ESPECIAL | Quando a ciência é pop
29/10/2021 - 14:04

Publicações que explicam conceitos científicos complexos de forma acessível aproximam os pesquisadores da sociedade, mas ainda não são valorizadas pela academia

 

Murilo Basso


Da inserção de microchips nos corpos de vacinados a caixões vazios enterrados em valas comuns, além da possibilidade de termômetros infravermelhos causarem câncer e a já clássica eficácia da hidroxicloroquina: é muito difícil que alguém tenha passado ileso pelas notícias falsas durante a pandemia de Covid-19, seja nas redes sociais, nos grupos de aplicativos de trocas de mensagem ou até nas conversas em família. Mas por mais que pareça paradoxal, em tempos marcados por negacionismo e anticiência, a literatura de divulgação científica está encontrando espaço para crescer no Brasil. É o que afirmam autores, especialistas e entusiastas da área ao Cândido.

“Fazendo uma brincadeira, o Batman e o Coringa, em certa medida, retroalimentam-se. Será que existiria um Coringa se não houvesse um Batman? Em uma época de pós-verdade, vemos uma contrarreforma, uma reação de defesa, por parte de quem se interessa por ciência ou é cientista, o que acaba estimulando esse tipo de publicação e os leitores que querem participar dessa ‘arena de combate’”, opina o jornalista Reinaldo José Lopes, especializado em Biologia e Arqueologia.

Podem ser considerados de divulgação científica quaisquer livros que tenham como objetivo explicar conceitos complexos ou a trajetória de uma área da ciência de maneira acessível para um público amplo, que não esteja restrita a pesquisadores. É, portanto e sobretudo, uma forma de os cientistas se comunicarem com a sociedade de modo diferente daquele como eles fazem entre pares. E segundo os especialistas, cabe de tudo: relatos de viagem, biografias, história intelectual de um campo do conhecimento, enfim, muita coisa.

Para a coordenadora da PUCPRESS, editora acadêmica vinculada à Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Michele Oliveira, a pandemia do novo coronavírus exerceu um importante papel para despertar o interesse do público leigo por obras de não ficção.

“Com o isolamento social, retomamos o prazer pela leitura e a busca por fontes de informação mais seguras. Pessoas querem ficar mais informadas. Apesar de ser um trabalho de ‘formiguinha’, percebemos um aumento tanto na procura do público, para a aquisição de livros, quanto de autores querendo publicar”, diz.

Durante a crise sanitária, afinal de contas, os cientistas se tornaram porta-vozes de assuntos relevantes para o momento. Em jornais noturnos, de elevada audiência, pesquisadores se tornaram debatedores constantes, algo inédito até então. O Brasil passou a conhecer de forma muito mais abrangente do que antes tanto nomes ligados à Biologia, como Natalia Pasternak, quanto pesquisadores das Ciências Sociais, como Lilia Schwarcz, com seus comentários sobre os fenômenos políticos atuais.

 

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Para Sabine Righetti, falta incentivo à literatura de divulgação científica nas universidades brasileiras. Foto: Wanezza Soares

 

Reconhecimento (mas nem tanto)

Ao mesmo tempo em que o reconhecimento do público acerca dos livros de caráter científico cresceu, o mesmo não pode ser dito da academia. Para a jornalista de ciência e PhD em Política Científica pela Universidade de Campinas (Unicamp) Sabine Righetti, falta valorização para esse tipo de publicação nos círculos acadêmicos.

“Os pesquisadores que escrevem livros de divulgação científica o fazem mais por talento e vontade pessoal, aumentando consideravelmente a sua carga de trabalho sem que esse esforço seja valorizado profissionalmente. Na hora de uma promoção na carreira, do ingresso no ensino superior por meio de concurso público, livros assim valem pouco. Artigos em revistas puramente científicas contam muito mais [pontos]”, explica.

Essa também é a opinião do jornalista Carlos Orsi, fundador do Instituto Questão de Ciência e autor de diversos livros do gênero, que acredita que apesar de haver muitos protestos e cartas de boas intenções para que a situação mude, o que se tem é uma lógica de piada sem graça: todo mundo está sempre reclamando de algo, mas ninguém faz nada para melhorar.

“Especificamente, no meio acadêmico brasileiro, a estrutura de incentivos ainda se baseia em atividades completamente descoladas de qualquer preocupação com divulgação científica. Isso faz com que o cientista que se dedica à atividade perca oportunidades e ainda corra o risco de ser malvisto pelos colegas, acabe sendo prejudicado na articulação política da ‘salinha do café’. Isso é menos um preconceito pessoal contra a divulgação de caráter mais ‘pop’ e mais um preconceito institucional contra a divulgação”, comenta.

E não é chato?

Entre o público em geral, não é incomum haver o preconceito de que a literatura de divulgação científica é, para dizer o mínimo, chata. À primeira vista, obviamente, uma história sobre um grupo de meninos presos em uma ilha, tentando se autogovernar, ou um romance que lança mão de elementos de fábula, com animais falantes, para satirizar ditaduras parecem mais divertidos do que uma análise sobre as principais ameaças às democracias atuais.

Ocorre que preconceitos estão aí para serem quebrados — tanto que, em outubro de 2018, em meio à intensa polarização provocada pelas eleições presidenciais no Brasil, Como as Democracias Morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, tornou-se o livro mais vendido da Amazon no país. Entre os entrevistados, a opinião é unânime: tudo depende de como se diz.

“Um trunfo para o sucesso de um livro de divulgação científica é, sem dúvida, a linguagem, que deve ser a menos rebuscada possível, trazendo termos mais acessíveis. A capa, o design e estratégias de divulgação também são importantes. Ao mesmo tempo, precisamos entender que há pesquisas, como as de ponta, que precisam ser publicadas com linguagem mais técnica. Eventualmente, esse mesmo trabalho pode ser reorganizado para atingir um público maior. Há um leitor para cada momento da pesquisa”, pontua Michele Oliveira, da PUCPRESS.

Para Sabine Righetti, isso ocorre, justamente, pela falta de incentivo e profissionalização relacionada à literatura de divulgação científica na academia. Assim, muitos cientistas encontram dificuldades para conversar com um público que não seja puramente acadêmico e, quando se arriscam, o fazem de forma “dura” demais.

“Mas hoje temos bons nomes que podem até mesmo inspirar novos autores de divulgação científica, como a Natalia Pasternak, que tem livros brilhantes, muito bem escritos, e que não têm aquele caráter pedagógico de quem está dando uma aula. Outro autor é o Marcelo Knobel também, que escreve como se estivesse conversando com o leitor, traz muitas evidências e é divertido sem ser bobo”, completa a jornalista.

Utilizar elementos “emprestados” da narrativa de ficção, dando ao texto ares de thriller, por exemplo, é um bom caminho para os autores de divulgação científica.

Alerta vermelho

Outra possibilidade para desmitificar a errônea ideia inicial de que a ciência é chata são os canais no YouTube, como o do paleontólogo Paulo Miranda Nascimento, o Pirulla, que trata de temas que vão de meio ambiente a religião, e o capitaneado por Ana Bonassa e Laura Marise, Nunca Vi 1 Cientista. Alguns cuidados, entretanto, devem ser tomados pelos telespectadores.

“Infelizmente, existe uma tendência maior de essas ferramentas ‘preguem para convertidos’, tornando-se uma espécie de fórum para pessoas que já se interessam pelo tema se encontrarem ali, do que trazendo gente nova, o que não é o caso dos canais citados. Dito isso, tem muita gente boa que chegou na divulgação científica pelas redes sociais e depois, inclusive, escreveu livros”, salienta Reinaldo José Lopes.

Carlos Orsi acrescenta que outra “armadilha” das redes sociais é que, nelas, às vezes é difícil saber em quem confiar, pois um vídeo com altíssima qualidade de produção pode, muito bem, contemplar apenas absurdos, enquanto uma publicação feita com um celular, da garagem de casa, pode ser perfeitamente correta. Como, então, diferenciar a “boa” da “má” divulgação científica?

De acordo com Orsi, não há uma regra que cubra todo o campo, um critério que dê conta de excluir, de uma só vez, todo o conteúdo ruim, sem que injustiças sejam cometidas. É possível, contudo, seguir alguns sinais.

“Apontaria como especialmente suspeitas obras e conteúdos que prometem ‘receitas científicas’ de sucesso no amor, na vida profissional, etc., ou que prometem explicações simples e intuitivas para assuntos complexos, principalmente em questões de saúde. Há também as que apelam logo de cara para os preconceitos do público, dando a entender que a ciência ‘finalmente confirma’, algo que o público gostaria que fosse verdade”, comenta.

Também há um ponto de atenção que Orsi chama de “escorregador conceitual”: quando palavras ou expressões vão mudando de sentido ao longo do texto. Ele cita como exemplo clássico a expressão “tudo é energia”, que pode aparecer na primeira vez em referência à fórmula de Albert Einstein da equivalência entre matéria e energia — no sentido técnico, da quantidade física — e acabar sugerindo que estados emocionais controlam a realidade. No caso, a palavra “energia” deixa de expressar aquilo que os físicos medem em seus instrumentos e assumindo o sentido figurado de “emoção”, de “sentimento”. Nas palavras de Orsi, esse jogo entre o sentido técnico e o figurado é um alerta vermelho de “picaretagem”.

É importante também procurar informações sobre o autor do material, como formação, que trabalhos e pesquisas já realizou e, por fim, se possui alguma filiação institucional.

 

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Carlos Orsi: “Apontaria como especialmente suspeitas obras e conteúdos que prometem ‘receitas científicas’ de sucesso no amor, na vida profissional, etc.”. Foto: Divulgação

 

O céu e seus mistérios

“Há muita coisa mais no céu e na terra, Horácio, do que sonha a nossa pobre filosofia”, já dizia, ao seu melhor amigo, o príncipe da Dinamarca. Apesar de todo o colapso de seu estado mental, sobre esse ponto, Hamlet não estava louco: o céu é mesmo cheio de mistérios e os astros sempre despertaram um interesse muito grande por parte dos reles mortais.

Não à toa, os livros de astronomia são apontados pelos entrevistados como aqueles de maior procura por quem deseja se aventurar pela literatura de não ficção e Carl Sagan, que conseguiu abordar temas extremamente difíceis do cosmos — literalmente — para não-cientistas, é considerado o primeiro grande divulgador científico do planeta. Mesmo morto há 25 anos, Sagan ainda arrebata leitores e admiradores de todo o globo, de todas as idades.

“E ele deixou ‘discípulos’, como o Neil deGrasse Tyson, apresentador do novo Cosmos [Cosmos: Uma Odisseia do Espaço-Tempo e Cosmos: Mundos Possíveis]. Esse interesse na astronomia gerado pelo Sagan fez com que a astronomia virasse um grande assunto de divulgação. As pessoas consomem muita literatura do gênero. O blog [Mensageiro Sideral] do [jornalista] Salvador Nogueira é um dos mais lidos da Folha de S. Paulo. Esse é um assunto que desperta muita curiosidade, no Brasil e no mundo”, afirma Sabine.

Como outros assuntos em alta, os especialistas ainda destacam Neurociência, Comportamento Humano, Arqueologia e Paleontologia e as Ciências Sociais, em especial quando as publicações buscam discutir política.

 

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Reinaldo José Lopes: “Vemos uma contrarreforma, uma reação de defesa, por parte de quem se interessa por ciência ou é cientista”. Foto: Divulgação


 

Murilo Basso é jornalista, com passagens pela Gazeta do Povo, Rolling Stone e Editora Abril.

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