ESPECIAL | Batalha interior
29/09/2021 - 14:50

Recém-lançado no Brasil, livro de entrevistas Um Antídoto Contra a Solidão mostra as variadas facetas do cultuado David Foster Wallace

João Lucas Dusi

O norte-americano David Foster Wallace (1962-2008) é um escritor que, com uma dicção muito própria, tornou-se incontornável para os leitores dispostos a imergir em algumas das principais questões que moem o espírito da contemporaneidade. Além de um prosador de mão cheia, responsável por livros como o romance Graça Infinita (1996) e os contos de Breves Entrevistas com Homens Hediondos (1999), Wallace também concedeu entrevistas nas quais é possível notar como ele esteve comprometido com pensar a literatura de ficção e analisar problemas existenciais com seriedade, sem cair no conforto da ironia. Algumas dessas conversas estão reunidas no recém-lançado Um Antídoto Contra a Solidão, organizado por Stephen J. Burn e traduzido para o português por Sara Grünhagen e Caetano W. Galindo — que conversaram com o Cândido, junto com Daniel Galera, sobre as facetas desse autor que se suicidou aos 46 anos, na primeira década do século 21, depois de lutar contra a depressão a vida inteira.

O livro, lançado pela Âyiné, começa com um perfil escrito por William R. Katovsky em 1987, no qual se tem um vislumbre do jovem DFW (como costuma ser chamado por seus leitores), e termina com o famoso artigo “Os Anos Perdidos e os Últimos Dias de David Foster Wallace”, assinado por David Lipsky em 2008. “Uma boa entrevista ou um bom perfil ilumina tanto o escritor quanto a obra, de modo que fica mais fácil, depois de ler essas entrevistas, fazer perguntas objetivas a respeito dos paralelos entre a biografia de Wallace e essas obras de ficção — e, portanto, avaliar o impacto pessoal de Wallace na literatura americana”, anota o organizador no prefácio da obra.

 

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Foto: Divulgação

 

A coisa toda parece ser bem por aí. É claro que no trabalho de ficção existe toda uma reconstrução da realidade, uma forma única de processar as experiências da “vida real” e fazer dela um produto estético bem elaborado, mas muito do que Dave escreveu teve como matéria-prima suas próprias experiências: o vício em entretenimento, a depressão, o abuso de drogas, uma preocupação constante — neurótica? — em tentar perceber o outro, ao mesmo tempo em que é refém de uma fixação quase doentia por si mesmo (da forma talvez propositalmente desleixada de se vestir ao cuidado extremo com a forma com que ele se expressava, o que pode ser interpretado como empatia ou arrogância, se é que a redução pode ser assim tão simplista).

Sem muito medo de errar, dá para dizer que ele vivia uma tremenda batalha interior. Isso já preocupava até mesmo seu primeiro editor, Gerry Howard, responsável pela publicação do romance The Broom of the System (1987) e dos contos de Girl with Curious Hair (1988). “Eu nunca tinha encontrado uma mente como a de David”, conta Howard. “Ela funcionava num nível altamente impressionante, ele claramente vivia num estado hiperalerta. Por outro lado, eu sentia que a vida emocional de David estava muito atrás da sua vida mental. E eu achava que ele poderia acabar se perdendo na fenda entre as duas.”

Essa caótica impressão externa, que parece se manifestar em uma espécie de caos organizado em seu trabalho ficcional, é uma das marcas mais fortes que ficam da leitura das entrevistas de O Antídoto Contra a Solidão, do qual os trechos desta matéria foram retirados. “As coisas, na recepção da obra dele, sempre foram misturadas”, reflete Caetano Galindo, que trouxe Graça Infinita para o português e se tornou, na Universidade Federal do Paraná, um grande divulgador da obra de Wallace. “O fascínio pelo ‘pensador’, pela pessoa que refletia sobre o mundo, alimentava o fascínio pelo ficcionista, e vice-versa. E isso não só pra mim. Ele era de fato um sujeito que pensava através da ficção. E nas entrevistas às vezes você encontra até um ‘atalho’ pro pensamento dele.”

Todas essas questões existenciais, no trabalho curto ou de maior fôlego do DFW, são embaladas por uma prosa que, apesar de flertar com o coloquialismo e ser sombriamente bem-humorada, já que as piadas bobas eram um tipo de impulso contra o qual o autor lutava (assim como as notas de rodapé), apoia-se na recursividade. Os pensamentos são regularmente circulares, ramificam-se para um, dois ou mil lados, com frases gigantescas, no que talvez seja uma amostra de como a mente dele funcionava — o que não passou batido pela imprensa.

Em determinado momento da entrevista “A ‘História Infinita’: Herói Cult por Trás de Romance de 1.079 Páginas Curte o Hype que Ele Mesmo Atacou”, conduzida por Matthew Gilbert para o Boston Globe em 1997, o jornalista anota: “Em algum ponto do cosmos, observando o observador observar-se enquanto observa, falando sobre falar sobre falar, existe David Foster Wallace”. Essa forma estrambólica / engraçadinha de o pessoal escrever quando se trata de DFW, aliás, parece ter sido uma constante. Outro exemplo: em entrevista conduzida por Chris Wright em 1999, para o Boston Phoenix, na ocasião do lançamento de Breves Entrevistas com Homens Hediondos, o jornalista omite as perguntas do texto, deixando somente as respostas do Wallace, em uma tentativa de emular o estilo do livro.

 

Faces do sucesso
 

A fascinação pela figura de DFW, que até hoje angaria uma legião de devotos, não foi pouca. Quando da publicação de Graça Infinita, em 1996, os Estados Unidos viveram quase uma histeria em torno da obra — e há um “segredo” por trás do sucesso, mesmo que talvez não seja o motivo definitivo. A Little, Brown and Company, que lançou a obra, adotou o chamado “Plano Barulho” para promovê-la, e parte dele consistia em enviar cópias autografadas para figurões que pudessem endossar o livro.

Essa manobra, apesar de bem-sucedida comercialmente, teve certo peso para a mente do autor. O romance, afinal, tem muito de crítica à publicidade agressiva, e o próprio Dave se dedicou a esmiuçar esse assunto de trás para frente — com destaque para o que ele faz no ensaio E Unibus Pluram, analisando a maneira que a propaganda se apropriou da ironia para fazer desse recurso mais uma ferramenta de manipulação dos telespectadores.

É a velha “sinuca de bico”: por mais que Wallace soubesse que muitos dos elogios ao livro pudessem ser vazios, já que o hype foi tão instantâneo que não teria como o pessoal ter lido a obra inteira, ele não deixou de se regozijar com o reconhecimento. “Parte de mim fica extremamente satisfeita e recompensada, e parte de mim suspeita de uma armadilha — suspeita que de alguma maneira houve muita empolgação, mas que ninguém leu de verdade o romance e que as pessoas vão descobrir que aquilo ali na verdade é bem complicado”, disse o autor a Mark Caro, em entrevista de 1996, para o Chicago Tribune.

 

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Foto: Divulgação

 

Ainda sobre a questão da recepção, é bacana lembrar que a crítica literária Michiko Kakutani — muito respeitada, daquelas que batiam o martelo e meio que ditavam os rumos da ficção — fez parte do time da resistência ao escrever um texto que destoava completamente daqueles espalhafatosamente elogiosos. Entre outras coisas, a especialista do The New York Times considerou a narrativa uma “bagunça” e disse que ela se parece com uma escultura inacabada de Michelangelo. Não à toa, em uma entrevista de 2000, Wallace afirma que a “crítica da japonesa” ainda assombra seus sonhos.

Apesar desse soco na cara, o legado do escritor parece resistir. “Nenhum autor que eu conheça preencheu a vaga do Wallace, por assim dizer”, diz Daniel Galera, que, junto com Daniel Pellizzari, trouxe para o português os textos de Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio que Longe de Tudo. “A influência dele na literatura contemporânea como um todo pode ser vista sob a chave do que chamaram de ‘nova sinceridade’, uma espécie de desnudamento das vulnerabilidades psíquicas dos narradores, e também no sentido de estimular novamente a pesquisa formal, os jogos narrativos, a obsessão pelos detalhes e o questionamento do narcisismo e dos vícios relacionados à mídia e ao entretenimento.”

 

Legado e porta de entrada
 

É comum que o trabalho ficcional do DFW seja relacionado à autoconsciência, a uma forma de pensar que não se restringe ao maniqueísmo e tenta olhar com sinceridade para o outro. Para Galera, a prosa do norte-americano representou o “pináculo de certas tendências” e há uma explicação do porquê seu lugar não foi “preenchido”.

“Do ponto de vista formal, é muito difícil seguir fazendo o que Wallace fazia. A escrita dele era fruto de um ponto de vista e de uma mente muito particulares”, explica o autor de Barba Ensopada de Sangue (2012), lembrando que, apesar disso, depois da partida do DFW, “a literatura adentrou terrenos diferentes, sobretudo no que diz respeito a vozes que tinham menos visibilidade: mulheres, imigrantes, negros, minorias”.

Nessa mesma linha de raciocínio, há um comentário que Wallace gostava de fazer sobre si mesmo, elencando qualidades que facilitavam muito sua posição privilegiada de escritor bem-sucedido, mas não impediram que, em dado momento, ele se sentisse profundamente frustrado. “Eu era branco, classe média alta, indecentemente bem-educado, tinha mais sucesso na minha carreira do que teria direito de ter esperado e estava meio vagando”, conta em entrevista de 1996 a Laura Miller, repórter da Salon.

Para além das questões extraliterárias, há um legado que permanece. Para Galindo, Wallace “foi, acho que inquestionavelmente, o escritor que pensou de maneira mais profunda e mais original a prosa literária nas últimas décadas”. E, com relação ao livro O Antídoto Contra a Solidão, ele comenta: “Essas entrevistas são um lugar privilegiado para o leitor brasileiro encontrar essas ideias”, as de uma pessoa que encarou a ficção como “experimento e investimento ‘moral’, ‘ético’”.

A opinião de Sara Grünhagen, uma das tradutoras do livro, segue uma linha parecida. Para ela, que acredita que a potência do norte-americano estava em “chamar a atenção para o que nos cerca e nos afeta e que pode passar despercebido”, as entrevistas do volume são uma boa oportunidade para o público tanto “conhecê-lo quanto de reencontrá-lo”. “Espero que os leitores ditos iniciados também possam sentir o prazer que eu senti ao ouvir, de novo, a voz sempre atenta de Wallace ali”, completa.

 

João Lucas Dusi é redator do jornal de literatura Rascunho e do portal Bienal 360º. Publicou o livro de contos O Grito da Borboleta (2019). Vive em Curitiba (PR).

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