PENSATA | Camila von Holdefer
30/08/2021 - 17:22

Uniformes azuis

A crítica e ensaísta Camila von Holdefer comenta a obra filosófica e ritualística do sul-africano J. M. Coetzee, autor da Trilogia de Jesus



Afinal de contas, quem são essas pessoas?

Seguiram-me, precederam, acompanharam?

Samuel Beckett


 

1.

 

Se o romance tradicional é uma tentativa de entender o destino humano a partir de cadeias de causa e efeito, pensá-lo pode nos ajudar a “explorar o poder de o presente produzir o futuro”. É o que argumenta Elizabeth Costello no livro — publicado em 2003, mesmo ano em que o autor, J.M. Coetzee, recebeu o Nobel de Literatura — que leva seu nome. No entanto, um esforço semelhante exige uma espécie de crença que a própria Costello admite não ter. “Não possuímos uma história coletiva do futuro. A criação do passado parece exaurir nossa energia criativa comum. Comparada à nossa ficção do passado, nossa ficção do futuro é uma coisa esquemática, exangue, como costumam ser as visões do céu”, diz ela.

A preocupação de Costello está bem próxima das questões levantadas no livro The Good Story, de 2015. Nele, Coetzee discute com a psicoterapeuta Arabella Kurtz as semelhanças e diferenças dos ofícios de ambos, tendo a linguagem — meio e ferramenta de realização e exploração da experiência humana — como denominador comum. É curioso que Coetzee, que vê na profissão de Kurtz uma forma pós-religiosa de diálogo confessional, não identifique o mesmo componente no próprio trabalho: a analogia também se aplica ao tipo de procedimento que ele vem mobilizando desde sua estreia em 1974. A cada novo trabalho, Coetzee repete e renova o que pode ser visto, em maior ou menor grau, como a elaboração confessional de um passado. Toda confissão exige uma estruturação, ainda que não resulte — que nem sequer tenha a esperança de resultar — em purificação, redenção ou expiação.

No mesmo livro, o autor diz achar intrigante a facilidade com que as pessoas explicam os crimes do passado, sobretudo os do colonialismo, a partir da ideia de evolução moral da sociedade — o que impediria que se encare de frente certas culpas e responsabilidades. “Quando uma sociedade (exceto por alguns membros dissidentes) decide que não se sente incomodada, como a cura pode ter início?”, pergunta ele. 

Para a personagem Elizabeth Costello, ainda que nem sempre acreditemos nas “noções de impureza e pecado”, aceitamos “seus correlatos psíqucos”; ou seja, aceitamos “que a psique (ou alma) tocada pelo sentimento de culpa não pode estar bem”.

Ainda que em The Good Story Coetzee esteja escrevendo para uma psicoterapeuta, a cura a que ele se refere pode ter mais de um sentido.

 

2.

 

Em 2013, Coetzee atordoou os leitores com a publicação de A Infância de Jesus, o primeiro volume daquela que ficou conhecida como Trilogia de Jesus. Seguiram-se A Vida Escolar de Jesus e The Death of Jesus [A Morte de Jesus], ainda inédito no Brasil. Ao longo das mais de 600 páginas que compõem os três livros, o nome Jesus não aparece uma única vez.

O autor também se refere às consequências do colonialismo quando diz, em The Good Story, que “cortar de fato os laços com o passado é uma impossibilidade lógica”, é “alegar ter nascido de novo, do nada”. É ressurgir sem vínculos, sem memória, sem legado. No entanto, os princípios da lógica não se aplicam ao enredo da trilogia. Simón, um homem de meia-idade, encontra um menino, David, no navio que os leva à cidade onde devem começar uma nova vida, Novilla. Como qualquer pessoa que desembarca em Novilla, eles não têm lembranças do passado.

Embora não sejam parentes, Simón se torna o guardião de David. A certa altura, ele explica ao menino que é proibido voltar para o que chama, metaforicamente ou não, de o outro lado do mar. “Não existe antes. Não existe história”, diz Simón.  

Que espécie de lugar é Novilla? Em uma das leituras possíveis, que Coetzee sem dúvida estimula, os personagens estão, digamos, em um outro plano. Não se trata do inferno, definitivamente. O protagonista de Diário de um Ano Ruim, outro livro de Coetzee, diz, ao falar do inferno, que só a lembrança de quem fomos e do que fizemos em vida permite “a existência daqueles sentimentos de infinito arrependimento que dizem ser a quintessência da danação”. Os personagens da trilogia não têm memória, portanto não têm arrependimentos. Nada os abala na chegada àquele espaço ou estado. Não há nada de ruim, de vergonhoso ou de desonroso que eles ou seus antepassados tenham feito. Não existem antepassados. Eles nasceram de novo, do nada.

Mas a Trilogia de Jesus é intencionalmente esquemática e exangue, para usar as palavras de Elizabeth Costello ao se referir às visões do futuro ou do céu. Coetzee sem dúvida procurou construir um porvir que prescindisse da existência, e portanto da revisão, de um passado. É como se Coetzee, subvertendo a norma, tivesse criado uma narrativa em que é possível fugir do passado. Ainda em The Good Story, o autor evoca um clichê narrativo no qual um forasteiro com um passado misterioso se instala em uma cidade pacata, onde prospera, se casa, tem filhos; quando parece bem ajustado à nova vida, um segredo terrível que guardava a sete chaves vem à tona. Coetzee vê aí um correlato do pecado original. Para Coetzee, “não só a tradição moral-religiosa em que fomos criados, mas a tradição e talvez até a própria forma da narrativa se recusa a admitir que o passado pode ser enterrado”. No entanto, esse princípio funciona apenas nas narrativas. E se, pergunta Coetzee, “nossa cultura, talvez até a cultura humana em geral, criou uma forma de narrativa que fala, na superfície, da impossibilidade de enterrar segredos, mas sob a superfície procura enterrar o único segredo inadmissível: que segredos podem ser enterrados, que o passado pode ser obliterado, que a justiça não predomina?”.

 

3.

 

Entre os holandeses que se estabeleceram no Cabo da Boa Esperança no século 17, ligados ao entreposto da Companhia Holandesa das Índias Orientais, estava Dirk Couché, que em seguida passou a assinar Coetsé. 

Nascido em 1730, Jacobus Coetsé pertencia à terceira geração da família na África do Sul. Era do tipo aventureiro e, feito incomum para a época, viajou até o sul do que agora é a Namíbia. Jacobus narrou suas andanças em um relato (relaas) redigido por outro homem. A própria cruz com que assinou a versão final do texto indica que ele era analfabeto. 

Mais de dois séculos depois, um descendente de Jacobus, John Maxwell Coetzee — a grafia do sobrenome havia sofrido outra mudança —, teve acesso ao relaas. Com base nele, e nos relatos de outras viagens exploratórias pelo interior da África do Sul que encontrou em bibliotecas, o descendente de Jacobus nascido em 1940 na Cidade do Cabo escreveu a segunda parte de seu romance de estreia, Dusklands. Quando o editor lhe pediu algumas informações biográficas para fins de divulgação, ele não se mostrou muito entusiasmado. “Sou um dos dez mil Coetzees”, disse, vago.

Sem meios-termos, a parte de Dusklands baseada no relaas fala da captura e morte dos povos nativos da região. É um produto cru e indigesto de uma herança brutal. “Tenho certeza”, escreve Coetzee em The Good Story, “de que meu foco obstinado [...] na dimensão ética da verdade em oposição à ficção vem da minha experiência de ser um sul-africano branco que tarde na vida se tornou um australiano branco e, no intervalo, viveu durante anos como um branco nos Estados Unidos, onde a branquitude como realidade social é mais dissimulada do que na África do Sul ou na Austrália, mas ainda está lá”. Ou seja, um grupo que precisou “revisar drasticamente seu modo de pensar, em relação a si mesmo e a suas realizações, e portanto revisar a narrativa que contou a si mesmo a seu respeito, ou seja, sua narrativa”. 

Para Derek Attridge, estudioso da obra de Coetzee, não precisamos do autor para nos dizer a que ponto o colonialismo é brutal e desumanizador. O que torna a obra do autor singular é que, segundo Attridge, nas mãos de Coetzee “o acontecimento literário é a elaboração de uma responsabilidade complexa”. O leitor “não apenas observa essa responsabilidade em funcionamento na literatura” mas, graças às inovações formais e estilísticas que Coetzee quase sempre introduz, “experimenta, de um modo ao mesmo tempo prazeroso e perturbador, suas exigências inescapáveis”.

 

4.

 

Na biografia de Coetzee escrita por J.C. Kannemeyer, J.M. Coetzee: A Life in Writing, um depoimento chama atenção. Jonathan Lear, professor da Universidade de Chicago com quem Coetzee conviveu por alguns períodos, diz ter ficado impressionado com o conhecimento de filosofia do autor. Há um filósofo em especial que Coetzee domina: Kierkegaard, ele próprio um excelente leitor dos gregos, sobretudo de Platão — e a Trilogia de Jesus é, até certo ponto, puro platonismo. 

Quando se fala em pecado original, o argumento de Kierkegaard em O Conceito de Angústia (traduzido do dinamarquês pelo meu professor Álvaro Valls, que foi quem me ensinou Kierkegaard) é o seguinte: cada homem representa ao mesmo tempo ele mesmo e todo o gênero humano. A humanidade participa do indivíduo, e o indivíduo participa de todo o gênero humano.

Para Kierkegaard, “o indivíduo tem história; mas se o indivíduo tem história, o gênero humano também a tem”. E por acaso há história na Trilogia? Nada indica que haja, pelo menos não da maneira como a compreendemos. Há apenas a história recentíssima de uma cidade chamada Estrella, o que chega a surpreender Simón. 

Adão não está fora do gênero humano — descendemos dele. “Se o segundo homem não tivesse descendido de Adão, seria não o segundo homem, mas uma repetição vazia, e por isso nem se teria tornado humanidade e tampouco indivíduo. Cada Adão avulso teria sido uma estátua por si só, e por isso apenas determinável por meio de uma determinação indiferente, isto é, a numérica, num sentido ainda mais imperfeito do que quando os órfãos de uniforme azul eram designados pelo seu número. Na melhor das hipóteses, cada um em particular teria podido ser ele mesmo, jamais ele mesmo e o gênero humano; não teria história, tal como um anjo não tem história: só é ele mesmo, e não toma parte em história nenhuma”, escreve Kierkegard. 

No primeiro volume da trilogia, David tem medo de números — ele teme cair no que vê como uma “rachadura” entre eles. Simón havia acabado de lhe explicar que as coisas do mundo não são unas, mas várias, e que por isso há um espaço entre, por exemplo, duas pessoas. “Mas a gente pode cair. Pode cair no espaço. Na rachadura”, diz o menino. Em um mundo em que não há continuidade, não há de fato um espaço entre um número e outro?

De novo, Kierkegaard observa que, em um mundo sem história, sem continuidade, sem descendência, seríamos meras estátuas, meros números. Seríamos como “órfãos de uniforme azul designados pelo seu número”. Eis o que Simón vê quando chega ao orfanato da cidade de Estrella: crianças de todas as idades correndo por ali nos seus uniformes azuis.

 

5.

 

À Arabella Kurtz, então, Coetzee fala da elaboração do passado, uma elaboração que, ele acredita, é uma forma pós-religiosa de diálogo confessional. Sem dúvida há aí uma ligação com o ritualístico.

Em À Espera dos Bárbaros, de 1980, um magistrado sem nome, integrante de um esforço colonialista em um país desconhecido, encara impotente a violência dos seus conterrâneos contra os nativos do lugar, chamados simplesmente de “os bárbaros”. Quando sua tentativa de proteger “os bárbaros” vem à tona, ele é o bode expiatório maltratado e ostracizado pelo próprio povo. É ritualístico. Antes de cair em desgraça, ele lava os pés de uma nativa torturada pelo exército colonialista. É ritualístico. Ele ainda se pergunta por que esses mesmos torturadores não têm, depois das sessões de agressão que comandam, um ritual para passar do estado impuro para o puro. Ritualístico.

A obra de Coetzee não me parece apenas tematizar o ritualístico: é ela mesma ritualística. 

 

6.

 

A questão da desonra, em Coetzee, sempre surge intimamente ligada à elaboração confessional. Para o protagonista de Diário de um Ano Ruim, é importante pensar em meios de “salvaguardar a própria honra”, de evitar “aparecer com as mãos sujas diante do julgamento da história”, exista ou não um julgamento. A falta de concessão de Coetzee é estética, sem dúvida, mas também é moral. Em toda a obra do autor há a recusa veemente de bater continência para a estupidez, a truculência, a barbárie, e há a confirmação de que não somos um mero número isolado, mas uma continuidade. As perguntas que ficam, que ecoam a fala de Elizabeth Costello citada no início deste texto, são: a continuidade pode nos ajudar a moldar também uma narrativa coletiva do futuro? Se sim, como? Nossas narrativas do passado já nos permitem dar esse passo?

 

 

CAMILA VON HOLDEFER é crítica literária, ensaísta e tradutora. Escreve para o jornal Folha de S.Paulo, revista Quatro Cinco Um e mantém o site camilavonholdefer.com.

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