Intimidade ficcionalmente compartilhada
06/12/2018 - 14:00

Para além de meros testemunhos, diários são narrativas com valor literário próprio, em grande parte guiados por uma imbricada fusão entre o real e a ficção, tornando-se um gênero difuso que apenas aparenta ser o que é 

Mariana Sanchez


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O ator Val Kilmer interpretando Mark Twain na produção teatral de Citizen Twain. O escritor americano é autor de Diários de Adão e Eva, sátira que registra em forma de diário as impressões dos primeiros habitantes do paraíso.

Um leitor, como todo espectador de arte, é também um voyeur. Mas esta atração por narrativas alheias parece potencializada no caso dos diários, em que a proposta de espiar algo privado, interdito, supostamente real, datado e escrito em primeira pessoa acaba gerando uma cumplicidade ainda maior entre autor e leitor.  

Em The diary novel, Lorna Martens diferencia os diários íntimos — que têm origem na prática cristã do exame de consciência — dos ficcionais — que descendem do romance epistolar setecentista. “O último dia de um condenado, de Victor Hugo, e O herói do nosso tempo, de Mikhail Lérmontov, são exemplos de romances em forma de diário escritos ainda no século XIX. No Brasil do século XX temos O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos, e Memorial de Aires, de Machado de Assis”, enumera o professor de Teoria da História da Universidade Federal do Rio de Janeiro Felipe Charbel. Para ele, esta separação entre diários reais e inventados começa a complicar com a publicação massiva de diários póstumos de natureza privada, como o de Henri-Frédéric Amiel (1821-1881), “um dos primeiros escritores com a plena consciência de que o diário íntimo poderia ser uma forma literária digna de interesse”, opina. Já os diários “híbridos”, segundo Charbel, bagunçam ainda mais essa divisão, pois partem do pressuposto de que o relato de uma vida tem sempre uma dimensão ficcional, e que invariavelmente o eu é um “fazedor de pose”, como escreveu Roland Barthes.

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Ricardo Piglia passou mais de meio século preenchendo caderninhos íntimos e, ao ser diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), decidiu publicá-los com o nome do protagonista do romance Respiração Artificial, Emilio Renzi, seu alter-ego.

A poeta, ficcionista e professora de Letras da Universidade Federal do Paraná Luci Collin defende que “o confessional — por mais que o termo sugira a sinceridade em grau máximo de uma confissão — é naturalmente falacioso, porque a própria condição da escrita é ser falaciosa, inventiva, irreal. É forçosamente uma reconstrução criativa, emocional, psicológica, histórica, política, temporal — não há como exigir que se cole a uma verdade porque não há estatuto de verdade na ficção.” Para ela, tudo é um jogo de reelaboração, “mesmo que se pretenda manter o autobiográfico como o que mais se aproxima da veracidade, ele sempre será amplamente contaminado, ou mesmo tomado pelo ficcional”.

Os diários dos clássicos
São famosos os diários mantidos ao longo da vida por escritores notáveis, como Fiodor Dostoiévski, Franz Kafka, Witold Gombrowicz, Cesare Pavese e Virginia Woolf. “A obra é uma confissão, tenho que prestar testemunho”, reflete Albert Camus em Esperança do mundo, que reúne seus escritos privados. No exemplar de Luci Collin está sublinhada esta entrada de abril de 1937: “A tentação mais perigosa: não se assemelhar a nada”. 

Cadernos de Lanzarote, do português José Saramago, traz meditações éticas, literárias e geopolíticas do escritor, além de reflexões sobre a própria natureza destes cadernos. Escreve, no dia 2 de fevereiro de 1995: “Por muito que se diga, um diário não é um confessionário, um diário não passa de um modo incipiente de fazer ficção”. Outro que levou a sério a tarefa diarística foi o peruano Julio Ramón Ribeyro. Em A tentação do fracasso, escreve no dia 29 de janeiro de 1954: “Todo diário íntimo surge de um sentimento agudo de culpa.” E segue em tom aforístico: “Todo diário íntimo é também um prodígio de hipocrisia”. “Todo diário íntimo se escreve a partir da perspectiva temporária da morte”.

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O uruguaio Mario Levrero é autor de O romance luminoso, diário que flerta com as formas do romance e do ensaio.

“A melhor entrada em duas linhas de um diário ficcional — ‘Hoje não aconteceu nada. Se aconteceu alguma coisa é melhor calar, pois não a entendi’. A de um diário real — ‘A Alemanha declarou guerra à Rússia. Natação à tarde’”. O trecho é extraído de Janelas irreais — um diário de releituras, que Felipe Charbel lançou este ano, e se refere, respectivamente, a uma frase do suposto diário de García Madero, personagem do romance Os detetives selvagens, de Roberto Bolaño, e à famosa entrada do dia 2 de agosto de 1914 do diário de Franz Kafka.

A ideia de Charbel era comentar livros cuja leitura lhe trouxeram alguma felicidade no passado. “Mas a escrita tem uma deriva própria e aos poucos fui me dando conta de que as releituras me conduziam a nós afetivos, a histórias mal resolvidas do meu passado”. O resultado é um romance-diário que costura os comentários do narrador sobre estes livros relidos enquanto vive ou rememora sua relação com outros personagens — pai, esposa, ex-mulher, etc. — em meio a situações-limite — morte, crise, separação. Para ele, a matéria desses cadernos é sempre perigosa: “Só os celibatários e os loucos deviam manter diários”. 

Poética
Luci Collin acredita que podemos pensar numa poética do gênero diário como aquela do texto em linguagem informal, sobre fatos subjetivos, corriqueiros e que se estabelece sob o tom do registro franco de lembranças ou do desabafo (como um diálogo do autor consigo). “Mas essa poética me parece bastante difusa, porque é administrada de modos diferentes por cada escritor que escolhe o diário como gênero textual. Que tipo de escrita é essa que se pretende secreta, sigilosa, inviolável, mas que se sabe deliberadamente aberta à leitura e ao julgamento dos outros?”, questiona. 

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Albert Camus, autor de Esperança do mundo, que reúne seus escritos privados. 

Para Felipe Charbel, “se o diário tem uma poética, é a do efêmero, do passageiro. É a escrita sem futuro, sem fechamento, que por não ter um fim imediato acaba se revelando um fim em si. O puro prazer da escrita”. Boa parte do que lhe interessa nos diários é seu caráter lacunar, com a evidência de que cada entrada se basta. “A mudança do dia marca um novo começo, mesmo que os temas se repitam — e os diaristas que mais me atraem são os que retornam às suas ideias fixas, como se cada entrada fosse uma tentativa nova, e fracassada, de repisar os assuntos de sempre. Diário e fracasso andam juntos, são gêmeos siameses”, sentencia.

Memórias inventadas
Certas obras, no entanto, recorrem ao gênero apenas como procedimento, artifício narrativo. É o caso dos Diários de Adão e Eva, sátira de Mark Twain publicada em 1906 que registra as impressões dos primeiros habitantes do paraíso. Escreve Adão, numa segunda-feira: “Essa coisa diz que seu nome é Eva. Para mim tanto faz, não tenho nada contra”. Eva, por sua vez, registra num domingo: “Me pergunto para que afinal ele serve. Nunca o vejo fazendo coisa nenhuma”. No Brasil, a editora Hedra publicou no mesmo volume as Passagens do diário de SatãAutobiografia de Eva Soliloquio de Adão. Ironia e inteligência em dosagem altíssima.

Outro caso curioso é o delirante Diário de um louco, do russo Nicolai Gógol. Publicado em 1835, narra as desventuras de um funcionário público à beira da loucura. À medida que seu estado doentio avança, o diário também vai endoidecendo, e até os cabeçalhos ganham descrições surrealistas: “Entre o dia e a noite”; “86º. dia de Martubro” (misturando março com outubro); “Esqueci a data. Não houve mês tampouco. Sabe lá o diabo qual era”. 

Para Luci Collin, um dos textos mais intrigantes e reverenciáveis é Inferno, do dramaturgo sueco August Strindberg. Misto de diário, ensaio e ficção, a obra escrita entre 1896 e 1897 é o testemunho das mirabolantes experiências alquímicas e dos delírios místicos de um homem psiquicamente atormentado. “Inferno é o exemplo máximo dessa fusão entre impulsos narrativos, veracidade, testemunho, ficcionalização, denúncia, e rende belos estudos da condição e da volatilidade do confessional”, define Collin. Outro que ela destaca efusivamente é The tree of life, do norte-americano Hugh Nissenson, inédito no Brasil, que inventa o diário de um suposto aventureiro em Ohio no início do século XIX.

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No Brasil, o paulistano Ricardo Lísias gerou polêmica anos atrás com Divórcio. O autor recriava o texto de um suposto diário da esposa do narrador, pivô da separação por revelar informações demasiado comprometedoras. Como muitos dados espelhavam a biografia de Lísias, teve quem o lesse como uma obra confessional, a despeito da nota final do autor, que esclarecia: “Divórcio é um livro de ficção em todos os seus trechos”. A confusão entre o real e a ficção é uma das claras marcas de seu projeto literário.

Paradigmáticos
Felipe Charbel conta que sempre manteve diários, mas a inspiração para a passagem deles ao formato livro em Janelas irreais veio das leituras de The sight of death, de T. J. Clark, e de O romance luminoso, do uruguaio Mario Levrero, “dois diários que flertam com as formas do romance e do ensaio”, define.  

Levrero ganhara uma bolsa da Fundação Guggenheim para concluir a escrita de um livro começado na década de 1980, mas ao invés de se dedicar ao romance, o que fez foi escrever um diário da escrita do romance. O resultado, claro, é O romance luminoso, lançado este ano no Brasil. 

Outro rio-platense a publicar um diário paradigmático foi Ricardo Piglia, morto no ano passado. O autor de Respiração Artificial passou mais de meio século preenchendo caderninhos íntimos e, ao ser diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica (ELA), decidiu publicá-los. Só que, ao fazê-lo, assinou-os com o nome do protagonista de Respiração Artificial, seu alter-ego Emilio Renzi. Gesto astuto, pois permite que seus diários pessoais sejam lidos como um monumental romance de formação confrontando a ideia de autoria e alteridade, como quem confessa que, em última instância, nunca podemos dizer nada sobre nós mesmos, senão sobre o outro. “Não há procedimento narrativo que não seja artificial”, escreve, numa sexta-feira de 1965. No Brasil apenas o primeiro volume de Os diários de Emilio Renzi foi editado até agora.

“Em diários-romances como os de Mario Levrero e Ricardo Piglia, a matéria que é deixada de fora, ou fica retida no filtro superegoico, é tão relevante quanto o que se diz abertamente, talvez até mais”, opina Felipe Charbel, que se tornou um leitor obsessivo de diários após publicar o seu próprio relato. Citando uma passagem do livro, de quando um personagem descreve a leitura de O romance luminoso, talvez seja preciso ver nos diários “não mais uma atividade clandestina, a antessala da literatura, mas o palco principal da comédia humana, onde o ridículo e o patético são expostos quase sem retoques, só com alguma censura e de um jeito moderadamente romanceado”.

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