ENTREVISTA | Edimilson de Almeida Pereira
25/02/2022 - 13:04

Uma voz com muitas vozes

Inicialmente conhecido como poeta, Edimilson de Almeida Pereira fala sobre sua incursão pelo romance, que lhe valeu alguns dos principais prêmios do gênero em 2021

Luiz Felipe Cunha

 

Ferreira Gullar disse uma vez: “Se o poema é o lugar onde a prosa vira poesia, sempre há a impureza da prosa num poema. E se não houver a prosa, não há a poesia. Assim como se não houver o carvão, não há luz, fogo. A prosa é a matéria e o alimento da poesia”. O poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira parece entender bem essa lógica, e a aplica em seus três primeiros romances, lançados nos últimos dois anos.

E se havia dúvida sobre a qualidade literária de sua incursão pelo terreno não habitual da prosa, a resposta veio por meio de prêmios. Com Front (Editora Nós, 2020), ganhou o primeiro lugar na categoria Romance do Ano do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021. Já O Ausente (Relicário, 2020) foi o segundo colocado no Oceanos do ano passado. As duas obras se juntam a Um Corpo à Deriva ( Macondo, 2020) para formar a trilogia Náusea — sensação que, segundo o autor, percorre as três histórias.

Na entrevista a seguir, Edimilson comenta seus lançamentos recentes, as temáticas presentes em sua produção poética e seus processos de construção literária.

 

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Foto: Divulgação

 

O seu começo na literatura já foi com a poesia?

Gosto de pensar na minha trajetória em função do aprendizado com os colegas de geração, um aprendizado coletivo. Sobre essa questão da origem, tenho um marco inicial. Foi a partir de 1983, quando comecei a fazer parte de um grupo de artistas de Juiz de Fora (MG) chamado Abre Alas. O grupo era formado por artistas plásticos, atores, músicos, cineastas, fotógrafos e também por pessoas da área da literatura. E esse grupo contava com escritores que tiveram uma boa produção e alguns artistas plásticos que depois se mudaram para a Europa. Ou seja, era um grupo importante, porque tinha uma preocupação em promover encontros de interessados em arte e experimentações. Essa experiência foi crucial para eu entender a obra de arte como um processo aberto, e essa mentalidade dialoga um pouco com o meu modo de escrita. Com o grupo publicamos um folheto quinzenal que se chamava Abre Alas, além de uma revista multicultural e uma pequena editora — que publicou nossos poemas até meados da década de 90. Grosso modo, nós tínhamos aí algo que é muito parecido hoje com os coletivos, que reúnem artistas de várias áreas e fazem autopublicação.

 

A mudança para o romance foi drástica ou natural?

O contato com diversas áreas da arte moldou minha escrita. Mais tarde, isso se desdobrou em um estudo mais consciente e a escrita poética se desenvolveu. Depois vieram os ensaios de linha sociológica / antropológica, me desdobrei também na literatura infantil e, no final dos anos 90, o meu modo de escrita foi delineado. Tentei tramitar pelas várias formas da escrita literária, o que fez com que eu experimentasse o texto em prosa. Com vinte e poucos anos já havia escrito dois romances, cuja publicação não levei adiante, mas a escrita ficcional já estava comigo. Acontece que os romances que publiquei em 2020 [O Ausente, Um Corpo à Deriva, Front] são edições com algum tempo de demora da prosa ficcional que eu já exercia também. A prosa nunca foi uma novidade para mim e nunca esteve separada das outras forma de escrita. Mas para o público talvez tenha ficado a impressão contrária, porque publico mais poesia, então fica parecendo que a ficção começou agora.

 

Além de poeta, você também é professor, ensaísta, autor de livros infantojuvenis, etc. Qual atividade oferece mais desafios e por quê?

Coloco todas essas atividades em um mesmo patamar. Aparentemente, os públicos são diferenciados. Existe o público infantojuvenil, por exemplo, com aquela tese importante de que os livros têm de ser didáticos ou podem ser lúdicos. Durante muito tempo houve uma distinção entre o caráter educativo e de entretenimento. Nos anos 80, muitos autores e autoras quebraram esse paradigma e passaram a fazem uma junção dos estilos, o que é bastante desafiador. O que não deixa de ser muito diferente do trabalho como ensaísta. Então não faço distinção de qual área é mais ou menos desafiadora. Todas são.

 

Se você tivesse que definir uma temática recorrente em sua produção poética, qual seria?

Prefiro não trabalhar nessa lógica. Acho que uma obra pode ter diferentes pontos atuando ao mesmo tempo. Vários campos, até contraditórios, são importantes para chegar ao cenário em geral numa obra que não seja polarizada, mas uma teia com muitos questionamentos.

 

Uma parte de seus poemas parece ter um caráter individualista, enquanto outra é mais coletivista. Principalmente quando o tema é a história do povo negro no Brasil ou a recuperação da História. Você concorda?

Com certeza. Não tenho a intenção de criar uma temática predominante, até porque uma das coisas que prende muito o leitor na escrita literária é uma constante capacidade de fazer ligações entre modos de escrita, uma constante capacidade de absorção dos fatos e uma busca contínua pela liberdade de processo criativa — para que essa liberdade possa se fixar em um compromisso único com uma temática ou forma de linguagem. E isso não é nenhuma novidade. Uma das experiências da modernidade é a fragmentação, fragmentação dos fatos históricos, fragmentação das personalidades. Lógico que nos descobrimos múltiplos, e isso cria muitas perspectivas de experimentação, traz problemas também, muitos questionamentos. Mas prefiro esse viés: uma voz com muitas vozes. Por isso, para mim, minha prosa, minha poesia, ensaios e literatura infantojuvenil formam uma grande teia de assuntos a serem trabalhados.

 

O romance O Ausente traz a mística de que bebês empelicados seriam curandeiros. Como essa história chegou até você?

Tem dois pontos a serem comentados sobre O Ausente. Primeiro a questão do termo empelicado. Trabalhei mais de duas décadas e meia em culturas populares, principalmente em áreas rurais. Convivi com gente muito simples. Então você encontrava, e até hoje ainda encontra, alguns enclaves culturais entre pessoas que têm modos diferentes de viver muito afastados da contemporaneidade, com valores mais arcaicos. A extensão do território em isolamento permite a manutenção de modos culturais mais arcaicos. E dentro desses valores, que não são específicos de Minas Gerais, nem do Brasil, um dos tópicos que vinham é uma série de comportamentos em relação ao universo do nascimento e da morte. Muitas histórias dos mitos de nascimentos. Entre os mitos, o que me chamou atenção foi a condição dos bebês empelicados: são aqueles nascidos ainda envoltos pela bolsa amniótica. É um caso fora do habitual. E dentro desse fato inesperado, uma leitura que se faz é que, do ponto de vista simbólico, se trata de uma criança com um destino especial. E eu vi em várias comunidades rurais pessoas que nasceram com essa condição e tinham o dom da cura, dom do benefício. Uma certa predestinação. Porém, no livro é muito mais importante a figura do sujeito que se volta contra a predestinação. O discurso do personagem vai no sentido de problematizar valores absolutos impostos de uma geração para outra.

 

Em O Ausente vemos um embate entre destino e liberdade. Por que é tão difícil conciliar as duas coisas e de que forma isso afeta o personagem / narrador?

Um dos dados importantes na construção do romance era desmistificar uma certa idealização de um certo mundo rural arcaico. Se olhar bem, no contexto da pandemia, por exemplo, até por certa necessidade, houve uma certa fuga, de quem podia, da cidade para o campo. O resultado pode ser observado nas redes sociais: um encantamento das pessoas com a redescoberta do bucólico. É inerente ao ser humano essa dicotomização entre o espaço em que você vive, que é seguro, e o espaço que você visita, que é o ideal. Em relação ao campo, prevalece essa visão bucólica. O Ausente na verdade trabalha para desmistificar essa lógica. Quem procura uma pureza inaugural de território, não vai encontrar. Você encontra personagens complexos, diante de um mundo natural muito complexo, onde as noções de crueldade e solidariedade entram em choque.

 

Como foi apontado por alguns criticos, o romance Um Corpo à Deriva faz uso de uma teia de antinarrativas. O que seria isso e como ela está presente na obra? E qual a sua intenção ao utilizar essa técnica?

Gosto muito de falar dos processos de construções literárias. Mais do que contar histórias, eu me sinto muito atraído pelos modos de se contar uma história. No caso desse livro, utilizei uma métrica de recursos. Primeiro trabalhei em um estilo de produção que está no movimento literário francês nouveau roman, da década de 50 e 60, que chegou pouco ao Brasil. E um dos preceitos do nouveau roman é não se preocupar tanto com a história a ser contada, mas entender como a história vai ser contada. Nesse sentido, o romance está autocentrado no personagem. Então, para quem procura uma narrativa linear, essa narrativa não está lá.

Trabalhei um pouco também com alguns aspectos da nouvelle vague. Você tem, necessariamente, um ponto de partida de uma suposta história que vai se diluindo no decorrer de uma certa temporalidade. Ou seja, quem procura respostas para certas questões, também não vai encontrar. E tem também um trabalho com relação à ancestralidade: quem está no presente sempre carrega a ancestralidade como modelo — qualquer ancestralidade, não necessariamente a negra. O sujeito está no presente, olha para seus ancestrais e imagina neles referencias e modelos. Até chegar a um suposto final em que você não tem certeza se é mesmo um modelo ou uma necessidade. Nos obriga a pensar continuamente a nossa relação com a ancestralidade. Uma outra perspectiva é o que chamo de “tempo espiralar”, que, de modo básico, não hierarquiza as noções de passado, presente e futuro. Ela coloca numa mesma dimensão essas peculiaridades, de modo que você tem que se esforçar para entender em que tempo a história está se passando. Os personagens lidam o tempo inteiro com essa fluidez temporal.

 

Na live de lançamento da trilogia, no canal da Relicário no YouTube, junto com o escritor Itamar Vieira Junior, você analisa uma passagem de Torto Arado em que uma das personagens perde a língua. “A língua se foi, mas a linguagem pode ser reinventada”, você diz. Esse aspecto de reconstrução da linguagem aparece bastante no seu livro Front. Além disso, você disse que seus personagens seguem por esse caminho: perdem a língua, mas inventam uma linguagem. Pode falar um pouco sobre isso?

A perda da materialidade da língua pode acometer qualquer pessoa em situação de depressão, por exemplo. Mas o processo de construção da comunicabilidade pode se dar continuamente, mesmo em situações precárias. Lá no romance Um Corpo à Deriva, a personagem Tesfa discute exatamente isso: uma teoria sobre a linguagem. Um dos aspectos que ela vai levantar é esse, de se pensar a linguagem como uma ramificação contínua. Posso ter toda uma gama de aspectos da linguagem corporal, mas não perco a linguagem escrita. No caso do Front, isso está explicitado na lógica do romance em que o narrador se multiplica em outros narradores.

 

Os três romances formam a trilogia Náusea. Como essa sensação de náusea perpassa os três livros?

É uma palavra que remete, de forma subjetiva, ao pensamento sartriano, ao desenvolvimento da sensação da náusea como experimento social. A náusea é esse momento dramático e drástico, de incomodo e desconforto, que pode se prolongar indefinidamente, gerando situação de paralisia. Ou ela pode, diante da intervenção do sujeito sobre si mesmo, eclodir como ato de confiança. Nesse sentido, os romances apresentam personagens que não buscam apoio em nenhuma forma de auxílio de natureza ideológica ou transcendental religiosa. Eles não se apoiam nesses elementos que podem dar muito suporte para nossas vidas.