Entrevista | Eliane Brum
22/12/2020 - 14:06

Escrever com o corpo

Uma das jornalistas mais premiadas do Brasil, Eliane Brum comenta seu processo de trabalho e algumas das principais reportagens de sua trajetória

 

Convidada da mesa de abertura da quarta edição da Flibi, a Festa Literária da Biblioteca Pública do Paraná, a repórter e escritora gaúcha Eliane Brum participou de um bate-papo online com o jornalista Mauri König. Ambos conhecidos pelos vários prêmios conquistados ao longo de suas carreiras, eles conversaram sobre a Amazônia, os livros publicados pela autora e, principalmente, os métodos de apuração e produção de textos empregados por Eliane em seus projetos. Leia a seguir os melhores momentos da live, que também está disponível, na íntegra, no canal BibliotecaPR.

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Eliane Brum participou da mesa de abertura da quarta edição da Festa Literária da Biblioteca. Foto: Reprodução / Facebook

 

Investigação
Em 2010, deixei o mundo do emprego e virei freelancer, e aí decido em quanto tempo uma apuração acaba. Isso é muito bom, algo que queria muito. Existem apurações que faço há 20 anos porque ainda acho que não estão prontas. Tenho duas linhas de investigação de longo prazo. Uma na periferia da grande São Paulo e outra na Amazônia, que é onde vivo desde 2017 — em Altamira, no Pará. É uma apuração que faço desde 2011 com as famílias de ribeirinhos expulsas por Belo Monte. E não é por acaso que uma é na periferia de São Paulo e outra na Amazônia. São duas regiões geográficas simbólicas no Brasil que reivindicam seu lugar legítimo de centro. É onde tem a grande criação, produção de conhecimento de vida e resistência desse país. E, pelo meu trabalho, procuro fazer uma ponte entre essas duas periferias que reivindicam seu lugar de centro. É onde me interesso em como a vida é pensada. Como é possível fazer resistência num lugar que sofre genocídio ao longo dos séculos — genocídio dos povos indígenas e genocídio negro das periferias de São Paulo? Faço essa escolha justamente por isso. Me interesso como jornalista pelo que chamo de “desacontecimentos”, aquilo que fica nas sombras, nos cantos, menos visível. Pelas vozes que tentam silenciar e que resistem. Nesse sentido que fui em direção a essas duas periferias, que no meu modo de ver e na minha investigação jornalística aparecem como centro. Minha outra linha é na coluna de opinião que tenho no El País. Faço essa coluna como uma repórter, então preciso investigar para poder ter uma opinião. Busco escrever aquilo que entendo que nos acontecimentos “desaconteceu”. Ou seja, não escrevo se vou repetir aquilo que outros colunistas já escreveram, não faz sentido escrever algo que o leitor já leu. Preciso escrever algo que parece que está nas entrelinhas, algo que não foi dito, algo que posso trazer para a superfície e que é um outro jeito de olhar para um acontecimento. Isso aprendi sendo jornalista, sendo repórter há mais de 30 anos, escutando pessoas há mais de 30 anos. Mais importante do que as objetividades são as subjetividades, às vezes grandes acontecimentos acontecem por detalhes muito pequenos. E eu busco escutar essas subjetividades desses acontecimentos. É assim que faço minha interpretação da cena política do país e os meus temas são esses, que me parecem as linhas mais importantes para entender o Brasil, como o racismo estrutural, por exemplo. Fui morar na Amazônia porque acredito que é o centro do mundo no momento em que a gente vive a emergência climática. Sem a maior floresta do mundo a gente não consegue enfrentar o superaquecimento global, então dizer que a Amazônia é o centro do mundo não é retórica, é uma frase que tem lastro, como os povos indígenas sempre disseram. Enquanto jornalista, faz todo sentido eu estar no centro e olhar o Brasil desse centro. Colocar meu corpo nesse outro lugar faz parte da minha investigação porque mudo o lugar de onde olho o Brasil e o mundo. E isso muda muito aquilo que a gente enxerga. Isso me permitiu enxergar de outras maneiras.

 

Papel do jornalista
Sou apaixonada pelo jornalismo, acho que ele é insubstituível exatamente porque ele faz, ele conta, documenta a história do cotidiano. E tem o desafio da história em movimento.  Essa é uma enorme responsabilidade que a gente tem como jornalista e que me pesa muito porque sei que aquilo que escrevo vai influenciar tanto a forma como os eventos vão ser interpretados no futuro pelos historiadores que pesquisarem nossas reportagens e por outros campos de conhecimento, como também vai impactar o presente, porque o que a gente escreve tem impacto. Se a gente faz bem ou o mal nosso trabalho também tem impacto. Encaro o que a gente faz como documento, nem que seja uma nota. E esse documento não pode ser sobre nossa incompetência. Tenho muito claro que nossos erros no jornalismo são irreparáveis. Eu faço, trabalho e vivo jornalismo com o peso dessa responsabilidade de produzir documento histórico sobre a minha época e acho isso totalmente fascinante. A gente precisa de muito mais jornalismo para cobrir todos os brasis, porque muitos não estão sendo contados porque não são alcançados mesmo que próximos. As redações de jornalismo são brancas, o quanto de classe média elas são, e isso impacta. Nós não somos seres que pairam sobre a sociedade, estamos com os dois pés enfiados no nosso momento histórico.

 

Mundo do outro
Para mim, apurar é viver a história. O jornalismo me constitui de várias maneiras. O que quero dizer é que me sinto habitada por essas vozes que escutei por mais de 30 anos. Essas vozes fizeram de mim quem sou, elas continuam falando dentro de mim, me habitam. Minhas escolhas de reportagens são determinadas por tudo que fui me tornando com essas pessoas, e elas fazem minha história. O que é apurar, para mim? Entendo a escuta como o instrumento mais importante da reportagem. Essa escuta que a gente faz não só com os ouvidos, mas com todos os sentidos, em que a gente ouve também os silêncios, escuta as hesitações das pessoas, aquilo que elas silenciaram, o ambiente. Para mim, fazer uma apuração, fazer uma reportagem, é ir em direção a um mundo do outro. Isso me exige uma preparação interna muito grande. Sempre fiz minhas apurações na rua, mesmo que essa rua seja na floresta. E agora, na Covid-19, estou vivendo uma experiência que nunca vivi antes como jornalista, de ter que fazer entrevistas pela internet. Mas, para ir para essa rua, preciso atravessar a rua de mim mesmo, que é fazer o exercício de me desabitar, no sentido de me desabitar dos meus preconceitos, das minhas visões de mundo, das minhas crenças, para ir em direção do mundo do outro o mais vazia possível. Se não faço esse exercício, não consigo. Posso ir para o outro lado do planeta e continuar no mesmo lugar, porque não vou ter saído de mim. Preciso ter esse cuidado para ser capaz de escutar essa vida que é outro jeito de ser e estar nesse mundo. Depois, preciso fazer o caminho de volta, que também não é fácil. Não tenho a pretensão de ir totalmente vazia e sei que vou tomar todas essas precauções, mas que essa escuta está atravessada — vou voltar com o que eu escutei atravessada pelo meu corpo. E aí, então, preciso escrever.

meus desacontecimentos
o olho da rua

 

Corpo e alma
Sempre que volto das minhas reportagens, volto muito estranha, muito quieta, porque volto transformada. Volto muito grávida. Para mim, a reportagem é feita com o corpo, não tenho essa separação cartesiana. Estou falando muito de algo subjetivo, que para mim é extremamente importante, e, falando da parte objetiva, tenho um imenso cuidado nessa escuta. Tenho os meus jeitos de fazer as entrevistas. Gravo todas com dois gravadores — que hoje são dois celulares — porque já perdi gravação e isso é uma coisa horrível, e transcrevo porque preciso da palavra exata; como tem o gravador que está registrando aquilo que está sendo dito, no meu bloco vou anotando o que vou vendo, o que vou apurando. A forma como a pessoa diz, do jeito que ela diz, dos gestos dela, qual foi a palavra que ela trancou, qual foi a palavra que ela fez silêncio, qual momento ela acelerou a voz, o que tem na casa dela, que som entrou... Um carro? Um macaco? Se leio um bloquinho meu, consigo revisitar aquele momento. Então, com todo esse material, consigo chegar o mais perto possível da verdade daquela escuta. Para mim, o jornalismo também é uma experiência do corpo. Vivo, de certa maneira, a vida dos outros e trago essa vida para o leitor. E essa vida é também a minha —todas essas somas e o que faço com aquilo que vivi. Sou imensamente grata a todas as experiência e lugares que o jornalismo me levou.

 

Primeira pessoa
O Meus Desacontecimentos é um livro em que conto minha história com as palavras, a história da menina que se tornou a mulher que sou. Esse livro nasceu de uma profunda necessidade, de duas crises: com o jornalismo e com a palavra escrita. A primeira reportagem que escrevi, em que assumi a primeira pessoa, foi em 2007 ou 2008. Foi a reportagem que eu passei dez dias num retiro de meditação Vipassana. Eu tinha 19 anos de jornalismo e foi muito difícil para mim — não escrever em primeira pessoa, mas aceitar que eu estava escrevendo em primeira pessoa. Quem lê meus livros sabe que sou grata ao grande professor Marques Leonam, que trabalhou muitos anos na PUC do Rio Grande do Sul, onde fiz a faculdade de Jornalismo. Ele me dizia que “quando o jornalista é mais importante que a notícia, um dos dois não é verdadeiro”, e essa é uma frase muito importante. Quando fui escrever em primeira pessoa naquela matéria, enxergava o Leonam pairando ao redor de mim, apontando o dedo: “Não pode fazer isso”. No livro O Olho da Rua, em que conto os bastidores de tudo que vivi nas reportagens e meus erros, conto do Leonam me assombrando. Mas, depois, fui me autorizando a colocar o “eu” sempre que achei que ajudava a contar mais daquele outro por alguma razão, sempre que o “eu” se justificasse — não para falar de mim, mas do outro. Precisa ter uma boa justificativa. Acho muito importante ter consciência de que mesmo que não se use o “eu” a gente está no texto; esse “eu” está oculto e, às vezes, acho que é melhor e mais honesto o “eu” estar dito. É uma escolha que precisa pensar caso a caso. Gosto de me aventurar em outras narrativas. O jornalista que mais tenho medo é aquele que diz que é completamente objetivo. Ele está fora do mundo. Tenho medo porque essa é a primeira mentira. Sei que ele não vai tomar todas as precauções que a gente toma de respeitar a história do outro. Somos pessoas inscritas na cultura, com os dois pés nesse momento histórico, somos seres falhos. Não somos um invólucro vazio.

 

Processo criativo
Estudo muito para fazer reportagens. Mas me movo muito pela intuição. Respeito a intuição como uma forma de conhecimento. Escrevo como uma leitora, como se fosse me surpreendendo com o que eu mesmo estou escrevendo. Às vezes penso que vou escrever de um jeito, contar a história de um jeito, e acabo escrevendo de outro porque as pessoas continuam falando comigo quando estou produzindo. Como faço para escrever? Leio tudo e vou colocando cores. Com o azul marco as melhores coisas. O verde é incrível, mas nem tanto. O amarelo é bom. O rosa é mais ou menos. Vira um arco-íris. Sei que o azul, o melhor, vai ter que estar na matéria. Aí, deixo isso tudo de lado e deixo aquele texto me preencher. E então escrevo, sem olhar para o papel, toda a experiência que tive. Depois vou checar. Escrevo pensando “depois melhoro isso”, porque senão fico me reprimindo. Depois olho nas minhas anotações para conferir se lembrei das palavras exatas e ver se todos os verdes e azuis estão na matéria.

 

Ritmo
Cada história tem uma narrativa própria que não é dada por mim, mas pelas pessoas que fazem parte da história. Sempre tenho o desafio de encontrar a linguagem das pessoas. A linguagem é mais do que a língua, é o jeito de falar, além das palavras. A coisa mais fascinante de fazer jornalismo no Brasil é que são brasis, e as pessoas inventam palavras, é maravilhoso como os brasileiros fazem literatura pela boca. Tenho que respeitar essa literatura. Se eu fizer uma reportagem que é, por exemplo, na Brasilândia, e o pessoal falar igual ao pessoal da Amazônia é porque estou escrevendo sobre mim, porque eles não falam igual. Não só as palavras, mas o ritmo — e é esse ritmo que busco reproduzir nos meus textos. As palavras no texto às vezes são mais rápidas, mas porque as pessoas falam mais rápido. É um pouco que nem música. Penso muito sobre o que estou fazendo e sobre o que aconteceu comigo.

 

Peso da morte
Meus livros, por exemplo, O Olho da Rua — são dez reportagens, e a cada reportagem faço outro capítulo repensando sobre aquela própria reportagem, porque me ajuda a entender o que faço e por que acho que preciso compartilhar conhecimento. Tento compartilhar tudo que vou aprendendo, para que outros jornalistas que estão começando não tenham que cometer os mesmo erros que cometi. É claro que todo mundo precisa fazer os seus próprios erros, mas têm erros que podemos evitar. Cada livro tem uma necessidade que veio dessa experiência do jornalismo, então o Uma, Duas — meu primeiro e único romance — veio de uma experiência de reportagem em que fiquei um ano praticamente escrevendo sobre a morte. Aí vem uma das minhas escolhas: não a morte que em geral é tema do jornalismo, mas a morte que é a morte da maioria — por doença, velhice. Fiz várias reportagens sobre a morte, a maior dela que eu acompanhei está em O Olho da Rua. Acompanhei por 115 dias a vida de uma mulher com câncer além da possibilidade de cura. Só pude contar essa história, só pude entender como ela vivia porque nunca perguntei sobre o câncer ou se ela tinha medo de morrer. Isso que chamo de escuta, que é nosso principal instrumento de reportagem. Ela nunca pronunciou a palavra câncer nesses 115 dias e eu só soube disso porque nunca perguntei. Nunca pronunciei a palavra câncer, eu precisava saber se ela ia pronunciar ou não. Essa é a importância da escuta para alcançar profundidade. Sofri muito quando ela morreu, ainda hoje me emociono quando entro em contato com essa história que ocorreu em 2008. Ela foi uma pessoa muito importante na minha vida, com a qual convivi muito de perto num momento muito extremo da vida, e que confiou em mim para contar uma história que ela jamais leria. Isso é a maior confiança que alguém já me deu. Esse enfrentamento com a morte — e essa não foi a única matéria que fiz naquele ano sobre a morte — fez com que eu precisasse escrever meu romance. Entendi que existiam certas realidades que só a ficção podia suportar, e eu não podia ficar com aquelas realidades dento de mim. Resolvo tudo na escrita. Minha mediação com o mundo é pela escrita desde que sou criança. Precisei escrever para contar essas realidades que não poderiam ser escritas em uma reportagem.

 

Crise
O Meus Desacontecimentos veio de uma crise com a palavra escrita, foi de uma reportagem que fiz na Bolívia com os Médicos Sem Fronteiras que tratavam doença de chagas. Fiquei muito próxima de uma menina com chagas — uma realidade muito brutal. A Sônia tinha 11 anos e, quando fui me despedir para voltar para o Brasil, ela me agarrou e disse: “Não me deixa morrer”. Eu sabia que ia contar a história dela para o mundo, que é o que sempre digo para as pessoas: o que posso fazer é contar sua história. Mas também sabia que contar a história de Sônia não ia salvar a vida dela. E aí, quando voltei para o Brasil, entrei numa crise, foi a primeira vez que paralisei para escrever. Isso me colocou num buraco muito fundo. Para sair desse buraco, precisei resgatar o que era a palavra escrita para mim, como a palavra escrita tinha me “salvado” na infância. Então, cada escrita vai me levando para outra escrita. Se eu pegar todas as reportagens que escrevi posso ir dizendo como cada uma foi me levando para outra.

 

Briga com o editor
Como editora, não interferia nos textos dos repórteres. Fazia anotações e entregava para reescreverem. Agora, comigo... Sempre sofri muito com isso. Quando era “foca”, tinha 22 anos e acabado de sair do estágio, vivi o tempo dos copidesque — eles pegavam o texto e formatavam. Lembro que deixei um bilhete dizendo que a pessoa não podia mexer e isso causou um problemão. Minha história como repórter é uma história de briga com o editor. Sempre briguei e sofri muito quando cortavam o meu texto, porque cortar o meu texto é cortar um pedaço da história e me comprometo com as histórias. Sou muito feliz com a internet porque a internet não tem limites de texto, pelo menos não para mim. E agora eu não preciso mais pensar nisso. Sempre briguei por cada palavra minha. Hoje tenho a vida que quero, não preciso mais passar por isso. Uma vida que foi duramente conquistada e que tem um preço — sou freelancer, ganho muito menos, enfim, minha autonomia significa perder outras coisas.

 

O bom editor
Quando é possível, o texto precisa dormir. Porque a gente só consegue enxergar os excessos no outro dia. Outra coisa, o texto quando lido em voz alta mostra onde está desafinado. E sempre dou o meu texto para uma pessoa que confio ler. Essas pessoas fazem observações que escuto ou não. Minhas relações profissionais hoje são com locais de trabalho que respeitam o meu texto e não mexem em nenhuma vírgula do que escrevo. Tem gente que acha isso um absurdo, mas cada um vive do jeito que quer. Vivo assim e pago o preço por isso. Às vezes, quando escrevo no exterior, tenho alguma dificuldade nessa negociação. Eu sou minha editora, mas com o olhar muito importante dos amigos leitores. Acho que grandes editores podem nos ajudar muito, não acho que edição seja ruim, acho necessária, mas ela precisa ser conjunta, respeitosa, bem justificada. Um bom editor é aquele que te ajuda a tornar o texto mais seu. Não é que o que escrevo não é passível de crítica e não pode melhorar. Não. Mas não é algo imposto. Edição é uma coisa muito trabalhosa e complexa.

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