PENSATA | Lorraine Ramos Assis 31/10/2023 - 13:43

Na corda bamba: existe limite na arte?

 

Em termos genéricos, arte é uma palavra originada do latim “ars”, significando técnica ou habilidade. Já para o Dicionário Houaiss, ela é “produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana”.

A respeito das expressões de produção consciente e da subjetividade humana, a obra de arte seria, também, uma representação do desconforto, do incômodo, da crueza e da crítica, dentre outros.

Susan Sontag, no livro Diante da Dor dos Outros, expõem que a carga das imagens de guerras registradas pode ser utilizada para um descarrego do objeto da contemplação, assim levando-o para funções de advertências e da possibilidade de adentrar na dor de outra pessoa. Não somente isso, temos o prefácio de Teté Ribeiro para a obra de Alice Sebold, Sorte, um Caso de Estupro – A verdadeira história da autora de Uma Vida Interrompida, abaixo:

“Então entra em sua vida a poeta, ensaísta e professora Tess Gallagher (viúva do escritor Raymond Carver, autor do livro de contos Short Cuts, que deu origem ao roteiro do filme do mesmo nome dirigido por Robert Altman em 1993). É a primeira pessoa que encoraja Alice a expressar o que sente, o que ela faz na forma de um poema cheio de ódio e rancor. É a primeira vez que se permite sentir raiva, desejo de fazer seu agressor sofrer. A poesia é infinitamente inferior à prosa da autora (talvez essa afirmação seja injusta, já que foi escrita nos meses seguintes ao estupro, e o livro, quinze anos depois), mas a força da narrativa, baseada em sua ousadia e autenticidade, já está lá. O ódio e o desejo de sustentação da determinação de Alice, que se dispõem a tudo até conseguir se vingar de seu agressor (…)

 

O Diário Secreto de Laura Palmer

Composição literária produzida como extensão da série televisiva Twin Peaks, o texto prossegue em tom linear, em uma cronologia anterior aos eventos apresentados na atração. O livro prioriza a formação da personalidade fragmentada de Laura Palmer, cujo assassinato desencadeia a trama principal do programa. A trajetória em vida de Laura, integrada a de outros personagens, serve para adentrar e elaborar a psique revelada na série. Surge ao leitor uma garota entusiasmada com seu novo pônei dado de presente em seus 12 anos; o encontro com a prima Maddy e suas pequenas peripécias adolescentes, além do apreço por sua melhor amiga, Donna. Ao decorrer da obra, um dos pontos mais importantes é o recurso da sinestesia, isto é, o flagrante das sensações do mito feminino enraizado na jovem, a Prom Queen do também mito norte-americano. Determinados trechos evidenciam o corpo e suas consequências cometidas contra a narradora:

 

“Fechadas se encontram minha cabeça e suas lembranças. Convenientemente falta ao inimigo uma característica – consciência. “Culpa” é só uma palavra que ele usa para me calar. Ele nem liga para a mortalidade e muito menos para o perigo.”

“É possível que não se importem?”

 

O retrato desse tipo de prosa – literatura de testemunho e epistolar – carrega marcas de arrebatamento dada sua própria natureza. A literatura de testemunho é conhecida por ser a observação em escrito dos sujeitos ativos que testemunharam, em tons memorialísticos, episódios de qualquer caráter. As personagens são participantes da recriação de mundos a partir da evocação de seu consciente e inconsciente. É normalmente colocado em parâmetros de indivíduos em condições subalternas, ou que passaram por essas situações. Paul Ricoeur, filósofo francês, enfatizava esse modelo literário como uma extensão da memória em termos ficcionais.

O fator epistólico, ou seja, o da carta, é autoexplicativo no título do livro. Em alguns excertos, Laura confronta-se com seu estuprador (que não temos consciência se é um ente físico ou não) enquanto escreve e recebe suas respostas. A tortura psicológica transpassada nas páginas se dá de forma tanto explícita quanto implícita. Possibilitando novas formas de análise conceituadas nos traumas ou conflitos temporários, personagens como Audrey Horne, Bobby, Leland Palmer e outros são exemplos vívidos de respostas simbólicas à trama. Mais adiante, a personagem exclama em lirismo um de seus poemas sobre sua realidade:

 

29 de julho de 1984

Querido diário,

Aqui vai um poema.

Da luz que entra pela minha janela ele pode ver dentro de mim

Mas eu não o vejo até que se aproxime

Respirando, sorrindo à minha janela

Ele vem para buscar-me (…)”

 

Laura não é somente uma estatística, um fruto de um indicador social, mas torna-se mártir da pequena cidade – de pouco mais de 50 mil habitantes – para revelar os desajustes individuais e estruturais de cada indivíduo da história, provocando em sua morte. Caso houvesse cenários e seus efeitos ao telespectador pensando sobre “gatilhos emocionais”, Twin Peaks não teria tido o sucesso alcançado. A série e sua continuação cinematográfica, inclusive, ajudaram vítimas de abuso sexual a se identificarem e agradeceram à atriz.

 

Aos Treze

No início da adolescência de Tracy, personagem principal (e heterônimo da atriz Nikki Reed) do filme, as relações são fatores proeminentes na construção cinematográfica. Uma aluna exemplar, poucas (mas boas) amizades e uma personalidade ingênua caracterizam sua transitoriedade, que vai de um extremo ao outro. Ao deparar-se não somente com um lar caótico, a jovem é impelida ao reconhecimento em seu espaço educacional, uma vez que o bullying de seus colegas é constante. A partir dessa mudança interior, conhecemos Evie, a garota mais popular e sexualmente desejada do colégio. Em uma das primeiras cenas, o confronto na casa nos é afirmado com a preocupação de um poema escrito por Tracy, constituindo o eixo da narração: seu desequilíbrio emocional.

 

“Ele estava inválido.

Mas somente o seu corpo estava quebrado.

Não é tão simples nem é fácil de explicar.

Vamos deixar assim ela disse.

E fecha o livro sagrado das mentiras.

E cobre seus olhos.

Negando a si mesmo o que pensou acontecer.”

 

Os elementos poéticos do filme irão se desdobrar nas próximas sequências, ao denotar o conteúdo perturbador e carregado de aflições da maioria das personagens, seja Mel, mãe de Tracy, seja Evie, seja o namorado dependente químico de Mel, ou Brooke, a tutora legal de Evie. Um resultado da interação das duas jovens negligenciadas é a cena na qual se esbofetam, rindo incontrolavelmente sob efeito de entorpecentes. A trilha sonora é de rock, causando um efeito mais estimulante para os sintomas das garotas. Outras cenas merecedoras de destaque são a reconstituição do abandono de Evie por parte da família ao frequentar mais vezes a casa de Tracy, e fazendo com que sejam espalhadas difamações a seu respeito no intuito de se vingar, causando nas amigas de Evie a iniciativa de agredir a personagem principal. Brooke descobre a dependência química das duas e culpa Tracy e sua mãe por influenciarem sua sobrinha, e a separação é consumada. A última cena após toda a decupagem do filme visa o aspecto artístico na distorção da imagem e do efeito estático do grito de Tracy girando em um brinquedo de um parque local.

No tocante aos mecanismos produzidos, a cena é composta de forma proposital para efeitos de choque a quem assiste. O frame “congelado” é posterior a todos os acontecimentos na formação psicológica das personagens. Passamos por toda a dinâmica disfuncional do retrato da família, escola e alunos para logo em seguida o sentimento catártico instaurar-se e conceber a tragédia inevitável. Sua imagem é atrativa pela sucessão ora intensiva, ora branda de atos desconcertantes.

Nesse sentido, as cenas mais emblemáticas apresentam a realidade de adolescentes em comportamentos autodestrutivos, ilustrando a capacidade do cinema ser produtor de discursos, representações sociais e simbólicas. Outro elemento a ser levado em consideração é do fato de Nikki Reed ter inspirado o argumento do filme. A experiência pessoal da atriz serviu de base para a produção, transfigurando-se em um catalisador terapêutico ao adquirir a autocrítica de suas ações no começo de sua juventude. Também foi objeto de pesquisa – após mais de dez anos do lançamento – nas áreas de ciências humanas e das artes, a exemplo de artigo publicado por Trey Teufel e Emily Greytak na Universidade da Pensilvânia.

Escrever sobre a produção literária e extraliterária requer um mapeamento de campos que não mais podem estar nos mesmos parâmetros, nas mesmas leis. O hibridismo na arte é um exemplo do rompimento de categorias ortodoxas, configurando uma nova estética que vem ganhando espaço nas últimas décadas. Se a primeira obra analisada tem origem em uma série da televisão, a segunda propicia conexões com a escrita e a linguagem poética. O filósofo Michel Foucault argumentava sobre a literatura fantástica ser um sintoma do romance gótico em termos do propósito de que tais autores formavam, de modo consciente, uma representação do real apesar das composições extraordinárias de seus livros. Assumir essa realidade perceptiva foi possível a partir do deslocamento da linguagem, de seus recursos, novos códigos instaurados no período acima mencionado.

Afinal, a arte é cultura e bem imaterial das faculdades humanas. Sendo bem imaterial do ser, ela é intrínseca pois carrega consigo a criatividade, ou seja, como um conjunto de capacidades que permitem uma pessoa comportar-se de modos novos e adaptativos em determinados contextos (Mouchird e Lubart, 2002). Se formos refletir sobre o uso mais restrito dos componentes artísticos, entraríamos justamente no que chamo de “castração inconsciente” de determinados artistas ou críticos ou quaisquer pessoas.

Uma citação do autor Antoine Compagnon ilustra a (re)criação de realidades e elucubrações:

“Literatura deve ser estudada porque oferece um meio – alguns dirão até mesmo o único – de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida”.

Deveríamos, portanto, “cancelar” conteúdos de terror? Excluir artistas os quais usaram da estranheza e do sem filtro para injustiças (como Oiticica) para denúncias? Ou talvez colocar em escanteio os trabalhadores desse ofício que utilizam, também, da arteterapia como recurso para seus conflitos psicológicos?

Sendo assim, respaldo que o uso da empatia, da sensação incomodativa, do confronto com o estranho sirva como maneira não só de exprimir a interioridade dos seus criadores, mas sim de mudar uma realidade na qual há tantos problemas a serem sanados e confrontados de frente, desde que não haja teor preconceituoso inserido na criação em questão. Por fim, indico dois autores cujas obras dialogam sem receio com as temáticas circundadas nesse ensaio, e uma matéria, que seriam, respectivamente, Bruna Mitrano, autora de Ninguém Quis Ver (Companhia das Letras); Bruno Ribeiro, autor de Era Apenas Um Presente Para Meu IrmãoA Barbárie de Queimadas (Editora Todavia); e o texto da Revista Caju, Violência na Arte Contemporânea Brasileira, autoria de Divino Sobral.

 

Lorraine Ramos Assis (1996) é poeta, crítica literária e editora. Autora de O Duplo Refletido (Folhas de Relva Edições/2023), tem trabalhos publicados em diversas publicações como o Estado de Minas, Le Monde Diplomatique, revista Cult, Incomunidade (Portugal), Granuja (México), entre outras. Colabora para SP Review e Revista Caliban. Foi finalista do Prêmio Off Flip 2023 na categoria Poesia.