POESIA | antes das quatro e outros poemas 11/05/2026 - 15:53
Por Rafaela Barbosa
antes das quatro
estou dormindo muito até tarde
causando a morte de escritores
esta tarde dormi demais
quem eu matei antes das quatro da tarde
é janeiro, é verão
é de tarde, tenho muito sono
um escritor morreu enquanto
eu sonhava com amigos
há muito tempo que não os vejo
posso contar os dias
do ano passado em que
não quis me levantar
antes das quatro
teve um dia de dezembro
que acordei super tarde
e já estavam velando
um escritor na cidade
a hora das birutas
em casa sou um bom gato de pelo curto
que morando em cidade praiana vivo
fossilizado no sofá feito ammonite
eu poderia ler em um parque vazio
protegido por um condomínio da marinha
sofisticado é virar vendedor de figos
de uma hora para outra pimba na gatinha
hijos numa barraca e figos da Argélia
todo dia o boneco do semáforo vira estatística
por um entregador que carrega uma enorme caixa vermelha
poderia ler nas ruínas
de uma casa de faroleiro
depois correr a trilha
até o farolete
nesse dia eu aprenderia
a trapacear
como sou um bom gato de pelo curto
à noite é hora de procurar por antiguidades
do oriente
eu esqueci de te acordar
para aquele compromisso inadiável
eu tenho órgão de uma igreja caótica
eu sonho com você que já morreu
eu quero ser a primeira a chegar na praia
rir das birutas pneumáticas
o oceano
está tão azul fóssil do tempo
como feito para as birutices se eternizarem
dando bicadas nos bolsos da minha cabeça
e as birutas voam bem porque voam nuas
não precisam usar aqueles pálios
das catedrais de Strasbourg
– relutaram bastante na época dos maiôs de banho
tão colantes e listrados.
tirei os chinelos lá no deque
desci e me senti em miniatura
deixando uma gota de sangue nesse bico amarelo
PROLONGAMENTOS: a monarca dos corgis
são quatro corgis reais de nomes reais na altura da barra da saia sob os cuidados da realeza britânica no palácio de Buckingham
as patas curtas não os deixam alcançar o pêndulo
do Big Bang: o único que não morde enquanto um funcionário passa
os cães são a companhia fiel da monarca durante os passeios no jardim real
– eis que o Soccer arrastou uma flâmula do Arsenal revelando que a sua rainha tem um time do coração –
sem parte do rabo são pomposos disputando coroas, usam canivetes e elmos
em pinturas, antigos monarcas, como Jaime II Duque de York, Charles II, o dramaturgo John Lacy e até a servente Bridget Holmes (segurando uma vassoura), se concentram em pé – vestindo todas as roupas do meu guarda-roupa – escutando o ladrar vindo dos corredores do salão azul
corgis como reis encantados a correr até o comedor de gala e a volver comedor chinês, apontam os focinhos para o mirante da mesa, posta pelos mordomos
entretanto, todos serviçais ingleses
um chefe especializado em natureza-morta, para mimar gatos basta Willem Heda e Chardin, cuida da alimentação dos pets rústicos: bon marchand!
carne de primeira, petiscos gourmet em horários nobres pontuais
como um bom cão da linha de sucessão
os seus quartos reais são os disputados hotéis do centro de Londres: lençóis trocados, cortinas contra as poucas horas de luz intensa, lareira com metais de cabine para o inverno bicolor: dentro do palácio, fora do palácio
além de lavabo para as patas que ficam cheias de avarias, como fios de seda, perucas reais, Granny’s Chips, flores de chapéus e peles de urso nas temíveis cabeças da guarda britânica
para posar para as fotos, louças de chá, libras ou pinturas encomendadas
com cópia para a galeria da coleção real
os corgis são os mais pacíficos, mas, como se esquecem da natureza grã-bretanha
os piores amigos na hora do desjejum
idolatram a sua rainha como um carpete da fábrica Axminster enrolado prestes a ir para um Pub real, sem espanto, Sua Majestade vai apenas praticar equitação
quando estão entediados, os mordomos dançam como Gene Kelly e Frank Sinatra,
eles sorriem ritmicamente em pentâmetro iâmbico –
o galês compenetrado em sua realeza mira para a sua monarca com um olhar de etiqueta ração Royal Canin – pois é o único cão fortificado na embalagem de comida – e segura o suspiro enquanto é a monarca que sorri branco impecável eterno como a melhor mãe do mundo real
eis o HOTEL UNIVERSO
com estrelas garrafais
"sempre trabalhando para melhor atendê-lo"
mas eis que os letreiros
um bando de figurões a cavalo
como em um faroeste
forçando os cavalos a nadarem
através de um rio perene
alcançam o Hotel Universo
que está em fuga
com seus mil hóspedes e funcionários
não há quem possa dar cinco estrelas ao Universo
quando o assunto é ‘bife à cavalo’
no saloon da gravidade
bebemos whisky a cowboy
eis que os letreiros hospedam os cavalos
da porta giratória do Hotel Universo
vê-se uma Kombi 78 verde do futuro
que um dia teve um toldo listrado
toneladas de bananas caem mais que batatas
durante a guerra e chamam mais atenção de mosquitos
– como pessoas no cúmulo de suas janelas –
o concierge do Hotel Universo
é capaz de mover dos alheios bolsos um milhão de moedas
entre um serviço e outro, lagosta e polvo
um drink e um beijo, o cadáver de um queijo
doce flambado, a morte de camundongos na cozinha
bater papo para dissolver os cavalos
Zeus Xenios foi hoteleiro na Grécia Antiga
– putos, aqueles grã-finos comeram sem pagar!
--
Rafaela Nogueira Barbosa (Cabo Frio, RJ) é doutoranda no curso de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ. Já publicou poemas em livros, como a obra finalista do prêmio Rio de Literatura O urso castanho e o campo de pavões verdes (2021), e em revistas literárias, como Mallarmargens (2018), 7faces (2015) e Poetrónica Nº2 (2019). Desde 2020, trabalha em seu livro independente Sarapatel de cachorro doido (2ª edição 2025, 3ª edição 2026) e recentemente criou a página Prêmio Rafinha de Literatura Futebol Clube na qual divulga seus textos.






