ENTREVISTA | A tradutora punk 17/04/2026 - 14:36

Pesquisadora e tradutora de livros sobre crítica e teoria feminista, Emanuela Siqueira conta sobre a experiência com o recém-lançado A Vingança das Punks: Uma História Feminista da Música, de Poly Styrene ao Pussy Riot, de Vivien Goldman


por Felipe Azambuja

 

Emanuela Siqueira nasceu e cresceu em Chapecó (SC) e mora em Curitiba desde 2010. É mestre e doutora em Estudos Literários e tradutora há dez anos. Traduziu, entre outras, as obras de Charles Bukowski e A leitora incomum, coletânea de ensaios de Virginia Woolf. 

Crescendo em uma cidade onde “tudo demorava para chegar”, começou a traduzir muito antes de pensar na faculdade de Letras, com textos de revistas, blogs estrangeiros e, principalmente, letras de músicas. Somando sua proximidade com o meio musical às suas pesquisas sobre estudos feministas na literatura, lançou em 2025 sua primeira tradução de um livro sobre música: A Vingança das Punks: Uma História Feminista da Música, de Poly Styrene ao Pussy Riot, da profes­sora e jornalista britânica Vivien Goldman, lançado no Brasil pela editora Barbante.

Publicado originalmente em 2019, o livro trabalha as temáticas de identidade, dinheiro, amor e protesto para pensar o que fez do punk uma forma de arte tão libertadora para as mulheres. Goldman, uma das pioneiras no jornalismo musical do Reino Unido, combina na obra entrevistas, história e sua própria experiência de mais de 50 anos acompanhando diversas cenas musicais.

O Cândido entrevista nesta edição Emanuela Siqueira sobre A Vingança das Punks e suas próprias origens no punk. Confira:

 

entrevista
Emanuela Siqueira | Foto: Isa Honório | Edição: Cândido

 

Como foi o processo para traduzir A Vingança das Punks? 

Esse livro saiu em 2019 nos Estados Unidos. Na época, eu trabalhava na Joaquim, uma livraria e loja de discos aqui de Curitiba. Eu trabalhei muito tempo com discos e com colecionadores, e conheci o Alessandro Andreola, que é o editor da Barbante, por conta disso.

O Alessandro gosta muito de música, dá pra ver até pelo catálogo da Barbante, que tem bastante livro de música. A gente sempre se encontrava em feiras de discos, e conversávamos sobre a ausência de traduções de certos livros de música. E como eu estava pesquisando já há mais de dez anos os estudos feministas da tradução, fazendo mestrado e doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), a gente con­versava sobre como estavam saindo muitos livros legais sobre mulheres musicistas que, nos anos 70, 80 e 90, estavam escrevendo. E aí saiu esse livro, e o título tinha chamado a atenção: Revenge of the She-Punks, em inglês. Eu até brinquei com ele – por ser uma editora menor, independente –, falei "ah, mas nunca que a gente ia ter dinheiro pra comprar os direitos desse livro e traduzir, né?" 

entrevista
A Vingança das Punks: Uma História Feminista da Música, de Poly Styrene ao Pussy Riot (Barbante, 2025), de Vivien Goldman e tradução de Emanuela Siqueira | Imagem: Divulgação / Editora Barbante
entrevista
Vivien Goldman | Foto: Alexesie Pinnock

 

Foi muito divertido, porque a Vivien tem uma linguagem de jornalista. Hoje ela é professora na Universidade de Nova York, mas ela foi jornalista nos anos 70, em uma época em que tinham poucas mulheres jornalistas; mulheres jornalistas de música, então, basicamente não havia. Ela foi para a universidade estudar Jorna­lismo e também ser orientada por feministas, então ela é de uma geração muito complexa. Fez uma universidade para filhos de trabalhadores e é das primeiras da família a acessar a universidade. 

E ela tem uma linguagem muito do rolê, usa muita gíria, ela brinca, faz muita piada, e boa parte das piadas dela são britânicas, mesmo ela morando nos Estados Unidos. Então em uma linguagem muito de zine ainda, daquelas primeiras revistas independentes ali dos anos 70 e 80, só que ao mesmo tempo faz aquelas descrições super viajadas dos discos. Daí eu tive que juntar várias das coisas numa linguagem coloquial, da música, com essas descrições super adjetivadas, de bateria dissonante, com guitarra não sei o que... 

Eu ia traduzindo os capítulos e mandando pro Alessandro, que já fazia a preparação – o que não é um processo comum no mercado editorial. A gente normal­mente traduz tudo e envia. E foi divertidíssimo porque, apesar de ser o meu primeiro livro de música, eu passei 20 anos lendo sobre música. Então é uma atividade bem louca, sabe? Porque você tem que fazer aquele negócio funcionar.

Eu não falei em nenhum momento com a Vivien, apesar de eu ter ela nas minhas redes sociais, ela não responde muito as pessoas, então eu não conversei com ela, diferente de outro livro que eu fiz pra Todavia, [Ga­rota sobre garota, Sophie Gilbert], que ela também escreveu sobre movimentos feministas e cultura pop. Eu mandava mensagem pra ela no Instagram e ela me respondia, e a mu­lher era finalista do Pulitzer, é muito engraçado. 

 

entrevista
Da esquerda para a direita: Chrissie Hynde (The Pretenders), Debbie Harry (Blondie), Viv Albertine (The Slits), Siouxsie Sioux (Siouxsie and the Banshees), Poly Styrene (X-Ray Spex) e Pauline Black (The Selecter) | Foto: Michael Putland

 

Você não chegou a trabalhar com a Vivien, então? 

Não, não trabalhei. Uma coisa boa é que das bandas que ela cita no livro, eu conhecia praticamente todas, então se eu precisasse de alguma coisa, acho que eu ia entrar em contato com as artistas, porque são muitas bandas independentes. Claro, não o Bikini Kill, ou, sei lá, outras que são maiores, mas ela cita muitas bandas independentes. Não tinha muito motivo pra entrar em conta­to com ela. 

Só tiveram algumas questões de inconsistência de dados, porque ela meio que faz as coisas no freestyle, sabe? E as edições lá nos Estados Unidos, e em outros países também, não são tão detalhistas. Eu preparo muito livro aqui, e a gente fica assim "não, esse dado aqui tá inconsistente…". É quase o trabalho do jornalista, de checagem de dados. Só que aí teve uma hora que eu falei: "gente, isso aqui é ela, esse texto é de­la, não sou eu que vou arrumar o texto dela." Não eram erros ortográficos nem nada do tipo, era uma inconsistência de dados. Ou ela pegava, tipo, ela pega uma letra da Pussy Riot, que é em russo, e ela pega uma tradução para o inglês e joga lá. Aí você vai ver na internet que tem umas coisas que não são bem assim, só que alguém já traduziu, e isso tem a ver também com a música, com tradução de letra de música.Quan­do saiu a tradução do livro, ela postou no Instagram dela. Ela é uma senhorinha, tem praticamente 80 anos e está super bem. Mas não precisei conversar com ela em nenhum momento.

Quan­do saiu a tradução do livro, ela postou no Instagram dela. Ela é uma senhorinha, tem praticamente 80 anos e está super bem. Mas não precisei conversar com ela em nenhum momento.

entrevista
Pussy Riot | Foto: Divulgação / CityNews Everywhere (cortesia Polygon Gallery)

 

E essa é a primeira obra dela que foi traduzida no Brasil? 

Sim, foi a primeira obra. Ela tem outras – não muitas, acho que tem uns três ou quatro livros. Ela não tem muita produção publicada em livro, mas tem muita ma­téria de jornal. Nunca fizeram uma coletânea das matérias dela, até fiquei curiosa para ler essas primeiras matérias, porque, por exemplo, ela escreveu na Sounds, que foi uma das primeiras revistas punk da Inglaterra. É a primeira em que ela escreveu, e ela foi a primeira mulher a escrever nessa revista.

E ela é a primeira a escrever – na Inglaterra, pelo menos – um texto falando assim, "esse texto é sobre uma mulher guitarrista, que eu vi num show". Ela é assim, diz "nossa, eu cheguei na frente do palco e tinha uma pessoa cabeluda, tocando, de repente eu olhei e vi que não era um cara". Eu achei muito curioso, queria ver como é que era o vocabulário que ela usava.

Ela tem um outro livro mais famoso também, sobre o álbum Exodus, do Bob Marley. Ela conviveu com ele, foi muito pra Jamaica. Também é DJ. Essa geração dos anos 70, do punk inglês, tem bastante do reggae, você vê isso até no The Clash, muito por conta da imigração. Você tem bairros inteiros de pessoas jamaicanas e do Caribe como um todo. Então para eles foi super normal o punk ter se misturado com o reggae e com outras sonoridades. 

 

 

 

ela é a primeira a escrever – na Inglaterra, pelo menos – um texto falando assim, "esse texto é sobre uma mulher guitarrista, que eu vi num show". Ela é assim, diz "nossa, eu cheguei na frente do palco e tinha uma pessoa cabeluda, tocando, de repente eu olhei e vi que não era um cara"

entrevista
Foto: Isa Honório | Edição Cândido

 

Na última edição do Cândido, nós publicamos a reportagem da Nayara Almeida, em que você menciona a "experiência punk" do trabalho na Joaquim. Como essa experiência influencia seu trabalho?

Essa "experiência punk" dá para falar de um todo. Eu queria ser jornalista na adolescência. Porque eu queria escrever sobre literatura, música ou cinema. Eu sou de Chapecó, em Santa Catarina. Hoje é uma cidade mais inchada, porque tem a universidade pública, mas não tinha. Entrou só em 2010. É uma cidade bem conservadora.

E aí eu tive essa adolescência de ter amigos e amigas gostando da mesma coisa, numa cidade onde demorava tudo pra chegar, né? Eu queria estar na internet, em um momento em que a gente ainda estava tateando aquilo. Você acessava a internet só no final de semana, ou à noite. Durante o resto do dia, como é que você consumia as coisas que você gostava? 

A gente tinha muito isso de trocar revista, de criar o próprio conteúdo, fazer fanzine, que é uma coisa que me acompanhou a vida inteira. Eu comecei a traduzir no começo dos anos 2000, na escola com os meus amigos, fazendo fanzine, traduzindo matéria de jornal, das revistas que chegavam pra gente, e até de blogs. 

Não existiam, tipo, o Pitchfork (site de reviews e noticias do meio musical), essas coisas, então, a gente traduzia blogs e sites de música, porque a gente tinha es­sa ideia de, "ah, vai ter um show em tal lugar, então a gente vai traduzir isso aqui pra levar a fanzine pra esses lugares". Era muito engraçado, porque quando você gosta de música, você quer traduzir. Eu acho que hoje, talvez, a geração mais jovem não entenda, porque tem as letras facilmente.

Acho que a experiência punk começa meio nisso. Você vive num lugar de precariedade. Não estou falando de precariedade econômica, mas de precariedade cultural, das coisas que não chegam. Até hoje, Chapecó tem uma livraria, que é ótima, a Humana, que é uma livraria que eu considero punk, porque ela tem resistência num mar de gente conservadora. Mas é uma livraria em uma cidade de duzentos e poucos mil habitantes, sabe? Na nossa época nem tinha a livraria, então a gente tinha que criar a própria cena. A gente precisava unir as pessoas gostando das mesmas coisas. 

 

entrevista
Foto: Isa Honório | Edição Cândido

 

 

 

Você está no sistema, está fazendo uma coisa aqui, quando você sai daqui mas ao mesmo tempo, no final do expediente, você faz o que você acredita

 

Eu vim para Curitiba em 2010, quando terminei a graduação, e aí eu precisava trabalhar, e o que eu ia fazer? Eu tinha alguns amigos que conheciam o Marcos Duarte, dono da Joaquim, e ele estava precisando de alguém para ajudar, porque ele queria muito entrar nas redes sociais. Eu falei que a gente podia criar um blog, eu gosto de escrever, traduzir texto de música de sites gringos, poderia contar a história dos discos. Os anos foram passando, e eu aprendi muito sobre música brasileira, aprendi sobre cenas muito específicas, super obscuras da música brasileira.

Nesses 15 anos, eu sempre fiz alguma coisa ali, e quando eu me dei conta do tempo que já tinha passado, a gente já tinha todo um rolê criado ali. Fizemos show, lançamentos, e você não percebe que você está vivendo uma cena mesmo, específica, que você está trabalhando com essas coisas. Acho que a experiência punk é quando você está tão imerso em fazer coisas 0que você acredita. Claro, não vou dizer que você ganha rios de dinheiro. Não ganha, mas ao mesmo tempo é tão legal, porque você insiste tanto numa coisa que a coisa vai se construindo.

Traduzir a Vivien faz pensar como é legal, nos últimos 10 anos ver tanta coisa legal, tantas bandas se formarem. Hoje eu tenho o meu trabalho no mercado editorial, que é o que eu faço a maior parte do tempo, mas ao mesmo tempo você não perde aquilo de ter os seus projetos. Você está no sistema, está fazendo uma coisa aqui, mas ao mesmo tempo quando você sai daqui no final do expediente, você faz o que você acredita.

 

Como é trazer para o Brasil a história do punk estrangeiro pela perspectiva das mulheres da cena? 

Cara, é bem interessante, porque a Vivien dá uma pers­pectiva muito específica dela, isso é importante ressaltar. Ela traz muitas coisas importantes que se repetem em várias histórias locais de vários países, mas ela também se dá o direito de fazer uma linha do tempo bem específica dela, porque estava dentro da cena inglesa, então viu os ensaios das principais, das primeiras bandas. Ela estava lá no porão da casa da mãe da vocalista das Slits, ela estava lá quando elas estavam aprendendo a tocar três acordes. 

Ao mesmo tempo, ela é uma senhorinha de quase 80 anos, que continua recebendo material de bandas de gurias que têm 20 anos, 18 anos. Então é uma coisa muito legal, que ela tem a perspectiva de alguém que estava num lugar onde estavam acontecendo as primeiras coisas dentro daquele país, mas ela tem noção, por exemplo, da importância de uma banda da Indonésia, que fala da política da Indonésia. Ela vai falar da Colômbia, e durante muito tempo, desde a minha adolescência, eu conhecia as bandas daqui do Brasil, a gen­te recebia muitas fanzines das ban­das daqui. É muito legal traçar o que ela faz, olhar e falar "nossa, em 2001, enquanto acontecia isso lá, tinha es­sas gurias fazendo aqui também", porque ela não tem a obrigação de contar a história de todo mundo, é o projeto dela. Eu acho que a coisa mais legal é você ter uma dimensão histórica que as coisas sempre aconteceram e continuam acontecendo.

Eu traduzi muitos livros de teoria feminista, de crítica feminista, de autoras específicas, e acho que a coisa mais massa que tem de todos esses livros, e posso pegar as coisas da pesquisa acadêmica, do mestrado, do doutorado, é você perceber que não é que agora está se falando mais disso. Sempre se esteve, a questão é que agora que a gente tem mulheres publicando, pessoas dissidentes publicando as histórias que já existiam, que alguém precisava contar. 

Eu gostaria que o livro incentivasse que outras micro-cenas fossem contadas. Tem a Carol Cardoso, aqui em Curitiba, que pesquisa as bandas de Curitiba dos anos 90 até o começo dos anos 2000, e ela tem um projeto de publicar um livro sobre isso. Você tem um livro X que pode incentivar a surgir outros, pra mim isso também é uma vivência punk: se sentir instigado a fazer alguma coisa. 

 

Você mencionou que a Vivien usa uma linguagem cheia de gírias. Isso foi um desafio na hora de traduzir?

Para mim, não foi um desafio, porque eu cresci no meio das cenas, mas tiveram algumas expressões que foram. Por exemplo, ela usa uma expressão que era "womanfest", ao invés de "manifest", porque em inglês funciona, tipo, manifesto, que é "man", manifesto. Eu fiquei quebrando a cabeça, como é que eu vou traduzir, e do nada veio: "minafesto"! Mas ela faz muitas gírias pra zoar os homens, e ela usa muita gíria de música mesmo, de crítica musical normal, como que a bateria é a cozinha da banda, e pra mim, isso era muito normal porque eu cresci lendo sobre. Foi divertido, na verdade, porque eu tinha que deixar a coisa funcionar com essa linguagem.

O que eu sofri muito foi com as piadas, que são britânicas. Por exemplo, tem uma banda, as Raincoats, que são as "capas de chuva", que é uma coisa muito de lá. Tá, chove muito em Curitiba? Chove. Mas nós não temos o costume de usar capa de chuva. Já tentei, inclusive, mas eu não consigo. Prefiro usar um guarda-chu­va e chegar em casa encharcada. Na Inglaterra, em Londres especificamente, eles têm muito costume, têm aquelas amarelinhas, têm as azulzinhas, com capuz. A Vivien conta de uma cena em que as Raincoats vão na rádio – acho que na BBC – e o locutor faz uma piada machista, e a vocalista das Slits faz uma piada dizendo que "As Raincoats estão esperando lá fora", e eu não entendi. Pesquisei, umas pessoas me falaram uma coisa, uma amiga que mora na Inglaterra, falou outra… até que chegou no ponto de falar que a gente não tem a cultura da capa de chuva. Eu traduzi o mais próximo possível para parecer que ela estava sendo debochada. Tive que colocar uma nota dizendo que Raincoats é o nome da banda e ela está fazendo uma piada com capa de chuva. Foi péssimo. Você fica muito triste quando traduz e tem que colocar uma nota explicando uma piada. É muito insatisfatório, mas não tinha o que fazer.

No resto, foi bem tranquilo. Dá pra ver no texto que tem umas piadinhas. Ela zoa muito os caras, mas ela faz isso também, no campo semântico, pelo texto mesmo. Ela diz "eu era a única mulher do jornal, mas nem todos os caras eram horríveis comigo na redação… só a maioria". Ela faz isso, no nível do texto, então isso é bem legal também, mas as gírias não foram tão difíceis. 

 

 

 

Eu gostaria que o livro incentivasse que outras micro cenas fossem contadas. Você tem um livro X que pode incentivar a surgir outros, pra mim isso também é uma vivência punk: se sentir instigado a fazer alguma coisa.

entrevista
Foto: Isa Honório | Edição Cândido

 

 

 

 

 

 

 

GALERIA DE IMAGENS