ESPECIAL | Slam: a potência da poesia falada 19/05/2026 - 17:00
Movimento reúne poesia, protesto, música e expressão cultural tornando-se símbolo de resistência para a juventude periférica
Por Naomi Mateus e Thais Castro
A oralidade ocupa um papel central para a humanidade desde os primórdios. O conceito refere-se à prática que ocorre por meio da fala, se tornando um dos modos mais antigos de transmissão de conhecimento e cultura entre os seres humanos, permitindo que os saberes de certas comunidades continuem perpetuando na estrutura social e no imaginário coletivo.
Na África Antiga, por exemplo, o papel oral era exercido pelos chamados Griot, os guardiões da palavra, mensageiros responsáveis por passar ensinamentos culturais aos jovens, além de firmar transações comerciais entre as comunidades. Até os dias de hoje, os povos africanos mantêm essa tradição oral. Não era diferente com os Aedos, que eram poetas e cantores, no berço da tradição poética, a Grécia Antiga. No entanto, a escrita ainda continua sendo o método mais aceito para absorver e transmitir conhecimento no mundo atual, que frequentemente encara a citação oral como algo menos preciso.
Na fala e na beleza de um texto lido em voz alta, as palavras e a performance de quem as declama carregam forças que atravessam e fazem morada na mente. A resistência persiste naqueles que ainda apostam no fôlego da voz, entoando versos em esquinas, ruas e praças para quem quiser ouvir. Isso é Slam.
Embora "slam" signifique, de forma literal, bater ou criticar, no âmbito das palavras é considerado uma competição de poesia falada. Mais do que um fenômeno poético social e de uma potência educativa, serve como escape para declamar as dificuldades e temas cotidianos da vida do poeta, por exemplo.
Poetry Slam
"Marc Smith também faz uma comparação com as batalhas de rima, ele fala que o slam é um movimento que não é para ser um poeta contra o outro, é para ser todos contra o sistema."
— Jaquelivre
A iniciativa ocorreu em Chicago, nos Estados Unidos nos anos 1980, a partir de Marc Smith, um operário aficionado pela poesia. Na época, o gênero ainda era voltado para círculos intelectuais, onde ser poeta era apenas sentar-se em uma mesa com sua bela taça de vinho e declamar aquelas palavras de difícil entendimento; e esse era o maior objetivo de Smith, tirar a poesia do mundo erudito. Incomodado, ele resolveu fazer uma declamação dentro de um bar e junto a um grupo de artistas, criaram uma performance apelidada de Poetry Slam (batalha de poesia). Com a aprovação do público no bar naquele dia, todos os fins de semana eram marcados pela competição e no final o poeta ganhador era premiado.
A batalha de poesia chega ao Brasil pelas mãos de uma mulher, Roberta Estrela D'Alva, em meados de 2008 na cidade de São Paulo. Foi assim que Roberta e o coletivo Bartolomeu de Depoimentos criaram o Zap! Zona Anônima da Palavra, o primeiro slam brasileiro.
No Brasil, a batalha de poesia se divide em dois momentos: o microfone aberto e a competição em si. O mic aberto é um momento em que qualquer pessoa pode se expressar sem precisar participar da competição. Então você pode declamar um poema seu, ou de outra pessoa, cantando uma música, fazendo o que o próprio nome já diz: microfone aberto.
Já no segundo ato a declamação do texto é de três minutos, apenas com a voz e o corpo sem a utilização de qualquer adereço. Os jurados são escolhidos de forma voluntária entre o público presente na plateia, com a presença do SlamMaster, que é o mediador da competição. Esta estrutura é detalhada no livro Teatro Hip-Hop, de Roberta Estrela D'Alva.
O cenário do slam em Curitiba
Jaque atua há cerca de nove anos na cena da poesia marginal, e com a Soul Dani e Poeta Gabriela criou o Slam das Gurias, que completa oito anos em 2027. Ela conta que desde criança respondia as questões da prova na escola rimando, até que com o incentivo da professora percebeu que esse era o caminho que gostaria de continuar: "Eu fui pegando gosto por isso. Claro que teve um momento na minha vida que eu dei uma esquecida, um pouco mais na adolescência, mas foi exatamente alguns sofrimentos, algumas perdas, algumas dores nesse processo da minha vida que me fizeram retornar para a poesia."
Entre os 18 e 19 anos, a poeta criou um projeto chamado "Poesia Abstrata". A iniciativa consistia em filmar poetas recitando — com uma câmera que ganhou de seu pai — e a partir das gravações decidiu publicá-las no Youtube e posteriormente no Instagram. Com o reconhecimento do projeto pela cidade de Curitiba, poetas e MC's de batalha começaram a demonstrar interesse em participar.
"Vestir essa identidade é muito importante para quem escreve e para quem se entende enquanto artista das palavras"
— Leeoni Ventura
Mas foi em 2017 que surgiu o primeiro slam de poesia da capital paranaense, o Slam Contrataque. Os organizadores conheciam o projeto de Jaque e a chamaram para algumas gravações: "E foi assim que eu conheci o slam, eu participei no dia também, comecei a frequentar esse movimento que naquela época só havia ele, e me apaixonei realmente pelo movimento."
O Contrataque também atravessou o pessoal de Leeoni Ventura, conhecido como Leleco. Professor, ator, slammer e produtor cultural, e percebeu o slam como problemática de mestrado, e sentiu a necessidade de entender essa prática a partir de outro lugar, uma nova comunidade.
O Slam Inclusão, idealizado por Leleco e Emilly Maus, ambos SlamMaster do projeto. Na época já existiam comunidades com recortes específicos em Curitiba, o próprio Slam Contrataque, o Slam do Muma, Slam das Gurias e o Slam Zumbi Dandara.
Foi no microfone aberto em junho de 2022 que Leleco deu seus primeiros passos no Slam Contrataque. Desde então se tornou presença constante da modalidade no encontro. Para ele, o slam revelou ser algo muito mais profundo do que parecia inicialmente e trouxe um significado emblemático para sua vida: "Eu me descobri no Slam (Contrataque). Foi o primeiro momento em que eu fui reconhecido como poeta, isso pra mim foi muito importante, vestir essa identidade é muito importante para quem escreve e para quem se entende enquanto artista das palavras."
Se o slam transformou a vida de Leleco, ele continua transformando a geografia urbana de Curitiba por meio da coletividade. Exemplo atual dessa vitalidade é a Batalha das Feiticeiras, iniciativa criada por mulheres para dar suporte à produção poética feminina e trans. Realizados na Casa do Estudante Universitário (CEU), os encontros priorizam o acolhimento e visibilidade das participantes. Ao organizar a Batalha na CEU, Lilith ressalta que busca subverter o protagonismo masculino comum na cena do slam e batalha de rima. Para ela, a batalha é um contraponto necessário; um ambiente de acolhimento onde a poesia serve para expressar dores e vivências que o sistema e as competições tradicionais muitas vezes ignoram.
Esse movimento reafirma a diversidade do "slam com recorte de gênero" na cidade, que se desdobra em diferentes frentes de resistência. É o caso do Slam Inclusão com recorte para mulheres, pessoas trans e a comunidade LGBTQIA+, o Slam das Gurias com mulheres cis, trans e pessoas não-binarias e o Slam Zumbi Dandara, o primeiro slam com recorte racial no Brasil, sendo uma batalha de poesia afrocentrada.
Prosa entre slam, literatura e a música
Embora o slam esteja ligado à literatura, ele não é considerado um estilo literário, mas sim um movimento. Assim como o hip-hop, que muitos associam apenas à música, o poetry slam é uma performance viva. Não é obrigatório recitar poesia marginal, mas as rodas valorizam esse tipo de poesia, pois ocupam lugares como terminais, praças e periferias, espaços onde o público se identifica e legitima essa voz.
A construção das poesias vem principalmente das vivências e de referências na literatura e na música. Lilith veio do interior de São Paulo para Curitiba, começou a escrever aos 12 anos por incentivo do avô que escrevia letras de rap, na escola começou a consumir literatura clássica citando Vinicius de Moraes, mas com o tempo percebeu que as escritas clássicas não retratavam suas vivências, quando conheceu Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor, Jefferson Tenório com Avesso da pele, e Conceição Evaristo, criadora do conceito de escrevivências, que é "escrever a partir da vida" algo que se relaciona bem com o slam.
"1993, fudidamente voltando, Racionais
Usando e abusando da nossa
liberdade de expressão
Um dos poucos direitos
que o jovem negro
ainda tem nesse país
Você está entrando no mundo da informação, auto-conhecimento, denúncia e diversão
Esse é Raio X do Brasil, seja bem-vindo"
Racionais Mc's – Fim de Semana no Parque
Essa foi a música que Leeoni ouviu aos 13 anos enquanto jogava futebol em um campinho na cidade de Maringá, e que fez com que ele percebesse que aquela letra de rap cantava sua realidade; a partir daí continuou explorando RZO, Facção Central e Negra Li. No início do ensino médio em São Paulo, teve contato com a literatura de Gregório de Matos; e percebeu que o rap que se identificava fazia parte dessa literatura. No teatro, em 2003, conheceu as obras do poeta Paulo Leminski, que dialogava com poesia concreta, literatura clássica e, ao mesmo tempo, mesclava com a vida urbana.
Jaquelivre também foi influenciada pela música em sua trajetória, principalmente por mulheres. Nos ritmos brasileiros vai entre forró, samba e rap. Racionais, Facção Central e Dina Di são referências, e das mais atuais, destaca a lírica da cantora Flora Matos e um importante nome do rap em Curitiba, Poeta Gabriela, sua colega na criação do Slam das Gurias.
Entre as escritas, Jaque afirma gostar de Clarice Lispector e Mel Duarte, com Querem nos calar: Poemas para serem lidos em voz alta, uma coletânea que reúne poesias de 15 mulheres slammers de todas as regiões do Brasil.
Naomi Mateus (à direita) (Curitiba, 2005) é graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal do Parana (UFPR) e estagiária no setor de Divisão de Difusão Cultural da Biblioteca Pública do Paraná. Atua no jornalismo independente como uma das criadoras da Revista Sammba, cobrindo a cena de arte periférica. É entusiasta da cultura Hip-hop e do R&B.
Thais Castro (São Paulo, 2003) é graduanda em Jornalismo pela UFPR e integrante da revista independente Sammba. Investiga as intersecções entre comunicação, memória urbana e cultura independente.



