Por Fausto Fawcett
Sabemos que o precário é notório. Que a história está sendo revirada como nunca. A geopolítica mais instável que nunca. Os abandonos e frustrações proliferando, IBGE revelando desencantos totais de jovens se automutilando. Incertezas à espreita, desesperos e esperanças se mordendo, se pegando, se chupando, se alimentando. Desequilíbrios de todas as perspectivas civilizatórias, políticas, tecnológicas, psíquicas. Terras raras, minerais raros, subterrâneos raros, teremos também mentalidades raras? China e EUA aportando na Lua pra inaugurar nova fase energética que mudará a face social do planeta? Demências e pessimismos, sistema financista, vertigem capitalista bem tardia e autofágica gerando precariedades a granel. Demências e pessimismos. O que é e o que não é real nesse mundo cheio de outros mundos projetados se superpondo ao dito real? Todos os desejos sendo abduzidos, capturados e todo sentimento, toda intenção de comportamento vira fetiche comercial há muito tempo.
Pessimismos e demências, o problema como dizem os mais sarcásticos não é a morte, é o nascimento. Somos jogados aqui sem mais nem menos inventando, fazendo de tudo pra aguentar o tranco e nos reproduzindo pra testar tudo de novo sempre. Voluntariados de todos os tipos e otimismo histérico traduzindo excesso ou desespero de confiança na capacidade humana de superação, engenho, criatividade, comunhão. Muita gente fazendo de tudo, criando soluções tecnológicas, guetos de arranjos sociais pra reduzir os danos gerais. Nos interiores, nas periferias, nos grandes centros, gente sem fronteiras afetivas inventa curativos, paliativos pras feridas sociais, feridas mentais, dando sobrevida a muitos, a muita coisa, a muito tudo. Outros tentam ir além do que somos, sonho antigo e que sempre falha, sempre Sísifo. Mas é vício humano sonhar e se desequilibrar em aventuras desafiadoras. Tecnologicamente desafiadoras porque politicamente, socialmente, já era. Complexo de Prometeu, complexo de Frankenstein, complexo de Ícaro, complexo cristão.
Todos entranhados na nossa moderna condição de sapiens em fim de carreira. Vou dizendo que o precário é notório pra enfatizar que existem contrapontos de detalhe, closes de delicadeza desafiando todo turbilhão que nos encurrala, inspira, pira, sacode, motiva. Inércias, distrações, pequenos gestos, objetos que de repente se transformam em atalhos sensoriais, talismãs para alguma pequena viagem de alienação que é ao mesmo tempo conscientização de tudo já que somos a tal poeira de estrela, carbono, fusões e confusões da evolução e das tormentas cósmicas. De repente somos acordados pela tal pedra que existe no caminho. Haverá sempre um ponto de beleza no meio da agonia não como esperança derradeira mas sim como provocação e confronto com toda a pauleira cotidiana do mundo-cão da sobrevivência, do coliseu de lutas por sucesso, algum sucesso nalgum aspecto da vida.
Provocação e confronto com as exigências de se lidar muito bem com as rações afetivas mal servidas, com as exigências de desempenho social, pois você é o produto máximo a ser consumido, consumado por você mesmo.
Ponto de beleza no meio de toda essa agonia é o que não falta. O fio de queijo do misto quente entre as bocas dos namorados adolescentes, um reflexo no anel de bijouteria que cai no chão despencando da mão que acabou de comprar e os olhos do corpo que tem essa mão ficam hipnotizados pelo sol que bate no anel e por segundos um atalho pro êxtase foi revelado entre camelôs berrando. Close na delicadeza, no bote que uma brisa dá na sua atenção que é agarrada por um lenço de papel voando com o líquido de rinite saído do nariz recém-operado em procedimento estético e o lenço de papel com seu líquido-rinite voa levado pela brisa e um ah meu deus da mulher dá um tom operístico ao vôo do lenço no meio de tudo. Cômico ponto de leveza desafia a agonia de crimes e corrupções e dúvidas sobre si mesmo que encurralam várias vezes por dia todos os urbanopatas.
Todos se sentem loucos varridos nalgum momento do dia já que somos atravessados por varreduras algorítmicas de pesquisas, estatísticas, diagnósticos, tendências e sabe-se lá mais o que nos situando, nos dessituando loucos, loucos varridos. Um ponto de beleza no meio da agonia. Close na delicadeza mais estranha. Ferrugem no bueiro sugere um mapa de país subterrâneo, a última lágrima de alguém na UTI refletindo o monitor que também está refletido nas lágrimas do parente, do filho, da esposa, do marido, da mãe, do pai que acompanha a criatura moribunda mas plena no acontecimento. Detalhe de leveza no meio da agonia. Dançarinos fazem parkour em ruínas de guerras levando comida, levando mantimentos e ao mesmo tempo dando show corporal no meio da paisagem de destroços que fotografada, registrada com estilo se transforma em belo e mórbido, belo e sinistro monumento da catástrofe humana. Como a bomba atômica. Outros fazem parkour de saque do que resta. Inevitável.
O sensacionalismo está à espreita em cada esquina, em cada ato, em cada tara, em cada engajamento de rede social, em cada pessoa. A pedra no meio do caminho. Inércia, o inútil, a distração, o Nada se manifestando num intervalo de percepção, num intervalo de responsabilidade de sobrevivência, no intervalo de preocupações afetivas, no vácuo do cotidiano automático. Sabemos que o precário está generalizado em todas as mentes, em todas as sociedades, em todos os corpos, em todas as religiões, em todas as tecnologias, em todas as ciências, em todos os estudos, em toda a História, em todos os afetos, em toda a Geografia, em todo clima, em toda a Geologia, atmosfera, saberes e conhecimentos, tradições e inovações. Por isso precisamos aproveitar, ficar atentos à riqueza quântica dos detalhes oferecendo atalhos por êxtase no cotidiano. Pontos de beleza, de leveza no meio da agonia, do mundo-cão, do Coliseu de desempenhos, do zoo humano urbanopata. Close na delicadeza. Ponto de beleza no meio da agonia.
Fausto Fawcett transita entre literatura, música e cinema. Publicou mais de oito livros, entre eles, Santa Clara Poltergeist (1990), Básico Instinto (1992), Copacabana lua cheia (2000), Favelost (2002), Pororoca rave (2015) e Pesadelo Ambicioso (2022). Nome expoente do rap rock e da literatura cyberpunk no Brasil. Trabalhou com artistas de diversas áreas como, Fernanda Abreu, grupo Chelpa Ferro, Samuel Rosa, Arnaldo Antunes, Deborah Colker, Luiz Zerbini, Maria Bethânia, Marcelo Dantas, entre outros e outras. Participou da primeira turma de alunos do grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone, ao lado de Fernanda Torres, Cazuza e Bebel Gilberto.