CONTO | Incêndio 15/04/2026 - 15:06
Por Melissa Sayuri
O sol nasce duas vezes no meu mundo.
A primeira vez é um acontecimento alheio. Ergue-se no horizonte com a soberba glacial dos fenômenos que prescindem de testemunhas. Sua luz desce sobre a cidade como um véu pesado de ouro velho, iluminando com igual desdém os telhados de zinco, as praças vazias, os corpos que se entregam a mais um dia por puro hábito. É uma claridade que não convida, apenas informa: o dia chegou. Observo-a com a resignação de quem aceita um fato administrativo do cosmos, sem cerimônia e sem júbilo, sabendo que sua fúria dourada é, no fundo, indiferença pura.
A segunda aurora é um evento visceral. Não anuncia-se no leste, mas nas profundezas do corpo. É um sol privado, meu e clandestino, que nasce quando você se inclina sobre mim, quando sua sombra se funde com a minha na parede, quando o ar entre nós se torna espesso como mel. Essa luz não tem hora nem estação, tampouco ilumina. E o que ela toca é incinerado, jamais retornando à sua forma anterior.
Sempre vivi em negociação delicada com a luz excessiva. Nutri-me de penumbra, da elegância discreta das coisas que não se exibem. A melancolia era minha paisagem interior, uma geografia de colinas suaves e vales profundos onde as emoções se moviam com a lentidão cerimoniosa de um rio subterrâneo. Era um reino de tons terrosos, de silêncios eloquentes, de uma beleza que não pedia licença para existir. Um museu de afetos potencializados. O amor, nesse ecossistema, parecia um fenômeno vulcânico — belo à distância, catastrófico de perto.
Tornei-me arquiteta de interiores sombrios. Organizei minhas paixões em estantes altas, cataloguei meus afetos como espécimes raros em frascos de vidro. Meu coração aprendera a bater com a regularidade de um mecanismo preciso, cada pulsação medida, cada emoção filtrada através de camadas de prudência. E você chegou como a maré, lenta, insistente, remodelando o litoral da minha alma sem alarde.
Sua presença foi uma alteração gradual na pressão atmosférica. Meus dias, antes compostos com a precisão de uma partitura, começaram a apresentar dissonâncias sutis. Um acorde prolongado de distração no meio do trabalho. Uma pausa involuntária ao lembrar o timbre da sua voz. Um aquecimento estranho no peito ao ver sua silhueta contra a luz da janela. Eu mantinha a fachada intacta, mas nos aposentos privados da alma, móveis pesados eram arrastados, portas há muito fechadas rangiam em suas dobradiças.
Quando você disse que me amar era fácil, o mundo desfez-se em átomos e reorganizou-se sob novas leis. Toda a arquitetura emocional que construíra — alicerces de cautela, vigas de autoproteção, telhados de resistência — revelou-se um castelo de cartas diante do sopro suave da sua verdade. Eu, que me imaginava uma obra complexa exigindo tradução especializada, descobri-me legível à primeira vista. Eu, que acreditava que meu amor era um labirinto que exigia dedicação heróica para ser percorrido, vi-me simplesmente... alcançada.
Agora existo na tensão gloriosa entre esses dois sóis. O primeiro continua seu curso impessoal, dourando as fachadas do mundo com indiferença magnífica. O segundo, porém, esse sol incógnito nascido do seu olhar, persiste em sua revolução particular. A ardência de ser amada com facilidade é mais violenta que a dor de ser amada com esforço. Senti-me desnorteada, exposta em minha simplicidade fundamental, que eu sempre recusei a enxergar. Era uma beleza que doía, uma claridade que cegava.
E eu, que temia tanto a claridade, descubro-me faminta dela. A melancolia não partiu, apenas fez espaço. Agora ela compartilha meu interior com essa nova radiação, e juntas criam um crepúsculo perpétuo no peito, onde a saudade do que fui dança lentamente com o desejo do que estou me tornando. O segundo, discreto e ardente, queima as velhas tapeçarias da minha alma, revelando sob elas um chão de uma crueza gloriosa e aterradora. Seu amor fácil me condenou à liberdade. E eu, que temia o fogo, descubro-me agora fênix, aprendendo a voar entre as cinzas de quem eu pensei que era, em direção a uma luz que não escolhi, mas que, afinal, me escolheu.
E no centro do peito, onde antes havia apenas o frio conforto da madrugada, agora há um segundo sol, nascendo e morrendo a cada instante que você existe. É uma agonia. É um êxtase. É, finalmente, viver.
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Melissa Sayuri é jornalista, graduada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e mestranda em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).






