ENTREVISTA | A mais nova espada e seu corte 19/05/2026 - 16:04

Bethânia Pires Amaro
por Luiz Felipe Cunha

 

Depois de varrer as premiações literárias com livro de contos, Bethânia Pires Amaro estreia no romance com Ressalga, tentando manter a régua de qualidade no alto

 

A vida literária de Bethânia Pires Amaro parece ter saído dos sonhos de uma pessoa aspirante a escritora que almeja sucesso e reconhecimento. Em 2023, com o seu livro de estreia, O Ninho (contos), venceu o Sesc de Literatura, o prêmio Biblioteca Nacional, um APCA de Literatura e um Jabuti. Sérgio Rodrigues disse que ela é "uma das melhores contistas da literatura brasileira", enquanto Giovana Madalosso a chamou de "brilhante". Apareceu nos principais jornais e eventos literários do país. E agora, em 2026, acaba de lançar o seu segundo livro, Ressalga, publicado pela Editora Record.

Com um enredo cheio de misticismo e aspectos do realismo mágico, o romance conta a história de três mulheres de uma mesma família, mas de gerações diferentes: Janaína que deixa o interior da Bahia após um escândalo religioso e constrói uma vida às margens do Rio Paraguaçu. Sua filha, Graça, que transforma a habilidade de contar histórias em sobrevivência e, nos anos 1970, assume a identidade de Garça Preta para comandar um famoso cabaré durante a ditadura militar. E Flora que, anos depois, retorna à cidade em busca da verdade sobre a enigmática Mulher de Roxo, acreditando que a lenda possa esconder o destino da mãe.

Esse novo projeto é um desejo íntimo de Bethânia de transformar em livro as histórias passadas no cenário da Ladeira da Montanha, região de Salvador que sempre a fascinou pelas ruínas dos antigos casarões. Esse desejo foi ainda mais intensificado quando, durante as pesquisas, descobriu que Jorge Amado também planejara escrever um livro sobre a mesma região na década de 1960. Ressalga também retoma o tema da complexidade das relações familiares, já bastante explorado nos contos de O Ninho, mas agora sob outros pontos de vista, ampliando o conceito de família e as possibilidades de violência praticadas nesse ambiente.

Apesar do sucesso do primeiro livro, Bethânia diz ao Cândido não sentir pressão externa em relação ao segundo lançamento. Ela também falou sobre como está sendo o início da carreira literária, a importância de manter o sarrafo do trabalho sempre alto, o processo de pesquisa para o novo romance e o próprio processo de escrita.

 

 

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O Ninho (2023) e Ressalga (2026), de Bethânia Pires Amaro, ambos publicados pela editora Record | Imagens: Divulgação / Record
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Como surgiu a história do livro Ressalga e por que escrevê-la?

O livro nasceu de um desejo meu de escrever sobre a história da Ladeira da Montanha, uma regi­ão de Salvador, na Bahia, muito presente no ima­gi­nário dos moradores por ser uma via que conec­ta a Cidade Baixa à Cidade Alta por meio de uma série de ladeiras. A ladeira específica abordada no livro é uma das mais centrais e desemboca na Pra­­ça Castro Alves, na Rua Chile e no Pelourinho. Cres­ci observando os casarões abandonados dessa região e sabia que, no passado, ali havia sido um reduto da boemia e da prostituição, frequentado por grandes intelectuais, artistas e políticos baianos. E uma dúvida me assombrava: o que teria acontecido para a região terminar em ruínas? Esse fascínio pela Ladeira da Montanha foi o motor para iniciar o trabalho de pesquisa do livro, que se intensificou por volta de 2024, enquanto a escrita fluiu, sem muitas amarras, durante o ano seguinte. 

Um fato curioso é que, durante a pesquisa, descobri que Jorge Amado também se preparou para escrever um livro sobre a Ladeira da Montanha, nos anos 1960, chegando a encomendar uma mos­tra de fotografias. Por ser uma área de prostituição, tratava-se de uma região de difícil acesso pa­ra fotografar ou documentar, ainda mais em pleno período da Ditadura Militar. Por conta de sua influ­ência, Jorge Amado conseguiu a entrada dos fotógrafos no espaço. Mas logo surgiu o AI-5 e, devido à repressão política, ele não escreveu o livro. As fo­tos foram exibidas muitos anos depois, em Salvador, tendo sua última exposição por volta de 2018. Esse fato fortaleceu em mim a ideia de que ainda havia histórias a serem escritas sobre aquele lugar e, especificamente, sobre as mulheres que trabalhavam na região.

 

No livro Ressalga, a água — seja dos rios, da chuva ou do mar — aparece quase como uma entidade. Na sua visão, qual o papel desse elemento na obra?

Embora apareçam outros elementos, como a terra e o fogo — presentes logo no nascimento da personagem Janaína, ou a figura de Graça, que tem ossos de pássaros e acaba incorporando o elemento ar à própria biologia — o livro possui uma mitologia própria, criada por mim, em que a água sur­ge como elemento-base, unindo as personagens entre si, mas também à geografia e aos mitos da Bahia. Desde a escassez do sertão até a abundância hídrica presente, por exemplo, na cena da cidade de Cachoeira, onde os constantes alagamen­tos criam uma comunhão entre o que está na ter­ra, na água, entre os humanos e as lendas dos se­res dos rios. Em Salvador, a água também exerce um grande papel simbólico para a cultura soteropolitana; por conta da presença do mar, a vida da cidade passa pela realidade marítima, seja pelas nuvens de salitre que obscurecem os postes de luz, seja pelas manifestações culturais realizadas no mar, especialmente nas religiões de matriz africana. Nesse sentido, vejo a água como cenário e fio condutor dessas histórias.

 

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Ladeira da Montanha, em Salvador (BA), década de 1960 | Foto: Reprodução / bahiaterra.com
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Recorte de jornal com anúncio da Boate Maria da Vovó | Imagem: Reprodução / Instagram: @bauhistoricodabahia

 

O romance traz informações históricas ao longo da narrativa que me fizeram questionar até que ponto o livro mistura histórias reais e inventadas. Isso faz parte do projeto? Quanto da obra é realidade e quanto é ficção?

Não saberia dizer uma porcentagem exata do que é real e do que é inventado no livro, mas, de fato, busquei muitos fatos históricos, mesclando-os à ficção justamente para tentar reproduzir os meandros da memória. Já que memória é ficção, acredito que a memória histórica também acaba sendo, de certa forma, modelada pelos condicionantes que sobrevivem — ou não — à história do país. No livro, por exemplo, aparecem nomes de políticos e oficiais de justiça que realmente existiram. Mas, em movimento contrário, há personagens ficcionais que remetem a pessoas reais. É o caso da Gar­ça Preta, inspirada na cafetina Maria da Vovó, que comandou um cabaré e revolucionou, de certa for­ma, o mercado sexual da época, estabelecendo de­terminadas práticas e tabelando preços, algo incomum em Salvador naquele período. Em resumo, toda a narrativa foi alimentada por fatos históricos e memórias de pessoas que viveram na­que­la região no passado, mas está longe de ser um livro-reportagem ou algo do tipo. É, antes de tudo, literatura.

 

Outra figura que parece ter lastro na realidade é a "Mulher de Roxo". Qual é a história dela e por que incluí-la no livro?

Quem viveu em Salvador entre os anos 1970 e 2000 certamente já ouviu falar da "Mulher de Roxo". Trata-se de uma figura notória e fecunda no imaginário baiano, especialmente o soteropolitano. Ela realmente existiu e circulou pelas redondezas da Rua Chile, no centro da cidade, durante cer­ca de trinta anos, usando um hábito roxo e andando descalça. A imagem dessa mulher foi construída justamente pela multiplicidade de relatos sobre sua origem; ela inventava histórias diferentes para si mesma, assumia outros nomes. Uma dessas versões dizia que havia sido dona de um bordel na Ladeira da Montanha e que, com o tempo, perdeu todo o prestígio e foi parar nas ruas. Quando resolvi escrever sobre a Ladeira da Montanha, imediatamente associei o lugar à figura da "Mulher de Roxo". Quis recuperar essa história pa­ra inserir elementos factuais dentro do trabalho ficcional, algo que já fazia parte dos objetivos do projeto.

 

 

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A "Mulher de Roxo" na Rua Chile, em Salvador (BA) | Foto: Reprodução / Tribuna da Bahia

 

 

Fale um pouco sobre esse processo de escritora-pesquisadora. Quais lugares você visitou e com que materiais lidou para reconstruir os cenários antigos que aparecem em Ressalga?

A memória historiográfica de Salvador está bastante preservada tanto na Biblioteca Central, no bairro dos Barris, quanto no Arquivo Público de Salvador e na Casa da História. Nesses locais, pude acessar documentos e relatos antigos sobre a cidade, além de fotografias, recortes de jornais e livros de entrevistas. Há também a Casa Vinicius de Moraes e a Casa Jorge Amado, entre outros mu­seus, excelentes para visitação. Além disso, existem fóruns e blogs na internet onde pessoas costumam compartilhar experiências vividas nas dé­ca­das de 1960 e 1970, quando o mundo passava por uma efervescência cultural que culminaria, por exemplo, na Tropicália. Esse processo de pesquisa foi uma experiência rica e prazerosa, porque existe muito material sobre a Bahia desse período. E foi fundamental para que eu conseguisse transmitir ao texto a avalanche cultural, a ligação com a música e o cheiro único que só a Bahia tem. Consumi esses materiais com muita voracidade e fiquei com a sensação de que ainda há muitas his­tórias desse período a serem contadas, principal­mente histórias sobre mulheres.

 

E em que medida essa paisagem também nasce de experiências pessoais vividas por você nesses locais? 

Eu cresci em Ilhéus e, quando tinha dez anos, minha família se mudou para Salvador. Permaneci lá até os 25, antes de partir sozinha para fazer mestrado na área jurídica em São Paulo, onde vivo atualmente. Parece que, quando saímos do nosso lugar de origem, conseguimos olhar para as nossas vivências pessoais por ângulos diferentes, e elas acabam adquirindo ainda mais expressividade na produção artística. Toda a minha formação, até o início da vida adulta, aconteceu na Bahia, e isso influencia o modo de falar, o jeito de sentir e de se enxergar no mundo; passa pelas expressões idiomáticas e pelo vocabulário. Mas, com certeza, sou apenas mais uma entre milhares de intérpretes desse estado. Esses e outros elementos ligados à Bahia aparecem de forma indireta nos con­tos de O Ninho e de maneira mais direta — geo­grá­fica e culturalmente — em Ressalga. Eu me nu­tri de todo o embasamento da pesquisa, misturei isso à minha vivência pessoal, e o resultado foi o livro.

 

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Biblioteca Central do Estado da Bahia na década de 1990 | Foto: Antonio Queirós/ Cedoc A TARDE/ 21-06-1995
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1ª edição de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez, pela editora Sabiá em 1967, com ilustrações de Carybé | Imagem: Reprodução / Sabiá

 

Percebi muitos elementos ligados ao realismo mágico na leitura do livro. Foi uma inspiração para você?

Ao passar pelos casarões da Ladeira da Montanha é impossível não se sentir em um cenário de uma história surrealista, uma cidade de sombras. Vi muitas fotos de alagamentos em que as casas ficaram submersas e as ruas eram atravessadas por barcos. Essas imagens me lembravam de cidades místicas, como Macondo, do livro Cem Anos de Solidão. Por isso, durante a escrita, me pareceu o caminho certo usar aspectos do realismo mágico re­lacionados à nossa cultura e às muitas crenças que convivem (nem sempre de forma pacífica) na mesma região.

 

Você mencionou O Ninho, seu primeiro livro publicado, que logo de cara abocanhou os principais prêmios literários do país. Com o lançamento de Ressalga, sentiu algo parecido com o "peso do segundo disco" — aquela alta expectativa colocada sobre artistas da música depois do sucesso do primeiro álbum? Isso influenciou de alguma forma o seu processo de escrita?

Sou muito exigente comigo mesma, então a pressão interna sempre vai ser maior do que qualquer pressão externa. Para mim, é muito mais importante corresponder às minhas próprias expectativas do que às dos outros. O que faço é tentar man­ter a régua sempre alta para me motivar a desen­volver cada vez mais a minha escrita. Tem muito a ver com a minha personalidade. Sempre quis escrever um livro que, antes de tudo, eu tivesse certeza de querer assinar e mostrar ao mun­­do. Já en­gavetei um manuscrito que vinha escrendo há dois anos por não achar que tinha qualidade suficiente. Quan­do comecei a escrever Ressalga, não senti um peso, mas, sim, um compromisso de oferecer aos leitores uma experiência literária em que reconhecessem minha voz autoral, mergulhassem na narrativa e conseguissem visualizar as imagens mesmo sem viver na Bahia.

 

Quais as principais diferenças que você percebe no processo de escrever um conto e de escrever um romance?

Para mim, o grande desafio de escrever um roman­ce foi estruturar uma narrativa longa em mais de duzentas páginas, algo que eu ainda não vinha fazendo, já que o conto exige uma construção mais direta. Sem falar que um conto pode ter cerca de quinze páginas e demandar, no máximo, um mês de trabalho, enquanto um romance, pelo menos para mim, pede ao menos um ano. O conto é o gênero textual com que mais trabalhei nos últimos anos e, por isso, flui com mais facilidade. As técnicas usadas em um romance são muito diferentes das utilizadas nos contos, e precisei me debruçar sobre o estudo da narrativa longa para tra­balhar a história de Ressalga de maneira adequa­da. Sou uma escritora que faz um uso mais dis­rup­tivo da linguagem, com períodos e capítulos longos; as frases geralmente se encadeiam umas às outras para formar um fluxo como a água. Esse estilo já aparecia nos contos de O Ninho, mas man­ter esse ritmo em um número maior de páginas exige ferramentas diferentes.

 

Tanto em O Ninho quanto em Ressalga, apesar de ter espaço para o lirismo, há uma exploração sobre diferentes formas de violência, das mais escrachadas às mais silenciosas, contra a mulher. O que te interessa nesse tema literariamente?

Em O Ninho, quis trazer histórias de mulheres inseridas em diferentes contextos familiares. Como o livro também trata das realidades da mulher den­­tro de casa, não pude ignorar temas como violência doméstica e abuso sexual, dos quais as mulheres são, estatisticamente, as maiores vítimas no país. No novo romance, porém, quis tratar de violências mais sutis, que passam despercebidas e normalmente são praticadas por mulheres dentro de um mesmo ciclo social — família, trabalho, ami­zades. Muitas vezes, essas violências acabam naturalizadas e até entendidas como orientações sobre "como ser mulher". São conselhos, normas e condutas repassadas com o intuito de ensinar alguém a caber em determinados padrões sociais. Isso vai sendo reproduzido de geração em geração e encarado como normal. Eu queria mostrar ao leitor que isso também é uma forma de violência.

 

Agora você é uma escritora premiada, com prestígio e circula pelo meio literário. Nesses últimos anos, e com base no que vem percebendo, qual é a sua visão sobre o mercado e o mundo editorial brasileiro?

Minha área de atuação é a jurídica, então, até escrever O Ninho, em 2023, eu não conhecia praticamente nada nem ninguém do meio literário, ape­sar de já ser leitora de autores contemporâneos brasileiros. Hoje tento participar da maioria dos eventos literários e lançamentos que consigo, por­­que acho importante essa movimentação, embora nem sempre seja possível, já que sou mãe e minha filha ainda é bebê. Mas sempre fui muito bem recebida nesses espaços.

Existe muita generosidade e muitas mãos estendidas, desde leitores em feiras até a imprensa cultural. Percebo que, quando uma pessoa realmente gosta do seu livro, ela passa a divulgá-lo para meio mundo, quase como uma porta-voz da obra. Por exemplo, Giovana Madalosso e Sérgio Rodrigues, dois gênios, foram extremamente generosos escrevendo sobre O Ninho e recomendando o livro em vários lugares. Eu os considero padrinhos da obra. Esse tipo de atitude me incentiva a continuar firme no trabalho literário, que é uma carreira cheia de percalços. Claro, ainda é necessário muito incentivo público para a formação de leitores. Mas apesar das dificuldades, percebo que existe muito espaço nesse meio e muitas pessoas sedentas por boas histórias.

 

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Bethânia Pires Amaro | Foto: Eduardo Knapp / Folhapress

 

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