ENTREVISTA | Luci Collin
30/08/2021 - 17:31

Em voz alta

Em Dedos Impermitidos, seu novo livro, Luci Collin cria um mosaico combativo e engenhoso, que desenha o nosso cotidiano abismal

Por Jonatan Silva

A literatura da curitibana Luci Collin é uma experiência de enigma e de diversão, que esconde o absurdo e o óbvio de um cotidiano, mais e mais, marcado pelas irrealizações e pelas rupturas. Entre um riso para dentro e uma ludicidade bem engendrada, os contos de Dedos Impermitidos, seu livro mais recente, exploram os abismos que dão forma e corpo ao dia a dia. São textos que usam da inventividade para investigar e tentar encontrar dimensões invisíveis aos olhos acostumados a enxergar sempre as mesmas coisas.

Se Collin é uma mulher em trânsito, capaz de retratar a suntuosidade e o delírio desse trajeto, a ficção e a sua poesia são a força-motriz de uma jornada que compartilha com o leitor. Em entrevista ao Cândido, a escritora, cuja estreia está perto de completar quatro décadas, conversou sobre o seu processo criativo, os momentos de paralisia diante da pandemia e a literatura como pacto.

 

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Foto: Guilherme Pupo

 

Dedos Impermitidos é um livro que não foge à tradição da sua literatura de construir uma prosa que se transfigura em uma perspectiva poética. Em um país que produz tanta poesia, e tem muitos dos melhores poetas, mas não a lê, não a consome, vestir de prosa o verso, além de uma transgressão, é também a única maneira do poeta se manter de pé?

Estamos em um momento que é muito especial para a própria produção de poesia. É um momento de grande profusão. Temos muitos poetas escrevendo e publicando. As pequenas editoras também cresceram. A poesia está em um cenário que é muito diferente do que estava há, digamos, dez anos. Persistimos, justamente, nisso: tem muita gente escrevendo, mas poucas pessoas lendo. O poeta acaba escrevendo para outros poetas. Ainda assim, como escrevo ficção longa e curta, mas também poesia, e venho seguindo — desde o começo da minha carreira lá em 1984 — uma produção uniforme nos dois gêneros, eu encaro — e isso é uma coisa muito subjetiva — que o meu espaço com a poesia é bem definido. Já a minha ficção, que vai manter essas caraterísticas de poeticidade, é um outro espaço. Claro, está impregnada desses elementos poéticos, mas não vou para a ficção carregando deliberadamente os mecanismos da poesia.

A minha ficção vem de outra pulsão, porém, naturalmente não poderia forjar uma outra voz, que na poesia dá um tratamento de melodiosidade, de musicalidade e da rítmica. Isso é uma maneira minha muito espontânea e natural de escrever. São elementos que comparecem nas duas formas de produção, ainda que alguns deles existem na minha prosa, mas não na poesia.

Nesse livro, falo muito sobre morte e violência. É impossível você ficar indiferente a essa experiência única que estamos vivendo e todos os desdobramentos sinistros dessa nova percepção da realidade e das maneiras de nos relacionarmos. E confesso que, no começo da pandemia, foi muito difícil pensar em produzir algo, tanto que ano passado não publiquei nada. Eu até tinha textos bem avançados, mas não me interessei porque não estava dando conta. A demanda emocional da pandemia pegou, ao menos para mim, numa profundidade inesperada que demorei para reagir. A gente começa até mesmo a questionar o que um artista faz em um momento tão caótico, até chegar à compreensão de que é nesse momento que a gente precisa trabalhar ao máximo, escrever ao máximo.

Dedos Impermitidos tem essa demanda muito especial do momento de produção, as tantas formas de violência, mas tem um outro ingrediente: ele é, sem dúvida, o meu livro mais maduro. Eu não me afasto das escolhas que vinha fazendo desde sempre. Se pegar o meu primeiro livro de contos, que é de 1997, o Lição Invisível, você percebe o mesmo cerne, as minhas tentativas. Agora, no meu novo livro, acho que há uma voz mais ousada em relação ao que fazia. Para mim é flagrante que, embora eu siga uma experimentalista, porque é assim que consigo me expressar, tenho uma feitura que experimenta ao longo das frases. Isso deu uma densidade diferente à minha ficção. Acho que isso tornou esse livro diferente dos outros, mas com as características — a ironia, a coisa de embaralhar as vozes, a palavra falada, a incógnita, os temas — e com essa novidade que é uma dedicação maior às estruturas menores.

Em 2024, vou fazer 40 anos de carreira. Isso me dá um certo conforto de poder circular dentro desse set de coisas que eu elegi e os meus leitores já me reconhecem. Já está mais ou menos sedimentado que a Luci Collin escreve desse jeito.


Os títulos de cada um dos 13 contos já são uma grande incógnita. Desde a primeiríssima linha do texto, o livro provoca o leitor. Existe sempre uma preocupação de colocar as certezas em xeque?

Exatamente. Tenho um livro que se chama A Árvore Todas e uma pessoa me disse: “Você não percebeu que tinha um erro de português no título?” [risos]. No Dedos Impermitidos existe uma organicidade e, de novo, é diferente dos outros porque é a primeira vez que tenho um prefácio — por sinal, um texto muito generoso da Maria Esther Maciel — e gostei muito dessa experiência. É como um mapa que esclarece coisas para quem não conhece o que escrevo.

O primeiro conto é uma provocação sobre a própria função da literatura. É um personagem que vai entrar em um shopping para comprar um sofá, e está equivocado na sua própria busca, mas acaba saindo com um livro de contos. Parece uma banalidade, entretanto é alguém que se vê com uma coisa incômoda, que é um livro na sua inutilidade — um inutensílio, como diria o Leminski. E o que é que você faz? Eu começo com esse questionamento.

O último conto é uma resposta de quem escreve, não sendo eu, e que se chama “Absoluta Depuração”. Ora, a gente escreve porque escreve, e o que as pessoas vão fazer com seus livros é de outro âmbito. Nesse livro vai ter esse diálogo entre os contos e tem muita intertextualidade, que pode ser uma coisa ingrata, embora eu não ache. Quando um leitor tem um clique, aquilo é uma maneira de se comunicar muito intensa. Quando alguém diz: “Eu sei o que é isso”, vale muito a pena.


É quase uma comunhão secreta, não?

Isso, uma comunhão secreta, e me alegra muito essa perspectiva, por isso, invisto muito em intertextualidades. E começo com uma delas: “Maio é o mais melhor dos meses”. Isso é T. S. Elliot — “Abril é o mais cruel dos meses” —, que esse “mais” na tradução daria esse erro: “mais melhor”. E é justamente para mostrar esse incômodo pelo qual alguém passará, quando compra um livro de contos, atravessado pelas traduções, equívocos, apropriações indevidas.


Outra coisa interessante é que Dedos Impermitidos segue uma espécie de crescendo: começa pequeno com o primeiro texto, “Intro-”, e assume esse caráter até a apoteose em “O deão não rasteja”, para depois ir reduzindo o ritmo progressivamente.

É a primeira vez que publico um conto tão grande quanto esse do deão. Eu convivi com ele durante muito tempo, mas não finalizava. Esse conto chegou até a ser maior e nem pensava em publicá-lo. Senti que o livro estava andando e quis inseri-lo. E tem outra coisa diferente: Dedos Impermitidos tem menos contos, porém, tem um muito longo. Os meus contos mais longos têm sete ou oito páginas, esse não, é um texto que extrapola.

Fiquei muito feliz de poder manter uma organicidade em relação ao tema, mas, claro, os contos não foram escritos pensando na temática. Tem uma bagunça ali de coisas e não senti que “O Deão Não Rasteja” fosse destoar ou fosse uma separata. Mesmo porque o Jonathan Swift, personagem que vai aparecer só nas últimas linhas, é um cara meio cancelado. Ele é muito problemático para nossa sociedade. Foi um grande escritor, com uma produção importantíssima, mas que hoje é rechaçado por muitos pela sua violência, agressividade e misoginia. Você ter a voz do seu tempo vai, inevitavelmente, fazer você pagar por isso, mas é o que a gente tem que fazer. E é o próprio colóquio que se estabelece com [a ideia de] dedos impermitidos: mostrar o dedo do meio, o dedo na garganta, as coisas absurdas e violentas. Acho que para esse momento é um livro corajoso, que não foge dos questionamentos. Não é um livro para ser agradável: já começa tematizando a morte. “Dias Contados”, depois daquela introdução, fiz questão de que fosse um conto com uma densidade maior. É mesmo para gerar essa estupefação.
 

“Dias Contados”, por sinal, é extremamente assombroso, justamente por trazer à tona os ecos da pandemia e do medo natural da nossa finitude.

Eu o publiquei na revista Capitolina e várias pessoas vieram me dizer: “Ah, mas são várias histórias”. Primeiro, no conto não são histórias autônomas. Se você ler com cuidado são personagens diferentes, porém, são personagens diferentes com esse drama da finitude. Começa com uma senhora — morreu todo mundo menos ela, que evita a morte, não faz aquelas coisas que poderiam levá-la à morte — até chegar ao final, que alguém admira muito o lixeiro porque aquilo significava muito para ele. Se a gente ler com rigor, o personagem está condenado por ter uma doença que ele ainda não sabe. A gente convive com a finitude o tempo todo e foi isso que a pandemia nos trouxe, não é? É esse choque de que você não tem mais segurança. Nós sempre soubemos dessa finitude, mas sempre houve uma certa segurança.

 

"De repente, vem um vírus, que é uma coisinha microscópica, e abala todas essas certezas de que os seres humanos são poderosíssimos, de que dominamos tudo, temos tecnologia para tudo. E não tínhamos. Não podíamos sair de casa e morríamos aos milhares no mundo todo. De pouco adiantava toda essa ilusão ou essa prepotência."


A pandemia revelou que respirar é perigoso. E isso fica muito claro ao longo dos contos.

Isso é uma grande metáfora da nossa condição. A diferença entre estarmos vivos ou não é respirarmos. E volto a dizer: isso me bloqueou. Tive meses de drama mesmo. Acho que a pandemia será uma grande lição filosófica que vamos ter que digerir ao longo de muitas décadas. Jamais nos vemos numa situação como essa, então, não podemos dizer que damos conta. Eu não dou conta de conviver com esse número de mortes. Viramos números. Não nos abraçamos, não nos vemos e não nos tocamos. Estamos em um outro patamar de relacionamento.

De alguma maneira podemos dizer que o livro é um ato de resistência e de resposta a toda essa situação tão dolorosa?

Fico bem feliz de ter conseguido canalizar essa experiência toda, todo esse trauma e transformar em contos. Esse livro foi composto recentemente para ser publicado, mas tem contos que já tinham sido publicados antes. O conto baseado em uma música do Noel Rosa [“Prontidão”] tinha sido publicado em uma antologia só com contos do Noel, o que fala sobre as runas [“Divinatório”] foi uma encomenda para uma antologia sobre os objetos do Caio Fernando Abreu.


“Divinatório” é fascinante porque as runas ao longo da narrativa impõem uma ruptura no diálogo com o leitor, ao mesmo tempo que convida a participar, como dito antes. O leitor até pode tentar encontrar o significado, mas se mantiver o mistério, e aceitar o desafio, a experiência é potencializada.

E isso é tão importante. São essas brechas que, a gente naturalmente conversando, ficarão misteriosas. Imagine o contingente de dados e emoções que permanecerão misteriosos. Naquele momento tão íntimo, em que tem um par de olhos em cima das palavras, você estabelece esse mistério a mais, você meio que potencializa a condição da incomunicabilidade e esbarra na condição do absurdo. Toda a noção do absurdo passa pela incomunicabilidade.

Gosto muito da ideia do limite e as runas são a coisa borrada. E, no entanto, existe um grande enredo nesse conto, existem espaços muito diferentes, gerações diferentes em torno daquele casal que vai naufragar por falta de comunicação.

Tudo isso talvez seja algum indício ou resquício que eu pego da poesia, nesse sentido da apreensão da leitura. O poema demanda várias leituras, ele tem várias camadas e, via de regra, estão ali codificadas. E nesse conto estabelecer certas barreiras é uma maneira de provocar, não meramente pela provocação, mas solicitando ao leitor que alimente essas brechas. Acho que isso dá uma relação diferente e que vai demandar releituras. Isso pode ser sim um traço do tratamento mais comum dado à poesia e faz todo sentido porque sou muito mais conhecida como poeta, porém, sou mais estudada como prosadora. A minha poesia e a minha ficção são muito diferentes, quase como se fossem duas escritoras.

Acho que o que coloco na prosa, o pacto que proponho com os leitores, é de uma outra dimensão. Seguramente, um livro como Dedos Impermitidos reforça o perfil dos meus leitores. Hoje estou numa fase em que sei quem é que vai gostar dos meus livros, e isso me dá segurança, mas não é gostar por gostar. É se interessar pela instância do jogo, estar aberto a toda essa manipulação. Se você vai buscar histórias emocionantes, grandes enredos e sofisticação em relação aos enredos, talvez saia frustrado. Isso eu não trago.


Quando você propõe esse jogo, o leitor é retirado de uma posição de passividade e se torna também uma espécie de autor.

Esse tipo de escolha faz com que a sensação de conforto, de se sentir confortável, vai chegar depois de muito tempo. Você vai primeiro construir uma coisa de identidade. Não é “Ah, vou aplicar uma técnica”, você tem que corresponder ao seu próprio fluxo. Claro, você pode escrever algo por encomenda, mas são coisas diferentes. Hoje, tenho muita segurança em colocar um título esdrúxulo, colocar uma nota de rodapé ou de escrever coisas que, para uma leitura mais apressada, vai ser frustrada. A minha literatura é assim.

Esse suporte que a gente dá para o leitor coloca o fazer literário gerando essas expectativas que se cumprem ou não. Acho que o mais gostoso disso tudo é que tenho muito retorno. É um tipo de literatura que não é best-seller, mas tem leitor que curte justamente isso. É com esse leitor que dialogo. No começo, uma proposta como a minha, até você estabelecer e desmontar um discurso — não só no plano sintático, mas as grandes estruturas, os diálogos — sempre foi muito natural. Hoje, eu entendo como deve incomodar.

O meu primeiro livro de contos teve um impacto bacana, tive bastante crítica sobre ele, mas era uma coisa que não sabiam em que gavetinha colocar. Por isso que a Luci poeta é mais fácil de classificar. A minha ficção ainda incomoda. As coisas estão mais soltas, tem uma flexibilidade na expressão e isso é uma coisa boa. E também tem essa dificuldade de rotular, que é meio insana: você tem que encaixar de acordo com terminologias. Sabe, fazer uma literatura que é quase ininteligível? Você tem uma meia dúzia de coisas e vai orquestrar esses elementos de acordo com a própria personalidade literária. E o saldo desse pacto é muito positivo. O retorno de uma leitura impulsiona muito não só a produzir, mas pensar nessas suas características, quais são os seus limites.

O conto “Ressonância Órfica” é exatamente o quão soterrados estamos com todos esses clichês, mas a gente não tem como viver numa bolha de erudição ou percepção. Graças a Deus que isso não existe. O que temos que tomar cuidado, e cabe a cada um, é de não nos contaminarmos com essa coisa vulgar, mas sabermos administrá-la. Hoje está tudo a um clique. Antes, a intelectualidade, as grandes conquistas os livros, a gente tinha muita dificuldade de acesso. Hoje há uma banalização, e tento questioná-la.


Na epígrafe de "Sol Pertencente", você usa uma citação do Barthes que diz que a "linguagem é pele". Na sua literatura, ela é memória. No momento atual, em que vemos uma crescente das lutas identitárias e da linguagem neutra, qual deve ser o papel da literatura?

O papel da literatura segue sendo o de sempre. Isso tem que ter uma transparência e nós, os escritores, temos que ter um entendimento muito amplo e profundo disso. Sem demagogias e querer embelezar a função do artista. Estamos em um momento de uma grande crise que questiona a importância do artista e da arte, que questiona a importância da filosofia, das comunicações humanas e das comunidades. Você escrever, desde antes da própria escrita, a transmissão de saberes e de conhecimentos, sempre se deu através de códigos. E a linguagem vai configurar a escrita e é um código, igualmente.

A função da literatura, em um momento de crise, é intensificada, sem dúvidas. O compromisso dos artistas é muito sério porque temos que encontrar força na própria arte e na sua condição, e assumirmos essa responsabilidade. O papel do escritor e o papel da literatura, para mim, são muito claros em um momento tão dramático quanto esse que vivemos. E segue sendo se sensibilizar para muitas frentes emocionais. A gente vai trazer a frustração, mas também o espanto; vai trazer a tristeza, mas a alegria; vai trazer a densidade enorme do que é filosófico, mas também aquela surpresa do que é engraçado, do que não tem jeito mesmo. É a partir dessa percepção que vamos enxergar mais à frente. Sempre vejo que um escritor é uma grande antena: ele vai captar coisas e transmiti-las. Entretanto, ele não tem que se colocar numa posição de semideus, pelo contrário, está mais para xamã da tribo. O escritor tem uma função, tem que transmitir essas percepções. O escritor tem um olhar diferente que depois consegue transformar em palavra.

Esse compromisso é seríssimo. Nós escritores temos uma função que é muito impactante. É uma atividade humana como qualquer outra: existe uma prestação de serviço à sociedade. Escrever é exatamente isso. Você tem as suas percepções, as transforma em palavra — de uma maneira que seja estimulante — e de outro lado do balcão terá alguém que vai depurar tudo isso. Tudo sem pensar em hermetismo, ao contrário, é preciso ter uma generosidade, assim como o leitor também precisa ser generoso e voltar ao seu texto, ter paciência, querer reconstruí-lo.

Em tempos de crise, com toda humildade que cabe, temos que assumir o compromisso de iluminar o leitor, no sentido de oferecer um caminho. O momento da leitura tem, ao mesmo tempo, essa potência dentro de uma precariedade, de algo frágil. E temos que lidar com esses dois lados. Essa questão é muito premente. É agora que temos que questionar, que temos que falar. É agora. Não tenho a menor dúvida e sinto o maior orgulho, não da minha literatura, mas de estar na linha de frente de artistas que, cada um com sua linguagem, querem assumir o compromisso de estar com o outro para oferecer experiências de percepção.


Quanto mais se nega a arte, mais ela se afirma como necessária. Como criar um projeto capaz de responder a tantas ofensas?

Não podemos começarmos a acreditar no que dizem sobre nós, de que somos inúteis, de que a arte é uma bobeira. E nós temos experiências disso. O Japão, uns anos atrás, começou a se voltar para a tecnologia e diminuíram drasticamente o número de cursos de ciências humanas, deixou dois ou três cursos de Letras no país inteiro. Eles acreditavam que estavam em um momento da sociedade em que pudessem prescindir desse tipo de percepção, só que não se considerou que pessoas que têm tendências a esse lado das humanidades seguem nascendo. Isso é da nossa natureza. O que acabou acontecendo, e li um estudo recente, é que, depois de uma década ou um pouco mais, admitiram que é um fracasso esse tipo de pensamento porque, de repente, você quer remanejar um grande contingente e sensibilizar para um tipo de resolução a partir de um período em que se precisa mais tecnologia. O ser humano estará em desiquilíbrio se prescindir da arte. Ela é uma necessidade natural da nossa existência.

Nós, escritores e leitores, temos que reafirmar a arte porque quem não acredita nisso não vai perder seu tempo questionando a nossa importância. Nós sabemos o que vem acontecendo. É nivelar tudo e dizer que a nossa sociedade só se volta para uma certa perspectiva. A sensibilidade humana vai sofrer uma amputação, uma deformidade, e não podemos deixar que isso aconteça. Ela tem que estar íntegra e admitir todas as possibilidades de comunicação, inclusive a literatura.


Esse mecanicismo que você comenta é o mesmo de 1984, do Orwell, e também do Admirável Mundo Novo, do Huxley. Parece que, de uma maneira ou de outra, sempre voltamos à ideia de retirar do ser humano a sua natureza humana.

Esse exemplo é muito bom porque o próprio Huxley vai falar sobre as portas da percepção, que nos fazem recuperar, uma vez mais, a figura original do xamã da tribo e que libera certos estados de percepção. E como ele é chamado? Visionário. O artista é um visionário. Ele percebe coisas e depois transmuta essas emoções para as palavras, como é o meu caso, e do outro lado tem a recepção [do leitor]. Não existe isso de haver só um lado: somos o leitor e a leitura, ao mesmo tempo. Do contrário, a comunicação não se daria.

Tenho muito medo de enredos fechados, que vêm de cima para baixo. Não estou tocando na questão da leitura como entretenimento, isso é maravilhoso, mas quero dizer que desconfio um pouco do texto que não gera nenhum tipo de desconforto, que é sempre um conforto absoluto. Diferentemente de quando se lê um Guimarães Rosa e você é assaltado, você é tomado e dominado, amorosamente, pelo impacto da palavra. E são as mesmas palavras, porém, com combinações distintas. E esse propósito de provocar no outro uma resposta tem esses exemplos de uma dimensão extraordinária, como em um Osman Lins, uma Clarice Lispector.

Temos uma literatura em que não há dúvida que é impactante. Temos de nos inspirar nesses momentos que reforçam, ou melhor dizendo, escancaram o quão importante é a literatura. O artista não pode ter dúvidas quanto ao seu fazer, senão abre espaço para as pessoas que não acreditam na literatura e destituem o artista da sua posição. Por isso, temos que reforçar, cada vez mais, a nossa condição e nos vermos como muito importantes, assim como outros profissionais, outros domínios e outros saberes. Não podemos admitir que diminuam a nossa importância.


Há uma exploração do cotidiano e suas facetas e seu fazer literário aborda essas cisões cotidianas que, na verdade, formam as pessoas. Todos os contos de Dedos Impermitidos, a seu próprio modo, estilhaçam a noção de certeza. O quanto essa pulsão move a sua literatura?

Se você pegar contos como “Ressonância Órfica”, algumas pessoas vão dizer que é todo fragmentado, mas isso é mais real que o realismo. Você está sendo bombardeado por diversas coisas o tempo todo e me sinto muito mais fiel a esse cotidiano. Não estou fazendo elucubrações, tentando montar uma coisa artificial. Esse desequilíbrio está tentando ser fiel ao que vivemos. Essa coisa cotidiana não vai ser elaborada com uma sofisticação: é violento, é atroz, é jocoso e é divertido, às vezes. Não se afasta do que é, para mim, a realidade. Não é o realismo descritivo que vem de cima para baixo. Talvez o que choque na minha literatura, e nesse livro em especial, seja essa coisa crua. Não estou emulando um pensar, uma maneira para reproduzir experiências. Eu tento colocar a própria experiência ali, que é como nos encontramos da forma mais singela, mais pura. Isso é real. Nós estamos sendo bombardeados o tempo todo. Essas listas que faço é uma tentativa de reproduzir esse cotidiano.


Essa fragmentação que você aponta nos leva para outro ponto, que é a musicalidade. No seu caso, até pela sua formação em música erudita, ainda que a musicalidade na sua literatura rompa com os padrões estabelecidos e crie certo vanguardismo. Esse trecho revela muito dessa sua estética.

É algo muito arraigado em mim. Não é algo premeditado ou um dado técnico da minha escritura. Eu costumo dizer que escrevo em voz alta. Isso é muito meu. Estou escrevendo e escutando. Eu leio muito em voz alta, e não só os meus livros. Adoro essa outra dimensão de experimentar essa sonoridade. É uma boa chave para uma coisa que me emociona, mais do que qualquer coisa. A minha literatura está nessas outras combinações. Alguém pode abrir o livro e dizer que é idiota, se perguntar o que é que isso quer dizer. É a palavra em movimento que está dizendo. Ela não está tentando reproduzir alguma coisa definitivamente: é colocada ali para ser essa coisa, para ser o próprio movimento. E passa pela musicalidade e pela rítmica, e permite que possamos prescindir da pontuação, por exemplo. Isso me faz ver que aquela Luci que era tão hermética, tão impenetrável, nunca existiu. Tenho retorno de pessoas que caem no livro, que moram em outros lugares, que não sabem da minha trajetória, e sacam esse jogo e se divertem.

Gosto de fazer essas intervenções e me assusta um pouco a necessidade de tentar reproduzir a tal da realidade. O que é a realidade? Claro, na época do realismo nós tivemos grandes escritores, como o Flaubert, mas era como se via a realidade. Tinha um espectro de percepção. Hoje nós temos outros olhos. Como é que você vai escrever literatura com essa linearidade depois de um cubismo, de um dadaísmo? São vanguardas de cem anos atrás. Assusta um pouco as pessoas se agarrarem àquela forma de linearidade, que vai trazer um pouco de conforto, que precisa de uma sequência. Não quero parecer pretensiosa, mas é a minha maneira de fazer arte. E eu tenho que ser fiel ao que eu acredito.


 

Jonatan Silva é jornalista, crítico e escritor. Trabalhou no jornal Tribuna do Paraná e colabora regularmente com diversas publicações — entre elas Rascunho e Escotilha. É autor dos livros O Estado das Coisas (2015) e Histórias Mínimas (2019).


 


 

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