ORELHAS MARCADAS | Uma segunda-feira qualquer no Bardo Tatára: o início da noite 15/05/2026 - 15:51
Por Carlitos Marinho
O que tem de bom em Curitiba hoje? Perguntaram, meus amigos, ociosos por vocação, em plena segunda-feira. Eles vieram até a capital paranaense para assistir o show do Mac DeMarco, que rolou no Tork n' Roll, em abril. Com ecos de Neil Young e Brian Wilson, o último indie-rock-star estourou após o lançamento do álbum Salad Days, em 2014, que conta com a viralizada faixa no TikTok, "Chamber of Reflection". Nessa época, construiu uma base de fãs apaixonada – uma, inclusive, chegou a lhe presentear com um feto de porco, nele estava tatuado um desenho de Mac DeMarco como uma sereia. O próprio músico descreveu essa ascensão rápida em um perfil na revista New Yorker. "Os descolados vinham de todas as cidades, esperando algum tipo de cara famoso e sexy, mas eu era só um idiota de gorro", disse Mac, que se apresentaria na fria Curitiba no dia seguinte.
E os descolados da vez, em um clima "Fascination Street" de Robert Smith em plena segunda-feira, eram todos do interior do Paraná. Um deles é de Nova Londrina, outros dois são de Turvo e outra de Guarapuava. São uma turba de advogados provenientes do curso de Direito da Universidade Estadual de Maringá (UEM) – e um perdido de Comunicação Social, da mesma universidade – e que agora tentam tocar a vida no concorrido universo jurídico, comunicacional e acadêmico. Em busca de diversão barata e distração para suas vidas pacatas, os jovens calvos, que agora beiram a casa dos 30, estavam com o mesmo brilho no olhar de quando eram garotinhos e viviam serelepes durante o auge boêmio da Zona 7 em Maringá, bairro universitário de Maringá. Depois da pandemia, o barulho da região que era de tacadas de sinuca, baterias de atlética e estilhaços de copos americanos ao chão, deu lugar somente ao zumbido das moscas sobre salsichas prensadas e ao estrondo dos galhos de ipês que caem sobre fios de energia quando garoa. Eles não moram mais lá, mas sinto que gostariam de voltar.
Empolgados como calouros no Democrático Bar, as garotas e garotos lambuzados de maioneses coloridas encontrariam algo parecido naquela segunda-feira. O plano era chegar no Bar do Ivo às 19h e, depois, atravessar a rua para escutar música autoral no Bardo Tatára – que rola todas as segundas desde abril de 2009. Nesses dias, o palco é aberto e artista não paga a entrada. Pessoas normais pagam 15 reais (mas ganham uma deliciosa jantinha). Faz 17 anos que acontece essa brincadeira por lá.
Chego às 19h, pontualmente, pois sou usuário contumaz de 99Moto. É o único meio de transporte possível para atravessar o caótico centro de Curitiba em horário de pico, além de ser praticamente o mesmo preço das caras passagens de ligeirões e ligeirinhos. Visconde de Guarapuava, rua Alferes Ângelo Sampaio, rua Professor Luiz César e avenida dos Estados. Poucas ruas e muitos dribles em carros desenfreados e sem setas.
À primeira vista, um exército de decanos ocupava todas as mesas. Alguns, pela risada rouca e estrepitosa, curtidos no álcool e defumados na fumaça, pareciam que estavam lá desde às 7h da manhã, horário que abre o Bar do Ivo. Chego meio perdido, ando devagar, abro a geladeira, pego uma garrafa, sento no balcão e aguardo a liberação de uma mesa. O lindo balcão, gasto pelo tempo e iluminado por luz fria de fluorescente, ocupa o centro do salão. Alguns ali sentados, encaravam o abismo no fundo do copo, como quem tenta ler o futuro entre a espuma rala da cerveja. O Coxa vai jogar a Libertadores em 2027, o sobrinho mata o próprio tio depois de descobrir que ele usava o dinheiro da avó para gastar no Tigrinho, o Mar Cáspio está encolhendo, quem será o próximo governador do Paraná?
Enfim chegam os jovens descolados e sentamos na mesa como futuros reis. "Olá, tudo bem? Como foi o final de semana? A cerveja é só pegar na geladeira? Como faz para ir ao banheiro? O que tem para comer aqui? Que delícia esse bolinho de carne". Ah, o bolinho de carne… à primeira vista parece estar queimado, torrado e totalmente seco por fora. Mas, na primeira mordida, uma explosão sensorial invade o córtex pré-frontal. Tonteado, como se tomasse um caldo da onda do mar, não sei dizer qual estímulo me tomou primeiro: o cheiro da cebolinha com alho e especiarias, o som da crocância no momento da mordida, ou o gosto da carne suculenta.
Entre um bolinho de carne e outro, todos pescoçavam em direção ao Bardo Tatára, que remanescia na escuridão do poste apagado. Da mesa do Ivo, dava para observar a modesta placa iluminada e colorida do Tatára. Ela traz o nome do bar com o desenho de um velho de cabelos brancos longos, uma mistura de Homer Simpson com Alceu Valença. Uma certa apreensão tomava conta ao observar o portão de ferro do bar. Parecia estar todo enferrujado, feito de barras verticais finas com pontas de lança no topo. A casa solitária e sombria parecia um cão velho e rabugento que dorme perto de uma lata de lixo.
O movimento era maior ao lado do Tatára, em um mercadinho chamado Harmonia da Terra, que estava prestes a fechar o expediente. Aquele tipo de conveniência que conta com algumas vagas de carro na calçada em frente à porta e que são protegidas da chuva sob um imponente telhado de brasilit. Além de carros estacionados, também haviam alguns nobres trabalhadores que faziam uma pausa, munidos de Winston e Antarctica Boa em mãos, e que bravamente continuariam a escalada da avenida sentido bairro Água Verde ao Portão.
O relógio marcou 20h30. "Acho que dá para ir lá já", disse o meu amigo, com um certo constrangimento evidente em suas bochechas rosadas, como quem está fora de casa e pergunta se pode abrir a geladeira. Lá vamos nós novamente ao balcão, mas desta vez para pagar as contas. Depois de muitas cutucadas na calculadora, os adimplentes seguiram para a calçada. A caminhada cambaleante de quem ficou muito tempo sentado e tomou algumas cervejas foi interrompida pelo insistente trânsito movimentado da avenida dos Estados. Depois de observar o trem das luas gêmeas dos faróis, atravessamos a rua e chegamos ao intrépido recinto que, de cão rabugento, transformou-se em estilo felino de elegância.
Com o portão neogótico entreaberto, demos de cara com um manda-chuva de jaqueta de couro, dentro de uma guarita e com um bloco de comandas na mão. Mal dava para enxergar seu rosto. "Boa noite, boa noite. Nome? Car-li-toss". Sempre falo o meu nome pausadamente para evitar o recorrente "Carlinhos?". A ênfase no "s" no final do nome é para evitar o "Carlito", no singular. Mas, diferente de Carlinhos, esse eu já nem corrijo mais. Inclusive, já aprendi a gostar do meu duplo.
Comandas anotadas, começamos a caminhar em direção de alguma mesa, como se fôssemos formigas coordenadas já sabendo onde sentar. Em cada passo, dava para ouvir o som do tênis raspando no chão de cimento queimado. Se por um momento parássemos de caminhar, daria para escutar a queda de um alfinete. Fumantes, sentamos na mesa ao ar livre, que fica em frente à casa. Tanto a mesa quanto os bancos são de madeira, como todos os bons lugares de Curitiba. Barbaran, Bife Sujo, Kapelle Bar… no ambiente madeirado e escuro, os nossos rostos e o recinto eram iluminados por uma fraca luz amarela. Enquanto a minha mente viajava, a simpática atendente veio até nós e ofereceu o cardápio. De pronto, pedimos cervejas e dose de cachaça. Ela sai, elegantemente, e caminha em direção ao breu, devagar. Enquanto sua imagem dissipa na neblina amarelada de âmbar, uma silhueta de um homem que fumava ao fundo aparece. Igual quando encaramos uma estrela no céu e percebemos a luz fraca de outra ao lado. Ao forçar a vista, aos poucos, a imagem se revela. Percebo que ele usava um jeans largo, flanela xadrez, gorro de lã e um tênis New Balance velho e surrado. Tento enxergar o seu rosto, um bigode ruivo e barba por fazer, que aos poucos saía da sombra. De repente, o sujeito vira a cara diretamente para mim, de olhos arregalados, e me dá um sorriso com um enorme espaço entre os dentes superiores do incisivo central. Não pode ser, é o Mac DeMarco.
A história continua na próxima edição do Orelhas Marcadas.
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7 de janeiro de 2026 — Em seu Instagram, o jornalista Danilo Nakamura foi até um novo restaurante italiano no bairro Bela Vista, em São Paulo, e relatou sua experiência. "O novo Mata Città é ruim. Bem ruim. Ruim com força, ruim com fila, ruim que dói, ruim que faz o Pecorino parecer competente. É vergonhoso", e prosseguiu, “Não tinha o chope. Não tinha o spritz. Não tinha muita coisa. Sabe o que tinha? Fruta e presunto de plástico como decoração. Também tinha um painel de led com fila para você tirar sua carta de tarô virtual. Juro. A gente tirou o diabo. E essa foi a sorte do dia".
1de abril de 2026 — O cronista culinário Jota Bê desabafou em seu Instagram. "Hedonismo anda meio fora de moda, eu sei. E vai piorar. Como (quase) ninguém mais come e nem bebe direito, os salões de bares e restaurantes têm sido ocupados por zumbis sedentos por água da casa. Só que essa conta não fecha e o que já é caro tende a ficar ainda menos acessível. Além do que infelizmente é natural que alguns comércios não sobrevivam a essa nova realidade. A bebida alcoólica é a vilã da vez e deve ser tão cancelada quanto o cigarro em menos de dez anos. Portanto, se você gosta de sair, agora é boa hora para prestigiar o bar do seu coração. E é de bom tom ter menos rigidez com o regime quando estiver fora de casa. Não nos esqueçamos do prazer que a boa mesa pode nos proporcionar. Por fim, não chame bife de proteína".
20 de abril de 2026 — Joaquim Ferreira dos Santos, em sua coluna no O Globo, indignou-se ao saber que apenas um dos mais de cem bares que participam do festival Comida di Buteco, na capital Rio de Janeiro, usou jiló no preparo dos pratos. "Cadê o jiló que estava aqui? Ele ficava ensopado ao lado direito do ovo cor-de-rosa, à esquerda das moelas fritas, e, todos iluminados pela luz fria da vitrine do balcão, sobrevoados por anjos em formato de moscas, compunham o altar fundamental em torno do qual se rezavam as orações”, e continuou, "Se o assunto é baixa gastronomia, o jiló está leguminosamente acima de qualquer classificação de gênero. É hors-concours, um Clóvis Bornay que desfila a fantasia sem concorrente de um sabor luxuoso. Àqueles de paladar infantil, sempre repetindo que de amarga já basta a vida ou que não querem saber de comida de passarinho, eu sugiro seguir o conselho de Nelson Rodrigues quando lhe pediram para dar um toque nos jovens: "Envelheçam! Envelheçam!"
30 de abril de 2026 — Também no O Globo, Marcella Sobral, indagou sobre os cozidos. "Antes prato de prestígio em bares e restaurantes, com dia certo no menu e tudo, o cozido virou mais uma opção morna e sem tempero em tabuleiros suados de estabelecimentos a quilo. Juntam legumes aleatórios preparados sem respeitar o tempo de cada um, embutidos salgados demais, um feijão esfarelado, tacam tudo no mesmo saco, e fim. Pirão? Nem pensar. Um desgosto".
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Carlitos Marinho nasceu em Mariluz, no Paraná. Formado em Jornalismo pela Unicentro, em Guarapuava. Atualmente, trabalha na Secretaria de Comunicação do Paraná e é colaborador do jornal Cândido.










