REPORTAGEM | Entre lentes e memórias: o olhar feminino que movimenta a economia criativa do Paraná 11/05/2026 - 17:03

Por Vânia de Sales

 

O Palácio da Liberdade, sede do Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR), vestiu-se de protagonismo feminino no mês de março. Para além das homenagens sazonais, a programação do Mês das Mu­lheres do museu propôs uma reflexão profunda sobre a "economia do olhar": como a trajetória de mulheres nas artes visuais e no audiovisual se transforma em força produtiva e legado histórico para o estado. No cruzamento entre a preservação do acervo e a urgência do mercado, o MIS-PR se consolidou como um hub de encontro para quem faz da imagem o seu ofício e sustento.

Uma das vozes centrais desse diálogo foi a cineasta e doutora em Artes pela UNICAMP, Berenice Mendes. Com uma trajetória que se confunde com a própria his­tória do cinema paranaense, Berenice ocupou o museu não apenas para falar de técnica, mas de pertencimento. "Um projeto muito bacana de homenagear as mulheres [...] ver as coisas lá de trás, ver toda essa transi­ção tecnológica, o MIS-PR está muito potente", afirmou a cineasta, celebrando a oportunidade de revisitar obras que compõem o vasto acervo da instituição.

Para Berenice, o espaço cedido pelo museu vai além do reconhecimento; é uma forma de validar décadas de uma produção que enfrentou os desafios de um setor historicamente masculino. Sua presença reforçou que a economia da memória — a gestão e preservação do que produzimos — é o alicerce para que novas cineastas possam empreender e criar suas próprias narrativas.

Se Berenice trouxe o peso da história, a fotógrafa Débora Ling trouxe a vivência pulsante da produção cultural contemporânea. Com mais de 20 anos de carreira e um portfólio que viaja do sertão nordestino ao Alto Xingu, Débora compartilhou os bastidores de como uma visão sensível se converte em viabilidade profissional. Em seu bate-papo, a fotógrafa destacou a re­levância de iniciativas promovidas pelo Museu da Ima­gem e do Som do Paraná, valorizando a criação de es­paços de encontro, escuta e diálogo com o público. A ação realizada pelo MIS-PR contribui para fortalecer a cena cultural e ampliar trocas significativas.

 

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Débora Ling e Berenice Mendes em diálogo nas dependências do museu | Fotos: Rafael Soares / Divulgação MIS-PR
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Durante a conversa, Débora também desconstruiu o processo criativo, abordando a produção cultural do Paraná como um ecossistema que exige tanto rigor técnico quanto visão estratégica. A artista se apresenta como uma verdadeira gestora de sua criatividade, navegando pelas complexidades do mercado sem perder a conexão com a essência humana.

O encontro dessas trajetórias sob o teto do MIS-PR revela que a cultura no Paraná é uma rede viva de microempreendedoras criativas. Quando o museu abre suas portas para ouvir Berenice recordar o passado e Débora compartilhar o presente, ele deixa de ser apenas um espaço de guarda para se tornar um catalisador de diálogos sobre sustentabilidade profissional.

O Mês das Mulheres no MIS-PR não entregou apenas eventos gratuitos; entregou um panorama de como o olhar feminino movimenta a economia criativa local. No silêncio das salas de exposição "Sinestesia dos Objetos" ou "Foto Brasil", o que se ouve, ao final, é o pulsar de uma produção cultural que não apenas documenta o Paraná, mas o reinventa e o sustenta a cada clique e a cada fotograma.

 

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Vânia de Sales P. Mazzari é mestre em Tecnologia e especialista em Audiovisual. Funde 16 anos de prática técnica como editora de vídeo na TV Paraná Turismo a uma profunda reflexão sobre a imagem e a sociedade. Designer de formação, hoje integra o Núcleo de Comunicação do Museu da Imagem e do Som (MIS-PR). Atua na intersecção entre a preservação da memória e a inovação tecnológica, utilizando sua bagagem jornalística para decodificar e difundir a potência do patrimônio audiovisual paranaense.

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