Especial do mês: Nietzsche
29/01/2021 - 11:21

Um Demônio que Ri

À Melancolia, antologia lançada pela Spleen com tradução de Wagner Schadeck, mostra como a poesia de Friedrich Nietzsche (1844-1900) conversa com seu trabalho filosófico e trajetória pessoal

João Lucas Dusi

 

“O que Nietzsche precisa”, comentou o amigo e filólogo Erwin Rohde após ler Além do Bem e do Mal (1886), “é de um emprego adequado!”. Naquela altura do século XIX, o livre-pensador alemão já tinha lançado Assim Falou Zaratustra (cuja primeira de quatro partes saiu em 1883) e levava uma vida solitária — a qual se esforçou bastante para conseguir, é inegável, depois de ter matado Deus (na parábola “O Louco”, em A Gaia Ciência) e brigado com meio mundo devido à rigidez de seu posicionamento filosófico.

Enquanto a filosofia de Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi esculpida a marteladas e cuspiu bílis para todos os lados, afrontando desde o dualismo de Platão até o pessimismo de seu contemporâneo Arthur Schopenhauer (1788-1860), seus versos não parecem seguir a mesma linha explosiva, por mais que, guardadas as proporções, conversem com sua visão de mundo. “Nietzsche é a uma só vez filósofo e poeta”, anota a professora brasileira Scarlett Marton — referência mundial no estudo da obra nietzschiana — no prefácio da seleta poética À Melancolia, publicada pela editora Spleen no inverno de 2020.

A antologia, selecionada e traduzida pelo curitibano Wagner Schadeck, tem como fio condutor o poema que a nomeou. “Oh, deusa tenebrosa, eu me reclino / em teu louvor, com saudação devida, / cabisbaixo entoando assim teu hino: / enlouqueço: — de vida, vida, vida!”, bradam os últimos versos da quinta estrofe de “À Melancolia”. Trata-se, conforme posfácio do germanista Guillaume Métayer, de “um momento singular da produção poética do filósofo, uma espécie de cume no meio do deserto”.

A força do poema está no fato de que ele circula “entre poesia e filosofia e é o cerne da gênese da noção de ‘vontade de poder’”, ainda segundo Métayer. Essa noção, desenvolvida por Nietzsche desde que ele passou a conviver com o compositor Richard Wagner (1813-1883) no ano de 1869, foi central em sua filosofia madura. A vontade, mesmo que impregnada de melancolia, está a serviço da vida, da ação, e não da morbidez: “Não me seja cruel, Melancolia, / se em teu louvor a minha pena empenho, / em vez de cabisbaixo, todavia, / jazer como o eremita sobre um lenho”.

Para complementar esse tópico central, Nietzsche lidou — trocando em miúdos — com a ideia de o homem tentar entender a unicidade do mundo sem metafísica (sem deuses, sem o dualismo platônico que separa o ideal do real ou o pessimismo que leva somente à infrutífera decadência) e ser capaz de sempre dizer sim aos novos horizontes, sem que as rédeas da moral em vigência — seja lá qual for a da vez, mas sobretudo a cristã — lhe impeçam de alçar longos voos, distanciando-se das supostas verdades enraizadas em terra firme. “A cegueira ante o cristianismo”, afinal, conforme Nietzsche escreve na autobiografia Ecce Homo (1908), em tradução de Marcelo Backes pela L&PM, “é o crime par excellence — o crime contra a vida...”.

 

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Nietzsche por Beatriz Cajé

 

Niilismo
Segundo duas definições oferecidas pelo dicionário Michaelis, a palavra “niilismo” pode significar “redução ao nada; aniquilamento” e “completo e absoluto espírito destrutivo em relação ao mundo e ao próprio eu”. Na Rússia do século XIX, para citar um “causo”, o assassinato do jovem I. I. Ivanov por parte de um grupo niilista inspirou Dostoiévski a escrever Os Demônios. Em Nietzsche, porém, essa visão de mundo deve conduzir a uma espécie de destruição (ou superação) interior positiva — a dos ídolos.

A cruzada do filósofo alemão contra os símbolos que se apossam do imaginário popular parece ter sido sua grande rebelião — da qual nem o fanatismo pela ciência escapou (em voga devido à teoria darwinista de evolução que aflorava à época) e muito menos o saber dos doutos. “És a águia excelsa que da altura observa? / Ou a coruja eleita de Minerva?”, questionam os dois últimos versos do poema “‘Humano, Demasiado Humano’: Um Livro”, em interrogações que provocam o interlocutor ao evocar a figura da águia como um tipo de contraponto animalesco desejável, e não inferior, em relação à deusa da sabedoria (Minerva).

Essa concepção altiva, a de superar os valores e saberes mundanos (ou ao menos olhar para eles com desconfiança), está contida em vários outros poemas da antologia já citada. Em “Por Mares Nunca Dantes”, por exemplo, na íntegra:

Eis aonde eu quero chegar
Em mim e em meu braço confio.
Sem planos, através do mar
singra meu genovês navio.

Tudo resplende, ao tempo e ao espaço,
o meio-dia em pouso estrito;
ingente, só seu olho de aço
está me fitando, infinito!

 

Todos e ninguém
Apesar do tom combativo e algo idealizado de suas propostas poético-filosóficas, não dá para esquecer que, até atingir esse tipo de raciocínio / postura, Nietzsche se virou no mundo como pôde — e teve, inclusive, um “emprego adequado”: recebeu o título de doutor pela Universidade de Leipzig sem nem prestar exame, foi professor de filologia clássica na Universidade da Basileia por uma década (1869-1879), tendo começado a lecionar aos 24 anos, e sofreu por amor como qualquer “mortal” — quando pediu a russa Lou Salomé em casamento duas vezes, em 1882, e foi duplamente rejeitado. Nesse período, depois das negativas, escreveu para sua pretendente: “Não quero mais ficar só; quero aprender a ser humano outra vez. Infelizmente, neste campo ainda tenho quase tudo a aprender!”.

Além de ter sido um acadêmico respeitado e tentado se resolver com as coisas do coração (sem sucesso; nunca se casou nem teve filhos), o filósofo alemão foi muito próximo de Schopenhauer e Wagner — na mesma medida, talvez, que depois viera a se tornar crítico dessas figuras. Para o segundo, chegou a assinar uma carta como sendo “seu mais fiel e devoto seguidor e admirador”; mais tarde, distanciou-se por completo. Já com relação ao primeiro, o poema “Arthur Schopenhauer” sugere a forma que Nietzsche o via: “O que ensinou não vigora; / o que viveu é vigente: / basta notar que não fora / a ninguém subserviente”. Quer dizer, mesmo após o rompimento com a filosofia daquele que foi um de seus mestres, a áurea de liberdade que emanava da postura decidida do “pai do pessimismo” não o abandonou.  

Esse trânsito por diferentes mundos ao longo dos anos, sem ter conseguido (ou sem querer) se estabilizar em nenhum deles, parece ser bem resumido nos versos de “Diz o Ditado”:

Acre e doce, rude e fino
próprio e alheio, limpo e imundo,
misto de sábio e ladino:
e disso tudo redundo
em pomba, serpente e suíno!

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Colapso
“É minha sagacidade, ter sido muitas coisas em muitos lugares a fim de poder me tornar uno”, escreve Nietzsche em Ecce Homo, trabalho que precedeu seu derradeiro colapso físico e mental — depois de ter vivido décadas com uma saúde muito frágil, pelo menos desde fevereiro de 1871, quando passou a ter enxaquecas severas, problemas estomacais violentos e sua visão, já ruim, piorou. As mazelas físicas, no entanto, nunca o impediram de praticar longas caminhadas ou de trabalhar sem parar, sempre se deslocando para lugares em que, em determinada estação do ano, tinham o melhor ar para se respirar — a não ser quando a doença (acredita-se que tenha sido uma sífilis contraída na juventude) o derrubava para valer.

O poema “Escrita com o Pé” demonstra a importância que o ar livre (sinônimo de liberdade, possivelmente) teve em seu trabalho: “Não só manualmente, também / a escrita com meu pé convém. / Leve e solto, vai através / de pradarias e papéis”. E, em “Ecce Homo”, a reflexão é cristalizada: “Sentar o menos possível: não acreditar em nenhum pensamento que não tenha nascido ao ar livre e em livre movimentação — quando também os músculos estiverem participando da festa. Todos os preconceitos vêm das vísceras... A vida sobre as nádegas — eu já o disse uma vez — é o verdadeiro pecado contra o espírito santo...”.

Irônica e tragicamente, Nietzsche terminou a vida sobre as próprias nádegas, tomado por uma paralisia progressiva, e mentalmente inválido. Após a conhecida história que se passa na Turim de 1889, na qual abraça um cavalo que estava sendo chicoteado e desmaia ainda agarrado ao animal, o filósofo não se recuperou mais. Nos primeiros tempos de insanidade, sentava-se ao piano para improvisar e gritar, além de ter enviado cartas assinadas como Dionísio ou O Crucificado. “Nunca vi um quadro de colapso tão assustador”, escreve o amigo Franz Overbeck sobre a situação daquele que, um dia, fora o implacável combatente de seu próprio tempo.

Foi nessa situação degradante que Nietzsche viveu por onze anos, entre o manicômio e a casa de sua mãe (Franziska Oehler), tendo ficado também à mercê dos caprichos de sua irmã, Elizabeth — uma nacionalista, antissemita e partidária do Reich, responsável pela conexão da obra do filósofo com o nazismo e por coletâneas póstumas bem descuidadas, misturando conteúdos descartados pelo próprio autor com escritos inacabados, entre outros absurdos, o que gerou enganos perpetuados por décadas.

Hoje em dia, porém, a farsa arquitetada pela irmã foi desmascarada e as edições da obra do filósofo são feitas com profissionalismo. Sendo assim, a quem interessar possa, o próprio Nietzsche se pronuncia no poema “Convite”: “Atreva-se a comer minha comida! / Terá melhor sabor amanhecida / e na manhã posterior bom gosto. / Se queres mais, de sete antigas partes / farei novas sete artes / de audacioso composto”.

 

NOTA
As informações biográficas e citações de cartas foram extraídas do livro Nietzsche — Uma Biografia (Edipro, 2015), do britânico R. J. Hollingdale, em tradução de Maria Luisa de Abreu Lima Paz

 

João Lucas Dusi é autor do livro de contos O Grito da Borboleta (2019) e redator dos jornais de literatura Cândido e Rascunho. Vive em Curitiba (PR).

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