FOTOGRAFIA | movimento primitivo pós-moderno 19/05/2026 - 15:06

Fotos por Gabriel Franco "Peralta" e Mario Kreb

Reportagem por Isa Honório

 

Ser primitivo nos primórdios era fácil, quero ver ser primitivo na era da IA. "Movimento Primitivo Pós-moderno" é o slogan da Filmerd, o blog, zine e produtora de vídeos e eventos, que existe desde 2009 e hoje registra e promove a cultura do skate e a cena de música underground de Curitiba. O criador, Giuglio, veio de Bérgamo, Itália, e mora no Brasil há 12 anos. Na capital paranaense, onde começou a trabalhar com arte de fato, encontrou espaço para fazer seu projeto florescer. "Música, arte e skate: essa é a proposta", conta o produtor.

Depois de ganhar visibilidade com seu trabalho na marca Yeah Skateboards, para quem fazia shapes (a "tábua" do skate) e estampas de camisetas, Giuglio resolveu voltar a publicar a zine da Filmerd em 2020. O material, que tem mais cara de revista, ressurgiu no for­mato físico, com uma tiragem das edições anuais de cerca de 100 unidades. A ideia é divulgar o seu próprio trabalho, além de skatistas, tatuadores, ilustradores e bandas convidadas. 

Giuglio, que observa o desaparecimento das revistas especializadas das bancas, explica que a zine é entregue como um "brinde" para quem compra os shapes com as suas artes como forma de incentivo à leitura e manter viva a cultura analógica: "É diversão em dose dupla. A pessoa vai no rolê e quando não estiver andando de skate, ela pode ler a revista e conhecer bandas novas, um artista que pode fazer uma tatuagem nele, e aí vai se interessando". 

O apego pelo físico é parte da filosofia da Filmerd, que preza pela conexão com a realidade e a recusa de deixar a tecnologia invadir todas as áreas da vida. "Eu sou meio paranoico, mas se você não tem mais luz, não tem mais internet, aí você perde tudo. Tem uma galera que não consegue fazer nada sem a Inteligência Artificial. É algo que há uns anos não existia, e o cara vivia tranquilamente. Por isso, temos que ser mais primitivos. É engraçado, mas é meio que não ter muita abertura com as atualizações, com a tecnologia de hoje em dia", explica o skatista. E é justamente nessa busca pelo contato com o mundo material, que em 2022 surge o MONOLITO 

O MONOLITO não pode migrar para o digital. Não dá nem mesmo para pedir o MONOLITO por aplicativo de entregas. O MONOLITO é um símbolo (na verdade, é um bloco de cimento que é carregado pela galera em um carrinho e colocado em praças e pontos da cidade para possibilitar manobras e tornar qualquer espaço "skatável"). Completamente primitivo, ancestral, instintivo. O processo é simples, como na vida deveria ser: são feitos os moldes para o cimento, que depois de seco recebe uma pintura especialmente mística, com sete olhos de cada lado, um na frente e outro atrás. A partir daí ele é batizado e está pronto para ser carregado até o local escolhido. 

Desde o início do movimento, que se tornou uma espécie de religião entre skatistas, já foram criados alguns MONOLITOS, cada um com seu nome e identidade própria. São eles: Primitivo Original, Pedrarasta Ori­ginal, Filho Rebelde, Megalito, Piramidolitos 1 e 2 e o Amigolito – que recebeu esse nome porque é tão grande que é preciso um amigo para ajudar a carregar. A maioria deles está localizada na Praça 29 de Março, pon­to de encontro principal da rapaziada. 

No pré-carnaval, acontece ainda o Monobloco, saída que leva o MONOLITO às ruas em um carrinho para dar uma volta. O rolê é inspirado no Go Skate Day, celebrado mundialmente em 21 de junho. Na data, acontecem encontros para promover a essência da cultura do skate: coletividade, expressão e ocupação do espaço público. 

Assim como Kubrick fez em 2001, uma odisseia no espaço, a Filmerd registra esse sentimento primitivo de juntar uma galera em volta de um objeto mágico, mítico e monolítico nas câmeras. Enquanto Giuglio grava os rolês para o seu canal do Youtube, fotógrafos entusiastas do universo do skate também registram tudo de perto. No caso dos vídeos, as trilhas sonoras priorizam bandas de punk e heavy metal locais. Inclusive, a partir do MONOLITO, surgiu o projeto autoral Visione Obscura, formado por frequentadores da cena de skate, com com­posições relacionadas ao "culto à pedra".

Apesar de despretensioso, o movimento já ganhou um significado muito profundo para quem faz parte dele, promovendo uma transformação física e mental pelo do contato com o MONOLITO.

Possuindo até uma estética própria, com pinturas corporais e até mes­mo fantasias, os "manos do monolito" estão sempre atraindo a atenção de mais skatistas e entusiastas. Giuglio, explica: "Todo mundo que vai ali é bem acolhido. Nós não somos territorialistas. Chega alguém e é tipo ‘cola aqui, vem conhecer o MONOLITO. Você quer aprender a andar? A gente ensina’. Hoje em dia já tá colando outra galera que não estava no começo e que agora estão andando mais lá do que o próprio grupo que criou". 

O que mantém o movimento vivo e em renovação constante são rolês onde todo mundo se encontra para trocar uma ideia e mostrar sua arte. Ainda na onda de tirar a galera da frente das telas, a Filmerd promove as Confraternizações Monolíticas, que reúnem bandas e uma feira com vários expositores. Na cena do skate acontece nas ruas, bares e praças, como a 19 de Dezembro e a Pista de Skate Wenceslau Braz. 

Para a galera do rolê, além da paixão pelo skate, a filosofia do primitivo pós-moderno é essencial para alimentar o espírito de comunidade, estimular a criatividade e resgatar a conexão com a cidade e as pessoas ao redor. "Além do legado físico, tem esse legado cultural", conclui Giuglio, o "mano do monolito" original. 

Celebrando a cultura do skate e do underground, o CÂNDIDO selecionou algumas fotos que contam a história dos Monoblocos através das lentes de Mario Kreb (@mariokreb) e Gabriel Franco, também conhecido como "Peralta" (@peralta_jpg). São registros que vão desde o primeiro encontro, que reuniu cerca de quinze pessoas em 2023, até o Monobloco Monolítico, rolê pré-carnavalesco que colocou dezenas de pessoas na rua em 2026. Viva o primitivo! 

 

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