ESPECIAL | “O super escritor da cidade”
30/11/2022 - 10:26

A reportagem do Cândido acompanha o lançamento do mais recente livro de Cristovão Tezza e traça seu perfil a partir de depoimentos de escritores e amigos próximos

Luiz Felipe Cunha

O ambiente à meia-luz sugere uma apresentação teatral intimista. Ao fundo, a tela azul do computador projetada na parede branca. As cadeiras já estão todas preenchidas por figuras conhecidas da literatura local e jovens hipsters. Sentado no centro do palco, de terno preto e cabelos penteados para trás, está Cristóvão Tezza, pronto para lançar seu novo livro, Beatriz e o Poeta (Todavia). Enquanto uma parte do público ainda vai se acomodando, o autor, com a voz meio rouca por causa de uma gripe recente, diz: “A literatura é uma viagem escura: você cria uma hipótese de existência que, de algum modo, tenta dar sentido a todo o caos”.

André Conti, editor de Tezza e mediador do bate-papo de lançamento, realizado numa quarta-feira de agosto, em uma livraria de Curitiba, observa que essa analogia de certa maneira também reflete um pouco da personalidade da protagonista Beatriz. O autor solta uma gargalhada efusiva e arremata: “Beatriz c'est moi [sou eu]”, em referência à célebre frase do escritor francês Gustave Flaubert (“Emma Bovary c'est moi”).

Em Beatriz e o Poeta, a tradutora já conhecida no universo tezzariano está trabalhando nos ensaios de Filip Xaveste, um filósofo catalão que tece duras críticas ao pensamento identitário presente na sociedade atual. Em determinado momento — e tendo como pano de fundo a pandemia do coronavírus —, o caminho da protagonista volta a cruzar com o de Gabriel, jovem poeta sedutor que tenta conquistar a antiga professora com métodos abusivos e petulantes.

O personagem já havia dado as caras antes no livro de contos Beatriz (Record, 2011), mas no romance ele ganha novas camadas de complexidade. A alternância de modos narrativos, o jogo de sedução entre os personagens e as análises do cenário histórico atual garantiram boa acolhida da crítica.

O novo livro marca os 70 anos do autor e coincide com o ano em que sua obra de maior sucesso, O Filho Eterno (Editora Record, 2007), completa 15 anos. A obra, que expõe os sentimentos e pensamentos de um homem desesperado que descobre que será pai de uma criança com Síndrome de Down, venceu os principais prêmios literários nacionais na época e projetou Tezza como um dos grandes nomes da literatura contemporânea.

“Esse livro é fora da curva na carreira do Tezza, pois dispensa as altas variações de pontos de vista dos personagens observadas em livros anteriores”, diz o jornalista, tradutor e professor universitário Christian Schwartz. “É uma história especial que se volta para o próprio autor, em uma narrativa autobiográfica com uma linguagem confessional.”

Foi a partir de O Filho Eterno que o nome de Cristovão Tezza começou a ser visto com mais frequência nos jornais e revistas literárias e a sua presença requisitada em programas de TV e eventos no Brasil inteiro — no início deste mês, foi homenageado durante a 6ª edição da Festa Literária da Biblioteca Pública do Paraná (Flibi). A obra também ganhou diversas traduções, levando-o a dar palestras em outros países, e foi adaptada para o cinema.

“É um dos escritores mais prolixos e profissionais que conheço”, diz Conti, para uma plateia que inclui escritores como Caetano Galindo, Giovana Madalosso e Miguel Sanches Neto.

 

EVENTO TRAUMÁTICO

Filho de um advogado, imigrante italiano, e de uma professora, Cristovão Tezza nasceu em 1952 e passou o início da infância em Lages, Santa Catarina. Caçula de quatro irmãos, ainda pequeno encarou uma tragédia que mudou a história de sua família. Quando Tezza tinha 5 anos, seu pai se sentou em uma lambreta recém-adquirida e foi dar uma volta pelo bairro. Mas, ao passar por um cruzamento, foi atingido em cheio por uma Kombi e lançado com força contra o meio-fio. Morreu na hora.

Dois anos depois, sua mãe se mudou com os filhos para Curitiba. A realidade na capital paranaense era outra: tudo era maior, havia mais carros, grande circulação de gente. E, radicado no centro da cidade, passou a morar em apartamento.

Os anos iniciais de adaptação não foram fáceis. A escola era difícil: reprovou em redação no teste de admissão para o ginásio. Sem a figura paterna, e no ápice da efervescência cultural dos anos 1960, o escritor viu sua convivência com a mãe se se tornar cada vez mais conflituosa. Esse período é marcado pelas primeiras leituras — Monteiro Lobato e Júlio Verne, que influenciaria uma decisão importante no futuro.

O ímpeto de Tezza para iniciar na literatura nasceu justamente dessa agitação. Enquanto o mundo dançava ao som dos Beatles ou acompanhava o homem pisando na Lua, o Brasil iniciava um processo de ditadura militar que causaria um clima de instabilidade intensa. Estimulado pelo espírito dessa época, o jovem Cristovão, aos 16 anos, em 1968, saiu da casa da mãe e partiu com uma comunidade alternativa para viver no litoral paranaense.

Liderado por Wilson Rio Apa, um hippie místico e agitador cultural que abandonou uma vida de posses em prol da filosofia do “paz e amor”, o grupo montava e encenava peças de teatro e desenvolvia uma série de trabalhos artísticos na pequena cidade litorânea de Antonina. Foi nesse período que o autor estreitou seu contato com a literatura e outras artes.

The dream is over. Após terminar o Ensino Médio, ingressou na Marinha Mercante, no Rio de Janeiro. Mas a fase não durou muito. Tezza não aguentou o clima pesado da ditadura e a rotina exaustiva do quartel. Então foi estudar Letras em Coimbra, Portugal, porém acabou sendo impedido de cursar por conta da Revolução do Cravos — o levante popular que acabou com o salazarismo em Portugal e as guerras coloniais na África. Ele acabou aproveitando esse meio tempo para circular pela Europa.

No final dos anos 1970, quando retornou ao Brasil, deu continuidade à vida acadêmica. “Entrou para o sistema”, como diria o antigo guru, Rio Apa. Casou-se com Beth (com quem está junto até hoje) e publicou os primeiros livros, que não circularam para além do grupo de amigos e alguns poucos leitores. A coisa toda iria mudar mesmo em 1988, com o lançamento de Trapo (Brasiliense, 1988). A obra repercutiu e seu nome começou a se tornar conhecido nacionalmente, muito por conta também de um entrevero seu com outra figura notável da Curitiba dos anos 1980: Paulo Leminski.

Trapo conta a trajetória de um poeta de 20 e poucos anos, apaixonado e viciado em drogas que se suicida, deixando o esboço de um livro. A dona da pensão onde morava encontra seus papéis e entrega o material a um antigo professor do rapaz. Enquanto prepara o conteúdo, ele acaba se envolvendo com as pessoas ligadas ao jovem.

As semelhanças entre o protagonista e Leminski (o nome do personagem inclusive é Paulo), fizeram o poeta vir à público para comentar o livro. “Trapo se insere numa certa escrita que se chamou de ‘pop’, filha dos anos 70: linguagem oral, palavrão, registros do banal e do reles, uma escrita antinobre”, escreveu em uma crítica intitulada “O Suicídio da Literatura, Segundo Trapo”. A opinião foi incluída no posfácio da segunda edição, como demonstração de respeito por parte de Tezza.

 

DOIS TÍMIDOS

Foi mais ou menos nessa época que outro escritor paranaense tomou conhecimento da obra de Tezza. Miguel Sanches Neto estava no meio da leitura de Trapo quando foi até a sala do autor Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde lecionou até se aposentar. Sanches pediu um autógrafo e conseguiu dois minutos de diálogo. “Tezza estava despontando para a literatura brasileira e não deu muita atenção para o jovem que o procurava”, conta Sanches. “Éramos dois tímidos, que melhoraram um pouco ao longo do tempo”, completa.

A amizade amadureceu e eles já passaram boas noites na companhia um do outro visitando bares da cidade. Sanches lembra com carinho de um dia em que convidou Tezza para uma palestra na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) — onde leciona e atualmente é reitor.

“Eu o busquei com o meu fusca na rodoviária. Ele deixou a mala na portaria do hotel, seguimos direto para o evento e depois fomos jantar. Quando o restaurante fechou, ainda queríamos continuar a conversar e a beber cerveja. Então fomos informados sobre um bar 24 horas perto do terminal de ônibus, um lugar frequentado pelos bichos da noite, que passavam ali para tomar uma canja revigorante. Amanhecemos conversando no bar, até próximo da hora do ônibus de retorno para Curitiba”, lembra Sanches.

“Levei-o até o hotel, ele pegou a mala na portaria, e seguimos para a rodoviária. Estávamos atrasados. O Tezza comprou um jornal, entrou no ônibus e logo cochilou. Acordou em Castro, e não em Curitiba. Como só havia ônibus à tarde para a capital, ele foi para a rodovia pedir carona, conseguindo voltar numa Brasília cheia de alho, que o produtor iria entregar no Ceasa. Esta história lembra um pouco os personagens alternativos dos primeiros livros de Tezza”, conclui.

 

“SUPER ESCRITOR DA CIDADE”

“Ele entrou de repente e sentou no chão, no corredor do Guairinha, quase do lado da poltrona em que eu estava”, diz o tradutor, escritor e professor Caetano W. Galindo. “Fomos assistir, eu e meu irmão, a um ensaio aberto da montagem de Trapo e quase não nos aguentamos de ‘febre de celebridade’ de ter o super escritor da cidade ali do nosso lado.”

Foi o primeiro contato do jovem Galindo, então com 19 anos, com Tezza. Mas a primeira vez para valer aconteceu mesmo quando ele, um pouco mais velho, assumiu uma cadeira na UFPR e virou colega de trabalho do “Dom Tovo”, apelido de Cristóvão. Logo de início, o professor experiente chamou o novato para uma boa festa em seu apartamento — e, a partir de então, viraram grandes amigos.

Certa vez, em 2013, Galindo detalhou na Folha de S. Paulo as duras partidas de xadrez que travava com Tezza. “Começamos jogando no nosso gabinete, no conjunto da Reitoria da UFPR”, escreveu o tradutor. “Lá o esquema já era o da correspondência. Eu tinha levado um tabuleirinho tipo caixa, de fechar, e cada um dava um lance, anotava numa planilha para compensar qualquer desacerto promovido pelo pessoal da limpeza e voltava dias depois para ‘reresponder’. Era divertido. E andava bem.”

Hoje os dois não jogam mais. Mas Galindo garante que Cristovão, embora amador, é de nível excelente e poderia jogar torneios em clubes. Sobre as marcas literárias do amigo e vizinho de apartamento, ele afirma que Tezza sempre pensa na literatura e tem um olhar atento de leitor sofisticado. “Não sei se existe hoje no Brasil algum outro romancista com uma linguagem tão delicada, sutil e sofisticamente singular quanto a que o Cristovão vem desenvolvendo mais ou menos desde O Fotógrafo (Record, 2004)”, diz. “É uma coisa sinuosa e gradual, que serpenteia entre a mente de um e de outro personagem e a participação do narrador. É uma prosa de uma flexibilidade e de um grau de invenção raríssimos”, finaliza.

 

ATENTO AO CONTEMPORÂNEO

Aos 70 anos de idade, Cristovão Tezza se mostra não só um grande escritor e pensador da literatura, mas também um observador e crítico do mundo contemporâneo. Os eventos atuais mais importantes geralmente aparecem em suas obras. A Tradutora (Record, 2016), por exemplo, traz o contexto da Copa do Mundo realizada no Brasil. Em A Tirania do Amor (Todavia, 2018), o panorama é a crise econômica e a Operação Lava-Jato. No recente Beatriz e o Poeta (Todavia, 2022), a história se passa durante a pandemia do coronavírus. Essa ligação do autor com informações factuais se deu muito por conta de sua imersão no mundo das notícias, durante o período de quase 10 anos em que escreveu artigos de opinião, crônicas e resenhas em veículos da grande imprensa, como Folha de S. Paulo, Veja e Gazeta do Povo.

Mais tarde, algumas dessas colaborações apareceriam em livros como Um Operário em Férias (Record, 2013) e A Máquina de Caminhar (Record, 2016). São textos curtos e diretos, que revelam o olhar atento do romancista-cronista e abordam temas como política, viagem e futebol. A missão de compilar e organizar as mais de 500 crônicas ficou a cargo do amigo Christian Schwartz. "Foi um trabalho desbravador. Tive de reduzir menos da metade do que ele tinha produzido, dar uma unidade ao livro e fazer um texto de apresentação que vendesse o Tezza como cronista, já que ele não era muito atuante nessa área”, explica o jornalista e tradutor.

A confiança de Tezza em Christian Schwartz é fruto de uma amizade que dura mais de 20 anos. Começou em 1994, quando o escritor lecionava Língua Portuguesa para Schwartz no curso de Jornalismo. O aluno já havia lido Trapo e Juliano Pavollini (Record, 1989) e queria muito conhecer o autor — que virou uma uma espécie de mestre, ajudando-o a abrir a cabeça para as várias possibilidades da escrita.

O contato mais pessoal se deu 10 anos após as aulas na universidade, depois que Schwartz voltou para Curitiba depois de uma viagem internacional. “Mandei uma correspondência pelo correio e ele me chamou para conversar na casa dele, demonstrando ser um dos melhores anfitriões da cidade. É algo comum para ele essa hospitalidade com os amigos, sempre convidando-os para beber e comer. E tive esse privilégio ainda quando era muito jovem. Estava meio perdido, queria abandonar a carreira na redação e seguir um outro rumo”, diz. O laço foi ainda mais fortalecido graças ao interesse dos dois pelo time do Athletico Paranaense. Segundo o jornalista, são nesses encontros que Tezza revela seu lado mais irracional, como torcedor fanático.

Depois do bate-papo de lançamento de Beatriz e o Poeta, Cristovão Tezza mostra mais uma vez o profissionalismo sempre citado pelos colegas do meio literário. Uma fila de leitores se forma, como se o autor fosse uma estrela da música ou do cinema, mas ele atende e dá autógrafos a todos, até o final. “O Tezza é o escritor da geração dele que certamente mais produziu. Mas nunca fez um livro caça-níquel. Sempre há um projeto, escrito com o propósito da literatura. Isso garante a relevância dele no cenário atual e é por isso que ele atravessa gerações de leitores”, afirma Christian Schwartz.