ENTREVISTA | Luís Henrique Pellanda
28/06/2021 - 12:16

Um cronista em isolamento

Acostumado a flanar pela cidade, Luís Henrique Pellanda lança Na Barriga do Lobo, livro produzido durante o período de quarentena

Luiz Felipe Leprevost e Fabiano Vianna


Luís Henrique Pellanda é considerado, por leitores e críticos, um dos principais renovadores da crônica no país. Falar de seu trabalho é se remeter ao flâneur, aquele que volta o olhar atento e demorado para tudo o que a cidade movimenta e faz acontecer. O autor exercita a dialética da intimidade e da distância, é aquele que chega perto para ver melhor e se afasta para pensar melhor.

Tencionando densidade e delicadeza, lirismo e crueza, com a poesia a percorrer seu texto como os rios invisíveis — Ivo, Belém, Água Verde, Juvevê — percorrem os subterrâneos da região central, Pellanda avança num esponjoso corpo a corpo com Curitiba. Empático com excluídos, com pessoas em situação de rua, com marginalizados, o cronista não se furta a, como disse sobre ele a poeta Mariana Ianelli, “doer com o outro”. Seus personagens são ao mesmo tempo reconhecíveis e anônimos, todos e ninguém, trânsfugas e enraizados na metrópole.

Formado em Jornalismo — com passagens por redações de veículos locais —, Pellanda iniciou sua trajetória como escritor em 2009 com o livro de contos O Macaco Ornamental (Bertrand Brasil). Após a estreia, o curitibano publicou, pela Arquipélago Editorial três títulos de crônicas: Nós Passaremos em Branco (finalista do Prêmio Jabuti 2012), Asa de Sereia (2013) e Detetive à Deriva (2016). Em 2018, também pela Arquipélago, retornou aos contos com A Fada Sem Cabeça. No ano seguinte, pela editora Positivo, publicou Calma, Estamos Perdidos, antologia do melhor de sua produção até o momento.

Em seu mais recente livro Na Barriga do Lobo (Arquipélago, 2021), ouvimos alarmes e ambulâncias ao longe, latidos de cães presos em estacionamentos vazios. Há um crescente aumento do estresse, das tensões, dos pesadelos. As tragédias que o país vive atravessam portas e janelas. Agora não mais percorrendo as ruas, em isolamento, o cronista segue captando o que o cerca, vestígios dos vizinhos, fragmentos de cenas da selvageria urbana avistadas a partir dos orifícios do lobo. Há um certo ódio que vem de dentro dos apartamentos, uma onda de tensão e raiva que, embora encerrada entre paredes, vaza. Algo que chamou de “um certo caos incorporado”.

Na entrevista a seguir, Pellanda discute as mudanças impostas ao seu ofício pela pandemia, fala sobre seus projetos atuais e conta como surgiu a ideia de criar um diálogo com as fábulas e cenas dos livros infantis.

Há alguns anos você largou o jornalismo para se dedicar exclusivamente à literatura. Num país em que mesmo o jornalismo e, ainda mais a literatura, são pouco valorizados, sem dúvida foi uma opção corajosa. O que levou você a tomar essa decisão?

Nunca decidi largar o jornalismo. Precisei fazer isso gradativamente. Deixei de ser repórter de redação porque, do ponto de vista financeiro, há duas décadas me vi num beco sem saída. Abri uma assessoria de imprensa que, aos poucos, sem que houvesse um planejamento específico para isso, tornou-se uma produtora de espetáculos. Ao mesmo tempo, porém, continuei trabalhando como jornalista no meio literário, no Rascunho e em outros veículos, como o Suplemento Pernambuco, entrevistando autores, ou então mediando debates por aí. Foi assim até eu conseguir lançar meu primeiro livro, de contos, O Macaco Ornamental, em 2009. A partir de então algumas portas mais promissoras foram se abrindo e aproveitei para mudar de cômodo. Escrever literatura era meu objetivo desde a infância. E minha situação como escritor acabou se tornando mais estável, no sentido profissional, do que minha situação anterior, de jornalista. A literatura no Brasil pode até ser menos valorizada que o jornalismo, mas isso também a torna menos visada, menos vigiada que a profissão de repórter ou articulista. O que não chega a ser uma vantagem.
 
As suas crônicas têm uma estrutura bem definida — com praticamente o mesmo tamanho, ritmos semelhantes. Este resultado serial foi premeditado em sua trajetória ou se trata de um efeito colateral de quem escreve para jornal e se vê obrigado a trabalhar dentro de formatos pré-determinados?

A questão do ritmo tem a ver com o desenvolvimento da voz do personagem, das características do narrador, o flâneur que escolhi para representar a mim mesmo. É algo que foi se desenhando com o tempo, ano após ano, a partir de diversas experimentações, tentativas, equívocos e, assim espero, acertos. Quanto ao tamanho, sim, quando eu escrevia em jornais e revistas de papel, havia um número predeterminado de caracteres disponíveis para o meu texto. É uma limitação positiva a meu ver, que força o cronista a apurar tanto a escrita quanto o seu modo de pensar, como alguém que precisasse lapidar uma joia bruta a fim de torná-la mais sutil, ou de fazê-la caber num anel mais delicado, menos ostensivo. É quase como divagar com o cronômetro ligado, com hora para acabar. Exige treino de sensibilidade e técnica.

A crônica que abre o seu livro Nós Passaremos em Branco (Arquipélago, 2011), começa com a frase: “Na Pracinha do Amor, sou eu o homem com a menina no colo.” Desde então, muitas das suas crônicas são acompanhadas por suas filhas. Em que medida elas ajudaram e ajudam o cronista a enxergar melhor e além do óbvio?

A frase com que abro o meu primeiro livro de crônicas foi planejada como uma espécie de cartão de visitas. Lembro que, ao organizar essa antologia, no início de 2011, pensei em definir meu personagem logo de cara, na frase de abertura do livro. Fico feliz que tenham notado. O cenário onde a maior parte das narrativas vai se desenrolar, seu palco principal, já está dado: a Pracinha do Amor. É ali que aquele homem comum, em várias medidas desimportante, essa representação literária do cronista real, vai vivenciar novas experiências através do filtro ainda limpo de uma paternidade recém-adquirida. Não me agradava a ideia de retomar a figura clássica do flâneur europeu, afrancesado, aquele indivíduo que vaga sem rumo e sem compromisso por uma cidade grande, observando à parte tudo que o cerca. Preferi atualizar o personagem, aproveitando minhas rotinas de pai e pedestre. Afinal, eu não andava pela rua ao deus-dará, e sim porque precisava deixar minha filha na creche, porque precisava voltar ao trabalho, porque me faltava tempo para tudo. E também porque vivia, por meio de uma paternidade obrigatoriamente mais participativa, diferente do modelo seguido pelas gerações anteriores à minha, um novo tipo de impotência diante de uma cidade violenta e ressentida, predisposta ao neofascismo que tomaria corpo entre nós, curitibanos, a partir daqueles anos. Minha segunda filha surgirá somente no terceiro livro da minha série de crônicas, que agora, com o lançamento de Na Barriga do Lobo, chega ao quinto volume. Nesse sentido, o papel das meninas, enquanto arquétipos literários, é o de guiar o pai em direção a um futuro possível, menos opressivo, mais inteligente e sensível, expulsando o típico protagonista literário masculino, de meia-idade e de classe média, do centro da narrativa e do comando ilusório de seu próprio mundo. É sobre esse reposicionamento que escrevo.

Numa live recente você disse que o menino que você foi ainda habita o corpo do cronista. E falou sobre certo “componente de ingenuidade que a gente tenta subverter”. Você tem receio que este menino, em algum momento, não esteja mais com você? O que aconteceria se ele o abandonasse?

Não tenho esse receio. Não creio que a criança que já fomos possa nos abandonar. Talvez alguns de nós até desejem isso, tentando esquecê-la. Mas não, uma lacuna como essa não nos traria proveito algum. Meu pai, que tem 83 anos, cada vez mais me fala do quanto a vida passou rápido diante dele, e que a sensação de ainda ser um menino do Umbará se torna, a cada dia que passa, mais forte e incontornável. Ao mesmo tempo, é sempre ridículo flagrar um homem adulto se comportando como um menino. Estamos falando aqui do respeito que devemos à memória do ninho abandonado, ao que passou, ao que nos construiu como somos, e até mesmo àquilo que nos arruinou. Não devemos esquecer de onde viemos e do que fomos forjados. O menino renitente da crônica é só um símbolo, uma âncora, um lembrete da consciência, e como qualquer coisa viva um dia ele também deverá morrer, ele precisa morrer. O que não significa que terá ido embora. Em alguns, o menino permanece como guia; em outros, como fantasma.

No conto “A aventura de um fotógrafo”, no livro Os Amores Difíceis, do Italo Calvino, os personagens só vivenciam de verdade os momentos que fotograram quando, finalmente, se deparam com as fotos reveladas. Como se a realidade dos acontecimentos só pudesse ser vivenciada depois de terem acontecido. Também acontece com você, isso de só experimentar o real sabor do vivido depois da crônica escrita?

Muitas vezes uma cena de rua me chama a atenção por motivos quase irracionais, ilógicos. Algo vago, indefinível, me atrai em determinada pessoa: um modo de andar ou de agir, uma frase dita a mim, de passagem, a maneira de falar de um desconhecido, sua beleza ou sua feiura. Algo que me servirá de base para a criação de uma personagem. Falo de atração mesmo, uma impressão ligeira, próxima da paixão, e que antecede — ou ultrapassa — o razoável. Quando posteriormente transfiro essa personagem da esfera das ideias para o planisfério do papel (escrevo à mão), quando reconstruo por escrito o episódio por ela protagonizado, primeiro me interessa narrar e / ou ordenar o acontecido (mesmo que ele tenha se passado, em boa parte, na minha imaginação). Impera, nesse momento, o aspecto técnico, fabulador, funcional, urgente de se contar uma história, de passar adiante o bastão da linguagem. Eu escrevo um texto, portanto, e depois o releio. E é nessa releitura que, em geral, me é desvelado o sentido maior do que vi, ordenei e relatei, o porquê daquela narrativa haver me atraído, o significado mais profundo daquilo que, como escritor, posso e devo compartilhar com os leitores. E é a partir disso, dessa descoberta de uma significação concreta, que reescrevo minha crônica e sinto que posso ou não publicá-la.

Você faz anotações em suas andanças ou registra tudo na memória e só depois coloca no papel?

Não faço anotações. O que vale a pena retrabalhar fica retido na rede da minha memória. Feito um peixe se debatendo, chamando a atenção para si próprio. Mesmo que se aquiete por uns dias, que pareça morto, acaba voltando à vida num arranco, como ideia nova. Se não for assim, é melhor deixá-lo escapar.

Acontece com você de estar praticamente invisível, observando alguma cena, e então ser “sugado” para dentro dela, transformando-se em personagem de si mesmo? Ou você prefere, necessariamente, impor-se um distanciamento estratégico das cenas?

Quase sempre somos ou estamos invisíveis. Na realidade, é muito difícil que nos notem. Por isso acabo agindo de um modo diferente, diametralmente oposto ao do escritor que busca esconder-se. Não é necessário. Às vezes até me coloco na cena, me aproximo dela para tomar parte daquilo, forçar uma interação com os outros, ouvir da boca de um possível personagem a sua versão para o absurdo que é a vida. Falo em absurdo porque, apesar do horror e da beleza que caracteriza a existência comum, é corriqueiro que considerem o cotidiano, matéria-prima do que se chama crônica literária, algo banal, de uma vulgaridade rasteira, menor. Para mim é o contrário. Não entendo o dia a dia como banalidade. A estratégia do cronista, a meu ver, precisa ser interativa. Ele não pode se dar ao luxo de se imaginar alheio ao mundo subjetivo que retrata.
 
É chamado de dendrólatra aquele que adora árvores. Rubem Fonseca, um reconhecido dendrólatra, tinha um ipê de estimação numa praça do Leblon. Em função dos protestos e cuidados do autor, no período da construção do metrô, a árvore foi retirada de onde estava e transplantada em outra área, sã e salva. Você tem alguma árvore de estimação — que visita e se conecta de alguma forma?

Já escrevi uma crônica sobre a dendrolatria de Rubem Fonseca, “Suaves desistências”. Nesse mesmo texto eu enumerava as árvores que costumava visitar em vários pontos da cidade, anos atrás. Alguns hibiscos na Prudente de Morais, dois manacás na mesma rua, um mamoeiro ao lado do Café do Estudante, os jacarandás do Passeio Público. Também frequentei, várias vezes, uma cerejeira ao lado do Cemitério Luterano, dentre todas a minha favorita. Gosto muito dos ipês e de uma das figueiras da Praça Tiradentes. Mas tenho, sim, uma árvore de estimação, com quem me relaciono intimamente desde a infância. Na crônica “Araucária no deserto”, falo especialmente dela. Ela vive no Capão Raso, bem perto da casa onde cresci. Colhi muitos pinhões à sua sombra. Sinto que, devido ao avanço dos prédios na região, está cada vez mais próximo o dia de sua queda, e isso, para mim, é motivo de constante preocupação.

Com as exigências de isolamento e distanciamento durante a pandemia, o que mudou no seu processo de escrita?

Em relação às crônicas, mudou tudo. Não ando mais pelas ruas como antes e, por isso, pouco tenho a dizer sobre elas. Na verdade, praticamente não saio de casa, cumpro rigorosamente as medidas de isolamento, pois tenho o privilégio de poder trabalhar em casa, sendo que minhas filhas não vão à escola presencialmente desde março do ano passado. Na opinião do nosso presidente, portanto, somos uma família de idiotas. Quanto à escrita de contos, porém, nada mudou. Ou antes: estar isolado acabou me dando mais tempo para ler e escrever. O que está bem longe de ser algo positivo. O mundo real sempre há de fazer falta a quem está vivo.

Você ficou aproximadamente um ano sem escrever. Por quê?

Não fiquei sem escrever. Durante o ano passado escrevi um novo livro de contos, O Caçador Chegou Tarde, que já foi entregue à editora e deve sair, se tudo der certo, no ano que vem. Apenas deixei de publicar crônicas entre abril de 2020 e abril de 2021. Minha decisão de tirar férias como cronista tinha, a princípio, um caráter simbólico. Minha última crônica publicada, “As ruas perdidas”, deixava isso claro, era uma despedida temporária. Para mim, enquanto durasse a pandemia, o flâneur também deveria adotar as medidas restritivas necessárias, isolar-se em respeito à vida, à saúde de todos, ao luto de muitos. Assim, fiquei em casa, olhando a cidade pela janela. E aproveitei a brecha para me dedicar, com mais tempo, a outro gênero.

Na crônica “O Alarme”, do seu recém livro, Na Barriga do Lobo, você diz que alarmes remetem à fera. Se o lobo é o medo com o qual estamos sendo obrigados a conviver durante a quarentena, quem está nos papéis do caçador e da Chapeuzinho?

Não acho proveitoso esmiuçar uma metáfora. Isso pode empobrecer a interpretação dos leitores, ou mesmo indispô-los a tentar interpretá-la. Posso dizer, no máximo, que a Chapeuzinho Vermelho, ali, é qualquer um que hoje esteja se sentindo oprimido, digerido, desrespeitado, ofendido, individual ou coletivamente. Já o caçador é uma figura dúbia, ambígua. Só saberemos quem ele é, e qual sua polaridade, quando ele estripar o lobo e nos tirar de dentro dele. Isso se ainda estivermos vivos ou minimamente reconhecíveis.
 
Seu próximo livro, O Caçador Chegou Tarde, seguirá esta linha de diálogo com a tradição das fábulas?

Sempre gostei de contos de fadas, de mitos e de fábulas e, de certa forma, sempre retrabalhei na literatura os seus conteúdos e as suas fórmulas. No caso de O Caçador Chegou Tarde, sim, repetirei esse diálogo com a tradição fabular, só que, dessa vez, de um modo ainda mais direto, inclusive com alguma ênfase nas narrativas de sonho. O livro conta com quase cem contos, em sua maioria curtos, muito próximos do formato que já usei no meu livro anterior do gênero, A Fada sem Cabeça, em especial naquela seção chamada “Pesadelos possíveis”. Para quem conhece a obra, trata-se daqueles textos breves incluídos nas páginas centrais do livro, azul-escuras, como se representassem a parte noturna, onírica, daquele conjunto de histórias.
 
O que esperar do futuro em nosso país? A sociedade brasileira conseguirá sair da barriga do lobo?

Difícil dizer. Espero que sim, embora o processo de digestão já me pareça adiantado demais. De qualquer modo, alguma coisa forçosamente sairá desse ventre intoxicado. A questão que me parece mais emergencial, porém, é outra: em que estado a sociedade brasileira se encontrará, então?
 
Diante de tal panorama, de crise social e política, o cronista tem alguma obrigação? Qual? 

Posicionar-se e escrever. E manter livre o trânsito na ponte de mão dupla que caracteriza a recepção da crônica. Sob o aspecto político, a grande vantagem do cronista em relação aos outros escritores é o contato aberto, facilitado e em tempo real que ele mantém com o seu leitorado, bastante diversificado e complexo. O cronista tem que saber reler-se pelo filtro dos outros, mesmo que esse filtro seja o ódio.
 
Que tipo de liberdades e de impedimentos oferecem ou exigem de você cada um destes dois gêneros literários — conto e crônica?

Acho que não há impedimentos relevantes. Cada gênero, claro, segue um conjunto de diretrizes mais ou menos fixas, às vezes intercambiantes, mas ambos nos dão a liberdade necessária para que não tenhamos desculpas para nossos eventuais fracassos e covardias. A crônica apenas exige de seus cultores que seja publicada em veículos de circulação flutuante, jornais, revistas, blogs, redes sociais, antes de ser editada em livro. Isso dá a ela um poder insuspeitado, o de auferir a temperatura de parte da sociedade no momento mesmo em que o escritor a examina. A crônica também pede ao seu autor alguma brevidade e um contato maior com o que pode ser tomado, por alguns incautos, como o “real”, o “fato”, a “verdade”. Outra coisa importante: na crônica, se você usar a primeira pessoa, precisa assumi-la como sendo sua. O narrador da crônica se confunde com o próprio autor. No conto não. Um contista pode criar várias vozes narrativas sem manter, com elas, ligação pessoal alguma. Sob esse aspecto, o cronista sempre estará mais exposto. 
 
Falando em gêneros literários, há a presença do lirismo na sua escrita. Ainda assim, em mais de uma ocasião, você disse ter desistido há muito de ser poeta. Também afirmou, numa live recente, que o formato das suas crônicas vem mudando. De uns tempos para cá, elas estariam se movendo para algo mais fragmentado, menos narrativo. Estaria o seu texto dizendo “me deixe ser poesia”? No fundo, você não seria um poeta disfarçado de cronista?

Gostei disso do texto se rebelar contra a própria forma, pedindo para se tornar poema. Mas acho que não. No caso específico dessa fragmentação de que falei, ela tem a ver com o fato de que, num momento como este, de interdições políticas, de impasse e indignação, de luto e violência, de mentira, impotência e náusea, a sensação que nos passa o ambiente insalubre circundante pode ser resumida naquela frase que Chinua Achebe usou como título de um de seus melhores livros: o mundo se despedaça, things fall apart. Se não temos mais ruas por onde andar livremente, ou com segurança, é necessário que o texto do flâneur reflita essa falta de fluidez, de leveza, de alegria, de normalidade. Por isso o texto despedaçado, ou a crônica aos pedaços.
 
No que consiste o conceito da “crônica de exceção” que você cunhou recentemente?

Não sei se posso dizer que cunhei um termo, ou mesmo que haja um conceito rigoroso para ele. Ao que me lembre foi mais uma improvisação minha durante uma conversa com uma amiga, a fundamental poeta Mariana Ianelli. Falávamos da corrosão da vida sob um Estado autoritário, incapaz e maligno, e então comentei, no calor da informalidade, que para retratar regimes de exceção seria preciso que escrevêssemos crônicas de exceção. Por isso o caráter anômalo, digamos assim, da minha nova série de textos publicada no jornal Plural. Tenho escrito crônicas indoor, aos pedaços, com parágrafos numerados, pulando de galho em galho temático, misturando observações políticas, rotinas domésticas, apontamentos de leitura, lembranças de infância e juventude, reminiscências históricas. Tudo se dá longe da rua, treze andares acima do asfalto. O cronista aí, excepcionalmente, não desce ao rés-do-chão, a convivência com seus contemporâneos lhe é proibida, mas isso não o impede de espreitar sua época do alto de sua torre. Até quando? Essa, sim, é a pergunta premiada.
 
Há (ou havia) em Curitiba presenças literárias — Dalton Trevisan, Leminski, Manoel Carlos Karam, Jamil Snege, Wilson Bueno — das quais jovens autores dificilmente escapariam da influência. Você também passou por eles? Sente-se tributário de certa, se é que podemos chamar assim, tradição, ou se vê mais apartado dela?

Passei, sim, por todos esses autores indesviáveis, em especial Leminski, na adolescência, e Dalton, que hoje é meu vizinho. Sou tributário dos cinco, como sou de tudo o mais que li e de algum modo me transformou. Acho impossível, ou no mínimo indesejável, pôr-me à parte das “escolas” fundadas por cada um desses artistas, pois, apesar de ser possível a um grande autor criar uma obra forte e original sem nunca ter lido ou seguido os passos de seus precursores, sei que ele só terá a ganhar quando lê o que há décadas ou séculos se vem escrevendo sobre a cultura de onde ele próprio emergiu. É necessário lê-los e respeitá-los, nem que seja para conhecer um a um os seus pontos fracos e então revisá-los, nem que seja para um dia matá-los e, assim, tentar entronar sua própria dinastia. Não me interessa, contudo, esse tipo de relação de poder. Sou leitor, e não golpista. Precisamos de mais leitura e de menos golpes.

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