os membros do clubinho literário nacional se sintam legítimos para falar de Literatura por serem autores, editores, tradutores, revisores, jornalistas, livreiros, blogueiros ou leitores, pouco importa. Pouco im­porta igualmente que o sentimento de legitimidade ve­nha por intermédio de diploma, ou de quaisquer con­decorações. Se incluíssemos na avaliação todos os ní­veis de legitimação, esse clubinho permaneceria sele­to, e não equivaleria nem sequer a um milésimo da po­pulação adulta e ativa do país.

Por que cargas d'água nosso clubinho fala tanto de "afeto"? De onde vem essa moda? Desde quando já dura? A que aspiram essas línguas quando punem o ar literário com o bovino açoite do "afeto"? Será que, em algum momento, os ventríloquos enxergam aí "uma mudança se produzindo em um ser em razão de uma causa (interna ou externa)³ que o interpela"; ou será que se referem unicamente a um "sentimento de carinho, de ternura por algo ou alguém"?   

                          

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3. Definição de afecção (affectio) dada por Baruch Spinoza (1632 – 1677)

 

Ainda que o sociólogo e o linguista se matem para devolver ao evidente um naco da complicação perdida, colam-se aos microfones da fama certas fórmulas fáceis que enternecem até um fascista. Pela graça de São Smartphone, os apóstolos do capital converteram o co­tidiano em uma eterna Black Friday de contrassensos: há para todos as bolsas, e alguns até flertam com a unanimidade.

Por outro lado, o argumento da utilidade basta para justificar uma ou outra repetição desse ou daquele chavão da sabedoria das nações. Nada de novo sob o sol, eis uma lei para quem se sente mais apto a matar que a refletir. Pois desde os primórdios do verbo, os asnos se coçam entre si. E enquanto uma parte do mun­do explode a outra, o plebeu se apraz como pode. O único movimento inalienável ao alienado, aliás, é o movimento.

Na solidão de um ego inchado, por outro lado, o estudioso maltrapilho fareja mananciais de alegria, e inventa fontes d’água clara para jogar moedas novas. Erige usinas, edifica teatros. Tudo dentro do quarto, evitando metade das misérias do mundo.
Preterição, cinismo e digressão: três luxos coloridos dessa orquestra de câmara.

Uma imponente tentação está sempre de tocaia nas alamedas arborizadas que ligam minhas usinas aos meus teatros. Essa tentação é a lexicografia, contra a qual travo luta ferrenha. Perfumada como uma violeta invernal, cheia de charme, babada de mimo, ela me ronda e galanteia; insiste, insiste, insiste tanto que, volta e meia, cega-me o gládio, racha-me o escudo, e me derruba o capacete.

Que aprendo sobre "afeto" quando consulto o dicionário de língua portuguesa⁴ que uso por hábito? Em primeiro lugar, confirmo que se trata de um "sentimento de carinho, de ternura por algo ou alguém". Logo em seguida, vejo que pode ser também "o objeto desse sentimento" (por exemplo: Fulano não tem filhos, seu Lulu da Pomerânia é seu afeto). Depois, descubro que, na psicologia da padaria, baratinha, popu­lar, o vocábulo afeto designa todo "sentimento de ca­ráter emotivo, como o amor, o ódio, a raiva", coisa e tal. Outra pérola que podem dizer sobre afeto os brilhantes psicólogos iletrados que pelo bem da classe patronal colonizam e infectam a cachola oprimida é: "um dos três tipos de função mental, junto com a cognição e a volição". Uau, muito lindo, fico todo arrepiado. Que mais? Por fim, dou-me conta que o pai dos burros transmite uma advertência dada por certa psicologia: afeto é um "estado emocional relacionado à realização de uma pulsão".

Já me sinto mais sabido. E de rir quase me mijo.
Convenhamos que, com ou sem GPS, o mundo não sossega um só segundo; não dorme, nem sequer bate as pálpebras; e não deixa as tentações em paz, mundo safado. Basta um minuto de scroll e o coco cai na cabeça. Por todos os bancos de uma fossa literária mais brasileira que autônoma, vejo tentáculos se agitando como se fossem cefalópodes.


Com açúcar e com afeto, fiz seu doce predileto, pra você parar em casa. Em termos de capital simbólico, sabe-se perfeitamente que o que vale é não a mensagem, mas o mensageiro. Como resistir ao charme dos Buarque, por exemplo? Verdadeira Hidra. Até pelo bafo, esse afeto penetra.

Que pode fazer a pluma senão balbuciar o mundo no limite? Limite do mundo, limite do balbucio: reunião geralmente grande demais. Mundo cujas afecções empurram a complexão escrevente rumo ao comunicável exclusivamente pela arte. Oprimido por um campo sem autonomia, o escrevente deblatera, agoniza, periclita. Quando nos cremos "escritores", nossas angústias ficam mais pesadas que qualquer genocídio. Essa certeza que temos da nossa inteligência especial nos amo­lece. Como se não bastasse sermos os únicos artistas que não se sentem obrigados a imitar os predecessores, a moda nos convenceu também do caráter facultativo da própria leitura. Em 2026, cremos que, para escrever, não precisamos saber ler. Pior: ler prejudicaria nossa "inspiração". À maneira de um grupo de físicos que desconhecessem a teoria da relatividade, agi­tamos a língua e a caneta com questões manjadas, mil vezes problematizadas, como se saíssem de um ovo.

Em outros termos, tudo se passa no clubinho literário tupiniquim como se a empoeirada inspiração pré-romantismo permanecesse intacta. Pegue um buquê de tripas, uma garrafa de Chardonnay, meia dúzia de aulas de escrita criativa, junte tudo, coloque no cadinho, agite durante uns meses, e voilà: escritor saindo da gráfica. Diga-se de passagem que a operação republicana no Brasil é tão maravilhosa que não raro se encontram por aí aposentados da rede de ensino público que, ao se tornarem escritores, revelam-se semiletrados. Um dos medos mais cabulosos de um grandiloquente abestalhado é o do linchamento social. Foi o que senti quando tentei explicar a certos parentes por que a classe trabalhadora da qual fazemos parte não sabe que a função da escola é legitimar a ordem. Os parentes primeiro riram, depois ficaram aterrorizados. Trata-se de uma tática de sobrevivência: ou creem que merecem o que possuem ou morrem.

No que tange aos indivíduos do campo literário brasileiro que me obrigam a gastar minha lexicografia, digo: ou creem que escrevem por inspiração, ou não conseguem crer-se escritores. Para eles, é fulgurância ou nada. Coisa quase sagrada. Se o escrevente acha que escreve bem e merece ser publicado é não porque algo no mundo o assombra, não porque ele estudou e estuda, não porque imitou e imita escritores exemplares, mas porque arde algo muito especial entre o seu cérebro, o seu coração, as suas cutículas pediculares e o seu Lulu da Pomerânia. O calor é grande, muito estético, e quer sair de qualquer jeito. O inspirado precisa expressar-se, exprimir-se, espremer-se.

Que culpa tem ele se, quando se espreme, o que mais sai é afeto?

Mais cobiçado que a "feira literária" e mais libidinoso que a "lindeza": o substantivo "afeto" é, no Brasil, o indestronável rei da litania de propagandas que assola o espírito de clã dos glosadores da Literatura. mais capital cultural que a casta de calvos e barrigudos que financia esse canil. Êxito para essa raça é a capa da Forbes, imagina? Dir-se-ia que a primeira regra para brilhar no clube dos branquelos encantados é mesmo a necedade. Aí, claro, não se pode exigir que eles conheçam a tradição quase milenar que gira em torno de "afeto", seu latido predileto. 

Ora, vamos, diplomados literatos, branquinhos, nem disso vocês lembram? Ou será que não sabem mesmo que a tese universitária de Deleuze foi sobre Spinoza?

Giles Deluze (1925 - 1995) Foto: Reprodução / bluelabyrinths.com
Giles Deluze (1925 - 1995) Foto:Reprodução / bluebyrinths.com

 

Mais que isso, o filósofo francês carregava o holandês no coração. Antes que chegasse no Brasil em forma de mania, o autor de Mil platôs já tinha integrado o "afeto" à sua própria filosofia. Quando se deparou com essa ocasião dourada, o emotivo universitário tupiniquim se encantou. Bastaria um levantamento quantitativo das dissertações e teses produzidas desde o fim da ditadura militar nas faculdades de Letras, de Filosofia e de Ciências Sociais para que nos déssemos conta do tsunami de afeto que a erupção Deleuze provocou nas faculdades mentais do Doctus brasilianus. No seio dessa fiel coorte, tudo leva crer que "afeto" é um feitiço do coração; um vapor genuinamente sentimental, que emana das vísceras junto com o talento e a liberdade.

Como posso ilustrar?

Capa da edição de dezembro de 2025 da revista O Odisseu
Capa da edição de dezembro de 2025 da revista O Odisseu

 

Na edição de dezembro de 2025 de O Odisseu (revistinha literária camaçariense – bimensal e sem linha editorial), o jornalista recifense Cristiano Ramos publica uma resenha suplementar de Estou quase pronto, biografia do poeta recifense Miró da Muribeca, de autoria do escritor recifense Wellington de Melo, publicada em 2025 pela Cepe, editora recifense. do mercado editorial recifense leva a crer que, de Machu Picchu a Vladivostok, o mundo inteiro conhece Miró da Muribeca. Ora, uma dentada de honestidade basta para que sintamos que esse açúcar é só orgulho.

Quem foi portanto esse que é apresentado pela Cepe como "um dos principais poetas brasileiros"?

Miró da Muribeca. Foto: Arquivo Pessoal / João Flávio Cordeiro da Silva
Miró da Muribeca. Foto: Arquivo Pessoal / João Flávio Cordeiro da Silva

 

João Flávio Cordeiro da Silva nasce em 1960, em Jaboatão dos Guararapes, maior município da região metropolitana do Recife. Seu bairro de infância e adolescência é a Muribeca, subúrbio não muito distante da prestigiosa Zona Sul da capital pernambucana. Antes do campo da língua e da caneta, o rebento da Muribeca joga no da bola e da chuteira. Mostra-se tão hábil que os colegas de pelada o comparam a um craque profissional (o atacante Mirobaldo, que na época veste a camisa do Santa Cruz Futebol Clube). O apelido Miró vem portanto não da atividade literária mas da esportiva. 

 

José Mirobaldo Bastos Correia, atacante do Santa Cruz Futebol Clube de 1969 a 1971
José Mirobaldo Bastos Correia, atacante do Santa Cruz Futebol Clube de 1969 a 1971 Foto: Reprodução / www.arquivocoral.com.br | Edição Cândido

 

É porém muito cedo que esse prodígio da ginga troca a camisa de nylon do peladeiro pela toga de cânhamo do poeta. Em 1985, no auge dos seus vinte e cinco anos de idade, Miró publica, por conta própria, Quem descobriu o azul anil?, sua primeira coletânea de poemas. Daí em diante, pernas pra que te quero! No bom estilo baudelairiano, ele vai prefaciando seu lirismo marginal e suas diversas obras com fortes doses de álcool; em paralelo, o seu espalhafatoso caráter vai apostrofando o centro etílico da Veneza Brasileira. De bar em bar, o seu verso se imprime. Nada disso se faz do dia para a noite, evidentemente; pois, segundo a tradição, em Recife há mais poeta que poste de iluminação pública – e esses boêmios que, sem parar de falar, bebem até o arriar da porta, nem todo mundo tolera. Durante décadas, portanto, Miró figura para os donos de bar da cidade como só mais um poeta que de vez em quando bebe até cair, de vez em quando some para não pagar a conta.

Mas a coisa evolui. Até o ponto de nos obrigar a admitir que, no primeiro quarto do século vinte e um, não há um boteco do bairro da Boa Vista que não tenha adotado o estilo, o metro e a rima de Miró: pelas artérias etílicas do Centro, a poesia recifense entrará mesmo na sua fase miroiana. As relações entre as condenações sociais que Miró sofreu por ser "preto, pobre e periférico"⁵ e o ostracismo são mais complexas que qualquer opinião: na longa biografia que fez dele, Wellington de Melo fornece (querendo ou não) elementos que nos permitiriam compreendê-las sem cair em estereótipos. Ainda que não conheçamos de suficientemente perto as tribulações do poeta morto mais idolatrado da atualidade recifense, parece-nos impossível admitir, entretanto, que se justifique unicamente pela sua autonomia o fato de ter vindo ao mundo de forma independente a maioria das suas obras. Assim como o álcool, a poesia em Miró era um negócio de todos os dias. Porém – e não obstante a notoriedade adquirida nas ruas, nas praças e nos mercados públicos de Recife e arrabaldes –, o prodígio da Muribeca ficou fora do circuito oficial da publicação nacional durante a maior parte da sua carreira. Que ele não tenha entrado nessa panelinha porque quis ou porque lhe fecharam a tampa na cara, isso é outra história. Notemos simplesmente que saem menos notas de imprensa sobre ele durante seus trinta e sete anos de carreira que entre 31 de julho de 2022, data do seu falecimento, e o momento da redação deste ensaio.

 

Capa da biografia de Miró por Wellington de Melo
Capa da biografia de Miró por Wellington de Melo

 

Aliás, é logo após o óbito, em nota publicada entre meio dia e uma da tarde no site da Globo (G1 Pernambuco)⁶, que a Cepe decreta: "um dos poetas brasileiros mais importantes da atualidade". E em 12 de março de 2024, em plena comemoração do aniversário do Recife, é inaugurada, no centro da cidade, uma estátua que figura um Miró exuberante: com o rosto inundado de sorriso e um livro aberto na mão esquerda, ele declama de braços erguidos. Ironia do destino ou determinismo burguês? Cada um que retire suas próprias conclusões das lombadas de temporalidade entre o Miró ostracizado, o Miró reconhecido, e o Miró consagrado ("atração turística", segundo o Google).

Voltando ao assunto, chamo atenção para quatro trechos do textinho sobre a biografia de Miró em que o jornalista Cristiano Ramos mobiliza o campo lexical que nos interessa. Ramos afirma em primeiro lugar que "Wellington [o biógrafo] não só esteve presente em grande e sensível parte da vida do poeta [o biografado], como também optou por não passar despercebido ou negligenciar afeto às cerca de quatrocentas páginas (resultado nada imparcial de pelo menos cinco anos de trabalho)". Nada imparcial, tudo bem. De cara, porém, a familiaridade que sobressai ao emprego do nome (Wellington) em vez do sobrenome (de Melo) indica uma conivência que vai de par com aquela famosa intenção de elogiar que destrói a crítica literária. Confesso por outro lado não possuir recursos gramaticais para entender o que significa optar "por não passar despercebido às páginas" de um livro. Ainda assim, por benevolência retórica, ouso indagar-me acerca dos critérios utilizados por Wellington de Melo que o levaram a estabelecer: não vou "negligenciar afeto" na minha escrita.

Seja o que for, Ramos escreve adiante: "fica óbvio para quem embarca nessa jornada que os afetos condições envolvidos levaram a caminhos inconciliáveis com outras demandas muito comuns". Fica óbvio, sim. Com esse fraseado transparente, tudo fica óbvio. Em seguida, Ramos previne o eventual leitor de Estou quase pronto: "será bem mais simples o percurso de quem se debruçar mais verticalmente sobre correlações entre momentos, lugares, afetos de Miró e a construção de sua poética". Entendido, senhor Ramos.
Debruçar-se mais verticalmente sobre correlações! Bem mais simples, claro.

E no clímax do enredo, o resenhista veste a camisa do literato: "Acontece que o buzão não podia mesmo se demorar além da conta em estações específicas. Não era só questão de ritmo ou de afeto. Dentro dele havia um Miró que pedia para ser compartilhado tanto com rigor quanto com urgência, paixão, vida."

Daqui, vejo Miró num ônibus lotado, bafo de cana daqueles, olhos marejados de inspiração, pedindo: compartilha aí, minha máquina! Mas compartilha "com vida", visse. 

Estátua em homenagem a Miró da Muribeca, assinada pelo artista Demetrio Albuquerque, inaugurada na Av. Rio Branco no Bairro do Recife em 12 de março de 2024
Estátua em homenagem a Miró da Muribeca, assinada pelo artista Demetrio Albuquerque, inaugurada na Av. Rio Branco no Bairro do Recife em 12 de março de 2024

 

Não se pede, claro, que um crítico literário brasileiro contemporâneo formado em Recife domine a parte do campo lexical de Spinoza que contaminou a filosofia de Deleuze – ainda que essa filosofia tenha influenciado os mestres que o pariram. Mas, a que definição do dicionário corresponde exatamente cada ocorrência do vocábulo "afeto" no texto de Ramos, por favor? Antes de tentar qualquer resposta, noto que, diferente da "emoção", o "afeto" é unidimensional na língua do clubinho literário nacional. Nos ditos e escritos da casta dos herdeiros (e daqueles que os imitam), esse velho vocábulo remete unicamente a ideias e movimentos positivos, presentes tanto naquele que fala quanto naquele de quem se fala. Incapaz de designar algo de nefasto, a palavra "afeto" funciona portanto nessas equações do primeiro grau como a "causa adequada" de qualquer elogio.

Seja o que for, e retomando o frigorificado Bourdieu, noto que o "escritorzinho" da burguesia e o "servidor [pequeno burguês] do culto acadêmico ao anti-a ‐cademismo" continuam apaixonados por transgressões single barrel tipo Miró. Assim como no caso Baudelaire, a paixão burguesa não esperou nem três anos após a morte do marginal para fazer dele um clássico, para jogá-lo para "bem longe [...] dos debates e dos combates do presente". O corpo de Miró ainda não se decompôs totalmente, mas parece que ele viveu há um século. Essa corrida frenética para ver quem vai fazer a melhor homenagem enterra cada vez mais profundamente no passado a contemporaneidade latejante do poeta da Muribeca. Livre para escrever suas frases obscuras sobre o finado, a burguesia o relega ao "limbo", e garante o próprio lucro. Para bancar o burguês (PBOB), certos empregados fazem a mesma coisa. E o fazem ao mesmo tempo que tentam descrever Miró como contemporâneo "e como o mais próximo dos nossos próximos; tão contemporâneo e tão próximo que não duvidamos um só instante da compreensão aparentemente imediata – na realidade mediatizada por nossa formação – que cremos ter das suas obras"
(Bourdieu).

L’habit fait le moine.⁷ Convoco nesse sentido o longa metragem O discreto charme da burguesia (1972), de Luis Buñuel. No início da trama, Monsenhor Dufour, bispo da diocese, passando defronte o casarão da família Sénéchal, nota que o jardim está abandonado, e pergunta a Inès, a empregada, se ele pode jardiná-lo. Confusa, Inès autoriza. Chegando em casa pouco tempo
depois disso, Alice Sénéchal, a patroa, dá de cara com esse desconhecido em trajes de serviçal e o expulsa imediatamente, alegando não precisar de jardineiro. Algumas cenas adiante o mesmo homem volta de batina e Alice, atordoada, rogando perdão, beija sua mão. Não espanta, em suma, que o diplomado Ramos tenha usado Miró quase pronto e vestido de afetos (2025) para intitular a resenha que fez de Estou quase
pronto
(2025), biografia que o seu diplomado amigo de Melo fez do seu marginal amigo da Muribeca. 

Pois para justificar o lucro que dá aos patrões da
edição, essa paixão tipo-burguês pela transgressão
tem que vir "vestida" de algo tão positivo como impenetrável.

 

Foto: Sérgio Gaspar/Simpere | esquerdaonline.com.br
Foto: Sérgio Gaspar/Simpere | esquerdaonline.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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