ENTREVISTA | Rogério Skylab
31/05/2021 - 16:35

O poeta das ruínas

O escritor e compositor afirma que vai continuar fazendo poesia mesmo depois de morto

João Lucas Dusi 

 

O compositor e poeta Rogério Skylab nasceu na puta que pariu e faz a poesia possível — pelo menos de acordo com versos de “Mar do Norte”, que integra a primeira parte do livro Debaixo das Rodas de um Automóvel. Publicada originalmente em 2006, a obra foi relançada pela editora curitibana Kotter no ano passado e traz, além de poemas antigos, ordenados por assuntos, uma breve seção de inéditos.

Apesar de escrever dentro da forma fixa do soneto (quatro estrofes, com duas de quatro versos e duas de três), a metrificação (contagem de sílabas poéticas) é feita com maior liberdade. Esse papo todo pode parecer muito técnico e — por que não? — chato, mas não é um assunto que foge à atenção de Skylab — fã do cânone literário mais tradicional (“Não faço a menor ideia do que seja Torto Arado”) e autor de “ensaiões” bem acadêmicos, reunidos em sua página no site Academia.  

O objetivo de Skylab com esses “sonetos falsos”, como ele os define em entrevista ao Cândido, é passar uma equivocada sensação exterior de leveza, fluidez. Na realidade, a intenção é que os versos escondam um “caldo de carne em putrefação”, em uma manobra que distancia sua produção da poesia árida de João Cabral, por exemplo, um de seus autores de cabeceira — ao lado de Machado de Assis, Leminski, Guimarães Rosa, Henry James, os irmãos Campos e Décio Pignatari. 

Há todo um mecanismo de opostos em funcionamento, e esse parece ser um dos pilares do projeto estético de Skylab — “uma aparente simplicidade de algo extremamente complexo”. “Há uma sedução pela informalidade, pela solução fácil. É quase uma propaganda de TV”, diz o carioca a respeito de sua própria poesia, um gênero que promete praticar mesmo depois de morto. 

 

Por que escolheu o soneto como sua forma fixa de fazer poesia? 

O conceito do livro Debaixo das Rodas de um Automóvel é o soneto falso. Uma falsa aparência de soneto: por fora é uma coisa, por dentro é totalmente outra. Em um dos poemas, falo da poesia-água, em contraposição a João Cabral. Não tem cheiro e não tem cor. Só depois que a gente vê o efeito: “Não era água que tomávamos / Era caldo de carne em putrefação”. Esse sentido de falsa aparência é muito importante nesses poemas. Uma sensação de leveza, fluidez, na primeira leitura. Em outro poema, falo de um passageiro lendo os poemas durante a viagem do metrô. É o contrário da prosa de Guimarães Rosa, é o contrário do poema árido de João Cabral. Há uma sedução pela informalidade, pela solução fácil. É quase uma propaganda de TV.

 

O livro abre com o poema “Minha casa” e fecha com “Ruínas”. Além disso, há sequências que tratam do mesmo assunto — os mais urbanos, os metapoéticos. Como foi pensada a estrutura da obra?  

Essa estrutura foi construída na primeira edição do livro, da qual não participei. Te confesso que não vi com bons olhos essa sequência por assuntos. Por outro lado, ela também não atrapalhava. Deixei o editor livre. Qualquer sequência, mesmo a mais aleatória, não interferiria no conjunto dos poemas. Deixei que a editora ordenasse pela sua ótica, seguindo sua lógica. Não foi a minha, que não obedeceu nenhum sentido. Os poemas estavam ali para serem embaralhados como bem o desejassem. O fato de o primeiro poema ser “Minha Casa” e o último, “Ruínas”, não obedeceu a nenhum plano estratégico. Até porque o livro é dividido em duas partes: a primeira segue rigorosamente a ordem da Rocco — achei interessante não interferir, como se fosse uma espécie de colagem; já a segunda, de inéditos, foi uma sequência minha. Eu só podia terminar com “Ruínas”.

 

Os poemas inéditos de Debaixo das Rodas parecem mais metafóricos, densos, do que os anteriores — de linguagem mais direta, me parece. Sua forma de se expressar foi mudando com o tempo? O que te influencia?

Os poemas inéditos foram escritos numa época diferente dos poemas restantes. Isso significa fundamentalmente leituras diferentes. Escrevo o que leio. Outra coisa importante: os poemas não inéditos são muito antigos. É possível que entre eles haja uma unidade formal e temática, ao contrário dos inéditos. Por outro lado, em alguns poemas inéditos, como “Ruínas”, abandono um excesso de lirismo que estava muito presente nos poemas não inéditos. 

 

Muitos sonetos do teu livro expressam uma certa desconfiança com relação à poesia. Acha que esse gênero é um “inutensílio”, como definiria o Leminski? 

Não posso deixar de citar Leminski. Eu cheguei a escrever um ensaio sobre a poesia dele — está na minha página no site Academia. É curioso, porque já vi críticos literários renomados, como é o caso da Flora Süssekind, tendo uma espécie de má vontade para com o Leminski. Quando li Catatau, fiquei maravilhado — cheguei inclusive a escrever uma música em homenagem a essa narrativa experimental, que está no disco Nas Portas do Cu (2019) e leva o nome do romance. Acho, inclusive, que é o seu ponto alto na literatura. Mas com seus poemas me identifiquei completamente. Não quero dizer que os versos de Debaixo das Rodas tenham a experiência de linguagem do primeiro livro de Leminski — até porque nele há a marca irrefutável do concretismo. Os meus poemas se aproximam dele quando, em outros livros, a poesia de Leminski flerta com a publicidade e fica mais direta, mais bem-humorada, mais leve.

 

O lançamento de Lulismo Selvagem e a reedição do Debaixo das Rodas de um Automóvel aconteceram juntos. O que te levou a relançar os poemas depois de tanto tempo? O conjunto tem alguma espécie de mensagem, na falta de palavra melhor, para nossos tempos?

Não. Foi uma proposta da Kotter, que se interessou inicialmente pelo Lulismo Selvagem. A editora é muito ligada ao PT. E meu livro, pelo título, aparentemente é ligado ao PT. Na verdade, é um conjunto de ensaios políticos contemporâneos. E um desses ensaios se chama justamente “Lulismo Selvagem”, que aborda, de forma positiva, os movimentos de rua de 2013. Para você ver que a coisa não é tão simples assim. Foi na conversa com o editor, o Sálvio, que veio à baila o livro Debaixo das Rodas de um Automóvel, que só tinha tido uma edição pela Rocco, rapidamente esgotada. O fato é que a editora não se interessou em fazer novas edições e muita gente vinha me perguntar pelo livro. Foi aí que a Kotter resolveu também editar os poemas.

 

Quem surgiu antes, o Skylab cancionista ou o sonetista? Essas formas de expressão conversam?

Bem, primeiro quero te dizer que aqui não tem nenhum sonetista. Inclusive, meu próximo livro de poesia não tem nenhum soneto. Em segundo lugar, como já disse, o que tem em Debaixo das Rodas de um Automóvel é só soneto falso. E em terceiro lugar, a forma canção está morta e sepultada faz tempo. Eu só faço canção porque gosto de ruínas.

 

Já ouvi você dizer que sua produção musical é sempre muito cerebral, difícil de parir. O mesmo acontece com a poesia? Como é seu processo de escrita, em geral? 

O que eu quis dizer é que muitas vezes uma canção simples, como “Sem Freio”, do meu disco Nas Portas do Cu, é extremamente complexa e custa a sair. Leva anos pra sair. Mas quando sai é na velocidade da luz. Ou seja: uma aparente simplicidade de algo extremamente complexo. E na literatura é a mesma coisa. Se eu não estiver lendo, nem estudando, certamente não vou escrever poesia nenhuma.

 

Na entrevista que concedeu à revista da BPP, Helena, em 2018, você disse que ficava regularmente das 16h até por volta das 20h na biblioteca da PUC. Como foi adaptar essa rotina na pandemia? 

Opa. Essa pergunta foi foda, hein?! Foi lá no âmago. Eu tô me adaptando a estudar em casa com uma mulher faladeira. Entendeu?

 

O isolamento social teve algum efeito na sua produção literária? 

Sim. No início, fiquei muito mal. Porque gosto de sair, de andar nas ruas, de bibliotecas... E, de repente, me vi no interior do país, num sítio isolado. Nossa, fiquei muito mal. Mas isso também foi passageiro. Rapidamente me adaptei a uma nova rotina. Ficava sozinho numa casa na cidade de Leopoldina (MG), não no sítio que era próximo. E aí organizei a minha rotina. Foram os dias mais felizes da minha vida. Estudei muito. Li Jean-Luc Nancy, que não conhecia. E li muito pelo computador baixando textos em espanhol. Fora isso, compus mais de 60 canções em 60 dias. Quando cheguei ao Rio tratei de escolher umas 20, dessas compostas em Leopoldina, e gravei um disco lindo. Mas só vou lançá-lo no fim do ano. 

 

Qual ramo é mais brutal com o artista underground? O literário ou o da música? 

Sabe, tenho dificuldade de me reconhecer como artista underground. Vivo uma semiclandestinidade. E isso pra mim é tão importante. Só consegui produzir a minha extensa discografia em função dessa semiclandestinidade. A mesma coisa em relação aos meus ensaios. Mas tenho dificuldade de me reconhecer como underground... talvez porque essa palavra tenha uma ressonância punk ou beat, e não me sinto ligado a nada disso. Por outro lado, frequento a mídia já há um bom tempo. Como que um artista underground pode ir ao programa do Danilo Gentili ou ao Pânico da Jovem Pan? Como que um artista underground pôde frequentar tanto tempo o Programa do Jô? Só não vou ao Bial porque ele não gosta de mim. E nem eu dele.

 

Acha que, no Brasil, a opinião do escritor enquanto cidadão está ganhando relevância novamente? Como no caso do Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado, que recentemente participou do Roda Viva

Sabe, o meu cânone literário é mais clássico. Talvez seja um defeito da minha parte. Não faço a menor ideia do que seja Torto Arado. Assim como não faço a menor ideia de quem seja Anitta. Quem é Anitta?

 

Como foi sua experiência no curso de Letras? E o que pensa da abordagem acadêmica da literatura de ficção?

Foi a melhor possível. Estou com Gumbrecht, no seu estudo Produção de Presença: a universidade é um espaço experimental e a experiência não presencial, que tem predominado durante a pandemia, jamais substituirá o professor em sala de aula. A universidade deve ser acessível a todos, mas a experiência universitária se difere do lugar-comum. Quanto à abordagem acadêmica da literatura de ficção, acho riquíssima. Uso direto os artigos acadêmicos de intelectuais que não são estrelas. São espécies de operários acadêmicos. Tenho por eles o maior respeito.

 

Seu blog Godard City parece meio parado. Tem algum daqueles seus “ensaiões” a caminho? Como é o processo dessa escrita mais acadêmica? 

Os meus ensaios foram remanejados para minha página no site Academia. Realmente, o blog tenho usado menos. Mas algumas críticas a respeito de meus discos têm sido publicadas no blog. Uma das coisas mais prazerosas, pelo menos pra mim, é escrever “ensaiões”. E escrevi alguns muito importantes.

 

O Facebook ainda é seu laboratório literário? Você pensa no público da internet na hora de escrever — as reações, likes, comentários (raivosos ou positivos)?

Ah, sim. Adoro redes sociais. Desde quando as vi pela primeira vez. A possibilidade de escrever de tudo, sem autocensura, bobagens e altas filosofias. E como tudo fica registrado, constatar as contradições ao longo dos anos. Vi muita gente boa, inclusive escritores importantes, sentando a pua nas redes sociais. Chico Buarque não sabia que era tão odiado, ficou em choque. Muito interessante esse momento em que ele revela o isolamento da estrela. Ora, muita gente o ama e muita gente o odeia. Acabou o filtro, a proteção das estrelas. Nas redes sociais você será ofendido, será exaltado, será dissecado pelos anônimos — muitos cheios de ódio e ressentimento. Não importa. Essa é a nova categoria: o anônimo. A quem eu chamo “Ninguém” em várias das minhas canções. O velho jornalista, formador de opinião, não existe mais.

 

Volta e meia você compartilha narrativas ficcionais de maior fôlego no Facebook. Pensa em lançar um livro de contos ou um romance?

Bem, algumas dessas narrativas fazem parte de algum livro ainda não lançado. Outras são produzidas no calor da hora — e são tão importantes quanto aquelas, mas serão esquecidas. Mas é isso, é exatamente isso: é a experiência do desperdício, do anonimato, do que não vai durar, da não obra. É a experiência do instante. Nunca lemos tanto como atualmente, mesmo que de forma inconsciente. 

 

Quais são seus autores e livros de cabeceira, aqueles que tiveram um impacto incontornável na sua forma de ver a literatura e a poesia?

Na literatura, Machado de Assis e Guimarães Rosa. Na poesia, o concretismo, mais especificamente falando, Augusto e Haroldo de Campos. E Décio Pignatari. Acho que João Cabral também pode ser incluído. E Paulo Henriques Britto também, a quem entrevistei no programa Matador de Passarinho. Sei lá, não gosto de citar listas. Na verdade, odeio listas. Mas esqueci Henry James, talvez o maior de todos.

 

A literatura e a poesia produzidas depois dos anos 2000 te interessam? Qual foi o último autor que te fisgou? 

Ninguém me fisgou. Nem Nuno Ramos.

 

Mesmo que velhos e criancinhas te achem maluco, você vai continuar fazendo poesia? 

Sim. Mesmo depois de morto.

 


João Lucas Dusi é redator do jornal de literatura Rascunho e do portal Bienal 360º. Publicou o livro de contos O Grito da Borboleta (2019). Vive em Curitiba (PR). 

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